ANUNCIAÇÃO OU ANATOMIA DE AFRODITE- por Giselda Leirner

Sem titulo, 1985, de Artur Cruzeiro Seixas

Rosa era um ovo. Cheio e frágil. Acordava cedo. Não lembrava de sonhos. Assim que se levantava, punha uma polca no aparelho de som. Era seu único disco. Não tinha muitos pensamentos, e falava sozinha. Não foi sempre assim. É claro que nada é sempre assim. Rosa fôra loira, alegre, gostara de um homem e de arte sacra mais que tudo. Nunca saiu de sua cidade e sua cidade nunca deixou de ser Girona, terra cansada de uma Espanha negra e profunda.

Morava numa casinha torta, uma porta embaixo e em cima um balcão precário repleto de pequenos vasos de plantas verdes.

Uma cortina de renda suja protegia o vidro embaçado da janela que dava para a Ruta de los Camiños de los Judius. Usava um penhoar rosa sobre a camiseta que lhe vinha até os joelhos grandes nas pernas finas. Passava o dia assim. Regava os vasos. Comia pouco, não pensava em nada e falava, falava sem parar. Com ninguém menos que o Grão Rabino Nahmánides chamado pelo nome de Bonastruc de Porta. Não precisava pensar pois o rabino sabia as perguntas e dava as respostas.

Rivkale, tão branca, nada se mexe em você, nada pode te tocar, pois te quebras facilmente, dizia o Rabi. Não vais à sinagoga, não rezas os shabats, nem os dias sagrados. Não sais de casa. Não importa. De todos os judeus que daqui tiveram que fugir, você foi a escolhida para ficar. O que será de você quando eu tiver que ir?

Eu sei que Deus te escolheu. Me pergunto por que. Será pela tua inteireza e pelo que você carrega no teu ventre? Este ser inacabado. Eternamente grávida, Rosa, como consegues? Acho que é porque não pensas. É preciso não pensar para manter-se eternamente grávida assim.

Teu nome carrega espinhos. Aqueles que não podem te tocar. Não fostes feita para espinhos nem que sejam os de uma coroa. Tua coroa é luz, brilhante e azul. Só eu vejo. Ela só ilumina quem se aproxima tanto de ti que não pode mais te ver.

Você desaparece e só a luz permanece. Teu filho-embrião nunca verá a luz mas será luz. Nunca serás Maria. Pois como pode Rosa ser Maria? Nem queres não é? Para ser Maria é preciso poder sofrer sem quebrar, e você, eu sei, quebrará, isto eu sei.

Você fica horas olhando Madonas no velho livro. Há uma em especial, sorridente, e que fecha um olho em piscada matreira, só para você.

O sorriso da Madona te faz sorrir de volta. Duas comadres que se entendem. Eu te entendo.

O dia em que a tartaruga apareceu no jardim havia um perfume de lilases no ar. A trepadeira de glicínias estava tão cheia que seus cachos caiam até o solo misturando-se às buganvílias roxas que por ali subiam. O pequeno jardim era todo roxo e verde. No meio desta pequena caverna colorida só destacava a cadeira de palha pintada de branco. Era ali que Rosa estava sentada quando viu o bicho aparecer.

Ele veio vindo muito vagarosamente e parou em frente. Sua armadura brilhava ao sol e o olho, que só as tartarugas podem ter, o olho da eternidade, fixava-se lá onde os humanos não chegam.

Ao perfume de lilases somou-se um estranho, pungente odor de eucaliptos molhados. O corpo duro ali parado não saia do lugar. De nada adiantou cutucá-lo, oferecer-lhe água, falar com ele.

Rosa desistiu e aceitou sua presença inusitada sem mais lhe prestar atenção. O tempo passou desapercebido, inexistente.

Rosa, de olhos fechados, deixara de falar. O rabino há tempos tinha morrido. Agora só ouvia os sons longínquos dos responsórios do convento que ficava mais no alto de seu jardim, pelo qual ela caminhava por escadas de pedra para então sentar-se encostada na parede e ouvir melhor o canto das mulheres.

A tartaruga passou a segui-la. Entrando em casa com o bicho atrás, preparava o almoço pondo um pouco de sua comida numa tigela que depositava no chão. Assim, ambas comiam repartindo o silêncio.

Passaram-se meses. O silêncio nunca mais foi rompido nem a polca tocada. O som era dos pássaros, das folhas, da chuva e das monjas. O mais perfeito e redondo silêncio.

Numa noite, Rosa, de seu sono, lançou um grito. Terrivelmente ecoante, um grito longo sem pausa, único, suspenso no negro céu sem lua.

Aos poucos, do negro deserto a lua surgiu imensa iluminando todos os cantos do quarto. A tartaruga tinha desaparecido.

Rosa deitada, muito calma ficou assim sem se mover. Não havia mais tempo neste espaço de luz. Com medo de se virar ou mexer ficou assim, sentindo um peso úmido sobre seu ventre. Aos poucos foi aproximando as mãos e apalpou uma pequena cabeça molhada, logo em seguida foi apalpando-o pequeno ser que ali se mantinha imóvel. Apanhou-o com delicadeza para lhe ver o rosto. Era um menino muito quieto, de olhos abertos. Fitava fixamente a mãe e tinha um ligeiro sorriso. Havia luz em tudo.

Deitado ao seu lado emitia sons que não eram do vagido próprio dos bebês nem eram palavras nem gemidos, nem propriamente choro.

Na verdade o som não vinha do leito, mas de fora, do vento que batia forte nas janelas Le-Lah-Kah-He, sons que lhe produziam a sensação de estar sonhando um  ofuscamento próprio daqueles que não enxergam bem ou que vêem bem demais.

Quando silenciou o vento, o bebê também calou. Sua pequena boca só abria para receber o leite do peito materno que sugava avidamente.

Esta criança que nascera de olhos abertos e que não os fechava nunca nem para dormir, era doce e macia nos braços da mãe que o olhava com espanto e admiração. A cabeça muito enrugada ao tato, assemelhando-se a uma noz, cheia de reentrâncias suaves recebia as carícias dos dedos maternos.

Era grande o amor trocado entre a ponta do dedo e a superfície do crânio desenhado por uma vontade desconhecida de ambos. Nasceu o menino de Rosa assim, cego, de olhos abertos, pois não possuía pálpebras para fechá-los. Surdo e mudo.

Aquele que tudo ouviria, tudo saberia, e sem falar, um dia haveria de chorar baixinho, a dor dos que conhecem os degraus que levam ao patamar do espírito sagrado, dedicando sua vida à Sabedoria, à Razão e ao Conhecimento.

O filho que Deus mais uma vez mandou à Terra e a quem Rosa chamou de Yihud.

“Maternidade” de Almada Negreiros

♦♦♦

Giselda Leirner (São Paulo, SP, 1928). Desenhista, pintora, gravadora e escritora. Estuda pintura e desenho com Yolanda Mohaly (1909-1978), de 1942 a 1945. Em 1946, assiste a cursos e oficinas em The Art Students League [Liga dos Estudantes de Arte], em Nova York. No Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), em 1948, participa do ateliê de gravura, com a orientação de Poty Lazzarotto (1924-1998). Em 1958, tem aulas de pintura com Di Cavalcanti (1897-1976) e faz sua primeira exposição individual de desenhos e gravuras na Galeria Ambiente, em São Paulo. No ano seguinte, mostra suas pinturas na Galeria de Arte das Folhas, na mesma cidade. Retorna a Nova York, estuda artes gráficas na Parsons School of Design de 1964 a 1965. Viaja para Paris, onde frequenta o curso de sociologia da arte do sociólogo Pierre Francastel (1905-1970), em 1968. Ganha o prêmio de melhor desenhista de 1977 da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Participa da 2ª e 3ª Bienal Internacional de São Paulo, da exposição Tradição e Ruptura, na Fundação Bienal, do 3º, 9º e 12º Panorama da Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), e expõe também no exterior. A Pinacoteca do Estado de São Paulo (Pesp) faz uma retrospectiva do trabalho de Giselda, em 1994. Dois anos depois, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), mostra trabalhos produzidos a partir de 1980.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *