QUANDO VELÔ SE AVENTUROU NO “POEMA SÓ” – por Danyel Guerra

“Ver o céu de verão é poesia, ainda que não esteja

num livro. Os verdadeiros poemas escapam-〈nos〉”

Emily Dickinson

Por mais que pese a autoestima e muito custe a presunção da maioria dos vates literários, todo ser vivente é um arauto, um porta-voz de poesia, mesmo que nunca tenha escrito sequer um verso. As hemácias po(i)éticas percorrem, a todo momento, nossos vasos arteriais e venosos. Sangue que sendo alarde de vida, pulsa, freme, regurgita como um ato de poesia automática, a ponto desse “modus faciendi” independer da vontade humana.

Evidência paradigmática dessa pujança se colhe na verificação de que esse processo de criação constante e permanente na medula óssea, até ao instante do passamento, ser médica e tecnicamente designado por  hematopo(i)ese (“fabricação do sangue”).

Daí que não seja especulativo afirmar que os mais primevos agentes, sujeitos, autores po(i)éticos   são, além da medula óssea, os linfonodos (gânglios linfáticos), o baço e o fígado.

Em conformidade com o exposto, este raciocínio se habilita a sustentar a tese de que o tão sagrado, quanto órfico, ofício de ser poeta, não é, afinal, privilégio monopolista, prerrogativa exclusiva dos ungidos e predestinados aedos das letras, tantas vezes, protestadas. Alguns deles, tão ufanos estão da sua “missão divina” que nem se apercebem que não passam de anafados e enfatuados “odres de vaidade”, como diria o renascentista Francisco Sá de Miranda. Bem, podia dar-lhes para pior!

Como conclusão mais que óbvia, o que está em pauta não é ser um portador, um pregoeiro, um paladino de poesia, mas antes, ser um excelente, um bom ou um mediano poeta, denotativamente falando. Todavia, a obtenção de tais performances não depende diretamente da quantidade e do volume do caudal, da qualidade do material circulante nas veias e artérias. Aliás, independe mesmo dos valores de HB (hemoglobina), presentes nos eritrócitos do sangue. E de nada vale tentar potenciá-la, recorrendo a estimulantes proibidos como a EPO (eritropoietina). Por paradoxo, o cidadão pode estar exangue e, se o estro não o atraiçoar, continuará sendo um ótimo poeta. Um poeta literário, pictórico, cinematográfico, teatral, fotográfico, escultórico, dançante, arquitetônico, musical, etc e tal.

Entretanto, por bom (ou mau) fim, todo o ser humano é um poeta literário, nem que seja bissexto, por muito que essas esporádicas produções mereçam ser atiradas, de imediato, para o cesto dos papeis. Quem é que, turbinado pelos arroubos da paixão, não inventou um, nem que seja bisonho, poemeto dirigido, dedicado a pessoa amada?

Apenas na aparência inócuo, anódino, este “nariz de cera” assumirá pleno cabimento, quando não saborosa cabidela, após a leitura, descodificação e assimilação dos conteúdos do texto que se segue. Posto este prolegômeno, vamos então ao finalmente.

“…assumidamente de poesia”

Uma sabiá-laranjeira (1) já terá cantado, contado ao seu ouvido a novidade, que não  sendo assim tão nova, tem alguma idade, mas mantém atualidade. Sim, é verdade, um festejado músico e cantautor brasileiro decidiu privilegiar uma publicação portuguesa para editar, em primeira mão, O Poeta em Dacar, seu poema de estreia. Invenção que ele, perentório, assume ter sido concebida como “não letra de canção”.

A composição em apreço foi dada a estampa no número 4 da revista Terceira Margem e evoca, com uma insofismável aura épica, a estada do poeta João Cabral de Melo Neto em Dacar, capital do Senegal, onde desempenhou o cargo de embaixador do Brasil.

Editada pelo Centro de Estudos Brasileiros-Adolfo Casais Monteiro, instituto da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o magazine deu assim continuidade, com este registro detentor de foros de inusitado, à sua aposta na revelação da novel poesia concebida no Patropi.*

Conforme precisa o diretor da revista, “os poemas publicados nessa secção são sempre presumidos como inéditos.”  É esse o caso dos assinados neste número, por Tarso de Melo e Ruy Espinheira Filho.  O Prof. Arnaldo Saraiva sublinha que essa condição também teria de ser contemplada pela sacação poética do autor de É Proibido Proibir.  Sim, você acertou! Esse poeta literário bissexto é o Caetano Veloso.  Aliás, não deixando margem para dúvidas, Caê a apresenta como um texto “assumidamente de poesia.”

Neste ponto da narrativa, na certa, questionará:  por alma de quem e por que cargas d’águas do Iguaçu  é que o Caetano deu a primazia a uma publicação portuguesa?  Reconhecido e apreciado como um dos especialistas portugueses em Literatura Brasileira -é mesmo uma fera no que tange a opera poética de Carlos Drummond de Andrade-, Arnaldo Saraiva explica essa “primeira mão” pelas sintonias culturais e intelectuais que o unem a Veloso. Afinidades consolidadas em encontros frequentes, seja no Brasil, seja em Portugal. Numa ocasião muito especial, o professor e o artista fizeram juntos uma visita a Melo Neto, vivência que terá sido um dos motivos inspiradores do poema.

Letra de música pode ser poema?!

A vertente de poeta literário é, apenas, a mais recente expressão desta eclética, poliédrica, inquieta e irrequieta  figura da cultura coetânea do Brasil.  Após se ter destacado, nos anos 60 do século passado, como um dos líderes da revolução tropicalista na música tupiniquim*, Velô exercitou seus dotes de cineasta em Cinema Falado (1986), “ensaio de ensaios de filmes possíveis”, uma longa-metragem experimental-documental, onde a palavra é o signo vibrante. E exponenciou talentos de prosador em Verdade Tropical (1997), espécie de ensaio autobiográfico.

Ancorado na perspicácia que tem iluminado sua trajetória de insigne inventor artístico-cultural, Caetano Veloso nutre, certamente, a clara consciência de que letra de canção ainda está a meio do caminho do que sonha ser, a meio do escopo que pretende atingir, na metade do apogeu que ambiciona se tornar. E respalda o bom senso de não se julgar um poeta tout court. A exemplo de uma peça de teatro, um roteiro de cinema, uma letra não é uma obra de arte autônoma, terminada, pronta, acabada. Só tem e faz sentido, artisticamente falando, se for musicada, cantada ou dita, tal como uma peça ou roteiro só cumpre sua função-missão quando encenada num palco, filmada num set  e  projetada num ecrã. Não são poemas, contudo…

Malgrado essa contingente “limitação”, tal não significa que o pulsante, o latejante sangue da poesia esteja -ou tenha de estar- ausente das letras de canção. Em sã verdade, há uma imensidade de letras que adejam, pletóricas, os vibrantes eritrócitos poiéticos. Por vezes, com muito mais intensidade do que miríades de poemas propriamente ditos, benditos ou malditos.

Nessa acepção, será tarefa difícil –quiçá inglória-, catalogar apenas como “letra só”, textos prenhes de textura e densidade poética do gabarito de  Terra, Sampa ou  Vaca Profana, escritos e  assinados pelo baiano de Santo Amaro da Purificação. Ele é, conforme testifica sua opera, um poeta até ao tutano. Com Velô, o poema casa com Ipanema, isento de dilema e imune a problema.

‘O Poeta em Dacar’

Finalizando em tempo e modo de poesia, aqui se deixam expressos os primeiros versos do velosiano poema:

“Cabral ombreia o grou coroado:

 Sumário confronto sobre a grama

Em frente ao palácio oficial.

Alguns toureiros trazem socorro:

Vêm de seus versos (…)”

(‘A Terceira Margem’, nº 4, de 2003, p.47)

Foto de divulgação do livro “Caetano: uma biografia: a vida de Caetano Veloso”.

Nota:

(1) Uma sabiá-laranjeira….

1- Em finais de 1968, Chico Buarque escreveu uma letra para uma música de Tom Jobim, que teria o título de ‘Sabiá’

Ao lê-la, o maestro discordou do fato de Chico ter masculinizado o pássaro. Segundo o letrista, no entender de Tom “é bom ‘uma sabiá’ porque é linguagem de caçador…caçador não fala ‘um sabiá’ fala ‘uma sabiá'”. Chico acatou a preferência do mestre e a observou na sua gravação da música. Neste texto, eu fico com a sábia sabiá do Tom.

*Glossário

Patropi-  contração popular para “país tropical”

Tupiniquim- sinônimo popular de brasileiro. Similar a lusitano para português

♣♣♣

Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, no mês de novembro, num dia de Vênus, sob o signo de Escorpião. No ano em que Agustina Bessa-Luís publicava o romance A Sibila, centrado em Quina, “possuidora de todo o puro enigma do ser humano.”

Guerra licenciou-se em História, pela FLUP. Após ter sido docente de História no Ensino Secundário, transitou para o Jornalismo, trabalhando como redator efetivo nos diários Notícias da Tarde, Jornal de Notícias e Correio da Manhã. Paralelamente, de modo esporádico ou frequente, colaborou nos jornais Expresso, O Primeiro de Janeiro e tem colaborado nas revistas Estupida, InComunidade, Triplov e integra o Conselho Editorial da Athena.

Escreveu as obras Em Busca da Musa Clio (edição Armazém Literário, 2004), Amor, Città Aperta (Armazém Literário, 2008), O Céu sobre Berlin (Aleph, 2009). Em 2012, editou para o selo Aleph, Excitações Klimtorianas. Em 2014, o mesmo label deu a estampa O Apojo das Ninfas. Em dezembro desse ano, o Aleph editou Oito e demy. Data de dezembro de 2015, o seu antecedente trabalho editorial: Fernando de Barros-O Português do Cinemoda, edição Douro Editorial, chancela da Querubim Editora. No prelo encontra-se o seu mais recente livro, ‘Os Homens da Minha Vida’, a editar pela Douro Editorial.”

 

 

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