das presilhas do coração – por Maria Toscano

1.

 os homens atam as presilhas do coração
ao cós da promessa de maternidade eterna.

acreditam, os homens, ser sua grandeza
permanecerem sempre filhos apaparicados e

dispensados de ser autónomos e maduros.

nem a todos toca a fábula diabólica.
homens serenos plenos e acertados com lágrima e riso
de ombros e afectos largos/ de peito e siso
continuados inteiros na posição de caminhar

perpendicularmente / ao chão /
sempre nessa busca do mais longe e mais alto
encarecidamente por dentro

encarecidamente desejando
amar – em vez de ser nutrido/ servido ou ninado.
desses homens são habitados os poemas.

dos outros – os que atam as presilhas do coração
à promessa de governantas ou bibelots –
os poemas podem também falar
mas o seu lugar é seguramente o da espera:
insinuam-se ou sentam-se em roda ancestral
cientes da duração dos tempos da redenção

2.

as mulheres atam as presilhas do coração
a cada cabide que confundem com amor.

demora muitos milhões de milénios/
a perceber o verso de Machado
ou a regra do oráculo de Sócrates.

tal hipoteca atrai e soma-se a outras:
a da casa-caixote onde mal cabem

braços longos e passos largos,
a do frigorífico, aliado, na luta contra tempo e rugas, /
a do micro-ondas – substituto / de coaching ou terapia /
pela veloz estratégia de descongelar situações
sem as enfrentar assumir abordar.

nem todas as mulheres se hipotecam em vida:
são as guardadoras dos elementos,
mestras do acreditar e permanecer.

Maria Toscano.
Lais de Guia, Matosinhos.
5 Fevereiro/2019.

♦♦♦

Maria Toscano.
Natural de Campo Maior, Maio/63 | www.maria-toscano.com |
Escritora com obra editada – 28 livros de poesia e 1 romance – desde 1997. Performer e Cantora.
Doutora em Sociologia (Out/2010. ISCTE), foi professora universitária durante 28 anos.
Trainer em Programação Neurolinguística/PNL (Julho/2019); Coach Neurolinguístico (Set/2018).
Publicada em várias Colectâneas e Antologia, é membro da Associação Portuguesa de Sociologia e da Associação Portuguesa de Escritores.

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