TOMANDO UM KAFKAFÉ COM ELE – por Danyel Guerra

Lygia Fagundes Telles © Acervo Arquivo Nacional

 

“(…)’As glórias que vêm tarde, já vêm frias’,

  escreveu o Dirceu de Marília. Me leia enquanto estou quente”                                

 Lygia F. T. 

    TOMANDO UM KAFKAFÉ COM ELE

 

Exuberância tecida de curiosidade, Lygia entra no jardim dos caminhos que se bifurcam, dirigindo-se, sem hesitações, ao canteiro nº 40. Embevecida, captura, ávida, a fragrância da rosa imarcescível, o primoroso exemplar do borgeano jardineiro. “(…) ninguém pensou que o livro e o labirinto eram um único objeto”.

Num impulso, toma o caminho da saída, fechando, brusca, o portão do jardim e consulta, uma vez mais, o relógio de pulseira dourada.

Um tanto para iludir a ansiedade, esse suavizador eufemismo de medo, decide folhear a velha revista que tem à sua frente, na mesinha da “obscura”* sala de (longa) espera de um consultório.

A impaciente paciente do Dr. David Goldstein investe nessa manobra de distração, buscando ludibriar o enfado, tentando dissipar a nuvem de tédio, nessa tarde abafada de fevereiro, nas vésperas do Carnaval. Embora condenada a apreciar apenas as ilustrações. É um magazine judaico, escrito em iídiche, note-se, Idioma que ela não domina, nem sequer minimamente.

“E de repente, ocupando toda a página, ele. Os cabelos negros. O queixo obstinado. E os olhos”.* Com os seus, castanhos de “encantos tamanhos”, visa um lado da sala e vislumbra o outro. A recepcionista diverte-se, papeando ao telefone efêmeras banalidades. Furtivamente, arranca a página amarelecida e guarda-a, com capricho, na malinha de mão, de cândida cor revestida.

Uma mulher, sentada ao lado, lança-lhe uns olhos perplexos. “É um risco de bordado”*. Lygia alega. Espontâneo, um sorriso sinaliza a “inteira aprovação” da testemunha.

Lygia apruma o spencer de seda, de beige colorido, e relança a visão para os ponteiros auríferos do relógio. Sorri por absurdo. Afinal, está prestes a entrar num cubículo claustrofóbico e a sentar-se numa cadeira em frente de um cínico, perdão, de um clínico. Ela é dona de um sorriso desarmante de tão afável. Seria uma mulher (e)ternamente sorridente, mesmo que não tivesse um único dente na boca emoldurada por mansos lábios carmins.

Na sua memória, tremula ainda o retrato que a enfeitiça. E ela se compraz na fruição do devaneio que a imaginação lhe sugere. “O bordado era um labirinto dentro do qual candidamente entrara e agora não conseguia mais sair.”*

Em segundos, o esgar do prosaico, num alerta burocrático, oleado de secura na voz, a intima a entrar numa réplica do huis clos (1) sartreano.

E o fluxo factual deste relato cronístico suspende-se, súbito, neste ponto parágrafo. O narrador detém o dom da bilocação. Também por ser possuidor desse poder ubíquo, alardeia a congenial elegância, discrição e cavalheirismo dos iniciados. Ele tem ética q.b. e observa os preceitos da deontologia profissional. Esse compromisso não o impede de espevitar a imaginação dos narratários deste texto.

Coerente com sua literária onisciênia, o narrador especula que Lygia estará escutando um causo(2), com foros de verdadeira acontecência, protagonizado por seu buliçoso médico e por um excêntrico paciente.   

Doutor David, como reagiria se eu lhe pedisse para não aplicar anestesia na extração de um dente? Eu diria que o senhor é um masoquista. Mas falando sério, há uns dois anos, um paciente, meu compatriota, recusou categórico ser anestesiado. Um daqueles maníacos do poder paranormal da mente.

E o senhor se recusou a extrair. Tive essa (boa) intenção, contudo ele insistiu, argumentando ser capaz de se anestesiar de forma natural. Estou habituado, não é a primeira vez, afiançou.

E o senhor assume total responsabilidade por esse ato?, instei, acrescentando que teria de assinar um termo, se eu acaso concordasse. Pode agilizar o documento, doutor, rogou com voz decidida.

Eu anuí, ele assinou o termo e iniciei os preparativos da operação. Antes, o valentão me pediu alguns minutos de concentração. Mal ele exclamou um veemente “estou pronto”, intervim como mandam as boas práticas. Nem um hélas lhe ouvi. Comportou-se como se lhe tivesse ministrado normalmente a anestesia química. Na semana seguinte, repetiu a façanha. Depois sumiu, eclipsou-se.

Jacob não cabia nele –desculpem o lugar-comum-, de tão estupefato. Aí não tem mutreta, doutor? Não sei se tem mutreta. Minha não tem, pode crer, jurou o dentista.

Ainda dominado por uma racional incredulidade, o cliente ripostou, invocando sua (de)formação profissional. Doutor, sendo verdadeira, essa proeza, ela daria uma crônica muito pitoresca. Teria, porém, de obter o testemunho dele.

O dentista revidou perentório. Não vou violar a ética e a deontologia profissionais. Espere sentado nessa cadeira para não se cansar. O Sr. Bronstein não é jornalista?! Pesquise, investigue, pode ser que descubra quem é o xamã. Vai ser difícil, muito difícil, sair em glória desse labirinto, encontrar a agulha no palheiro.

Voando desde S.Paulo, a aeronave da Panair do Brasil devora milhas após milhas, com destino a Manaus. Nessa noite de névoas escondendo as estrelas, a maioria dos passageiros já havia capitulado ao sono. Com um par de exceções. Perseverantes, dois homens se empenham numa insone resistência aos mórficos apelos.

O mais incrível é que viajam precisamente um ao lado do outro, acomodados em rubros assentos. Mais espantoso ainda é que ambos leem, absortos, concentrados nas peripécias das narrativas. Sentado junto à coxia, um deles segura um exemplar de ‘O Desaparecido ou Amerika’. O outro, tem pregado os olhos cor de breu num volume intitulado ‘Os Poderes Paranormais da Mente’.

A escala em Brasília, a cidade protegida por Dom Bosco, se aproxima, em ritmo de solavanco frenético. O avião sacoleja, parecendo estar trepando os quebra-molas (3) da BR 050, em pleno Cerrado. A travessia dessa zona de turbulência sacode a atenção dos leitores. Num relance, o passageiro do lugar junto à janela, olha obliquamente para o livro do companheiro de viagem. E, sem mais delongas, indaga.

Desculpe a indiscrição, você é judeu? Intrigado, o outro viajante riposta. Tenho cara de judeu? Procurando tranquilizá-lo, o interlocutor ameniza. Perdoe, não será por isso. Fiquei curioso porque seu livro está escrito em iídiche.

A réplica veicula-se em tom cortês. Sim, eu sou um cidadão judeu. Porque a pergunta? O ouvinte redargue, sublinhando que o iídiche é falado, lido e escrito essencialmente por judeus.

Num aceno de confiança, o interpelado revela ser judeu ashkenazi (4), nascido em Karlovy Vary, cidade tchecoslovaca, situada na antiga região dos Sudetas. Judeus de língua alemã, ele e os pais fugiram para o Brasil no final dos anos 30, refugiando-se em Jundiaí, interior do estado de S.Paulo.

O brasileiro escuta atento o relato do vizinho. E, cordial, aquiesce, sem hesitação, a um pedido.  

Com certeza, à vontade. Dê uma olhada, passeie os olhos pelo capítulo “O Anjo extermina a dor’. É fantástico.

Quase fantástico foi ver o judeu esbugalhar os olhos. Lendo o nome do autor, exclama, tangendo a histeria. Não é possível! Ele é um homônimo do herói deste livro do Kafka. Tenho de comprar já esta obra.

O compagnon de route  reage com uma gotícula de ironia no sorriso apenas esboçado. Já, vai ser difícil. Nem amanhã. O autor desapareceu misteriosamente e a edição esgotou num átimo. Sensível à decepção do boêmio, ele agiliza uma solução de compromisso. Confessa ter outro exemplar em casa e propõe uma permuta.

Mas tem de se apressar. Eu vou descer em Brasília e você segue voando. Alisando o cavanhaque, o tcheco perplexa-se. Como é que este  passageiro adivinhou que ele seguia para a Amazônia Misteriosa do Gastão Cruls?

Logo que regressou a Pauliceia, o Sr. Bronstein disparou desvairado em direção ao Bom Retiro paulistano. Irrompendo no gabinete do Dr. Goldstein bradou retumbante. Encontrei a agulha no palheiro, doutor! Ladino, o dentista desconversou. Que agulha? A das seringas?

Jacob apimentou, irônico. Quem vai ficar anestesiado é o senhor. Descobri a identidade do seu desaparecido xamã, o Sr. Karl Rossman. O médico, lívido de espanto, mesmo assim duvidou. Karl? Que provas é que tem?

Apelando para o sarcasmo, o tcheco exibiu o livro, indagando se ele sabia ler. A estória está toda aqui, neste capítulo. Com seu nome e tudo.

De repente, a porta do consultório se abre  e uma combalida Lygia se dirige a recepção. Entreabre um livro de… cheques e entrega um deles. Não há dor mais dolorosa do que a provocada pelo preço de uma consulta médica.  

A recepcionista recebe e volta a papaguear bananalidades ao telefone.  Lygia senta-se, junta as pernas, estica a franzida saia branca de linho, abre a malinha e não encontra o risco de bordado. Malinha de mulher é mesmo assim, sempre repleta de balangandãs de toda a espécie e feitio. Nela tudo aparece, desaparece e volta a aparecer.

O coração dá um salto da altura das quedas do Iguaçu. E quase se precipita num mar gelado de angústia, petrificado no seu peito. Acende um cigarro que fuma em frenesi. Sem demora, mexe, remexe, mexe de novo e volta a remexer na malinha e nada.

Heureka! Divisa o machado, aliás o “risco de bordado”, envolvido no meio de provas do seu romance  ‘Verão no Aquário’.  Nesse momento, ela ainda “não sabia que um dia iria compreendê-lo até às raízes do amor.”* Previdente, fecha firme a malinha, dela retirando antes o carnet d’ écrivain.

Tenho de tomar já um kafkafé muito quente com ele e começar a escrever uma ode aqueles que por dons valerosos se vão da lei da dor libertando. Levantando-se, veste o bolero e dirige-se lygieira para a porta. Esse texto tem de ser como “o machado que quebra o mar gelado em nós.”. Vibra, saindo em direção a um outro labirinto.

 

*Glossário:

1. Huis clos –  peça teatral, de 1944, da autoria de Jean-      Paul Sartre
2.  Causo –   estória contada de modo coloquial e ameno
3. Queba-molas  – lombas de estrada
4. Ashkenazi j-judeu nascido e oriundo da Europa Central e Oriental

*Citações aspadas da crônica ‘O retrato’, do livro ‘A Disciplina do Amor’,  1980, de  Lygia Fagundes Telles.

♦♦♦

Danyel Guerra nasceu na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, Brasil,  num novembrino dia de Vênus, sob o signo de Escorpião. No ano em que Lygia Fagundes Telles publicava ‘Ciranda de Pedra’, seu romance inaugural.

Editou e/ou publicou os livros ‘Em Busca da Musa Clio’ (2004), ‘Amor Città Aperta’ (2008), ‘O Céu sobre Berlin’ (2009), ‘Excitações Klimtorianas’ (2012), ‘O Apojo das Ninfas’ (2014), ‘Oito e demy’ (2015), ‘O Português do Cinemoda’ (2015), ‘Os Homens da Minha Vida’ (2017) e ‘Corpo Estranho’ (2021).

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