A CASA AMORIM DE CARVALHO. No 50.° ano da morte do poeta e do filόsofo II – por Júlio Amorim de Carvalho

VII. Entro presentemente num dos aspectos mais significativos da Casa: a denominada Livraria Antiga que corresponde estritamente à biblioteca que foi de Amorim de Carvalho; a administração da Casa tem-lhe naturalmente dispensado a necessária atenção, com o duplo objectivo da sua conservação e da criação de condições que permitam o seu melhor aproveitamento para estudo e investigações. São alguns milhares de volumes (a cada um se atribuiu um número de entrada), que Amorim ordenara, finalmente, segundo a Classificação decimal universal ainda que por ele adaptada a certas exigências pessoais, dando preeminência, por exemplo, às culturas de origem latina, a certos autores por ele privilegiados, e agrupando temáticas diversas em secções mais abrangentes do que as propostas pela citada Classificação ou, inversamente, sub-dividindo outras. Anotações e explicações detalhadas foram redigidas pela administração da Casa para facilitar o bom entendimento da catalogação adoptada.

a) Diversíssimas são as origens dos livros que, através dos tempos, foram constituindo a biblioteca amoriniana [i].

Em número reduzido vieram os livros que Amorim, desde a primeira adolescência, ia encontrando nas estantes das moradias que os pais sucessivamente habitaram nas constantes peregrinações entre a Foz do Douro e Matosinhos[ii]; as obras eram-lhe frequentemente cedidas pelos familiares que, desde cedo, se aperceberam da forte intelectualidade do futuro poeta e filόsofo. Assim, livros como, por exemplo, o do inspector da polícia de investigação criminal de Coimbra, Eurico de Campos, Quem são os assassinos do dr. Sidόnio Pais? com dedicatόria para o tio Antόnio Amorim de Carvalho, o de Bazilio Telles A sciencia e o atomismo com dedicatόria para o pai, o exemplar sem capa do Banditismo político de Homem Christo, exemplares das Poesias do bisavô Antόnio Pinheiro Caldas e diversos periόdicos ‒ iam ficando para Amorim de Carvalho.

Se um certo número de livros lhe vinham das ofertas de intelectuais de diversas nacionalidades com quem mantinha relações pessoais, parte dos volumes existentes na sua biblioteca chegaram-lhe também às mãos pelo intenso intercâmbio estabelecido através da revista Prometeu.

 No entanto, a parte mais significativa dos volumes tinham origem na simples compra por Amorim, no estrangeiro e por cá, de edições antigas e novas de obras que interessavam à sua investigação, aos seus estudos os mais diversos. Era pois biblioteca essencialmente de trabalho, cujos livros foram tantas vezes adquiridos em alfarrábios que punham à venda exemplares com carimbos e autόgrafos dos antigos proprietários, pessoas ou entidades que se desfaziam dessas obras, algumas delas preciosas.

Não deixarei de referir duas outras origens das obras que integraram a biblioteca amoriniana: 1) por um lado o escritor Carlos Bastos, que, com o fim de os conservar na família da sua mulher [iii], ofertou a Amorim de Carvalho não sό diversos livros com dedicatόrias manuscritas para si, mas ainda numerosos volumes raros sobre arte têxtil de que era meritόrio especialista; 2) por outro lado, o importante fundo proveniente do Brasil, oferecido a Amorim de Carvalho pela nora, com especial relevo para as obras dos escritores da sua família, os livros com referências à família ou comportando dedicatόrias manuscritas.

Duns e doutros terei ocasião de voltar a escrever algumas considerações.

b) A classificação da Livraria Antiga inicia-se pelas obras de autores da família (definida segundo a ordenação genealόgica adoptada, a que se fez referência acima): assim, oferecem-se-nos à consulta todas as edições das obras de Amorim de Carvalho publicadas em vida do autor (incluindo algumas colecções da revista Prometeu [iv] e ‒ curiosidade bibliográfica ‒ exemplares do poema O apόstolo com as alterações impressas, depois manuscritas restabelecendo o texto original, resultantes das imposições recebidas dos serviços de Censura [v]); seguem-se-lhes as duas edições das Poesias de Antόnio Pinheiro Caldas (a 1.a, rara, com fotografia do autor tirada em Lisboa, a 2.a com a fotografia tirada em Paris, existindo na Livraria exemplar da 2.a que peregrinou pelo Brasil) e as obras dos escritores brasileiros Darcy Azambuja, Roque e Fernando Callage, e Ribeiro Tacques [vi].

c) Em rápida apreensão da vasta Livraria Antiga, salta-nos desde logo à vista as grandes colecções de generalidades em língua portuguesa, francesa, castelhana (com mais relevo para a Labor, espanhola, e a Bibliothèque de Philosophie Scientifique [vii]); as colecções de obras gregas e latinas (por exemplo, da Association Guillaume Budé); outras de carácter literário (Clássicos Sá da Costa), de orientação especificamente histόrica (como a Biblioteca Histόrica de Portugal e Brasil e, naturalmente, no tempo de Portugal, a série monográfica Pelo Império); refiro ainda e pondo em relevo as colecções especializadas no pensamento científico e filosόfico (merecendo especial referência os Breviários del Fondo de Cultura Econόmica, do México, e a Bibliothèque de Philosophie Contemporaine).

A hemeroteca da Livraria está representada, entre outros, por periόdicos europeus (os jornais políticos A Lucta e O Mundo, o literário O Diabo, a Illustração Portugueza, o Boletim de Trabalhos Histόricos, de Guimarães, a Biblos, da universidade de Coimbra, o Mercure de France, La Crociata, de Malta, etc.); pela revista France-Asie, de Saïgon, por revistas de alto nível intelectual provenientes de entidades culturais e universidades latino-americanas e estados-unidenses (Atenea, da Universidade de Concepciόn, no Chile, Revista Bimestre Cubana, de La Habana, Revista de las Indias, editada em Bogotá pelo Ministerio de Educaciόn, revista Universidad de Antioquia, de Medellín, também da Colômbia, Revista Hispánica Moderna, editada em Nova Iorque pela Columbia University, etc, etc.). Muitos destes periόdicos vieram às mãos de Amorim de Carvalho através do intenso intercâmbio mantido pela sua revista Prometeu, como se pode constatar pelas datas, pelos carimbos de recepção e pelas referências que se lhes fez.

d) Na classificação adoptada para a biblioteca amoriniana e conservada na Livraria Antiga, notam-se uns casos inesperados, insόlitos, que podem, no entanto, facilmente ser explicados. Não sendo pròpriamente o objectivo deste texto apresentar uma biografia amoriniana, limito-me a dar um exemplo quase sem comentários: numa secção reservada a autores valorizados por Amorim, encontramos Wenceslau de Moraes ao lado de Charles Maurras e de Alexandre Herculano ‒ precedidos pelos quatro grandes nomes da poesia de pensamento de expressão portuguesa: Camões, Antero, Junqueiro, Pascoaes. Ora, Basílio Teles (por quem Amorim tinha imensa admiração moral e respeito intelectual) foi incluído, não nessa secção, mas na dos filόsofos portugueses; é que, apesar de quase todos os nomes portugueses incluídos neste sector não possuírem arcabouço de filόsofos (e é o caso de Basílio), Amorim de Carvalho aí os classificara pela simples razão de ter tratado, num ou noutro momento, das opiniões filosόficas desses seus conterrâneos. Na secção consagrada ao pensamento filosόfico, encontram-se, naturalmente, as obras de filόsofos doutras nacionalidades.

e) A sua biblioteca era essencialmente um utensílio de trabalho para o poeta, o esteta, o filόsofo. Raro é nela encontrarem-se volumes intrinsecamente valiosos por razões materiais ou editoriais; Amorim não foi propriamente um bibliόfilo. No entanto, algumas curiosidades se descobrem pelas estantes dos três níveis da Casa.

Se não atraem muito a atenção três antigos livros com os títulos Opera D. Leonis magni, romani pontificis, eius nominis primi etc. (Antverpiæ, Apud Philippum Nutium, 1583), Praticas espirituaes e doutrinaes, pelo padre Manoel Velho (Lisboa, 1732) e Vida do infante D. Luiz por D. Jozé Miguel Joaõ de Portugal (Lisboa, 1735) [viii], mais imponente já se apresenta Eva, e ave, ou Maria triunfante etc., por Antonio de Sousa de Macedo (Lisboa, 1716), obra que, pertencendo a Jeronimo d’Ornellas de Menezes e Vasconcellos e sua mulher Lucrecia Leme Barboza, ficou registada nos autos de relação de bens do inventário aberto em 1772 por morte, em 27 de setembro de 1771, do referido Jeronimo[ix]. Numa raríssima edição em papel e impressão conforme à antiga tradição chinesa, conservam-se, na sala do Arquivo, os comentários sobre o Tao-Teh King de Lao Tze, em quatro livros por Lee Yung, e em seis livros por Chen Hsuan-Yin (a preparação das edições deve-se ao professor Meng Win Tung, de Pequim).

Posso acrescentar como exemplos de outras obras de valor, adquiridas por Amorim ao longo da sua existência: 1) obras de linguística e bibliográficas: Diccionnaire grec-français de Bailly (início do séc. XX), o Littré (7 vols.), o Elucidário de Viterbo, o Dicionário geral e analόgico, de Bivar, o Diccionario bibliographico de Innocencio (22 vols.); 2) extensíssimas historiografias em castelhano, francês e português, da Pedatura lusitana aos seis livros das Saudades da terra do Fructuoso, da Histόria de Portugal de Barcelos à Histόria da Igreja em Portugal do Fortunato, dos 15 vols. da Histoire de l’art Michel-Colin do início do séc. XX aos 10 vols. da Ars hispaniæ e aos 8 vols. da Historia general del arte de Barcelona, do séc. XIX; e 3) outras obras representativas dos pensamentos científico, filosόfico, artístico, e literário, relevando, neste último caso, o especial carinho de Amorim pelas de Schakespeare que ele apreciava ler na edição da Macmillan, de 1804 [x].

Concluindo este capítulo, uma comovente recordação: entre os últimos livros lidos por Amorim de Carvalho, talvez os dois derradeiros, encontram-se o de Veríssimo Serrão sobre os Itinerários de um homem-elite, o rei D. João II de Portugal (obra editada em 1975), e o de Vauchez La spiritualité au Moyen Âge occidental (VIII-XI siècles), que lhe fôra oferecido, no Natal desse ano, pelos filho e nora.

       VIII. Um dos mais importantes e morosos projectos levados a cabo pela administração da Casa Amorim de Carvalho, consistiu na criação de dois ficheiros ìntimamente relacionados com as existências nas Livrarias Antiga e Nova[xi] dessa Casa.

a) O Ficheiro de referências, comporta milhares de entradas, cada uma indicando o volume e as páginas em que são citadas as pessoas consideradas da família segundo os critérios indicados no primeiro parágrafo do cap. II deste trabalho.

Amorim está naturalmente representado com considerável número de entradas. Conjugando as centenas de fichas que lhe dizem respeito com os recortes que se lhe referem, metodicamente reunidos no Arquivo, estaremos de posse duma quase exaustiva relação do que se tem publicado sobre Amorim de Carvalho.

b) O ficheiro que recebeu a intitulação de Anotações sobre livros compreende as fichas que indicam os casos de mais interesse que vieram, dum ou doutro modo, enriquecer os volumes daquelas Livrarias, por exemplo: os autόgrafos de posse, as dedicatόrias, as diversas outras notas manuscritas, os ex libris, etc.

Uma das suas partes mais interessantes é a que reúne as numerosíssimas dedicatόrias manuscritas para Amorim de Carvalho. Por exemplo, e ao acaso, as da Maria Isabel Guerra Junqueiro, de Fidelino de Figueiredo, Cândido Guerreiro, Alberto de Monsaraz, Lopes d’Oliveira, Hernâni Cidade, José Teixeira Rêgo, Marcello Caetano, Aquilino Ribeiro, Cabral de Moncada, Sousa Costa, Narcizo de Azevedo, Antόnio de Navarro, as de autores angolanos, etc.; de estrangeiros, indico de memόria os nomes de Paulina Simoniello, Francisco Romero, Manuel Núñez Regueiro, Manuel Bandeira, Carneiro Leão, Fran Martins, Segismundo Spina, Jorge de Lima, Olegário Marianno, Jean Cassou, Léon Bourdon, Pierre Pascal, Maurice Carême, etc.

Do grande número de autόgrafos de posse de Amorim de Carvalho, ùnicamente se abriram entradas para os que se considerou de mais belo e claro recorte.

São de referir as diversas fichas relativas às dedicatόrias manuscritas de Amorim  tanto para familiares seus (algumas delas particularmente comoventes) [xii] como para pessoas estranhas à família.

Nas entradas destas Anotações encontram-se, a títulos diversos, numerosas referências a escritores já atrás citados: o poeta Pinheiro Caldas, Roque Callage, seu irmão Fernando Callage, Darcy Azambuja ‒ autores com forte representação de dedicatόrias manuscritas na Livraria Antiga. A escritora brasileira Alzira Freitas Tacques é frequentemente citada em fichas relacionadas com pessoas as mais diversas, mas sobretudo da família. No que respeita ao publicista português Carlos Bastos, pôde- -se reunir grande número de entradas sob o seu nome.

Inúmeras são, ainda, as fichas que dizem respeito a nomes das mais diversas origens, por vezes relacionados com volumes raros. Posso referir, por exemplo, o autόgrafo de posse de Sébastien Charléty [xiii] no livro Seul (Paris, 1891) de Edmond Haraucourt e a dedicatόria manuscrita de Antόnio Nobre no livro Sό (Paris, 1892) para um Alexandre que não sei quem seja; posso ainda referir as dedicatόrias de Eugénio de Castro para Manuel da Silva Gaio (diversas dedicatόrias), de Sampaio Bruno e de Júlio Brandão para Eduardo de Artayett,  de Raul Brandão para Columbano, de Charles Maurras para Fr. Laurent, de Georges Raeders para Son Altesse Royale le Comte de Paris, de Jules Massenet e Jean Richepin (na partição da όpera Le mage) para o seu colaborador M. J. Hansen, de José C. Andrade (de Bogotá) para Júlio Brandão, etc., etc. ‒ um patrimόnio bio-bibliográfico de interesse, disperso pela extensa e muito diversificada biblioteca que foi de Amorim de Carvalho.

c) A criação dos ficheiros foi obra colectiva; o seu futuro desenvolvimento devê-lo-á ser também, exigindo constantemente (até para corrigir eventuais erros e lapsos) aturada leitura e meticulosidade na redacção das respectivas fichas. Este trabalho, digno da excelente organização da Casa Amorim de Carvalho, muito facilitará certos tipos de investigação, tanto na Livraria Antiga como na Livraria Nova.

É o momento de escrever breves palavras sobre o que decidi denominar Livraria Nova de autores da Família ou com referências à Família. Há, pois, uma dupla condição para que livros (e periόdicos) sejam nela catalogados: 1.a condição: volumes publicados posteriormente à morte de Amorim de Carvalho (em abril de 1976) ou, sendo de data anterior, que tenham sido doados à Casa apόs essa data; 2.a condição: que comportem uma explícita relação com a família, segundo os critérios já diversas vezes indicados. A Livraria Nova é formada por várias centenas de publicações catalogadas conforme as modalidades adoptadas na Livraria Antiga.

O que se apresenta como o facto mais relevante, sem dúvida, nesta Livraria Nova, é a existência das edições pόstumas das obras de Amorim de Carvalho e dos livros de outros autores editados dentro dos critérios indicados no parágrafo anterior [xiv].

Apraz-me informar igualmente, que aí se vão encontrar outros volumes de interesse como os da Rhythmica. Revista española de métrica comparada, editada pela Universidad de Sevilla [xv]; é uma publicação especializada num domínio que, salvo o autor destas linhas, não tem actualmente digna representação no espaço cultural de língua portuguesa.

Devo assinalar a existência nesta Livraria Nova de uma muito recente brochura, impressa e divulgada em 2023 por especial empenho de Joaquim Pinto da Silva, que transcreve integralmente a minha conferência sobre O significado do pensamento estético e filosόfico de Amorim de Carvalho.

Nesta Livraria se reuniu um significativo fundo brasileiro (respondendo, de certo modo, ao da Livraria Antiga) que nos disponibiliza os excelentes Anais do arquivo histόrico do Rio Grande do Sul.

Enfim, a modo de complemento a este capítulo, anoto a existência de uma residual Biblioteca Nova que recolhe livros curiosos pela sua especificidade, obras proibidas, de autores proscritos, ou volumes que contêm dedicatόrias manuscritas que se quis conservar, ‒ publicações, todas elas, que não comportam quaisquer referências aos ramos familiares memorializados naquela Casa.

Passo, portanto, ao último capítulo.

A actividade editorial tem constituído o principal domínio de acção da administração da Casa Amorim de Carvalho, exercendo-se com o maior relevo no âmbito da obra daquele filόsofo-esteta-poeta. As publicações pόstumas das suas obras iniciara-se anteriormente à fundação da Casa. Na Livraria Nova encontrar-se-ão essas primeiras edições pόstumas acompanhadas das que, meticulosamente organizadas pelo administrador da Casa, fazem parte já da colecção que se denominou Obras reunidas de Amorim de Carvalho. 27 são as editadas até ao outono de 2025; inclui-se neste número três separatas e cinco edições do Tratado de versificação portuguesa, sem se ter em conta, naquele primeiro número, o Depoimento para a histόria crítica do modernismo em Portugal que, distribuído (em 1981) dactilografado, obteve intensa procura nas livrarias de Lisboa e Porto, justificando-se segunda edição (em 1986) nessa mesma forma de impressão [xvi].

A acção editorial e promocional da Casa Amorim de Carvalho não se restringiu à publicação de obras unicamente relacionadas com esse  intelectual; alargou-se a outros domínios, com especial relevo para obras da minha autoria como Dois escritores portuenses. O poeta Antόnio Pinheiro Caldas e Amorim de Carvalho (2000) e Nilo Tacques Soares. Biografia. Poesia. Genealogia (Porto, 2017) sobre uma personalidade de elevada nobiliarquia.

Iniciou-se igualmente a publicação de uma colecção de reduzidas dimensões, como o seu nome parcialmente acastelhanizado indica: Cadernilhos da Casa Amorim de Carvalho Publicaram-se apenas dois números, um sobre Uma carta de Amorim de Carvalho (o caso Antόnio Sérgio) (2013), o outro transcrevendo e comentando Três cartas de Georges Le Gentil para Amorim de Carvalho (2015). Longa interrupção, pois nem tudo se pode fazer em qualquer momento! Pretendo dar a público, dentro de meses [xvii], o n.° 3 que apresentará, com breves comentários, como é da índole destes Cadernilhos [xviii], algumas dedicatόrias manuscritas dos poetas Pierre Pascal, Joseph Delmelle, Maurice Carême e Charles d’Eternod para o poeta-filόsofo português.

2026: neste 50.° ano da morte de Amorim de Carvalho, a administração da Casa que tem o seu nome tomou a decisão de reeditar quatro obras desse filόsofo, esteta e poeta, tendo-se optado pelas seguintes: no domínio do pensamento filosόfico, Tese e antítese; sobre estética, Dos trovadores ao Orfeu. (Contribuição para o estudo do maneirismo na poesia portuguesa) e Depoimento para a histόria crítica do modernismo em Portugal; e, na criação poética, Obra poética escolhida. vol. III. A comédia da morte e outros poemas ‒ todas quatro integradas nas Obras reunidas de Amorim de Carvalho [xix].

Com a divulgação destes projectos fica pois concluso este último capítulo.

A CASA AMORIM DE CARVALHO vem funcionando pelo esforço único da descendência amoriniana, sem qualquer apoio, financeiro ou logístico, de entidades públicas ou privadas. Através de gestão severa e sensata, por vezes dolorosa mas sem desânimo, procurando manter relações com a intelectualidade estrangeira e de cá, pôde-se (e poder-se-á no futuro, espero) prosseguir o duplo objectivo que bem explícito ficou nas linhas acima: 1.°, naturalmente, divulgar a obra do poeta, esteta e filόsofo que foi Amorim de Carvalho, e, 2.°, preservar o patrimόnio multi-secular da família ligada directa ou indirectamente àquele intelectual.

 Privilégio da inteligência e da força de vontade, que a Providência concedeu à minha principal colaboradora e a mim mesmo.

Júlio Amorim de Carvalho
Administrador da Casa Amorim de Carvalho
casa@amorimdecarvalho.com

[i] Vid. os numerosos capítulos que, a este respeito, escrevi nos Comentários, evocações e pensamentos, já citados.

[ii] As frequentes mudanças de domicílio fizeram com que alguns livros se perdessem, o que deixou certa mágoa em Amorim de Carvalho, levando-o, muito mais tarde, por saudade, a comprar novos exemplares das obras perdidas que ele vira, e lêra, na sua juventude, em casa dos pais (por exemplo: de José d’Arriaga, a Historia da revolução portugueza de 1820 que Amorim me ofereceu).

[iii] Sem descendência, Carlos Bastos era casado com Maria Cândida Freitas Caldas de Matos bisneta também do poeta romântico Antόnio Pinheiro Caldas.

[iv] Fundada e dirigida por Amorim de Carvalho, a revista (entre 1947 e 1952), de clara orientação estética e filosόfica imposta por Amorim de Carvalho, com excelente colaboração, teve difusão quase universal, desde o extremo Oriente, China e Vietnam, ao continente americano passando pela Europa; manteve intenso intercâmbio com intelectuais, entidades culturais, universidades de prestígio.

[v] As mudanças não alteraram a beleza conceptual nem formal do poema. Para as publicações não periόdicas, a censura exercia-se a posteriori; daí o facto de o autor ter sido obrigado a recolher os livros, já postos à venda, para substituir algumas poucas palavras por outros vocábulos que foram, de facto, impressos, e para alterar um ou dois curtos versos.

[vi] Darcy Azambuja (contista regionalista dos melhores de expressão portuguesa, jurista ‒ direito constitucional e filosofia do direito ‒, secretário do Interior e Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, assumiu diversas vezes as funções de Governador estadual), Roque Callage (novelista e publicista), Fernando Callage (escritor regionalista, especialista da doutrina social catόlica) e Ribeiro Tacques (político sul-rio-grandense, cultor das letras) são tios-avόs paternos e maternos de Maria Cristina nora de Amorim de Carvalho. Os exemplares das obras desses autores (muitas delas com dedicatόrias manuscritas suas) e a documentação que se lhes refere conservada no Arquivo da Casa Amorim de Carvalho, constituem importante espόlio da intelectualidade sul-rio-grandense novecentista que foi transferido do extremo sul do Brasil para aquela Casa. Vid., da minha autoria, 1) no Arquivo da Casa, o trabalho sobre Fernando Callage. O homem e a sua autenticidade (in A Razão, Santa Maria, 12, 13, 14, 15 de janeiro de 2009); 2) na Livraria Nova o extenso ensaio sobre Ribeiro Tacques, ou de como relacionar uma célebre rua do Porto romântico com um autarca santa-mariense (in Revista do Institudo Histόrico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n.° 148, 2014, págs 81 a 118).

[vii] Há uma histόria a contar à volta desta colecção de berrantes capas vermelhas: apesar de Amorim ter recebido, na juventude, uma primeira formação anglicista na Escola Anglo-Latina de José Teixeira Rêgo, este, a partir de certa altura, emprestava-lhe, com frequência, livros daquela colecção; é a partir daí que Amorim interessar-se-ia mais, e progressivamente, pela cultura francesa. Todos os livros da colecção actualmente existentes na Livraria Antiga, foram comprados, muito mais tarde, por Amorim de Carvalho.

[viii] Este livro pertenceu a um dos marquezes de Alegrete, sem que eu possa dizer qual deles.

[ix] O livro foi avaliado em 320 rs. ‒ Referi-me a Jeronimo d’Ornellas no cap. III deste texto. Ele  e sua mulher Lucrécia são 7.os avόs da Maria Cristina nora de Amorim de Carvalho.

[x] Note-se que se Amorim perdera a prática correcta do inglês falado, língua que também não redigia (vid nota 29), manteve, no entanto, um bom conhecimento do inglês lido. Vem a propόsito lembrar que Amorim fez a mais bela tradução (explicada e justificada) do Raven de Poe para uma língua latina (vid. Teoria geral da versificação, vol. II, págs. 183-222 da edição de 1987).

[xi] Da Livraria Nova se fará referência no cap. IX.

[xii] Vid., nas Obras reunidas de Amorim de Carvalho, o volume Assuntos familiares.

[xiii] De seu nome completo: Camille Sébastien Gustave Charléty (1867-1945).

[xiv] Como se sabe, muitas das referências pόstumas a Amorim, têm sido publicadas em periόdicos, cujos recortes podem estar conservados no Arquivo da Casa.

[xv] Fundada e dirigida inicialmente por José Domínguez Caparrόs e Esteban Torre, é sua actual directora María Victoria Utrera Torremocha. A revista, especializada estritamente nessa faceta da versificação que eu apelido de nobre, isto é, o ritmo verbal ou métrica, tem publicado os meus estudos sobre essa temática com o maior relêvo; são eles: Amorim de Carvalho. No 1.° centenário do seu nascimento (síntese biográfica). Uma bibliografia sobre versificação (n.° 2, ano de 2004), O ritmo na poesia de Amorim de Carvalho (n.° 3-4, ano de 2006), Do ritmo ‒ para a expressão poética na arte literária ‒ no pensamento estético de Amorim de Carvalho. Contribuição amoriniana para a histόria da versificação (n.° 20-21, ano de 2023).

[xvi] A matriz dactilografada conserva-se no Arquivo da Casa Amorim de Carvalho. Entre as datas daquelas edições, precisamente em 1984, o Depoimento foi integralmente publicado na revista Nova Renascença.

[xvii] Possìvelmente em 2027, comemorando o centenário da publicação da primeira obra  em livro de Amorim de Carvalho.

[xviii] Esta série está vocacionada para tratar de todo e qualquer assunto relacionado com a Casa Amorim de Carvalho.

[xix] Referindo-me a Amorim de Carvalho, tenho utilizado expressões como: poeta, esteta e filόsofo ou poeta-filόsofo, o que corresponde às características mesmas do seu multifacetado espírito intensamente criador em cada um daqueles três aspectos ‒ o que foi bem compreendido por estrangeiros, e que corresponde a um caso único no espaço cultural da língua portuguesa. Quanto à forma expressional, por mim por vezes usada, de poeta-filόsofo, convém afastar qualquer eventual confusão que possa assaltar os espíritos menos atentos ao pensamento amoriniano: impõe-se bem distinguir, em Amorim, as duas facetas de poeta e de filόsofo (no filόsofo incluo o teorizador da estética) considerando que se Amorim é um poeta filosόfico (é-o, como se sabe, em dimensão e altura não ainda atingidas no âmbito da língua portuguesa nem em outros círculos culturais), não significa isso que ele seja um filόsofo poético, diluindo esse primeiro conceito no segundo ou perrmitindo que este contaminasse o outro (o que não é, de modo algum, o seu caso). Note-se que, se Amorim de Carvalho renovou decisivamente as perspevtivas de avaliação estética na literatura de expressão portuguesa (pela sua técnica e teorização objectivas), se se posicionou como um dos cinco maiores poetas de pensamento da língua portuguesa (fechando o ciclo constituído por Camões, Antero, Junqueiro, Pascoaes e ele mesmo), também ele se apresenta como o mais significativo filόsofo do âmbito cultural de expressão portuguesa (através da construção de um pensamento positivo sustentado em forte sistematização ontolόgica).

♦♦♦

Júlio Amorim de Carvalho. Nacionalidade francesa. – Estudioso da obra de Amorim de Carvalho. Fundador da Casa Amorim de Carvalho. – Jurista (Fac. de Droit et des Sciences Économiques de lÚniv. de Paris); diplomata (Secrétaire des étrangères) aposentado.