Feliz Aniversário, Coronel – Jaime Vaz Brasil

@José Boldt

Um mês antes de completar oitenta anos, o Coronel Herculano Ramos avisou o filho mais velho que daria uma festa de aniversário. As palavras dele foram um punhal suspenso na mesa de jantar. Depois de um silêncio:

  – Convido todos?

Herculano sacudiu afirmativamente a cabeça, movendo os ombros. Todos. Mas estava implícito que o convite não iria até o Pedro Dirceu, filho de uma lavadeira louca que foi mandada embora jurando que era do coronel o que se alojava na barriga crescida, debaixo do umbigo saltado. Dela, ninguém mais soube. Do tal Pedro, só se sabia que trabalhou de diarista por aqui e por ali, e que tinha até parecência com os filhos do coronel. E o assunto nunca engordou a magreza das conversas deles. No aniversário é que o coronel não acertaria as contas com o passado.

E coube ao mais velho convocar todos os outros para o encontro, e assim se fez. Cristiano, um dos seis irmãos, estava desgarrado há mais de vinte anos. Foi pensando nele que o mais velho perguntara se todos seriam convidados. Pouco se sabia de Cristiano. Depois da morte da mãe, o contato ficou cada vez mais escasso, até que se reduziu a um que outro telefonema no Natal, quando muito. O último jantar em que estavam todos da família, o Coronel levantou um brinde. E foi o brinde mais avesso na história da família. Cristiano teria segurado a taça com a mão delicada ou um ar estranho, e o pai não se agüentou. Aos berros, fez uma falação que terminou com a frase grave e estridente, frase que sofria engasgada na cara da fúria:

– Ainda vou te ensinar a ser homem.

Dizem que a gente morre como viveu. Não sei o quanto vai de verdade nisso, mas eu estava com eles no velório, e bem perto dos dois, um pouco antes de todo o desfecho. E ali, frase pareceu ganhar algum peso, se entremeava nas frestas entre o silêncio e a conversa que rastejava por baixo dos caixões. Morrer no dia do aniversário não é comum, na minha contagem. Quando morreu a Dona Cidinha foi tudo muito triste, não faltou gente a fizer que ela não se cuidava, que a saúde dela andava ao deus-dará, que o velho não tinha mais paciência com a coisa toda. E depois que veio a fraqueza, alguns dizem que ela tomou um vidro inteiro de remédio e deu um fim pra doençama. Eu estava por lá, mas não sei dizer mais do que isso. Morte é morte e tudo mais se enterra com o morto. Pelo menos a verdade dele vai junto.

Vieram os seis para o aniversário. E também todos os netos. Mesmo os que moravam longe. Um pouco talvez pelo tom convocatório, outro pouco pela herança, sabe lá que roldana move a intenção das gentes, no sobe-desce da vida. Cristiano, o único solteiro, chegou em Santo Isidro e foi dormir no Hotel Glória, no centro. Pela manhã, rumaria para a fazenda. Eu estava na portaria, mas ele não me viu ou não me reconheceu. No hotel, o gerente veio entregar a ficha, disfarçando um quase nada de riso na cara, mas manteve a perguntança engaiolada. Cristiano deixou a mala no carro e subiu ao quarto com uma sacola. No outro dia, foi último a chegar na fazenda. Abraçou um por um dos irmãos, conheceu alguns sobrinhos novos, comentou como os outros estavam crescidos e olhou tudo com uma cara que misturava primeira vez com despedida. Acabou por desatar uma lágrima na cara assustada, que eu vi. Depois foi ao banheiro se lavar. Estava suando, disse que na estrada havia trocado um pneu naquele solaço e sangrara a mão com a chave de roda. Coisa de gente de escritório, de quem tem pouca lida com os ferros.

Pois todos estavam lá nesse meio-dia e pouco, e as três novilhas prontas para um inesquecível churrasco. Todos lá, menos o próprio Herculano. No quarto, não estava. No mato do fundo, também não. Talvez uma surpresa os aguardasse. O velho tinha dessas coisas. Ficava umas noites na cidade, outras na fazenda. Desde os tempos da Dona Cidinha era assim. Mas no aniversário, ninguém havia pensado em alguma surpresa ou desatenção do velho. E o relógio foi alçando um pé na tarde, e lá pelas duas ou três horas alguém perguntou se era pra botar a carne no fogo. Os filhos que estavam por ali se olharam, mas não decidiram nada. Aliás, só quem decidia na Fazenda Santa Cida era o próprio Herculano. Só ele. Até que o mais velho resolveu ir à cidade ver o que poderia ter acontecido. Foi direto à casa da Maria Polaca. A lâmpada vermelha, desbotada, ainda estava acesa. Sim, passara a noite ali com duas das gurias, bebeu o que pôde e ficou até de manhã. Mais que isso ela não sabia dizer, até porque quando acordou já não mais viu o coronel. Para quem conhecia o velho, era difícil pensar em desaparecimento, falar com o delegado ou coisa assim. A reação do coronel seria estrondosa. Pegou o endereço das gurias e foi até a casa da primeira. Ninguém. Da casa da outra, apareceu no pátio uma jovem de uns vinte anos, enxugando as mãos no avental. Por ela, soube que o pai saiu pelas seis ou sete da manhã da casa da Polaca, junto com um rapaz novo na cidade, que ela atendera depois que o velho dormiu. Ele perguntou desse rapaz, se saíram conversando, se foram no mesmo carro, se disse o nome, perguntou da roupa, do tipo físico. Ela respondeu o que lembrava, e depois seguiu lavando a roupa encarnada.

O mais velho retornou à fazenda para conversar com os outros e decidirem por alguma busca. No rancho dos empregados, no potreiro de trás, o rádio tocava músicas de baile numa altura respeitosa. Na casa grande, os netos acabaram vencidos pela fome. Uma das noras deu a ordem para que um pouco da carne dormida nos espetos fosse ao fogo. Terminou que todos comeram ou comiam quando o mais velho voltou da cidade, estarrecido com o desaparecimento do pai e com a festa que aparentemente acontecia.

 – E o pai?

Foi o que conseguiu dizer, com a voz mais seca que cabia na garganta. Ninguém sabia de nada. Ele e Cristiano mal se olharam. Acabaram se cumprimentando só com um movimento de cabeça. Nesse momento, eu estava ao lado de Cristiano e vi a inquietação dele, aqueles braços cruzados como que engessando o corpo, as mãos enfiadas quase nas costas. Parecia abraçado nele mesmo.

A indecisão de todos quebrou quando um dos lindeiros correu à porteira da entrada, aos gritos. O coronel estava estirado perto dali, uns trezentos metros, num barranco na beira da estrada. Pegaram os carros e se atiraram na direção indicada, uns foram atrás, correndo a pé mesmo. Mas já não era o coronel. Era só o corpo, com roupa amassada e uma lista de sangue que escreveu duas curvas no marrom da estrada e foi cansar numa poça rubra. O mais velho afastou a camisa do pai e viu o talho, um só, um centímetro acima do umbigo. Ajoelhado, gritou:

  – Pai!

Depois olhou Cristiano, que tremia escondendo o rosto com a mão ferida, e avançando sobre ele, disse num suspiro raivoso e com voz seca:

  – Desgraçado.

Não demorou para que se agarrassem e logo o mais velho sangrasse Cristiano, dizendo morre desgraçado, morre puto assassino. Eu ali, olhando a cena tão de perto que meus olhos ardiam. Em seguida aquele cheiro morno de sangue, o mesmo que senti enquanto sangravam as novilhas e morte é morte, pra bicho e pra gente. E no meio da gritaria que durou pouco, o irmão agonizou um minuto ou dois, só o tempo de lembrar o mato do fundo, onde o mais velho, há muito tempo, também esteve com o corpo sobre o dele. O tempo criança, o que põe o relógio para trás, colocou o corpo dele outra vez na fazenda, outra vez com o irmão mais velho por cima, outra vez penetrado, outra vez com calor e frio de coisa entrando nele, outra vez para tercear alegorias ao destino. E Cristiano morrera de novo, para que nem ele nem ninguém entendesse aquele idioma de machos, de bicho enraivecido que enxerga tudo com o pensamento vesgo, e coisa bruta assim não tem mão que aparte nem luz que dê clareza.

No velório dos dois, enxerguei o tal Pedro Dirceu, e soube de como se havia bem nas lidas de faca por esse mundão de Deus. Vi na cara dele o que ele teria visto na minha, se tivesse me encardo. Dizem que a gente morre como viveu. Mas trago na pele um silêncio não morre nunca, e acho que tem a minha idade, pra mais. Invisível, como eu e meu umbigo que não salta. Talvez depois desses enterros eu ajude a lavar umas roupas, vou ver depois… Mas enquanto aparafusavam aquelas borboletinhas do caixão do velho, ainda pensei: feliz aniversário, coronel.

♦♦♦

Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Américas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

2 comentários em “Feliz Aniversário, Coronel – Jaime Vaz Brasil”

  1. Mais uma vez criativo, singular, surpreende. abraço .

  2. Maria Augusta Xavier da Silveira diz:

    Muito bom e meio amargo, gostei. Jaime Vaz Brasil ótimo em tudo que escreve.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *