PORTUGAL É UM NEROLOGISMO (…) – por Fátima Vale

PORTUGAL É UM NEROLOGISMO E O FOGO O BORDEL DE MESSALINA

em memória de Ruth Escobar que se foi esquecida

Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga. (…) Vivo, porque espero.”

– O Pobre Tolo, Teixeira de Pascoaes | 192

[esta mulher está
dentro de uma ruína com forma labiríntica
todo o alcance do olhar é um manifesto de terra queimada
as pernas vão-lhe enegrecendo até ver a filha
nesse momento desfazem-se]
marulha-me a cabeça
uma seita de fantasmas penteia-me os cabelos
e o pior ainda o pior
são estes malditos fios que me levam
a abraçar tudo quanto existe
e emaranham-se na ignorância e na raiva
na perfídia do quotidiano
dai-me uma faca que os corte

aos fantasmas
secai-me as veias destes raios invasores
eu caí neste condomínio de braços descartados
num voo trocado
nas asas de um pássaro de prata
espírito santo do meu azar
livrem-me desta cabeça
deste nerologismo lusitano
desta metáfora política
desta simulação da co-existência
deste totalitarismo da fala
ala ala ala

em que china estou deus
esta língua subterrânea
este lugar onde se derramam
os suores repetidos da alvorada
escravidão imprecisa
ciclopes de unhas encardidas
dai-me senhor dos fios um raio de lucidez
que possa derramar pelos dedos escrevendo
a única forma que tenho de oxigenar o plasma
de limpar o chão desta casa corpo onde à força moro
máquinas ponham-me uma roldana no peito
uma locomotiva veloz ao serviço das veias
e que as rasgue ao passar
que fiquem como folhas de aço ao desabrochar
da primavera
e eu me estique à janela do oxidente
e lamba o gelo do que vejo
até gota a gota se destilar no meu estômago
o desvario do homem
MORO NESTE NINHO DE POMBAS
contemporânea dos meus pés
já não alcanço um carvalho
tragam-me um funil de alumínio
um grito esculpido
um braço arrancado ao poder
eu subo ao cavalo
tu guardas a gasolina
que sobrou do domenico
despejo relâmpagos da minha garganta
a mais pequena semente
é ainda a árvore

QUERO SER A GUERREIRA QUE VOA PARA UM COMBATE
que sobe à pedra mais alta do olhar dos homens
e os perfura no seu desespero
que ventos soprais ao devir ó adormecidos ciprestes negros
se os vossos entes fossem fumo podê-los-íamos reconhecer pelas narinas
[berrou heráclito na minha lembrança]
uma criatura provê-se do que é preciso para não se derramar
enquanto vive com os pés enfiados no deserto
de quantas realidades caimos abaixo
que doença nos separa cada vez mais
EU SOU UMA BOMBA EM ÊXTASE DIVINO
UMA REFUGIADA COM SANGUE DE DIAMANTE
em cima da uma égua sobre o vale do enna
rodeada pela doença da santidade e da amargura enxuta
dos mais belos tremendamente belos potros doidos
ONDE ESTAIS QUANDO SUBIS À VERDADE
ONDE ESTAIS QUANDO O SONHO VOS PENSA
o que agora vomito será por vós engolido
pois nem sempre o que dispo é de seda
um dia perguntarão aos vossos netos
o que fizestes pelo ambiente
pelos mares pelas montanhas
e um ancião dirá que davais as mãos e gritavais GOLO
[apercebe-se de que no chão se encontra o corpo carbonizado da filha
as pernas desfazem-se em cinza
um grande silêncio
fita o corpo como se o seu já não estivesse]

quando atravessamos o deserto são enormes as nossas sombras meu amor
negras formas se prolongam no chão pela incidência da luz
os nossos corpos linhas brancas dotados de esquecimento
brilham ao longe como rosas de areia
ondas longas são os lugares quando pequenos estamos
ondas longas e a água ausente
por isso anseio olhar-te este lago que sou onde tudo se reflecte
e reflectir não é beber meu amor
pois dizer água não retira a sede
é a nossa imagem que se atira à água
não como os silêncios circulares de uma pedra lançada
mas como uma manifestação de ausência
um esplendor da saudade em si
são enormes as nossas sombras no deserto meu amor
negras formas se prolongam no chão
dá-me o dia dá-me a noite
onde a vida se estilhace e reúna a transbordar
dá-me a tábua desse barco
que ébrio acende ao despertar
que eu nasça de ti
e morra a respirar

[se o milagre não for muito dispendioso
nasce um dente de leão de cada boca]

fátima vale

inédito – símbolos antropófagos, 2017

fátima vale
actriz | poeta | activista pelos direitos humanos.
a sua placenta foi enterrada em oshackati, áfrica do sul, no ano comum de 1975.
expressa a língua mirandesa.
publicou as obras azimute (temas originais, 2011), ‘spabilanto (incomunidade, 2012), colostro das vitórias (edições sem nome, 2016).
tem colaboração dispersa nas revistas OPEN SPACE – THINGS THAT MATHER (ny) infernus (pt), incomunidade (pt), cultura entre culturas (pt), mallarmagens (br), zunái (br), propulsão (br), tlön (pt), ideia (pt), entre outras, estando presente em várias antologias de poesia galegas e portuguesas.
está no teatro profissional desde 1995. em 2010, abandona as estruturas de teatro convencional e de descentralização e forma o projecto spabilados-teatro hedonista.
repudia a aristocratização do teatro e a escravatura dos profissionais. não aceita telenovelas.
movimentou a arte-pãnica, fundada e afundada por alejandro jodorowsky, fernando arrabal, roland topor. colabora com vários grupos de teatro.
Em 2013 sobe à montanha para derrubar muros em torno os olhos.
tem projectos de teatro em laboratório. vai publicar em breve: “espartilho de pedra” (teatro poético inspirado na resistência palestina), “fome a idolátrica de um teatro submerso” (teatro poético da situação da arte no genuflexório do capitalismo de guerra).
Desenvolve oficinas de teatro do oprimido. Tem em cena o espectáculo “saudade do homem” com o GRUTA – CCL – teatro da livração.
desde 2001 que é mãe, onde trabalha a tempo inteiro.