WILLIAM BLUTLER YEATS traduzido por Heitor Freire

Yeats e a transitoriedade: alguns poemas curtos

1

A meditation in times of war

For one throb of the artery,
While on that old grey stone I sat,
Under the old wind-broken tree,
I knew the One is animate,
Mankind inanimate phantasy.

Uma meditação em tempos de guerra

Por um pulsar da artéria
Enquanto sentava naquela velha pedra cinza,
Sob a velha árvore quebrada pelo vento,
Eu soube que o Um é animado,
Fantasia inanimada da humanidade.

2.

The poet to his beloved

I bring you with reverent hands
The books of my numberless dreams,
White woman that passion has worn
As the tide wears the dove-grey sands,
And with heart more old than the horn
That is brimmed from the pale fire of time:
White woman with numberless dreams,
I bring you my passionate rhyme.

O poeta à sua amada

Trago-te com mãos reverentes
Os livros de meus sonhos inumeráveis,
Mulher branca que a paixão vestiu
Como a maré veste as areias cinzentas
E com coração mais velho que o chifre
Do pálido fogo do tempo transbordado:
Mulher branca com sonhos inumeráveis,
Trago-te minha rima apaixonada.

3.

Memory

One had a lovely face,
And two or three had charm,
But charm and face were in vain
Because the mountain grass
Cannot but keep the form
Where the mountain hare has lain

Memória

Um tinha rosto adorável,
E dois ou três tinham encanto,
Mas era em vão encanto e rosto
Porque a grama da montanha
Não podia manter senão a forma
Onde a lebre da montanha tomou posto.

4.

The Wheel

Through winter-time we call on spring,
And through the spring on summer call,
And when abounding hedges ring
Declare that winter’s best of all;
And after that there’s nothing good
Because the spring-time has not come –
Nor know that what disturbs our blood
Is but its longing for the tomb

A Roda

Durante o inverno clamamos pela primavera,
E durante a primavera clamamos pelo verão,
E quando circundantes cercas rodeiam
Declaramos que o inverno é o melhor de todos;
E depois disso nada há de bom
Porque o tempo da primavera não chegou –
Nem sabemos que o que perturba nosso sangue
É senão sua espera pela tumba

5.

Forma sacrificada pela semântica. Rimas toantes foram utilizadas.

The realists

Hope that you may understand.
What can books of men that wive
In a dragon-guarded land;
Paintings of the dolphin drawn;
Sea nymphs, in their pearly waggons,
Do but wake the hope to live
That had gone
With the dragons.

Os realistas

Que você consiga compreender espero.
O que podem livros de homens a casar
Numa terra de dragões o império;
Pinturas do golfinho a emergir;
Ninfas do mar, em suas peroladas gôndolas,
Fazem senão a esperança de viver despertar
Que se foram por aí
Com os dragões.

6.

Rimas preservadas, mas a semântica está acima da forma.

Gratitude to the unknown instructors

What they undertook to do
They brought to pass;
All things hangs like a drop of dew
Upon a blade of grass.

Gratidão aos instrutores desconhecidos

O que tomaram por trabalho
Eles trouxeram de passagem;
Tudo pende como uma gota de orvalho
Sobre a lâmina da ramagem.

————-♦————-

* Tradução de poemas curtos de William Butler Yeats (Por priorizar a semântica, por vezes a métrica e as rimas foram adaptadas. Rimas ora toantes, ora soantes)

♦♦♦

Heitor Freire. Escrevo como quem respira, respira como quem tenta viver e vive como quem nada sabe, nem nunca saberá. Teve poemas publicados na revista Mallarmargens, revista Aboio, versões impressa e digital da revista Subversa, no Jornal Plástico Bolha, na revista Desenredos, na revista Zunái. O fenômeno da poesia, como fenômeno da linguagem ou da ontologia ou da psicologia ou da linguística ou etc, pede explicação mas não pede uma resposta final: demanda, antes, vida.

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