UM ELOGIO DA VIAGEM – por Fernando Martinho Guimarães

Todos nós conhecemos a história. Abel e Caim são irmãos, e Deus dedica-lhes uma afeição merecida. Abel é pastor, Caim, agricultor. Este fixa-se na terra e, com o seu trabalho, tira dela o que de melhor ela pode dar. Aquele, Abel, o pastor, percorre os campos, não tem lugar fixo e vai para onde o rebanho o leva. Ambos honram Deus com as suas oferendas. Mas Deus demora mais o seu olhar sobre Abel, o pastor.

O ciúme é uma arma ao retardador e, enquanto não explode, ocupa o espírito em alucinações de vingança. Caim mata Abel e expõe-se à fúria divina. O castigo foi, como é dito no livro do Génesis, a errância pelo mundo, tornar-se um fugitivo marcado por Deus.

O primeiro viajante é pois o primeiro maldito, o primeiro proscrito. Aquele que, ao ser obrigado a abandonar a sua casa, se vê forçado a conhecer mundo e a fazer dele a sua habitação. Precária, frágil, transitória, passageira, efémera. A vida ganhou a sua primeira alegoria, a sua primeira metáfora.

Sendo passagem, nómada por maldição divina, viver é, a partir de Caim, uma viagem indeterminada, um risco permanente. E, como viagem com desfecho anunciado, está destinada, como a rotundidade da Terra, a encontrar o fim, o términus, no seu começo.

Destino, mas também desejo, um querer, uma necessidade, uma paixão. A Odisseia, esse diário de bordo das desventuras de Ulisses, paradigma da viagem na cultura ocidental, é o relato de magníficos erros no plano de viagem. Viajar é, aqui, andar à deriva, e o desejo de regressar a casa não é mais do que regressar a um desejo que nunca nos abandona. Entretanto, para citar um dito que um filme tornou célebre, só nos resta encaminhar-nos para o infinito e mais além.

Também nós, portugueses, temos os nossos Ulisses, umas vezes sob a forma de epopeia fundadora, como no caso dos Lusíadas de Camões, afundadora – desculpem a violência sobre as palavras -, como no caso da história trágico-marítima, ou sustentadora de um imaginário de assombros e desassombros, como no caso da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto.

Em todo o caso e em qualquer caso, viajar é conhecer mundo, e o homem como, aliás, os demais animais, deve mais a inteligência ao facto de ter pés do que de ter mãos.

Pôr-se a caminho, fazer caminho, para além de dissipar os humores da digestão, obriga a mantermo-nos despertos e atentos às variações da paisagem, ao inesperado que o encontro com os outros traz, aos costumes e tradições que nos são estranhos, que nos eram estranhos, e impede que nos enrodilhemos em nós mesmos, com os olhos fechados ou fixos no vazio.

A bem dizer, são muitas as coisas que a vida nos pode dar e todas elas se relacionam, de uma maneira ou de outra, com a viagem.

Por boas ou más razões, somos todos migrantes, exilados, exploradores, vagabundos, caixeiros-viajantes ou turistas.

Agora, que estamos na época das férias, não espanta, portanto, que todos nos tornemos um pouco um Ulisses da trivago, um Indiana Jones da momondo ou um Lawrence da Arábia da e-dreams. E isso não é motivo de grande preocupação porque, no regresso a casa, saberemos apreciar melhor a sua amenidade e valorizar a doçura da terra que é a nossa ou que fizemos nossa.

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Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófi­ca e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Com colaboração dispersa, no Letras & Letras (Porto), revista Vértice e Parnasur (Revista literária galaico-portuguesa), no Suplemento Açoriano de Cultura do Correio dos Açores, passando pelo jornal Horizonte (Cidade da Praia, Cabo Verde), tem dedicado a sua actividade ensaística à poesia portuguesa e galega. De entre os portugue­ses é de destacar a poesia de António Ramos Rosa que foi tema da tese de Mestrado em Literatura e Cultura Portuguesa Contemporânea. Da poesia galega, a sua ensaística tem incidi­do sobre a poesia de Luisa Villalta (I Jornadas de Letras Gale­gas de Lisboa, 1998) e a de Manuel António (Colóquio Escritas do Rio Atlântico, Funchal, 2001).

Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, cas­telhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.

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