POESIA DE – Pedro Miguel Dias

Desconfio das pessoas que ignoram a lua cheia,
das pessoas que não fecham os olhos ao ouvir
uma música preferida na rádio,
daqueles que não choram no cinema
por receio do ridículo,
aqueles que nunca pararam o carro na berma
para admirarem um pasto verdejante,
que nunca falaram com um cão como se
ele os pudesse entender,
pessoas que nunca reconheceram um tio ou um vizinho
nas figuras dos painéis de Nuno Gonçalves,
aquela gente que não sorri ao ver uma criança
lambuzar-se com um gelado de morango.

 São essas as pessoas que começam guerras,
que aumentam impostos,
que atiram pedras aos pardais da cidade,
que gritam ao telefone como se a conversa
tivesse de nos incluir,
que inventam sobremesas sem açúcar,
que cospem para o chão,
que abrem os pacotes de bolachas no supermercado,
pessoas que pisam as azedas amarelas
à beira dos carreiros do jardim,
gente em quem não se pode confiar!

                                             ♣♣♣

Estou cansado! E bem sei
que já o disse antes; estou cansado
até de me repetir,
do modo como também os dias se repetem
num ciclo infinito de plágios de si mesmos,
tristes, eu e os dias,
fatigados de não avançar.

Estou estacionado no presente.
A estrada abre-se em múltiplas direções
(horizontes turvos e distantes);
todavia eu parado, olho em redor,
avisto o movimento mas
não o acompanho. Questiono-me por vezes
se saberei ainda caminhar.

Não diria correr, não!, mas somente
colocar um pé diante do outro,
criar a ilusão de que o destino se aproxima.
O movimento é isso: uma transformação horizontal,
e eu estou cansado de ser sempre o mesmo,
de forçar o olhar em frente e avistar apenas
vistas familiares, amanhãs iguais a ontens.

                                             ♣♣♣

Algumas pessoas são felizes (dizem).
Como eu as lamento,
vivendo nesse engano dos sentidos
tomam o sol pelo bem-estar,
tomam o vento pela respiração,
uma lágrima seca pela serenidade.

Existimos, e é tudo. Vivemos
com o que isso tem de alegrias (sim)
e desafios, tristezas, nuvens cinzentas,
nesse tear de luzes pulsantes e sombras profundas
em que cravamos os dedos rangentes
e esperamos o fim. E repetimos

Feliz? Eu não sei o que isso é.
Remediado e remendado, resignado
a estar, lamento a minha ignorância;
receio que a felicidade esteja além,
no passo ferozmente determinado
daquele vizinho que parece saber que

Algumas pessoas são felizes, vivem
em devir entre dois esquecimentos.
Eu fui amaldiçoado com o dom da memória,
recordo até as coisas que ainda não fiz
e todos os gestos que desenhei no éter
persignam-me o olhar para o chão.

♣♣♣

Já me disseram “Odeio-te” (já me disseram muitas coisas),
e saber que no dia seguinte as palavras foram
de arrependimento,
de desculpa,
em nada diminui a dor que nesse dia ainda sinto:
como se no peito se abrisse um abismo,
um buraco escuro e frio, um poço onde o sol não entra,
onde os pássaros não se atrevem a voar.

Já me odiaram, dizia, e afirmo com sinceridade:
ao ódio de quem eu amo, prefiro a morte;
ao menos aí, o frio percorre o corpo todo por igual.
Não há nada pior que ter frio apenas
no lugar do coração.

                                             ♣♣♣

Tenho esta imagem: o sol a pino, e um homem
caminha atrás da sua sombra.

Não viver no presente, mas
dois minutos atrasado,
sempre a correr atrás do momento
em que pudesses dizer “Aqui estou, e sei
que fazer, e o que se espera de mim,
e para onde ir, e de que modo lá chegar”.

Talvez daqui a instantes consigas,
veremos,
que a esperança é mais tenaz que o cansaço
e que o vento que te empurra para trás.

♦♦♦

Pedro Miguel Dias tem 54 anos. Nasceu em Lisboa, mas é alentejano por casamento e opção. Estudou Línguas e Literaturas Modernas e fez um mestrado em Literatura Comparada. Já traduziu livros, artigos científicos e documentos do tribunal e até foi tradutor em Bruxelas, mas há muito tempo que é apenas professor de línguas – e gosta. Nos poucos tempos livres, lê, escreve e fotografa.