“BAÚ DA POESIA”: DOIS POEMAS – de Amorim de Carvalho

BALADA HERÓICA DA LIBERDADE[i]

Por altas horas da noite é suspeito quem não há-de
já dormir… Anda a polícia de ronda pela cidade…

Fogem sombras, correm sombras, umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Por altas horas da noite pus-me a pensar: Que sentido
de existência pode haver em se ter ou não nascido?

Que sentido tem o vôo dos homens que à Lua vão,
para quem o vê apenas das grades duma prisão?

Que sentido tem o oiro a arder, ao sol, na seara,
para a noite sem manhã daquele que o semeara?

Ó liberdade do mundo, mas liberdade sem fome!
Ó mundo só inda em alma e por isso inda sem nome!

Por altas horas da noite eu pensei, pensei que um dia
pelo milagre de todos esse mundo se faria…

Nisto ouvi bater à porta, ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrava, e entrou para me dizer

que não pensasse! Este mundo era como Deus o fez…
Desta vez me perdoavam, sem perdoar outra vez.

Corriam, fugiam sombras… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Como faz medo pensar, fiz do pensamento um sonho.
Por altas horas da noite então a sonhar me ponho.

Pus-me a sonhar, a sonhar a mesma ideia querida:
tornar o mundo melhor para dar sentido à vida!

Por altas horas da noite ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrou, entrou para me prender.

Eu lhes disse que era um sonho. Olharam-me face a face.
Não sabiam o que fosse; disseram que eu não sonhasse,

porque o mundo tinha, sempre, de ser como Deus o fez…
Mais uma vez perdoaram, sem perdoar outra vez…

Sombras na noite fugiam… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Como faz medo sonhar, fiz do sonho uma canção.
Cantei-a numa voz alta, alta de revolução!

Não quero o mundo de Deus que fez o Bem com o Mal!
Que Deus se julgue a si próprio no Julgamento Final!

Eu quero o mundo do homem, mas que o homem, livre, o faça
universal como a luz e aberto como uma taça!

Eu não quero a cruz gamada nem o martelo com fouce:
porque este traz a polícia, e aquela a polícia trouxe.

Nem o martelo com fouce, nem a cruz gamada quero!
Quero o arco da aliança a cobrir o mundo inteiro!

Quero as suas sete cores, como bandeiras ao vento,
do amarelo das searas ao azul do pensamento!

Ó Sonho só inda em alma, e por isso inda sem nome,
de homens cidadãos do mundo, mundo livre mas sem fome!

Vamos dar um nome ao Sonho que na nossa alma vive:
a Liberdade no mundo, mundo sem fome mas livre!…

Por altas horas da noite, assim, assim cantei eu
a canção das sete cores, sete bandeiras no céu!

E a minha canção heróica, lívida, linda, suave,
saíu-me louca da boca e voou como uma ave!

Todos põem-se a cantá-la, aonde quer que ela fôr!
Essa canção do meu Sonho! Sonho do mundo melhor!

Já não há sombras que fogem, não há sombras que se escondem.
Mas homens que dão-se as mãos, corações que se respondem! Continuar a ler ““BAÚ DA POESIA”: DOIS POEMAS – de Amorim de Carvalho”

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

Tal qual uma folha

tornou-a de tom castanho o tempo
depois de a deixar viver com a cor das esmeraldas
viçosa, nascida anúncio de força com tamanho de vida
logo se juntou às aves, às flores e às ondas
cá dentro, desejo contido de a fazer minha
finjo de longe que lhe toco
e que a abraço no dia em que foi eleita rainha
agarra-se à cor que ainda lhe resta
sem temer o vazio do pó que a espera
mais fraca sou eu, é certo,
que nada sei da natureza e das suas leis
sou capaz, porém, de morrer de saudade
mesmo sem nunca me ter inteiramente pertencido

vejo-a cair
segue uma linha, destinada à passagem da
tonalidade da vida

cai sem pressa
ainda há beleza nos últimos segundos de vida

somente para ser pela natureza compreendida Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

NA PRIMEIRA PESSOA: 8 DE MARÇO, DIA INTERNACIONAL DA MULHER – por Cristina Costa

Mulher de Guerra, Mulher Inteira!

Sou fogo, mas também água
danço entre o turbilhão e a calma,
entre a chama que me arde no peito
e a maré que me devolve a alma.

Sou forte, mas também frágil
porque a força vive no gesto que treme
no silêncio que pede colo,
na coragem de admitir que dói.

Sou tão afável como indelicada
porque ser mulher é ser contraste,
é ser verdade
luz e sombra no mesmo instante.

Sou amiga do meu amigo
dando o que não consinto a mim mesma,
o meu coração é casa aberta
porque me esqueço da sua chave.

Sou carinhosa, por vezes indiferente
porque nem sempre,
o mundo cabe no meu abraço
mas quando se lhe ajusta, desabrocha.

Sou arrojada por objetivos
teimo, insisto, recomeço,
porque a vida não me ensinou a desistir
mas a levantar-me depois de cair.

Sou apego e paixão
sou vento livre quando preciso,
sou raiz funda quando quero
sou escolha, sou caminho, sou mudança.

Sou mulher e sinto-me feliz
com as minhas crenças e princípios,
com a verdade que carrego no peito
com a história que escrevo todos os dias.

Sou uma mulher de guerra
não pela violência,
mas pela força de existir inteira
num mundo que me pede metades.

Felizes dias para todas nós, mulheres
que somos fogo, água, resistência, fragilidade
e tudo mais que quisermos ser…

♦♦♦

Cristina Costa – mulher, trabalhadora, estudante, amiga, cúmplice. Interessada pela surpresa dos dias e pela beleza da vida. 

AMANHÃ SERÁ VERÃO – por Jaime Vaz Brasil

 

Amanhã Será Verão

Eu sei, menina, que a vida
às vezes parece pouca:
meio morna e sonolenta
ou louca e quase demais…

Mas viver se faz
em tudo o que a gente inventa
e amanhã
amanhã será verão.

Eu sei que às vezes faz frio
sei do vazio e da sombra:
parece morta a semente
no berço branco da neve… Continuar a ler “AMANHÃ SERÁ VERÃO – por Jaime Vaz Brasil”

BREVÍSSIMA ANTOLOGIA POÉTICA DA CARTOGRAFIA DA PRESENÇA – por José Paulo Santos

 

 

Há Em Mim Essa Asa
Não são penas, não é metal.
É memória de vento, é sopro de quem não desiste.
É o que se ergue quando o chão racha, quando a noite engole os passos, quando o mundo sussurra “desiste” e o coração responde: ainda não.
Há em mim essa asa —
não para fugir, mas para voar sobre o que dói.
Para carregar o peso dos dias como se fossem nuvens — pesadas, sim, mas que se dissolvem ao toque da luz.
Para olhar de cima o caos e, ainda assim, encontrar o mapa das estrelas dentro do medo.
Ela nasceu nos silêncios entre um grito e outro.
Nos instantes em que o corpo tremia, mas a alma teimava em não dobrar.
Nas madrugadas em que a dor era mais forte que o sono, e eu, mesmo assim, me levantei — porque amar é também resistir.
Porque amar é aprender a voar mesmo com asas molhadas de lágrimas.
Esta asa não foi dada. Foi forjada.
Em quedas que ensinaram o ar.
Em quedas que ensinaram o voo.
Em quedas que ensinaram que o céu não é destino — é escolha.
E cada batida, cada esforço, cada arranhão no vento, é um verso escrito com o sangue da tenacidade.
Ela sabe o peso do amor — não o amor fácil, de flores e abraços, mas o amor que se curva, que se rasga, que se recompõe.
O amor que segura a mão na tempestade, que acende o fogo no inverno, que diz “vamos” mesmo quando o caminho desaparece.
Há em mim essa asa —
ela não me leva apenas aos céus.
Leva-me ao centro de mim mesmo.
À verdade crua, à beleza ferida, ao conhecimento que nasce da dor e se transforma em luz.
Leva-me a entender que elevar-se não é escapar da terra, mas honrar sua gravidade — e ainda assim, dançar com o vento.
Então, quando o horizonte se fechar,
quando as nuvens se tornarem muros,
eu estenderei esta asa —
não por orgulho, mas por promessa.
Porque há em mim esta asa…
e ela é o meu sim.
O meu sempre.
O meu amor que não morre — que voa.
E o avião descola.
Mas eu já voava sem asa. Continuar a ler “BREVÍSSIMA ANTOLOGIA POÉTICA DA CARTOGRAFIA DA PRESENÇA – por José Paulo Santos”

o papel serve apenas à nomeação – por Maria Toscano

 

o papel serve apenas à nomeação

conheço o sal da tua pele”, Jorge de Sena

1
a tua pena choro.
o desperdício.
o abandono.
.
da tua ânsia vibro / compassos / sincopados
.
da tua voz intuo

sonhos e desencantos
o baloiço da tua pele reconheço / oiço
.
da tua alma digo / a vogal.
.
e vogamos.

2

três novos planetas descobriram
e os astros ficaram desencontrados
.
.
isso que importa?
de outro tempo somos a estrela

o devir

3
arrepiada inteira e sem portado
— minha alma aberta
casa negra e branca
que fado.

4
vens

pela minha mão
até ao texto
.
.

és prece? verso? voz?
.
.
desces devagarinho até às linhas
onde fazes o que não digo.
me realinhas.
.
o papel serve apenas à nomeação.
.
és o aquilo em que me movo.
.
Maria Toscano

Coimbra, Café ‘Cartola’, 2 e 27 Setembro/2004.

♦♦♦

Maria (de Fátima C.) Toscano, Doutora em Sociologia. Docente Universitária, Investigadora e Formadora. Coach e Trainer em Programação Neurolinguística.

EL TIEMPO HABITADO – de Pompeyo Pérez Díaz

 

EL OLOR DE LA COMPOTA DE MANZANA CON CANELA

                                                                    Almost Blue
                                                                    Elvis Costello

Me lo dijiste una vez
el olor de la compota de manzana
con canela
es una razón para vivir
y al verte
con uno de esos camisones
blancos   que usas
como de otra época
(aunque cortos)
en mi cocina de pared roja
preparando el café
al observarte   allí inmóvil
bailarina de Degas
descalza preparando
el café en camisón
pensé que ese instante
el tiempo detenido
era como el olor de la compota
de manzana con canela
y te robé una foto
te volviste
posando para otra   sonriente
posición de reposo
y ahora echo de menos
las distintas formas
de tu risa incontenible
que nos hace sentir seres
inmortales el modo en que miras
a tu alrededor la singular
delicadeza de tu pensamiento
tu extravagante manera de hablar
y (tal vez) me inquieta aceptar
que todo cuanto extraño
sea (solamente)
casi tú
Me lo dijiste una vez
y me dijiste una vez
cuánto te gustaba recorrer
con un dedo
cada rincón de mi torso
para ti un perfecto
triángulo invertido
mi forma de andar inconfundible
aguardar con paciente
ternura a que expusiera
alguna de mis ideas absurdas
sobre lo bello y lo efímero
y no puedo olvidar
cómo intuiste   adivinaste
desde el principio   mi sentido
del humor extraño
(lo llamo humor oblicuo)
mi extravagante manera de hablar
todo cuanto crees desear
tanto y que   tal vez
sea (solamente)
casi yo

pero escribimos  nuestros nombres
con tu lápiz de labios
en el libro de visitas
del Museo de Montmartre
y caminamos
entre las flores lascivas
que imaginó
Robert Mapplethorpe
nos reflejamos en decenas
de cristales   de espejos
bebimos grog y vinos de Borgoña
corrimos hacia aquella crêperie
bajo una tormenta
y ahora inventamos   susurramos
una transición dulce
hacia la nada

recuérdame

♣♣♣

SUAVEMENTE LAS LINEAS VIBRAN COMO LOS CARTELES

suavemente las líneas vibran como los carteles
sacudidos de viento en callejones sucios
las líneas de tardes girando en la habitación
o agazapado bajo melodías sinuosas
desentrañando misterios en las páginas
suavemente la amarga acidez del hastío
buscando huidas en carreteras solitarias
una radio en la gasolinera polvorienta
paisajes repetidos para sueños de autopista
en la desierta vigilia urbana faroles y pintadas
y el tedio en las lujosas danzas y en las citas
en algún desván tal vez mi imagen

♣♣♣

PARA TODA LA VIDA

Qué absurda memoria recreándose
entre irreales sombras que se estiran
qué oscuro silencio qué inmóvil todo
sólo momentos recuerdos de una calle
las solitarias horas los versos
los desgarrados sorbos de las copas

los delicados besos

qué extrañas cadencias inquietándome
qué invierno qué inmenso temblor de raso
figurando oleadas del malva al negro
qué olor morboso el de aquellos pétalos

y es el frío de los cristales rotos
la indolente luz en las aceras
el efímero descanso de los sueños
la creación amarga
qué heladas aristas brillando ahora
qué abandonado eco tu recuerdo
y el olor de la pintura aquel mes de lluvias
la suavidad de tus piernas y tus sábanas
el color de bronce de los viejos relatos
qué indiferente horror el de mis pasos
sólo sonidos miradas o palabras
como un espejo roto
para toda la vida

♦♦♦

Pompeyo Pérez Díaz (Santa Cruz de Tenerife, Espanha) é guitarrista clássico, escritor e psicólogo. Professor de Musicologia na Universidade de La Laguna, publicou numerosos artigos e livros de âmbito académico, mas isso fica fora do contexto da sua produção literária. Nesse campo publicou poesia, conto e ensaio de teoria da arte em Espanha, e há alguns meses foi editada uma antologia dos seus poemas pela editora El Taller Blanco (Colômbia).

A POESIA ESTÁ COM REFLUXOS, por A. da Silva O.

O silêncio abandonado
Amores futuros são passado
Ai deus o é

Nos subúrbios cheira sempre a crime passional
Praticado no centro histórico
Marido e mulher traficam sexo à mão armada

Ai deus o é

Uma chuva de diagnósticos
Uma tempestade num diagnóstico
Um diagnóstico a boiar num cadáver esquisito
De nenhures até ao acaso
O observado ao espelho faz reflectir o quotidiano
A paixão foi hoje enterrar mais um ente querido
As lágrimas caem dentro do pote das cinzas
Decote provocante da viúva
Ai deus o é
Uma desgraça semi nua e malfodida da cabeça aos pés
Perante o Sagrado
És um desgraçado

Pela porta do cadáver
Ai deus o é
Amigo
Então, problemas de coração?
Partido
Aí deus é meu amigo

Deus é o
Diz adeus
À sua fé

Perante o Sagrado
É um desgraçado

♦♦♦

a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita actualmente a revista Estúpida.

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

© mariam sitchinava

 

Conversão

é no escuro deste dia que vens?
tornei o meu quarto no absoluto
pois sei que é assim que te convém
dispostos à tua medida
paredes, tapetes e cama
e os candeeiros também
como queres que te espere?
sentada? ou preferes encontrar-me deitada?
e os braços? cruzados a simular certezas
ou caídos denunciando fragilidades?
seja como for, farás com que estremeça
com que me perca
com que me engula no tempo
por favor, deixa cair uma das tuas lágrimas sobre a minha pele
ou então, se ainda tiveres sangue dentro do teu peito gelado,
faz com que me entre directamente na boca
haverá grandeza maior do que te sentir pulsando nas minhas entranhas?
deram conta no mármore que morreste
tão ignorantes os simples sem desejos nem pensamentos
nada me importa que sejas sombra
a minha reverência basta para te agarrar
ouço-te, mesmo que me fales muito baixinho
e agradeço a companhia da tua mão parada
sem ti, nada mais do que uma pedra
inútil e deformada
pontapeada e esquecida
anda, anda       anda ainda hoje

já te pressinto debaixo da minha cama Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

VIRANDO HH E ANA C DO AVESSO – por Danyel Guerra

 

A OBSCENA SENHORA HH

 Hilda Hilst
Já a vist?
Já a ouvist?
Em que consist?

Hilda Hilst pensa
e logo exist, insist,
persist, sempre tensa

Ela só por chist
bebe um alpist*
dança twist
e não desist.

De punhete em rist,
Hilda sempre resist.
Com toda a bravura
Golpeia o mundo trist
da light literatortura,
essa droga dita dura
que nos causa tontura.

Tua Lori Lamby com furor
aquela Obscena Senhora
e as Cartas de um Sedutor
que depressa foi embora.

Hilda Hiiiilstérica,
Love game com o Vinicius.
Hilda Hooomérica,
Espreitando os orifícius.

Tu te insurgist
Tu investist
Tu sorrist
Tu até rist
Grande Hilda Hilst!

*aguardente de cana, cachaça Continuar a ler “VIRANDO HH E ANA C DO AVESSO – por Danyel Guerra”

OFTALMOGRAFIA – por Henrique Miguel Carvalho

 

PAISAGEM

eu entre
……………..as árvores
e a sós,
……………..trilho à sombra
……………..buscado

pelo escutar
……………..o clamor
oculto,
……………..o rumor
……………..inaprendível

entre frondes
……………..e ramos,
no contraponto
……………..e fugas
……………..ao vento

e no aroma,
……………..húmido
de aspecto,
……………..que cobre
este lugar
……………..ermo a todas
……………..as coisas

— até que,
……………..ouro e inflamado,
o sol remove
……………..e seca
……………..a paisagem

em clareira
……………..visível
e inoportuna,
……………..rodeando
……………..a cerca

em volta
……………..ao mundo,
para marcar
……………..o lugar
onde a humanidade
……………..estranha
……………..habita

— e serei
……………..eu o atento?
observador
……………..do ofício
……………..de tais espaços

ou serei
……………..mãos e braços,
e pés?
……………..dúcteis,
recusando, de si,
……………..as mesmas
……………..pegadas

quando,
……………..ruídos e artificiais,
fragmentos
……………..de outro
……………..presente
convidam
à vida,
……………..outra distante,
da qual me escuso,
……………..por desejo
e omissão,
quase
……………..fauno
……………..transformado

— quem são
……………..aqueles?
cujas
palavras
……………..já não percebo,
……………..cujos gestos

desencontro,
……………..a espécie
insólita,
……………..que tem
……………..por caminho

a estrada
……………..— de quem?
aquelas mãos
……………..de novelo
……………..e crochet

em explicações
……………..acerca
do caso morto,
……………..nesse êxodo
……………..insensívelinsensível

às formas
……………..da luz,
ou às emoções
……………..nativas
……………..das folhas

— de quem?
……………..as faces
cujos sons
……………..assim
……………..trocados

se confundem
……………..com a espessura
das paredes,
e se extinguem,
postais
……………..de viagem
enegrecidos
de um tempo,
……………..por longínquo,
à mercê
das linhas
……………..particulares
……………..de certa geometria

— e retorno
……………..o olhar, numa dança
de bruços,
de regresso
……………..ao corpo
……………..das sombras

labirinto
……………..inacessível,
perdido
……………..de trilhos
……………..e trajectos

onde fetos
……………..e ervas,
floresta mínima,
crescem,
……………..à guarda
……………..das copas

majestáticas
……………..das alturas,
pelo odor verde
……………..da verdade,
……………..tolhido

na sintonia
……………..estática
dos insectos
……………..e vocais,
……………..as aves delirantes

Continuar a ler “OFTALMOGRAFIA – por Henrique Miguel Carvalho”

POESIA DE – Pedro Miguel Dias

Desconfio das pessoas que ignoram a lua cheia,
das pessoas que não fecham os olhos ao ouvir
uma música preferida na rádio,
daqueles que não choram no cinema
por receio do ridículo,
aqueles que nunca pararam o carro na berma
para admirarem um pasto verdejante,
que nunca falaram com um cão como se
ele os pudesse entender,
pessoas que nunca reconheceram um tio ou um vizinho
nas figuras dos painéis de Nuno Gonçalves,
aquela gente que não sorri ao ver uma criança
lambuzar-se com um gelado de morango.

 São essas as pessoas que começam guerras,
que aumentam impostos,
que atiram pedras aos pardais da cidade,
que gritam ao telefone como se a conversa
tivesse de nos incluir,
que inventam sobremesas sem açúcar,
que cospem para o chão,
que abrem os pacotes de bolachas no supermercado,
pessoas que pisam as azedas amarelas
à beira dos carreiros do jardim,
gente em quem não se pode confiar! Continuar a ler “POESIA DE – Pedro Miguel Dias”

CINCO POEMAS PARA ESTE NATAL – por Raphael Yudin

As Ratazanas

as ratazanas terem sobrevivido até aos nossos dias
não choca ninguém
pela simples razão de que todo o animal raso
& inteligente chega naturalmente ao topo do vaso,
na hierarquia das Cidades Altas,
qualquer invertebrado será um dia alguém.

a ordem social cumpre rigor militar extremo,
mesmo quando simula libertinagem,
a disciplina básica de instintos primários naturais
garante com treino e perícia
amabilidade, tolerância e camaradagem.

as ratazanas são suficientemente astutas e disciplinadas
para vender um sorriso, abraçar um sem-abrigo,
pegar uma criança ao colo,
excepcionalmente bondosas para inventar uma cura científica
 que encha de esperança e consolo a Humanidade.

as ratazanas
 usam perfume francês

um amigo meu casou-se com uma ratazana
que tocava piano;

conheceram-se num restaurante
ilegal chinês

o outro dia fui a uma palestra de ratazanas
para ratazanas onde deixavam entrar pessoas por convite;
fui convidado pela ratazana-chefe do meu escritório
como prémio de produtividade.

adormeci a meio.

de regresso ao trabalho no dia seguinte,
fui despedido,
nunca mais preguei olho com uma ratazana por perto,
 temendo acabar os meus dias
com o orgulho ferido,
a mendigar queijo, vinho e um cobertor,
como qualquer bom pedinte,
na ratoeira mais próxima
 a caminho do deserto.

♣♣♣

Chip Suey

Da ementa, constavam variadas especialidades com assinatura multicultural. Os melhores chefs do mundo haviam sido chamados para apresentar um cardápio gourmet à prova de críticas. Os mais talentosos artistas em biotecnologia, programação e engenharia genética serviam, pela primeira vez, no refeitório um inestimável tesouro gastronómico, confeccionado em segredo, há centenas de luas negras:

Entradas
Chip Suey de Piscina Aquecida
Chip Suey de Massagem Relaxante

Primeiro Prato
Chip Suey de Sexo on The Beach

Segundo Prato
Chip Suey de Viagens Exóticas

Sobremesa
Chip Suey de Arte Sacra

Digestivo
Chip Suey de Entretenimento Psicadélico Virtual

Em boa verdade, Chip Suey foi a designação primeva. Os chefs europeus escandinavos, os norte-americanos e os indianos quiseram pregar uma partida aos seus homólogos chineses. Hades achou piada e anuiu. Também não se pode dizer que a comunidade chinesa tenha levado demasiado a peito a provocação. É gente pragmática que negociou a sua parte na patente comercial com o próprio Hades, tudo na sombra dos congéneres. Hades voltou a achar graça e anuiu novamente.

A implementação electrónica de chips no cérebro, bem como a sua evolução tecnológica, depressa adquiriu novas nomenclaturas cuja linguística e semiótica humanas estão longe de alcançar.

Existiram também, durante algum tempo, chip suey´s que só podíamos encontrar no mercado negro. Só visitei o mercado uma vez. Perguntei por um chip suey de meditação vipassana. Precisava de algum foco. O chip suey oferecia um salteado de samadhis e nirvanas com milhares de luzes à escolha consoante imaginário, gostos, tendências e paixões de cada personalidade usuária da tecnologia. Ao fim do primeiro samadhi desisti.

Virei costas enquanto o vendedor continuava no meu encalce, tentando exibir outros chip suey´s igualmente tentadores: chip suey de yoga tântrico, chip suey de xamanismo siberiano, chip suey de astrologia quântica, entre outras ofertas interessantes. Consegui afastá-lo quando o questionei pelo chip suey de idealismo kantiano. Perante o meu pedido, perfeitamente natural, amuou e regressou ao seu posto de vendas.

♣♣♣

Fraterna Idade

Ética, virtude
paz, saúde,
sem uma filosofia moral
a quem vou chamar “igual”?

.Ética, virtude,
paz, saúde,
…..sem nada para pôr no pão,
…..a quem vou chamar “irmão”

♣♣♣

Nossa Senhora de Tudo

Nossa Senhora haveria de ser de quê
.se não fosse de tudo
como se para ser de todos,
.do cego, do paralítico, do mudo,
não tivesse de ser de todo o nada
sendo assim personificada
.amante, mãe, mulher amada.

Nossa Senhora de tudo
.é de quê
é de quem
.é do como
.é do porquê
é além do ET e do animal da TV.

Nossa Senhora haveria de ser outra
……se não Aquela que, não sendo nada,
pode ser absolutamente tudo assim personificada
.amante, mãe, mulher amada

♣♣♣

O Dinheiro

O dinheiro é um crime público.

O dinheiro é uma amante das Índias servida num prato de plástico. O dinheiro é um judeu montado a cavalo em cima de toda a gente. O dinheiro é a Amazónia a arder com a multidão a ver. O dinheiro é o sorriso das crianças em África à venda numa agência de turismo suíça. O dinheiro que afinal não é bom nem mau. O dinheiro que é só símbolo de troca.
O dinheiro que é apenas faca de dois gumes. O dinheiro igual à lâmina de barbear. O dinheiro que não é mais que a forma em missão ígnea. O dinheiro que cospe fogo-fátuo. O dinheiro que nunca pára no mealheiro. O dinheiro que abunda sempre nas Festas de Natal. O dinheiro que já se evaporou em meados de Janeiro. O dinheiro no altar é um erro fatal.

Parti o mealheiro
tão vasto como o espaço.

A Humanidade virá
agora em primeiro?

♦♦♦

Raphael Yudin é um autor que transita entre a poesia e a reflexão sobre a condição humana e o sentido da existência.

TRÊS POEMAS – por A. Dasilva O.

O caso português

Somos um povo
com um nó na garganta
quando pega em armas
é para se suicidar

♣♣♣

O caminho da água das pedras

Tudo começou com um amor à primeira vista
trocado entre Eva e Adão numa casa de pasto
Tasco do Paraíso numa noite de fado vadio

Abraçados entre juras de amor impossível
foram para o ninho de amor fazer o Livro
Às cinco pancadas
Numa guilhotina

♣♣♣

Um papagaio refractário

Tirei o assassino que há em mim
ao sol pendurei-o com uma corda ao pescoço
de tão contente
começou a declamar

No alto da ignorância
Sou uma criança
Lucida

♦♦♦

a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita actualmente a revista Estúpida.

TRÊS POEMAS INÉDITOS – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016)

Um poema inédito do caderno A Noite (1967)

meus olhos doem
de rua
do conceitual sucessivo anoitecer
recuam
de dúvida ou tempo
que não muda
movimento de ser ao sabor do
quarto
emigração de forte luz
entre os dedos
apontados fixados
num braço
apenas contacto
pela noite entro
na loucura de dentro

Lx. 25/7/67
(Coligido por Luís de Barreiros Tavares) Continuar a ler “TRÊS POEMAS INÉDITOS – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016)”

“TEMPO DE TIGRE” E OUTROS POEMAS – por Felipe Duarte de Paula

Tempo de tigre

No início da manhã, um tigre espreita meu quintal.
Ignoro sua intenção, embora o olhar carente
insinue que está à caça de amizade.
Acontece que não converso com animais selvagens.
Atrás da janela cerrada, contemplo o balé do felino
que, andando de lá pra cá, pisoteia meu gramado.

No meio da tarde, insiste em passear por ali o animal.
Imagino que já devorou tudo que encontrou pela frente.
Não posso assegurar que essa seja a verdade,
mas, sem dúvida, antes minhas crenças do que miragens.
Todos sabem: não se brinca com bicho de instinto assassino.
Entregar-se à toa à morte seria pecado.

No fim da noite, além de um vulto, nenhum outro sinal
da fera que ao meu redor se fez presente.
Não tive medo, posso afirmar despido de vaidade.
E, apesar do tigre, despontam intactas as paisagens
que adornam a província. Chegou a hora de entoar o hino,
fortificar o muro, reforçar a porta e o cadeado.

♦♦♦ Continuar a ler ““TEMPO DE TIGRE” E OUTROS POEMAS – por Felipe Duarte de Paula”

MAIS TRÊS TEMPOS POÉTICOS – por Henrique Miguel Carvalho

COMÉDIA

e tudo ser
……………uma piada
 para quê?
…………..se apenas
para provar
…………..a sobranceria
…………..ao mundo

assim
……………ocultando,
mãos
…………..sobre a face,
o quão acima,
…………..quão alto
…………..à visão

da circunferência,
…………..se pensa ser,
e enganando,
…………..fútil
engraçado,
………….o próprio engano
………….enganador

que engana,
…………..num estúpido
movimento
…………..de lábios
…………..curvos para cima

 gáudio
…………..ou sofro,
o choro
…………..é a verdade
………….travessa

ao corpo,
…………..e a lembrança,
na carne,
…………..das águas
…………..da Criação

 mas o riso,
…………..demência
frívola,
…………..é Caos
…………..premeditado

ou a diminuição
…………..ontológica
de tudo,
………….. por ocultação
…………..imparcial

de um medo,
…………..de cuja sorte
só Deus
…………..é o imperturbável
…………..detentor

 candidez
…………..alva,
o choro
não ilude
…………..ou trai apenas
…………..confessa

apenas
…………..diz   eis-te,
sem palavras
…………..que vasculhem
…………..o sentido

quando rir,
…………..prazer banal,
troça
…………..ou faz-pouco,
movendo-se
…………..inveja, irmão
…………..da jovem

crueldade,
…………..como pranto
dito
ao contrário,
…………..por súbita
…………..repressão facial

 pois demora-se
…………..o riso?
na beleza
…………..de uma só face,
…………..ou apenas

a medindo
…………..por ostentação
e vaidade,
…………..para depois
…………..lhe esborratar

a pintura
…………..eis o segredo
de qualquer
palhaço,
…………..e o porquê
…………..da sua máscara

e não
…………..louvar a bravura,
o enfrentar
…………..elegante
do touro,
…………..sem cobrar
…………..bilhetes

à entrada
…………..para assistir
ao espectáculo
…………..final,
despindo
…………..o vulto
…………..à razão

♣♣♣

Continuar a ler “MAIS TRÊS TEMPOS POÉTICOS – por Henrique Miguel Carvalho”

PERTENCIMENTO de Jaime Vaz Brasil

Pertencimento*

 

Pertenço a minha memória
e ela me escreve, em conflito.

(Na fresta, sou quem espia
entre a verdade e o mito).

Dentro de mim há um palco
onde tropeço na dança.

(Minha história – em seu novelo –
me enreda em fato ou lembrança?).

Pertenço a minha memória,
mas só ao que ela me dita:

versão, ato ou livro em branco
onde sequer foi escrita

Dentro de mim, um duelo
entre o exato e o talvez.

(Como se assim, me lembrasse
o que a vida ainda não fez…)

Pertenço a minha memória
entre algoz e prisioneiro.

(Em sangue, tantas metades
já não me fazem inteiro).

Dentro de mim, outra coisa,
sentindo além do que sente.

Existo além dos sentidos:
eu existo alheiamente.

—–

*O poema “Pertencimento” foi musicado por Pedro Guerra, e participou de uma Califórnia da Canção.

♦♦♦

Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

A MULHER AVARIADA – por Idalina Correia da Silva


© Maria Correia

Começou por lhe cair o chapéu,
Depois o botão do casaco marron,
Mas logo ficou órfã de pai, mãe, irmão e um punhado de namorados
Emagreceu bastante só até acabar por engordar muito
Perdeu paixões, missas, comícios e ficou sentada à espera do fim do mundo
Como um marco miliar à beira do asfalto, só a fumar.

Estilhaçou tudo o que construiu
Até o disco hernial L5-S1
Mas logo se despediu do rumo que era um homem de carne e osso
Culpou infamemente a literatura, os jornais e o cinema
Abandonou ideias, encantamentos, histórias e ficou sentada à espera do seu fim.

Como o pó de uma corrida todo-o-terreno, só a beber cerveja. Continuar a ler “A MULHER AVARIADA – por Idalina Correia da Silva”

5 POEMAS EM VERSO E PROSA – por Luís Fausto

Explicação

Quando te vi aparecer vinhas já sem qualquer palavra. Arranhavas as pernas nas urzes e espinhos dos cardos, os cães corriam-te loucamente à volta porque em ti conheciam a liberdade e a obediência. Depois, a um teu gesto, improfundável e erudito, os animais prontamente se esticaram numa seta como se soubessem que daquelas serenas urzes se levantaria uma imensa revoada e que um sucessivo trovão abrasaria o ar.
No fim do silêncio, caíram duas aves. Abriste os olhos, tristes, tão claros que para muitos seriam apenas belos. Ninguém saberia descodificar no teu fácil gesto de prender as aves à cinta a consternação de possuir um indissolúvel poder, nem, na tua sóbria execução da virilidade, a indecisa suspeita de uma justiça estragada, embora inominável, nem o desencontro do homem consigo mesmo quando a dúvida o instala em dois estados de permanência.
Mas isto passou-se rápido. Quando te olhei outra vez, já te afastavas com os cães na direção oposta à do vento, sem me dares qualquer explicação. Continuar a ler “5 POEMAS EM VERSO E PROSA – por Luís Fausto”

ABRAÇAR O INACABADO: UMA DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS- por Marianela Tiranti Gattino

© Bodan Zwir

 

Dupla negação
Não é possível
renegar de quem se é.
Não é possível
privar aos outros
de aprender
a ser mais humanos
a partir do que podem
ressoar conosco,
nesta convivência planetária.
Não é possível
renegar de quem se é,
porque isso implica
enfatizar a negação
disso que somos.
Porque temos uma história
e temos transitado um caminho.
Porque somos com outros
e geramos um impacto.
Não é possível
privar aos outros de nos conhecer,
e não é possível
privar-nos de conhecê-los.
Aprender a viver,
de isso se trata,
aceitando nossa luz
e nossa sombra,
em todos. Continuar a ler “ABRAÇAR O INACABADO: UMA DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS- por Marianela Tiranti Gattino”

BOCA A BOCA – por Vinicius Comoti

To create a little flower is the labour of ages.
William Blake

I
esperma numa cisterna com uma enfezada raposa comemorando a vitória sobre os segredos da língua a fuligem alusiva de estrelas banhadas no magma das representações semeadas pelo absurdo de uma noite inventada pelos juncos & pupilas mascadas no devaneio de ruas caducas onde a amnésia se estreita entre os ventos sobre os escombros do sonho confundido com gerânios acolchoados pela hipnose da catedral mijada pelos mendigos & flores sem lembranças

II
o que me voltava & me deglutia na sangria do açougue dos espíritos o que me indagava sobre o verde dos hospícios o que me afligia com a navalha de uma esperança assassina os dias no espelho da ilusão de um rosto sem aura & calma o caos com bochechas quentes

quem é você?
bebê de bicho

III
os pivetes surfavam no teto do trem
o mais tímido, escorregou-se no vagão & foi moído no trilho como uma moeda sem valor
o outro, arguto ao ritmo da locomotiva, lançando manobras mirabolantes, não percebeu o fio &
morreu como capa de jornal: onda de ferro leva surfista eletrocutado

IV
todas as camas na lama de amor & narcóticos
lampejos mutilados pelo desejo
beijos como travesseiros arrojados na penetração
do céu transformado em véu
amantes com dedos de rinoceronte

V
te encontro na sombra do caos
& lhe desfiro os tentáculos de uma cega sensibilidade
nossas cabeças na correnteza
& a gravidade abruptamente se estende ao contágio
dos pássaros fundidos no aço
camuflagem prolongada na solidão

VI
a mosca na garapa
o pombo no pastel

VII
a insônia da voz pluviosa
na rua que jamais foi rua
besta criada com pantufas

VIII
asas
desesperadas Continuar a ler “BOCA A BOCA – por Vinicius Comoti”

JÁ NÃO HÁ ESPAÇO PARA POEMAS FÁCEIS – por Sandra Guerreiro

© Ryanniel Masucol

 

1
por baixo dos passos
sob a asa
……………desenho
o afinco contorno
……………essa bátega de água a ferver pelas costas
pela vela abaixo
……………devolvendo
como fazem as aranhas

reclamar o posto
mórfico

em desvio e desvario

2
já não há espaço para poemas fáceis
são demasiados leitos que não se conseguem desver

e eis que racha a folha
que nos vai calhar

e a pergunta flutua
no queixo que segura a boca fechada

3
há as peles que toldam o andar
e os pulos dos dias esquecidos no caderno
há o desformar o sangue
e os socalcos prontos a confrontarem o vento

no meio de nós Continuar a ler “JÁ NÃO HÁ ESPAÇO PARA POEMAS FÁCEIS – por Sandra Guerreiro”

CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso

Em frente a Jesus crucificado
nu, só e abandonado
de rosto triste e semblante plasmado
abandono o rancor, sinto-me confortado
olho-o no rosto e seu olhar curvado
afaga-me a tormenta
ampara-me o pecado.
Com outros prometo
em remorso disfarçado
aliviar-lhe o desgosto
da carne rasgada
que embebe as suas chagas.
Volvida a meditação
com a consciência aliviada
pelo perdão que não mereço
dos pecados sucessivos
dou-vos graças e outra vez peço
que me aceiteis como vosso amigo.

♣♣♣

Talvez fosse maio
e junho já estivesse a espreitar.
A chuva não caía
e o vento não queria incomodar.
As jovens moças
passeavam para que as admirassem.
Os sentidos de uns e de outros
cruzavam-se e encantavam-se
demorando-se aqui e ali.
A curiosidade das crianças,
o vigor da juventude
e a astúcia dos mais velhos
iam-se diluindo
nos instantes passados
que o tempo arrebatava. Continuar a ler “CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso”

ANARCISTA – por Francisco Fuchs

Sou um Rei sem reino, disse-me o velho
sem afastar o frio olhar do espelho:
achava-se um diamante bruto,
ainda que deveras fosse um puto.

Havia que tornar-se marionete
para melhor servir ao baronete
sempre a explorar qualquer fantoche
capaz de suportar o seu deboche.

Ao flagrar o malévolo narciso
senti-me incapaz de conter o riso:
escarneci, e sei que errei;

melhor será abandonar de vez
essa tão grandiosa pequenez
e continuar a ser um reino sem rei.

♦♦♦

Francisco Traverso Fuchs gosta de olhar para fora e adora olhar para dentro, mas evita perder tempo com espelhos. Fundou o anarcismo, doutrina que ensina a permanecer tão longe quanto possível das superfícies espelhadas e de seus adoradores.

ALDEIAS – por Jaime Vaz Brasil

 

edição © JML

Da vinci em seu pára-quedas
sobre a macondo de márquez…

A ofélia de clarice
junto à pedra de drummond. Continuar a ler “ALDEIAS – por Jaime Vaz Brasil”

SEXTETOS – por Januário Esteves

54

Ponho os violinos de Vivaldi
a tocar para os pássaros
que pousam no meu quintal
e é em glória no arrabalde
que nos extasiava até aos píncaros
numa trovoada que não faz mal. Continuar a ler “SEXTETOS – por Januário Esteves”

ARQUEOLÓGICAS III – por José Carlos Sánchez-Lara

 

 Arqueológicas III*

Lo visto
pertenece al plasma
y sus relaciones
con la masa cerebral

absorta
en desmenuzar imagen
y secuencia.

Velocidades de un afuera
en comarcas
del sentir. Continuar a ler “ARQUEOLÓGICAS III – por José Carlos Sánchez-Lara”