POEMAS DO LIVRO ” RENASCENÇA” de Riz de Farelas

Eu não insisti em andar pelos campos da saudade

Ele foi caçar sonhos
com uma rede de pegar vaga-lumes
só não avisaram o menino que sonhos não
brilham no escuro.
Eles brilham dentro do coração.

escrever é a força do poeta Continuar a ler “POEMAS DO LIVRO ” RENASCENÇA” de Riz de Farelas”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS (III)- por Lucio Valium

ARMAÇÕES

manhã negrume gruas pinças
bisturis a rasgar o corpo da cidade.
cabos de aço. sufoco de redes neuronais
doenças no desenho de labirintos.
grades nas ruas ao alto para encantar a vida dos lordes
torturas babadas em majestosos gabinetes.
e nós animais visuais
avançando para evitar o cerco.
desprezando os feridos e a máquina
ávida de obediência e de presas.
e nós animais de memória
cansados de olhar fixo na garra mortuária.
alimentamo-nos de pétalas e vinho no fundo do bosque
onde vemos ao longe o fumo da engrenagem.
lemos em nossos cadernos fórmulas tenebrosas
apontamentos para ser simples na terra.
e nós aqui ainda colhendo flores e imaginando frutas
nós em asco odiando engalanados crápulas.
os que rejubilam com projetos de luxo letal
nós em estratégia sem meios. quase desterrados.
somos meigos em nossos esconderijos e endurecemos
vendo o espetáculo infame quase já sem humanos.
as máscaras tão vazias
uma epidemia irreprimível de cenários de lucro.
o esgoto o nojo o vómito
eu não estou deprimido estou vivo.
leio os personagens em seus artifícios
que querem rapidez e limpeza.
são autores que deixam marca
na crosta terrestre onde espalham carne quente.
e nós viventes em invenção
ainda comemos em mesas limpas.
com suas toalhas humanas
e bebemos para acariciar o coração do tempo. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS (III)- por Lucio Valium”

UM NADA SEM PRANTO – Januário Esteves

 

Um nada sem pranto
Alento ou vaga de ar
Trémulo de encanto
Só por si me faz o mar
Sozinho no espaço
Me quebro em cautério
Dando-me, enlaço
Nenhum mistério
Por isso sou possuído
Dum canto esvaído
A um outro mar
Impossível de navegar Continuar a ler “UM NADA SEM PRANTO – Januário Esteves”

POEMAS DE ISI DE PAULA

alóctone

tenho memórias que molham
as plantas que crescem
enquanto observo o tempo
de suas raízes

tenho novos amigos
que me são morada
tenho novos amores
que são meus países

não sou daqui
desse chão

mas nele enterro os meus pés

♣♣♣

rascunhos para um romance

o cenário é essa cidade
anti-utópica pós-europeia
triste ainda que trópico
e ainda
que construção também já ruína

o cenário é essa cidade
sobre a qual paira sempre
uma camada fina de suor e saudade

somos duas protagonistas
que esqueceram as réplicas
atravessando as pontes
entre os continentes

nesse capítulo que não é feliz
mas também não é final

♣♣♣

filtro com nome de cidade

resgato
de dentro
da nuvem
milhares
de nuvens

cópias de risos sem som
inéditos como cada céu
sob os quais beijamos um verão
que os últimos raios de sol
dissolvem

♣♣♣

abro mais um vinho e ofereço
uma taça aos fantasmas do passado

ainda há palavras presas no gatilho
e o passado é um poço
onde cada gota de agora vai pingando

a isso brindamos
e escrevemos juntos
um poema auto-psicografado

♣♣♣

uma borboleta bate as asas na ibéria
e provoca assim esse teu sim de última hora

por isso nos encontramos
na esquina do acaso

viver é isso:
nunca poder prever
qual será o movimento
que ativará o mecanismo
da máquina do destino

♣♣♣

pausa para um café

a toalha de mesa repleta
de grãos de lágrimas
é com estrelas que adoço
o céu da boca

é carne viva a memória
que o açúcar estanca

duas colherinhas
decantam o verso e a nossa
versão dos fatos

escrever um poema
à dissolução
na palma da mão da mãe
prever o passado

linhas moldadas no massap
todo açúcar vem do mesmo barro

e toda terra vem do mesmo céu
onde agora ainda brilham estrelas
que já se apagaram

♦♦♦

Isi de Paula (Recife/Brasil), jornalista e doutoranda em Literatura comparada pela Universidade de Lund.

A POESIA DE CLARISSA MACEDO

Olokum

Que estranha forma de vida, essa
onde não te posso tocar
ou
enxugar as lágrimas de teu rosto
com meus cabelos,
meus infinitos cabelos
que tuas mãos aparavam na era da infância
sob a tesoura enferrujada.

Aquela tesoura sou eu, trêmula,
desfeita no espelho da carne.

Ciência

Afastar os monstros do quarto
requer ciência:
esconder-se pelo edredom
acender a lâmpada
tirá-los de sob a cama.

Há formas de afugentar os monstros,
inclusive aqueles do armário
que se mexem ao dormirmos
e nos olham baixinho
como fossem lentos fantasmas,
velhos de tanto limbo e provação.

Para arrancar os monstros é preciso ser capaz:
agarrá-los bem forte,
para que, no tormento do abraço,
rebentem de humanidade
e não voltem nunca mais. Continuar a ler “A POESIA DE CLARISSA MACEDO”

POEMAS DE LOS EXTRAVIADOS – de Claudia Vila Molina

Poemas extraídos del  libro Los Extraviados

Desnudez terrenal

Hace algunos años, el viaje volvió a rescatarnos y cada vez que mi mente se halla extraviada, los colores cambian continuamente.  Tú y yo nos envolvemos en estos lazos y descubrimos el sentido y así desnudas podemos atarnos a las raíces y volver a los ritmos de la tierra. Nuestras hojas comienzan su verdadero peregrinaje, saltamos las líneas que nos mantienen separadas, porque el dolor se vuelve arcilla y es un rastro que quisiéramos desconocer; pero el canto tiene otros matices, llamaradas diferentes: bocas se alimentan del tiempo y ojos comienzan a mirar. Continuar a ler “POEMAS DE LOS EXTRAVIADOS – de Claudia Vila Molina”

DA PERMANÊNCIA E DA ESPERANÇA – por Maria Toscano

 

Soneto de AVISO à Morte, tão indesejada quão real
[nesta semana em que me morreram 4 queridos]:

Morte respeitável, aqui e agora,
solenemente, enquanto lavo o rosto,
declaro-te que tirei esta semana
para acatar as tuas precisões.

É verdade que, tu, tens desvantagem
se compararmos a duração do viver
e o tão mínimo e imprevisto tempo
que basta para te manteres activa.
.
Nem sempre são muito próximos nem íntimos
Os que levas, forças ou libertas.
No afã de confirmares tua presença
.
Marcas a fronteira entre o que é e foi,
Desenhas e apartas más de recordações boas
E, sem quereres, aumentas o valor da mera vida.
.
Figueira da Foz, 10 Jan 2024. Continuar a ler “DA PERMANÊNCIA E DA ESPERANÇA – por Maria Toscano”

A POESIA – de Maria Joanna Santos

O VESTIDO BRANCO

Noite passada, eu sonhei com a pureza em forma de vestimenta. Acordei e lá estava, o vestido branco que embevecia quem o visse. O vestido ao qual refiro-me é curto mas modesto, ele espraia candura sobre a curva carnal dos meu ombros, santifica o ser que se sacrifica, e sob a luz do sol de estio lembra o tule de um dossel. O vesti e pela primeira vez pude sentir o gosto adocicado da cor branca, a cor que deliquesce e se esparge languidamente sobre o meu corpo como o leite derramado em um chá servido em uma xícara de porcelana. O vestido é branco como a neve, adornado com fitas de cetim e possui uma anágua de renda que cobre a pele como uma mortalha. Saí do exílio em meu quarto —, a minha fortaleza com aroma de lavanda, o aposento onde durmo plácida em leito celeste e sou assombrada pelo meu próprio reflexo no espelho d’água, e fui de encontro à floresta enveredar o caminho de terra que levou-me às criaturas que vivem ali. Simultaneamente encantada e intimidada pela beleza feérica do lugar, fui impelida diretamente para uma nova espécie de exílio. As flores brotavam timoratas e os pássaros chilreavam baixo quando eu passava. De repente, olhei para baixo e notei que o vestido outrora imaculado estava eivado de sangue como as palavras sagradas de uma litania escrita em papel ebúrneo que fora manchado de vinho sacramental. Fui ingênua ao pensar que a pureza de um vestido branco se sobressairia sobre as nódoas da alma. Mas o ato de velar-me em branco fazia com que eu me sentisse capaz de derrotar a minha própria corruptibilidade ao invés de ser derrotada por ela. Antes mesmo de tê-lo, eu pensava em maneiras de preservar a alvura do vestido. Ele seria mantido no fundo de um baú, mas nunca ficaria empoado. O vestido ao qual refiro-me é branco como as penas de um cisne, uma pérola, um calcário ou um canteiro de lírios. Assim que o visto, ele suscita em mim o sentimento de afundar em um lago de pétalas de camélias brancas. Continuar a ler “A POESIA – de Maria Joanna Santos”

POEMAS – de Luiz Renato de Oliveira Périco

 

PNEUMATOLOGIA

rir é respirar
de um jeito diferente
o ar entra e sai
de outra forma da gente

inspiração expiração
mudam na mesma hora
respirar também muda
quando a gente chora Continuar a ler “POEMAS – de Luiz Renato de Oliveira Périco”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS II – por Lucio Valium

Le temps menaçant by R. Magritte

  BLUES

Blues na cozinha. O som entrava pela garganta das botelhas amontoadas. Depois saí da hospedaria para vadiar. Fiquei algum tempo recostado na avenida central. A sala de visitas dos meninos de botão de punho. Gestores de sítios terrestres. Passei na estação. Havia gajos a tocar. Subi ruas estreitas de tascos e putas batidas. Sem rumo. A mente não escrevia. Indiferente, de olhos no chão, ia por vielas sujas lentamente. Ninguém interrompeu esse corpo invisível. Estava fora do ritmo. Temporal cardíaco. Um dia andou por aí um desterrado que caminhava. De regresso a esta mesa escrevi pequenos textos com palavras de outros. Um gozo o roubo de materiais sem proprietário. Nada de novo. Entretanto o mundo segue infetado de sangue e medicado com espetáculo. Infantil, mercantile, infame. Nas redondezas arrancam-se casas como dentes. Instalam-se implantes do negócio devorador. O confronto contínuo, sanguinário. Parcelas de chão para encher os cofres e despojar humanos. Vejo cada vez menos pessoas. Muitos foram-se embora. Vivemos o jogo da vida. Escolher o lugar onde deitar os ombros é escrever um tempo. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS II – por Lucio Valium”

MATRIOSKA E OUTROS POEMAS – de Kissyan Castro

MATRIOSKA

que vontade de me meter
outra vez no menino
despir o incêndio da idade
ser o desperdício de mim
em pés alheios

com a urina demarcar
o enigma do totem:
um circuito de cicuta
no beiço da memória

abrir em mim mesmo minha fuga
para dar de cara enfim
comigo Continuar a ler “MATRIOSKA E OUTROS POEMAS – de Kissyan Castro”

POEMAS INÉDITOS – de José Pérez

POEMA SEM GALINHA NEM FEIJÃO

Tradução de Anderson Braga Horta*

A panela
              nua e fria
esqueceu os caldos
o fumo da tarde
a lenha estalejante (o fátuo fogo)
verduras e sais

A mão que lavava sua pele
jaz vencida e prostrada
vazio adentro da casa solitária
os filhos muito longe
Chile Argentina Peru
Brasil Colômbia Equador

Chamam diáspora a esta solidão
eu a chamo vento derrota lágrima
fastio céu caído

Se algo deixou tristeza
caducidade
desamparo
foi o pranto da mãe
e esta panela vazia

As bananeiras do quintal são cicatrizes
do barranco
as folhas sem varrer
onde antes houve jogos de meninos

as aves de cercado e o louro
só deixaram penas na terra

algum sismo levou a alegria do lar
a inocência da criançada
o olhar de amor dessa mãe

algum punhal cortou sua língua
rasgou seus trapos
derrubou as gamelas de lavar
os talheres de pobre
as máquinas de costurar as calcinhas

algum alfinete espetou seus olhos ternos
apagando ilusões sonhos e esperanças
prostrada na velha cadeira de madeira
consumida nas poeiras da tarde

Ninguém semeia junto à casa os feijões
carreiras de milho
ou amores-perfeitos amarelos

As borboletas passam como fantasmas inocentes
alguém tosse e se apaga
enquanto as portas de outro mundo deixam cair
desvencilhados raios apontados ao paraíso

Depois das cinzas
resta apenas um poema
sem galinhas nem feijões
nem sóis à vista Continuar a ler “POEMAS INÉDITOS – de José Pérez”

POEMINHOS (91-100) – por Jaime Vaz Brasil

91.

O sabor não mora
na língua ou na fruta.

Nasce na hora
em que as duas

na gruta viva da boca
se encontram.

Nuas.

Continuar a ler “POEMINHOS (91-100) – por Jaime Vaz Brasil”

DAS INTERMITÊNCIAS DA INFÂNCIA – por Christian Dancini

UM POEMA INFANTE

Como era febril a brisa da manhã…
Aquele vento seco e gélido que raspava
meu rosto, difundia borboletas amarelas
nos pilares do amanhecer.
Eu sentia medo e frio, não conhecia
aquela escola e tinha apenas sete anos.
A tua loucura ébria me deixou confortável
para ser eu mesmo. Tua voz ruminava
nos meus pensamentos mais íntimos.
Era agosto, e o frio percorria a espinha.
Teu riso, teu corpo em movimento, tua pálida
razão… era como cavalgar um anjo, como existir
dentro do quasar do amor.
Tu foste meu anjo caído, loiro e pueril;
um naufrágio dentro do teu regaço agora
tece, ponta por ponta, os fios infinitos da memória.
Brincávamos de gangorra, de balanço, eu não estava
mais só, alguém me ouvia e me existia, me esperançava e
me imortalizava.
Sei que posso ser a sombra da tua sombra hoje, mesmo
que aqueles risos quentes tenham criado a nossa infância,
mesmo se pudéssemos voltar no tempo…
eu nunca mais me senti tão radiante, eu era capaz de
fruir pinheiros no lume dos colossos que residem nos céus.
Estojos, cadernos, trabalho em dupla, sonhos, adeus… Continuar a ler “DAS INTERMITÊNCIAS DA INFÂNCIA – por Christian Dancini”

TRÊS ANOTAÇÕES VAGAMENTE ERÓTICAS- por A. Sarmento Manso

TRÊS ANOTAÇÕES VAGAMENTE ERÓTICAS:

DE  D E S E J O –  DE  M A R – DE  V E R Ã O

para a AC

D E S E J O

Estão os dois sentados na areia junto ao mar. Ela entre as pernas dele encostada ao seu peito com os olhos semicerrados protegidos pelas lentes escuras a fitar o horizonte. A tranquilidade do mar é a mesma do seu corpo bem definido.

Ele acaricia esse corpo que tanto o atrai. Os caracóis fartos do cabelo dela afagam-lhe o rosto à medida da brisa que vai correndo. Os braços dele envolvem o seu corpo coberto com um leve vestido que deixa entrever uns seios bem proporcionados. As suas mãos descem pelo interior do tecido e suave e meigamente vão massajando essas sinuosidades de formato arredondado com movimentos leves e pausados, acariciando o bater lento de um coração descansado. Mamas bem proporcionadas, de dimensão certa e textura agradável. Os dedos das mãos, abrindo-se e fechando-se vagarosamente, demoram-se na auréola acastanhada dos mamilos que ocupa alguns centímetros e se eriça nuns biquinhos duros, pequenas setas de prazer que desejam romper para o infinito. Continuar a ler “TRÊS ANOTAÇÕES VAGAMENTE ERÓTICAS- por A. Sarmento Manso”

WILLIAM BLUTLER YEATS traduzido por Heitor Freire

Yeats e a transitoriedade: alguns poemas curtos

1

A meditation in times of war

For one throb of the artery,
While on that old grey stone I sat,
Under the old wind-broken tree,
I knew the One is animate,
Mankind inanimate phantasy.

Uma meditação em tempos de guerra

Por um pulsar da artéria
Enquanto sentava naquela velha pedra cinza,
Sob a velha árvore quebrada pelo vento,
Eu soube que o Um é animado,
Fantasia inanimada da humanidade. Continuar a ler “WILLIAM BLUTLER YEATS traduzido por Heitor Freire”

TRÊS POEMAS DE JANUÁRIO ESTEVES

 

Eon

Daqui a um milhão de anos estaremos no jardim das delicias, como seres espirituais incorpóreos
Terraformando planetas secos e sem vida em paraisos artificiais, movendo-os para próximos de estrelas mães
Para que a luz se liquidifique e a fotossíntese aconteça
Nos abraços espiralados da simbiose das orquideas
Com os cavalos marinhos transferindo os genes para
Alienígena que vai habitar o novo mundo tenha os números certos que o seu criador lhe deu para viver
Em harmonia com a natureza e entre si, alimentando-se sómente do ar que os pulmões transformam em alimento
E a vida exista sem punição eterna num limbo cósmico. Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE JANUÁRIO ESTEVES”

DEZ POEMAS EXISTENCIAIS – por Henrique Duarte Neto

© Quint Buchholz

O dilema da vontade num diálogo fictício entre Schopenhauer e Nietzsche

– O querer é dilacerante!
– Sem o querer não se sai do lugar!
– Fiquemos parados então!
– A apatia é a arma dos fracos, a Vontade de Potência dos fortes!
– Há mais sabedoria em negar um desejo do que em sucumbir a ele…
– Típico de um homem que se guia só pelo pensamento!
– Ora, meu caro, típico de um homem que se guia só pelas glândulas!
E o diálogo durou ainda por muito e muito tempo… Continuar a ler “DEZ POEMAS EXISTENCIAIS – por Henrique Duarte Neto”

POEMINHOS – 81-90- por Jaime Vaz Brasil

 

© Noell Oszvald

81.

Grave,
o passado rege os passos
e o espaço da História.

Apressado,
o futuro acena e nos chama
reclama nossa demora.

Mas a vida
é agora. Continuar a ler “POEMINHOS – 81-90- por Jaime Vaz Brasil”

O PESO DO ESQUECIMENTO // The weight of oblivion – por Luciana Moraes

 

White-autumn, by Mariam-Sitchinava

O peso do esquecimento

I.

A flor é beijada pela peste.

Como uma palavra primitiva

do português, o triunfo da

civilização é /pequeno/

é a soma das patas quebradas

de um colibri, morto pela

espingarda de ontem. Continuar a ler “O PESO DO ESQUECIMENTO // The weight of oblivion – por Luciana Moraes”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS – por Lucio Valium

The Door To The Clouds” by Christian Schloe

UMA NUANCE NAS NÓDOAS

PELE

eu procuro a luz senhora.
uma luz de pele nua.
viva.
em abandono.
uma eternidade fêmea
e o suave rosnar das peles.
música arrepiante
engolindo lentamente o abismo.
eu procuro a luz de fogo.
negro como uma ideia livre.
e o licor demencial.
a doçura aterradora dos corpos.
serpenteiam entre si como águas gélidas
nas rochas quentes.
eu procuro a luz senhora.
uma luz de gato. noctívaga.
luz de vinho. sanguínea.
sem rédea.
e solar.
vejo-a por vezes na madeira da mesa
inundada pelo sol gato.
errante. solitário. altivo.
como os que denunciam a morte da vida.
com seus corações felinos.
essa luz foge para a lua
e vem queimar-nos a pele.
deitados na cama no tempo.
beijando línguas
amando a espiral.
assim voamos nas inebriantes
partituras.
não tendo ouro como lei.
a senhora sabe de luz.
a sua pele é o lugar
onde o gato a encontra.

Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS – por Lucio Valium”

POEMAS INÉDITOS – de Carlos Barbarito

Obra de Ricardo Navarro// Fotografada por Charlie Soto

Invisible pero, como todos…

Invisible pero, como todos, pesado y numerado.
El calor del sol me quema, tal vez, un poco más
y ante mis ojos se extiende un desierto
por el que erran desaladas criaturas.

Continuar a ler “POEMAS INÉDITOS – de Carlos Barbarito”

TRÊS POEMAS – de Douglas Laurindo

O limiar das fendas

e como eu caminhasse
por aqueles pátios líquidos
de violência falada,
algo inesperado se via:

a fenda é o espaço
estreito no qual o fio
morte e vida termina. Continuar a ler “TRÊS POEMAS – de Douglas Laurindo”

AS RUAS DE POMPEIA – por Francisco da Rocha

 

In memoriam omnium Pompeianorum plebis
perierunt anno LXXIX A.D.
Pompeii, Aestate MMXXI.

Num meio-dia escaldante de Verão,
Perambulávamos pelas ruas desertas de Pompeia
Espiávamos pelas janelas abertas das casas e vilas destelhadas,
Hipnotizados pelos objectos carbonizados e mudas, petrificadas estátuas humanas,
Pestanas semicerradas contra os raios solares omnipresentes
Que pareciam envolver as testemunhas do Passado numa luz ofuscante,
Impressionados diante dos templos vazios, em silêncio pensante,
Ansiosos por ouvir os ecos das orações nunca atendidas,
Pedidos e suplícios dos adoradores de numes há muito extintos. Continuar a ler “AS RUAS DE POMPEIA – por Francisco da Rocha”

POEMAS – de Henrique Miguel Carvalho

 

BIBLIOTECA

demasiadas
                palavras,
um supérfluo
de frases
                empilhadas
                por toda a parte

em colunas
                 de equilíbrio,
atravancando
a casa
                 de mofo
                 e cheiro a papel Continuar a ler “POEMAS – de Henrique Miguel Carvalho”

TRÊS POEMAS – de Marcelo Torres

ser

pode o ser nas tradições orais ir além das estruturas
feito um pássaro cortês da diversidade,
              ser um animal aqui perto do coração,
não podemos ir adiante enquanto os gigantes mamíferos
             são destruídos em alto mar
                          como conchas pisoteadas por estátuas,
continuar a mimese é o que chamo de obsceno,
os homens predadores sorriem junto com a morte
sem vontade para o debate ecológico,
seguem a lógica de conquistar territórios, de touros de ouro
na Faria Lima sem sonhos,
à medida que ando, o urbano me fere na vesícula
               que reproduz em 3d a fome sem enfeite
ontem encontrei uma garota/totem,
procurava um guia com jipe, para ir na direção das cavernas

(Poema do livro: Infernos Fluviais e por que nunca conversamos sobre Nick Cave?. Editora Clóe, 2023) Continuar a ler “TRÊS POEMAS – de Marcelo Torres”

A MADRUGADA A DOER – de Maria Gomes

Art © Roberto de Mitri

 

A madrugada a doer, a doer-me muito.
Na memória que guarda o teu nome
este cantar lúcido das águas.
Tu és belo como esse canto, esse perfeito tiro ao alvo
ao fundo da noite
perfurando as fogueiras adormecidas.
Que segredo se oculta, em esplendor, onde teu corpo habita?
Quem te nomeia nesse mar tão branco?
O que amas?
A orla do rio, ou a raiz deserta?
A madrugada a doer, a doer-me muito.

♦♦♦

Maria Gomes nasceu em Benguela, República de Angola, em 1958. Foi professora de artes visuais e trabalhou em contabilidade após a independência daquele país. Vive em Coimbra. Tem poemas publicados no Jornal de Angola, nas antologias de Poesia 1 e 2 ” Escritas” sob a edição do poeta José Félix, em outras revistas de literatura na web, e na revista de Poesia de Tradução Di Versos nº 8 de Edições Sempre-em-Pé. Participou no poema ” O Estado do Mundo”, poema criado no ciber espaço, no âmbito de Coimbra, Capital Nacional da Cultura 2003, a editar brevemente em livro, e participou na II e III Bienal de Poesia em Silves, em Abril de 2005 e de 2008.

 

 

ENTRE A LUZ E O CREPÚSCULO – de Maria João Oliveira

LUZ NO CAMINHO

Escutas o silêncio
Para não perderes
O murmúrio dos meus lábios
Um silêncio onde respirar
Se torna mais fácil
Uma transparência que mostra
A areia no fundo do rio

És a Fonte onde os pássaros
Bebem e cantam
E no teu rosto, a Luz poisa
Reconhece-te, pertence-te
Como o perfume pertence à flor. Continuar a ler “ENTRE A LUZ E O CREPÚSCULO – de Maria João Oliveira”