– Vou perder. – sussurrei comigo mesmo, enquanto observava dois enormes ratos desfilando sobre o balcão. – Vou perder tudo esta noite.
Seu Genaro tentava enxotar os pestilentos com um pedaço de pano, algo que já fora cobertor há muito tempo. Era em vão. Quando dava por si, lá estavam eles sobre a tábua imunda, repleta de copos e garrafas vazias, como se velassem a batalha que se travava. Sim, uma batalha era aquilo, não um simples carteado. Um combate psicológico e campal. Eram olhares oblíquos, estratégias ousadas, fumaça, a tensão dos generais ao decidirem se atacam o inimigo ou defendem o território conquistado. O silêncio era de estourar os tímpanos. E não só a mesa, mas todo o boteco era o campo de guerra. Uma guerra de nervos. O bairro temia aquele recinto. Todos sabiam da bomba-relógio que lá havia. Continuar a ler “OS RATOS – por Uili Bergammín Oz”
Aviso aos navegantes o Vaporetto
partirá pra Cithera o Capitão
chama o cozinheiro chinês
o cozinheiro chinês chama o avestruz
o avestruz bota um ovo o chinês
parte o ovo traz um jornal o vento
venta o chinês faz da casca
o casco o chinês faz do jornal
a vela o Capitão reclama o chinês
faz do cachimbo do Capitão a cha-
miné o Vaporetto apita o vento
venta que venta que venta Continuar a ler “POEMAS E CENAS DE Zuca Sardan”
“Dans le monde réellement renversé, le vrai est un moment du faux” Guy Debord.
Estamos no Carnaval e o leitor de Athena perguntará onde fica e onde cabe a cultura, durante esta época?
Pois direi que é no reino e no tempo do faz de conta, que se cruzam todas as alegorias. Desde a sátira política e social, aos rituais que culminam na inversão dos papéis sociais, com origens na época em que o escravo se transformava em rei, e por sua vez, o rei se transformava em escravo, oferecendo esse sacrifício aos deuses.
Hoje, no Carnaval, os homens e as mulheres “trocam de sexo”, alguns por simples brincadeira, outros para cumprir algum secreto sonho. Na busca contínua da felicidade, nunca o lugar-comum mudou algo.
A Psicologia szondiana está marcada pelo convencimento, intuitivamente adquirido, de que, em cada par de contrários (polaridades), os pólos são atraídos um ao outro e formam uma unidade. Segundo seu criador, não vale pender unilateralmente ao bom e desprezar o mau, mas é melhor perceber o bom e o mau como dois extremos da mesma totalidade e mantê-los em um equilíbrio dinâmico. Quando um pólo cresce, o outro decresce, quando um diminui, o outro desabrocha. A partir daí, desenvolveu a teoria da Análise do destino.
A Análise do Destino completa os conhecimentos da Psicologia Profunda, com o acréscimo do Terceiro Inconsciente, o Familiar, depois do Pessoal de Freud (Viena) e do Coletivo de Jung (Zurique).
New York era linda no Natal, com flocos de neve cintilantes, coloridos, alegres, refletidos nos seus milhares de espelhos cristalinos. Lojas repletas de luxo e beleza, esperando outro 25 de Dezembro. Como todos os anos, como todos os tempos.
“Oliveira Martins era un pesimista, es decir, era un português. EI português es constitucionalmente pesimista; él mismo nos lo repite. No es acaso la flor amarga de este espírito la poesia desesperada y dura de Antero de Quental? Encontró acaso alguna vez lá desesperación acentos más trágicos, más hondamente poéticos en su rígida armazon meta física, menos artísticos? “
Miguel de Unamuno, Por Tierras de Portugal y Espana, 1930, pp. 49-50.
Fransérgio amava o carnaval. Era quando ele, entre plumas & paetês, miçangas & não-sei-o-quês, podia ser ELA, sem culpa. Longe do olhar recriminatório da adorada esposinha.
Alain desenlaça, decidido, o amasso da frenética Romy. O que se passa, querido? Darling, o que passa daqui a uns segundos é o bus dos 33 minutos, não posso perdê-lo…! Ele ajusta, no orifício certo, a fivela prateada do cinto, selando a separação com um beijo fugaz nos lábios carmesins da garota. E sai disparado rua afora…senão vou tomar um chá de cadeira de meia-hora, completa aconchegando o cachecol black & white ao pescoço e estugando a passada. E com apenas 33 segundos de atraso, um 33 se detém perante o solitário e ansioso passageiro.
Contra ou a favor da Europa? Contra ou a favor das nações? A “Europa” ou a minha “Nação” ?
Questão que hoje vivamente se coloca, desdobrando-se em infindáveis discussões. Juízos rápidos e fulminantes disparados contra quem duvida da bondade da escolha politicamente correcta, a da “Europa”. E contudo…
… Contudo são discussões sem sentido, caso antes se não defina, clara e inequivocamente, qual a Europa de que se fala. Porque há duas europas em tudo diferentes. Dois conceitos distintos instalados dentro de um mesmo termo: “europa”. Assim, se me perguntarem se quero manter-me na, ou “sair” da “europa” começarei por perguntar “qual Europa?”. Clarifiquemos, pois há uma Europa que nasceu na Grécia há 2.700 anos, entre oliveiras, penedos sagrados e o azul do mar. E aí, entre deuses demasiado humanos e homens quase divinos, nasce, cresce e agiganta-se toda uma Cultura. Ésquilo, Sófocles, Píndaro, Heraclito, Fídeas, Anaximandro, Sólon, e tantos outros, deram ao mundo o espírito de uma civilização ímpar.
Enrique Rosenblatt Berdichevsky, 17 de febrero de 1922, 6 de septiembre de 2009. Fue un poeta muy cercano al grupo Mandrágora. Uno de los colectivos surrealistas más influyentes de la literatura chilena y latinoamericana. Su primer acercamiento con estos poetas, se da primeramente bajo ciertas circunstancias del azar objetivo, cuando tenía 20 años y había comenzado sus estudios de medicina, le fue diagnosticada una tuberculosis, lo que le obligó a guardar reposo en su hogar durante un tiempo prolongado. En ese entonces uno de sus vecinos era Juan Sánchez Peláez, con quien estaba iniciando una amistad debido a que compartían el gusto por la poesía. Continuar a ler “ENRIQUE ROSENBLATT, LA POESÍA OCULTA – por Enrique Santiago”
Se Nietzsche já é um filósofo controverso, interpretado de forma tão completamente diferente por cada leitor, seu livro Assim Falou Zaratustra é, sem dúvida, o mais controverso de toda a sua obra. Seria um dos motivos de tamanha controvérsia a linguagem tão peculiar e não familiar na qual foi escrito? Uma leitura atenta à obra de Nietzsche como um todo nos revela um autor cujo procedimento de pensamento é diferente do procedimento de pensamento do homem ocidental em geral. Mas, se seu modo de pensar não é ocidental, tampouco o é puramente oriental. O que o diferencia é que ele não está preso às amarras do gregarismo, e nem à metafísica da linguagem. Ele diz que “…entramos em um grosseiro fetichismo, quando trazemos à consciência as pressuposições fundamentais da metafísica da linguagem, ou, dito em alemão, da razão. Esse vê por toda parte agente e ato: esse acredita em vontade como causa em geral; esse acredita no ‘eu’, no eu como ser, no eu como substância, e projeta a crença na substância-eu sobre todas as coisas (…)E nas Índias como na Grécia se fez o igual equívoco: ‘É preciso que já alguma vez tenhamos habitado um mundo superior (…), é preciso que tenhamos sido divinos, pois temos a razão!’(…) A ‘razão’ na linguagem: oh, que velha, enganadora personagem feminina! Temo que não nos desvencilharemos de Deus, porque ainda acreditamos na gramática…”1
A experiência é meu único dever Ingmar Bergman
◊◊◊
A perda de um pouco de memória costuma ser gentil com a alma.Walter Bishop
2043- O que passar por aqui será escrito. Este é um acordo secreto feito entre muitas vidas, muitas delas jamais compreenderam o motivo. 31 anos se passaram sem a mínima suspeita de que eu devesse retomar essas anotações.
O Carnaval é uma das mais belas tradições que enche de cor e alegria as cidades e vilas portuguesas. O nível de euforia e qualidade não atinge os desfiles no Brasil, mas a maneira nacional de celebração da data contagia todos, mesmo os que não gostam de se mascarar.
Os preparativos para os eventos do ano seguinte começam pouco depois do último cortejo, embora sem a mesma dose de exagero que se verifica após as festividades no país irmão. Isto é, vivendo intensamente uma paragem de 365 dias, que decorre entre cada Carnaval.
Os passos que um homem dá do nascimento à morte desenham no tempo uma figura inconcebível. A inteligência divina vê esta figura imediatamente, como vemos um triângulo.
Basil Rathbone and Tyrone Power , no filme “The Mark of Zorro”, dirigido por Rouben Mamoulian
No porão, esperávamos o Águia. Atrasado, como sempre. Mas viria, cedo ou tarde. Viria com o nariz erguido, a roupa surrada e a tatuagem no braço que lhe valera o apelido. Iniciamos sem ele. Raimundo Sanchez estava com aquele casaco que o deixava ainda mais gordo, e foi desenrolando devagar a planta, desenhada em papel de embrulho. Olhamos em direção à porta: ninguém nos observava. O esquema todo abriu-se ali, clareira em mato de silêncio. Domingues, o manco, questionava os riscos de cada etapa. Quando mostrávamos a ele a fronte encurvada do seu medo, tentava se defender:
Ruído incomodativo às 3h30 da manhã: um vizinho põe a música num volume acima do permitido. Por enquanto, eu sei! Nas assembleias das democracias, sobre as quais me dizem ser o lugar cada vez mais antiquado, face aos desígnios do mundo de hoje – afinal as leis provêm de maiorias que nem sempre defendem o interesse da maior parte dos cidadãos – tem-se vindo a discutir, face ao aumento do turismo, a possibilidade de se alterarem as horas a partir das quais não se pode fazer ruído excessivo. Por outras palavras, tem-se vindo a discutir a possibilidade de “não haver horas para dormir”, favorecendo a ideia do mundo globalizado: a noite é todo o dia, faz Sol todo o ano. Continuar a ler “QUANDO A MADRUGADA JÁ NÃO EXISTE: SOBRE A PÓS-VERDADE por João Esteves”
Nossa memória sempre foi a memória dos monstros nosso enigmático testamentoCasimiro de Brito
I
O poema nunca estará morto,
não é sequer poema,
a ilícita quimera desejada, o ouro
imperceptível e consumado,
“o problema não é meter o mundo
no poema”; vislumbrá-lo inteiro,
desinquieto em auroras claras,
em giestas de espera, e só assim
na breve treva a veracidade
que emana do canto dos pássaros
em disperso azul, em alforria,
lhe permitirá agarrar o seu trémulo
verso, a singular oblação da rosa. Continuar a ler “O POEMA E O POETA – por João Rasteiro”
Viu-a só uma vez. De relance. Loura, luminosa, clara. Cabelos cacheados emoldurando o rosto de menina, um olhar perdido, que num primeiro momento parecia estar focado sobre ele. Mas foram segundos. Passou pela frente da casa, retardando um tanto a caminhada – quem sabe ela voltava para mais um ligeiro estar abandonada sobre os cotovelos, na janela da casa bonita, bangalô florido, da Rua dos Ingleses. Não veio. E ele não teve mais como se demorar pela vizinhança. Podia ser tido como um malfeitor que espreita as casas para de noite roubar. Preferiu ir embora. Continuar a ler “… E NEM SEQUER ME VISTE – por Joaquim Maria Botelho”
Os poetas são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais o nosso saber escolar ainda não nos deixou sonhar. No conhecimento da alma eles se acham muito a frente de nós, homens cotidianos já que se nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência .
Sigmund Freud
♣
A thing of beauty is a joy forever.
John Keats
A Psicanálise é fruto do entrecruzamento entre a literatura e a medicina, embaladas pela mitopoética grega em seu processo criativo multidisciplinar, a serviço da plural elucidação da interioridade humana. Esse singular saber que redimensionou a visão do sujeito em sua essência plurifacetada, também se valeu das escoras invetigativas de outros cientistas, cujas buscas metódicas e conscientes caminharam na mesma direção de Sigmund Freud (1856/1939). Instrumentalizada na arte da palavra, a Psicanálise percorreu seu resoluto caminho sob a crítica de detratores ao seu inventor que, dela subtraiu os próprios equívocos em constante processo de revisão nos anos em que viveu. Releitores e comentaristas formam um continuum de recriações teóricas mas as estruturas de sua edificação na história do pensamento remanescerá como verdade, enquanto existir o homem, tal a justeza em sua constituição argumentativa. A arte lhe vem como ossatura estruturante, como esteios colaterais. O segmento seminal da Psicanálise se estatui por uma tríade de personagens do tragediógrafo Sófocles (?/406 a. C). Continuar a ler “A ARTE E A ARTE DA PSICANÁLISE (PARTE I) – por Jorge Antônio da Silva”
Ao certo não sabia qual fora a deixa para entrar em cena. Se o sorriso precário marcado a amarelo torrado, difuso e cinza do tabaco, se a singeleza da herança genética.
Nunca pensei, sonhei ou desejei ser poeta
durante toda a minha juventude em vez dos livros ou da poesia
sempre preferi brincar aos índios e cowboys
ou assaltar ao meio da noite os laranjais
e os galinheiros dos vizinhos, ou ainda espreitar a vizinha,
quando esta se despia para fazer amor
e masturbar-me, masturbar-me (sim, sempre houve em mim
um gosto nato pela transgressão)
pergunto: poderá a fome de poesia ser explicada
cientificamente, será talvez uma herança genética?
que eu saiba entre os meus antepassados
nunca houve poetas, nem artistas, nem sequer homens cultos
houve, isso sim: assassinos, carrascos, esfoladores,
prostitutas, concubinas, mulheres obscuras e violentas
videntes, hipnotizadores de serpentes
também padres, mártires, santos e, sobretudo…
ah! sobretudo: loucos!
sim, entre os meus antepassados constam-se vários loucos
e confesso que também eu, por vezes, enlouqueço.
já passei alguns anos numa psiquiatria
porém todos os meus psiquiatras (foram muitos.
alguns deles suicidaram-se. outros enlouqueceram.)
dizem que a minha loucura é uma lúcida loucura.
vá lá saber-se o que é uma lúcida loucura,
mas talvez tenham razão, talvez a poesia seja um caso
de lúcida loucura.
English Garden
Aquele cadáver que plantaste o ano passado no teu jardim já começou a despontar? dará flor este ano?
T.S. Eliot
Foto de Paulo Burnay
Morreu no outono, um outono translúcido
como o da poesia de Trakl.
conforme o seu último desejo foi enterrado ao
canto mais belo
– onde crescem a rosas de Shakespeare –
do seu tão amado jardim,
o English Garden
onde costumava ler e escrever,
ler e escrever
até que os olhos lhe doessem de alegria.
enterraram-no com uma mão de fora
para que quando chegasse a primavera desse flor
e as andorinhas lhe cagassem em cima.
Realeza
Foto de Paulo Burnay
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços e chama-me teu filho Fernando Pessoa
O corpo (um odre de carne malcheiroso)
Mas ainda bem modelado
A ferida costurada
Os genitais encolhidos
O incenso subindo dos turíbulos
Aos brados
Assim lhe despiram a realeza
Assim regressou à noite antiga e calma.
La beauté
Je suis belle, ô mortels ! comme un rêve de pierre Charles Baudelaire
Há uma tremenda beleza naquelas mãos grandes e peludas:
porquanto manejam habilmente os bisturis
que são astros cintilantes na podridão das vísceras.
Foto de Paulo Burnay
Elogio da loucura
Ao meu tio José (1940 – 1999)
O meu tio José, o louco. vejo-o
deambulando pelas ruas ao deus dará
sem outro destino que não seja deambular.
um Kentucky ao canto dos lábios.
o chapéu amarrotado…
o tio José, alto e elegante
como muitos dos homens da beira alta.
os olhos tão azuis… tão azuis…
quase germânicos.
lá dentro, o céu. não o céu de deus,
pois um louco não precisa de céu,
nem de deus, pois um louco não precisa
redimir os seus pecados.
mora na noite da luz. isento.
como as aves.
Ressurreição
Luís Guerra e Paz
Depois do dilúvio
por entre as barcas e as casas submersas
onde agora o hálito de Deus mora
com a perna amputada às costas
regressou da morte
pois dizem que Deus não gostou do seu cheiro.
♦♦♦
Luís Costa escreve poesia e mais algumas coisas. Nasceu na sexta-feira santa de 1964. Tem alguns dos seus trabalhos publicados em revistas digitais como a Triplov e a Zunái, tendo também colaborado no primeiro número da revista internacional de surrealismo Debout Sur L’oeuf. Para além disso, pouco há a dizer. Ah, diz que a biografia do poeta é a sua poesia, pois, a seu ver, fora do poema o poeta não existe. Escrever poesia é para ele uma questão de ira e amor: uma violência amorosa. E também o contínuo suicídio do eu para que a obra se faça.
Há novos desvarios no desalinhado armário da alma do poeta! Na peregrinação inócua de um centro comercial impróprio para consumo, calçou nos pés da mente um par de botas. Sapatos de essência negra, que em passos largos o levarão em sonhos aos caminhos da velhice. Sim, em sonhos e apenas neles! Na realidade, os bolsos que enfiou nas últimas calças, adquiridas na feira da balbúrdia, continuam sem fundos…
Nesse sonho agitado arranca da cama o espírito sisudo e agarra com força uma janela. Pelo vidro escancarado avista os jardins da noite e ouve. Escuta no breu os muitos meninos que ali brincam e espreitam. No queixume breve contam mimos ao escriba/sussurram-lhe ao ouvido beijos quentes trocados na copa das árvores, essas sequóias impenetráveis que já ali não estão, que alguém arrancou num ápice…
Em histeria pela ausência dessas sombras que lhe mentiam e o amedrontavam o poeta canta, salta e gesticula em gritos lancinantes e irreflectidos. Há sem dúvida novíssimos desvarios nesse singular Armário Fashion! Ode inesquecível a um roupeiro ultramoderno no qual se desarrumam em desordem camisas brancas de bolinhas pretas, camisas pretas de bolinhas brancas, casacos de fazenda azulada e cinza, camisolas grossas de uma gola alta impenetrável e muitos pares de botas. Sapatos negros e caros, de um plástico refinado que o fazem sentir mais jovem e cada vez mais belo, afastando-o irreversivelmente dos olhares rugosos e implacáveis da velhice…
Foto de Luís Guerra e Paz
♦♦♦
Paulo Soares nasceu em 1970, em Moçambique, na antiga Lourenço Marques, atual Maputo. “Escriba” desde que se conhece, é formado em jornalismo pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Exerceu funções como jornalista durante dez anos, no Jornal “O Primeiro de Janeiro”, colaborando em suplementos como “Artes e Letras”, publicação dedicada à cultura.
Participou com alguns textos poéticos nas páginas da Revista “Palavra em Mutação”. Escreve textos em prosa poética, não esquecendo o universo da literatura infantil. Tem alguns textos dedicados aos mais pequenos, realizando também workshops de jornalismo pensados para esta faixa etária.
O relacionamento interpessoal é, talvez, das coisas mais importantes que temos de desenvolver ao longo de toda uma vida. O que muitas vezes não nos apercebemos é que, quando interagimos com alguém, temos uma escolha a fazer: afectar positivamente ou infectar negativamente o seu estado emocional.
Na maioria das pessoas, há uma intenção consciente de motivar, apoiar, entusiasmar, acarinhar, influenciar (…) positivamente cada uma das pessoas com quem se cruzam no caminho. Mas algures nessa jornada essa intenção perde-se.
Nas situações de stress e de conflito, nos cafés, no trânsito, na fila do supermercado, nos telejornais, nos programas de “mal dizer”, e mesmo no seio da família e no círculo mais próximo de amigos, assistimos a verdadeiros campeonatos de desencorajamento, de pessimismo e descrença.
São verdadeiras disputas, onde sistematicamente nos comparamos a outros e onde imperam a crítica, o ataque e a acusação constantes. E neste apontar de dedo, esquecemos muitas vezes de focar, não no problema, mas nas soluções e na disponibilização de recursos para aceder à realidade alternativa que gostaríamos de ver acontecer.
As pessoas queixam-se com frequência. Por tudo. Por nada. E ouvimos a todo o momento “é complicado” e “é melhor não arriscar”. E com isto, deixamo-nos infectar. A vontade mirra e a nossa luz interior vai-se apagando aos poucos.
Afastamo-nos mais e mais do nosso propósito, das coisas que nos dão prazer, do que mais tem significado para nós, dos nossos talentos pessoais e inatos mas, sobretudo, afastamo-nos da nossa essência. E quanto mais afastados da nossa verdadeira essência, maior é a nossa necessidade de aprovação pelo outro e maior é a nossa sensibilidade à crítica.
Aquilo em que nos focamos é, de facto, o que determina a nossa realidade. E, lentamente, fomo-nos focando no outro em vez de em nós, nos erros e nas falhas em vez de nas conquistas, nas áreas de melhoria em vez de nos êxitos e talentos. Passámos a infectar.
Jardel era um excelente goleador. A sua área de melhoria seria a defesa. Mas, por muito que treinasse, Jardel jamais seria tão bom defesa. E neste focar na sua área de melhoria, desperdiçamos todo um talento. Talento esse que, em conjunto com um excelente defesa, daria com certeza a melhor das equipas.
Fazemos isto nas empresas. Fazemos isto também com os que nos são mais próximos. Desaprendemos a procurar o melhor no outro e a impulsionar essa luz que brilha em cada um de nós. E de pirilampos, passamos a noite sem lua.
Mas porque a luz não é só das ruas de Lisboa, nem do sol, nem só das velas ou das frinchas das janelas, convido-o a deixar-se afectar. Deixe-se afectar pelo sorriso, pela boa disposição. Deixe-se afectar por lugares de magia, por filmes emocionantes e músicas cheias de energia. Deixe-se afectar pelo melhor dos outros e por pessoas inspiradoras que acreditam em si quando você duvida.
Somos todos valiosos e únicos. Só temos de redescobrir essa luz que brilha em nós e reaprender a expressá-la. Mostre os seus talentos, exprima os seus desejos, afirme-se como é e sinta-se orgulhoso dos seus erros. Espalhe a melhor versão de si mesmo e afecte.
Afecte todos os contextos onde opera e todas as pessoas com quem interage. Contamine. Faça magia. E de noite sem lua, volte a ser pirilampo, em noite outrora escura.
Rita Vargas é Karateca desde os 4 anos, licenciada em Ciências da Comunicação e especializada em Direito da Comunicação. Profissionalmente, percorreu os caminhos da Indústria Farmacêutica nas vendas e no Marketing.
Certificada internacionalmente como Master Practitioner em Programação Neurolinguística e como Coach International da ICC. Formada em áreas tão diversas como o Reiki, a Cristaloterapia e a Quiromancia. Sob o lema “Coaching The Heart ®”, tornou-se orientadora de desenvolvimento pessoal, especializando-se no “Coaching de Afectos Ò” e nos Relacionamentos.
Poeta e colagista. Fundador do grupo surrealista chileno Agartha. Atualmente trabalha na publicação de um livro de poesia automática intitulado: “Funda-Mental: Aprenda Rádio em 15 dias”, escrito em parceria com o poeta Braulio Leiva (1979-2014). Além disto trabalha conjuntamente com o poeta mexicano Alejandro Rejón em um livro de escritura experimental, “Suma-Espejismo”. Publicou poesia nl blog do grupo surrealista Derrame e nas revistas “Marcapiel” (da qual é colaborador permanente), “Aquarellen” e “Matérika”, dentre outras. Foi incluído na Antologia Absoluta da Poesia Chilena, organizada pelo poeta Rodrigo Verdugo Pizarro. Juntamente com o poeta Mauricio Chase dirige o blog literário “Manos desde el Estigia”.
Rodia Ibaveda:
(Santiago, Chile, 1985). Poeta y collagista. Fundador del grupo surrealista Agartha de Chile. Actualmente trabaja en la publicación de un libro de poesía automática “FUNDA-MENTAL: Aprenda radio en 15 días”, que escribió en coautoría con el poeta Braulio Leiva: (Viña del Mar, 1979-2014) y trabaja junto con el poeta mexicano Alejandro Rejón en el libro de escritura experimental “SUMA-ESPEJISMO”. Ha publicado poesía en el blog del grupo surrealista “Derrame” y en las revistas Marcapiel (en la cual es colaborador permanente) Aquarellen y Matérika, entre otras. Fue incluido en la Antología Absoluta de la Poesía Chilena por el poeta Rodrigo Verdugo Pizarro. Dirige junto al poeta Mauricio Shade el blog literario “Manos Desde el Estigia”.
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