POEMAS – de Tito Leite

FRESTA

Moro num deserto situado
na palavra.

São tantos nomes no remanso
de uma tarde
e eu vi uma borboleta
na sombra de uma granada.

Grafei que o significante
de uma nuvem
é o seu presságio
e depois da chuva um poema
fecunda a sangria dos sábios.

Bati nos ombros de uma montanha
e acenei: no sangue do poeta
tudo é talhante,
nada é suave.

 

NAVEGA

No turbilhão das águas,
cada vida
é um livro em reparo.
Fuga de cidades
que são como barcos
que se perderam
sem mastros.

Um imigrante
no além-mar, atravessa
um iceberg sem coração.

Já não faz diferença
o que encanta e incomoda,
o que não se repete
e por dentro morde,
o que de externo
o destroça.

Ele inventa uma pátria
como quem é abraçado
por uma terra
onde corre   leite
e hidromel.

WERA

Você mora tão longe
e o meu coração te busca
sem saber os nomes
das ruas de Estocolmo.

Sem saber como
é uma gripe no outro lado
do oceano ou as cores
dos lençóis da tua cama.

Não sei sueco,
mas toca no meu peito,
aqui dentro, o teu nome
feito um sino reverbera.

TEOPOÉTICA

Acalmar a loucura
que transborda
da ânfora do juízo
e mostra
que não sou um homem
de águas calmas.

Sou um fugitivo
das coisas fáceis.

Sem manuais
e opiáceos
para administrar minhas fissuras,
dormi numa plantação de tabaco.
E namorei o perigo,
nas tempestades
dos olhos de um sábado.

É tão sagrada a sonoridade
de uma cigarra
que de joelhos
faço uma teologia do nada.

Procuro Deus dentro de mim,
o encontro no escândalo
de uma lua em pássaro.

OFÍCIO

No poema

nenhuma
luta foi em vão,

há sempre
um contentamento,

uma garota
que amou,

um coração atento,

um repente
de momento
e uma semente
que brotou. 

ROSÁCEA

Uma rosa
foi dada para ela:
em sua frivolidade,

pede uma joia nada
singela. No pedido,
uma lâmina que fere.

Moça, não sabes que
mesmo com a ave
infensa, é no leve

solfejo de um botão
que se faz uma flor.
Se a imensidade de

uma rosa ela não
entende, nunca vai
afagar os mistérios

da vida. A semente
do verbo só se abre
para quem acolhe.

 

HAUSTO

O tour ao anel de saturno
passou. Já não bebemos

da mesma vinha e nem
dividimos o mesmo pão.

Corto relações e a tristeza
me advinha, fazendo de

cada nome uma miragem,
como se fôssemos anjos,

nocauteados na última
tribo nômade de São Paulo.

INUSITADO

A corola
de uma aurora
não é universal,

a poesia
é um triângulo
de cinco lados.

TEMPESTIVO

De repente a viagem
mudou.
A estrada agora é pasto
para muitos bois
 e no outro lado da aventura
peixes chegam
atrasados no deserto.

Na montanha
um eremita fica viúvo
da solidão –
atira no pássaro
porque já não é um homem de paz.

Ele agora procura um bar
como aqueles
de um filme de faroeste.

Em Gotham City,
uma garota lê
a imitação de Cristo
e coloca uma rosa dentro
do sapato.

SPINOZA

Não adianta
lutar contra

o que não
somos páreos.

Sabedoria
é domar

os ventos
contrários.

♦♦♦

Tito Leite nasceu em Aurora/CE (1980). É poeta e Monge beneditino, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É autor dos livros de poemas Digitais do Caos (Selo edith, 2016) e Aurora de Cedro (7letras, 2019). Dilúvio das Almas (Todavia, 2022) é o seu primeiro romance. Participou das antologias Sob a pele da língua – breviário poético brasileiro (org. Floriano Martins, Arc Edições, 2019), Revista Gueto: edição impressa n.1 (org. Rodrigo Novaes de Almeida, Patuá, 2019).

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