A RAZÃO DO CORPO por Ester Fridman

Foto de Elizabeth Gladd

Platão concebia o corpo como prisão da alma. Para os cristãos o corpo é pecado. Para Descartes a existência depende do pensamento. Para Nietzsche, por trás das funções do corpo há uma unidade; esta reside no corpo, não na alma.

O corpo tem sido desprezado pela razão. Nietzsche vem romper com toda uma tradição de desprezo ao corpo, resgatando o que outrora fora vivenciado. Antes da decadência da humanidade, que segundo Nietzsche tem início em Sócrates, o corpo era valorizado. “Foram os doentes e os moribundos que menosprezaram o corpo e a terra e inventaram as realidades celestes e as gotas do sangue redentor, mas até esses doces e lúgubres venenos os foram buscar ao corpo e à terra”.1 Mal sabia eles que “o corpo é realizado, feito à esquadro; fala com mais lealdade e mais pureza, e fala do sentido da terra”.2 Note-se que o corpo refere-se não somente ao corpo físico, mas à natureza como um todo.

Se pensarmos em termos de polaridade – masculino e feminino – podemos colocar a razão, a mente, o mundo das ideias, como sendo masculino, e a intuição, o corpo, a natureza, como feminino. Na Grécia pré-socrática a humanidade cultuava a natureza, o feminino, o corpo – resquícios do matriarcado. Ocorre uma mudança de polaridade quando o homem começa a fazer uso da razão: o polo masculino, lógico, racional passa a ganhar terreno – é o patriarcado. A mente passa a reinar, e o corpo, a terra, a natureza, passam a ser desprezados. Durante o patriarcado, sob o reinado da razão, só os homens têm direitos; as mulheres eram desprezadas. Corpo e terra são símbolos femininos, e estes foram desprezados. No prólogo de Além de Bem e Mal, Nietzsche pergunta: “Supondo que a verdade seja uma mulher – não seria bem fundada a suspeita de que todos os filósofos, na medida em que foram dogmáticos, entenderam pouco de mulheres?”3

Parece que estamos vivendo uma época de transição, pré anunciada por Nietzsche há mais de cem anos. Para ele, a grande razão é o corpo. A pequena razão, que é a razão filosófica, é o instrumento da grande razão. Apesar do privilégio que a razão tem tido sobre o corpo e sobre o imaginário, a imaginação não é mais vista como a louca da casa, como dizia Malebranche.

A vida imaginativa é constituída por símbolos. Interpretá-los seria desvendar enigmas? Em Da visão e enigma, no livro Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche, temos o seguinte episódio:

Zaratustra, a bordo de um barco, narra a seus companheiros um enigma por ele vivido pouco antes de embarcar. Podemos nos perguntar: Que corpo é este, o barco? Afinal, esse aforismo se passa durante uma viagem de barco. Segundo Gaston Bachelard, o barco desperta uma consciência do erro. Zaratustra embarca após ter tido uma visão, após ter se conscientizado de um erro. Embora os marinheiros estivessem muito curiosos, Zaratustra se calou por dois dias, fechando também os olhos e os ouvidos. Mas por que dois dias? Se utilizarmos antecedentes simbólicos, podemos dizer que o número dois é o símbolo da oposição, indicando um conflito. Conflito pede reflexão e silêncio. Uma oposição pode resultar em equilíbrio ou ameaça. É o dualismo sobre o qual repousa toda a dialética. Todo progresso é decorrente de uma certa oposição. Os símbolos binários estão na origem de todo pensamento. Além disso, a cultura iraniana via o dia e a noite como dois aspectos do eterno retorno do tempo. Sabemos que o nome do personagem Zaratustra vem dessa cultura.

Ao final do segundo dia de viagem Zaratustra supera seu conflito – já pode então escutar. Ao voltar a escutar, sua língua se solta e o gelo de seu coração se rompe. Em um primeiro momento não vemos relação entre língua e coração gelado. Mas, qual o significado da língua? Ela tem a forma e a mobilidade da chama. A chama derrete o gelo. O fogo, assim como a língua, destrói ou purifica. A língua, sendo instrumento da palavra, pode criar ou aniquilar. No livro de Isaías (30,27) a língua de Deus é comparada ao fogo que devora. Na narrativa irlandesa, a língua equivale à cabeça – os heróis de Ulster mostravam as línguas dos inimigos que haviam matado. Lembremos ainda que as duas características principais do homem são o uso da palavra e o uso do fogo.

Zaratustra então dirige a palavra aos viajantes e lhes conta a visão que teve. Subia ele uma montanha, por uma trilha árida e estreita, com muitos pedregulhos, que faziam seu pé escorregar. Ao contrário dos peregrinos que imprimem seus pés no chão, ou Cristo, que deixou seu rastro no Monte das Oliveiras, Zaratustra escorrega nas pedras e não deixa rastros – não quer seguidores. Se pisamos firme, além de deixarmos a marca por onde passamos, o caminho também fica marcado nos pés – daí os ritos de purificação de lavagem dos pés. A divindade é desprovida de pés. São os pés que nos colocam em contato com a terra.

E Zaratustra continua subindo, apesar de seu maior inimigo, o espírito de gravidade, querer levá-lo para o abismo. Ele carregava seu inimigo sobre os ombros. Este tinha a forma de metade anão, metade toupeira. Zaratustra se refere a esse seu maior inimigo como seu demônio. Sabemos que o anão, em seu simbolismo, é comparado ao demônio. Muitas iconografias mostram deuses esmagando anões: Shiva, deus hindu, é representado pisando em um anão. Os anões personificam as manifestações incontroladas do inconsciente. Também são associados ao monstro guardião do tesouro ou segredo, mas é um guardião tagarela que se exprime por enigmas. Interessante notar, ainda, que o nome Paulo significa “de baixa estatura”. Estaria Nietzsche aqui se referindo a este personagem bíblico? Talvez, uma vez que sua crítica ao cristianismo é na verdade uma crítica ao que ele chama de paulinismo.

O anão no ombro de Zaratustra lhe derramava chumbo em seu ouvido. O chumbo, além de dar uma alusão ao peso, simbolizaria a individualidade – contraponto dos valores coletivos e universais. O anão ainda zomba de Zaratustra, chamando-o de “pedra da sabedoria”: “Condenado a ti mesmo e a sua própria lapidação”, diz o anão à Zaratustra. Sabemos que a pedra bruta desce do céu – são os meteoros. Já a pedra lapidada é obra humana – Zaratustra é dono de si, se faz a si mesmo. E algo nele mesmo que lhe faz parar e dizer: “Anão! Você! Ou eu!” Esse algo é a coragem. A coragem ataca, e todo ataque se faz ao som de tambor. O tambor é o instrumento que mantém o ritmo, a pulsação; tem uma analogia com o ritmo do universo, onde tudo é cíclico. Tudo é criado, conservado por um tempo e destruído, para depois, em um novo ciclo, ser criado novamente. Shiva, o deus destruidor da trindade indiana, em uma de suas representações, segura um tambor em forma de ampulheta. Nas tribos primitivas, o uso do tambor de guerra era associado ao raio e ao trovão sob o seu aspecto destruidor. O tambor é uma arma psicológica que desfaz toda a resistência do inimigo.

Zaratustra diz ao anão: “Eu sou o mais forte!” Dito isso, o anão pulou de seu ombro e se ajoelhou sobre uma pedra. Numerosas tradições antigas viam no joelho a sede da autoridade do homem e do poder político. Fazer alguém dobrar os joelhos é impor a sua vontade ou matá-lo. O anão, ao ajoelhar-se sobre a pedra, reconheceria que foi derrotado?

Nesse momento, Zaratustra ouve o uivar de um cão. As mitologias costumam associar o cão à morte e ao mundo subterrâneo. Ele tem a função do psicopompo, o condutor das almas dos mortos: após ter sido o companheiro do homem durante a vida, é seu guia na morte, pois conhece o mundo do além. Na antiga religião persa de Zaratustra, o deus Ahura Mazdá tinha um cão que afugentava os maus espíritos.

E após ouvir o uivar do cão, Zaratustra vê um jovem pastor, todo descomposto, com uma serpente negra entrando em sua garganta. Imagina que o pastor tenha adormecido, e quando acordou a serpente já estava em sua boca.

Que enigma está por trás dessa visão? Podemos dizer que o pastor simboliza o exercício de vigilância, simboliza o sol, que tudo vê, que está sempre desperto: a razão. Mas o pastor que Zaratustra encontra tinha adormecido, perdeu o controle sobre a situação. Além disso, o pastor simboliza o nômade. É o sedentário que dá origem ao homem da aldeia e da cidade, o homem enraizado, ligado à terra – o contrário do pastor.

Uma serpente entra pela boca do pastor. A serpente é um dos objetos mais ricos em simbologia. Há indícios de que ela exista há muito tempo antes do homem, que se situa no início de um esforço genético do qual o homem se encontra no final. Assim, há algo de serpente no homem. Alguns psicanalistas dizem que a serpente tem analogia com a parte obscura e incompreensível do psiquismo. A serpente é enigmática – é impossível prever-lhe as decisões. Ao mesmo tempo que tem ímpetos masculinos, também é feminina: enrosca-se, abraça, sufoca. Encontramos a serpente na origem de todas as cosmogêneses como a grande iniciadora e regeneradora. O livro sagrado dos egípcios distingue na serpente uma força que se assemelha a uma valorização positiva do espírito e a uma valorização negativa das forças naturais, inexplicáveis, perigosas, pelas quais elaborar-se-á gradativamente, o conceito, não mais físico, mas moral do mal, de um mal intrínseco.

No lugar do desejo de hegemonia do espírito em detrimento das forças naturais, parece haver o desejo de equilíbrio dessas duas forças no episódio de Zeus contra Tifão, filho de Gaia. Tifão, um dragão de cem cabeças, cercado de víboras, representa a enormidade das forças naturais insurgidas contra o espírito. Para vencer o dragão, Zeus só dispunha da ajuda de Atena, a razão. O pensamento grego, assim como o egípcio, só ataca a serpente quando esta quer devolver o cosmo ao caos. Mas quando ela incorpora sua outra face – a vivificadora – através da qual a seiva sobe das raízes ao topo da árvore, ela é não só aceita, como glorificada. Todas as grandes deusas da natureza – essas deusas mães que no cristianismo volta sob a forma de Maria, têm a serpente como atributo.

A visão que Zaratustra teve poderia ser a representação da luta entre a razão -o pastor, e as forças naturais – a serpente. A serpente entrou pela goela do pastor. A goela simbolizaria a entrada para o mundo subterrâneo, que, nos crepúsculos vespertinos, devora o sol, para então vomitá-lo na aurora: é a digestão. Mas o que acontece com o pastor e a serpente?

Zaratustra tenta ajudar o pastor puxando a serpente, mas não consegue. Grita então para que ele a morda e lhe arranque a cabeça. Este acata seu conselho: morde a serpente e cospe longe sua cabeça. Feito isso, de imediato se levanta e começa a rir. Zaratustra vê que já não era mais a mesma pessoa, já não era mais o pastor, e que seu riso era diferente do riso de qualquer homem na terra. Aquele homem que antes era um pastor, um homem racional, enfrentou sua própria natureza irracional – a serpente: tirou-lhe a cabeça, acabou com a racionalidade que se impôs às forças naturais. Com isso atinge o equilíbrio, se iguala à natureza, não a teme mais. Não porque a domina, mas porque a integrou em si mesmo. Onde há integração, não há hierarquia, tirania e servidão. Não há temor, pecado ou maldade. Onde não há o que temer, aí reside a felicidade e pode-se rir como ninguém jamais riu na Terra.

1 NIETZSCHE, Assim Falou Zaratustra, Dos Visionários do Além

2 Ibid

3 Idem, Além de Bem e Mal

*Foto destaque: Elizabeth Gladd

Elizabet Gladd

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Ester Fridman (Brasil, 1963) Filósofa e escritora, pesquisadora da linguagem simbólica, seu tema de mestrado foi A Linguagem Simbólica no Zaratustra de Nietzsche. Estudiosa também das filosofias da Índia, escreveu Kriya-Yoga e a Filosofia dos Kleshas no Yoga Sutra de Patanjali.

Contato: ester8fri@gmail.com

 

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