D’A Grua e a Musa de Mãos Dadas – por Fernando M. Guimarães

A Grua e a Musa de Mãos Dadas é o título da sexta obra literária de Jorge Carlos Fonseca. Em entrevista dada ao jornal caboverdiano Expresso das Ilhas (30/9/21), a propósito do lançamento do livro na Cidade da Praia, o autor afirmava que a sua escrita não obedecia a qualquer programa ou intenção. Composta por 106 fragmentos, a natureza fragmentária da obra é religada por uma ideia sem a qual a literatura não faz sentido – a liberdade, esse exercício de escrita que encontra a sua matéria em tudo o que constitui pretexto da e para a criação literária: da literatura à política, dos afazeres que o dia a dia exige às pausas que a insónia impõe.

Atendo-nos apenas ao que à literatura diz respeito, o primeiro livro de Jorge Carlos Fonseca é de 1995, e tem por título O silêncio acusado de alta traição e de incitamento ao mau hálito geral. Segue-se-lhe, em 1998, Porcos em Delírio. Em 2017, sai a lume O Albergue espanhol e, em 2019, A sedutora tinta de minhas noutes. Em 2020 publica, em edição de autor, um conjunto de textos em prosa poética com o título Em tempo de Natal e da Morna, a mosca viajou gratuitamente na executiva – uma prenda de Natal para os amigos, que o autor decidiu estender a todos os leitores seus.

Em A Grua e a Musa de Mãos Dadas convocam-se os sortilégios que, no texto, são fonte de delírio, de acaso e de desejo de beleza. Na escrita do “inventor do surrealismo caboverdiano”, o corpo do texto é sempre um cadáver esquisito, em que as circunstâncias – as que no quotidiano do poeta são nossas por igual e as que, por serem inverosímeis, também o poderiam ser –, se transfiguram num acto de criação que é, frequentemente, um pacto de agressão e transgressão. É a liberdade o que move Jorge Carlos Fonseca e, como se lê no ponto dois do fragmento 63, nenhum Nicolau, por mais primeiro que o seja, se arvorará em censor, ainda que seja o único: “Certo é que nunca aceitarei, como Púchkin, que me digam e imponham ‘Doravante serei eu o teu único censor’. Nenhum czar, nenhum capitão, nenhum déspota iluminado!” É Pushkin, pois claro, mas também Breton, Arménio Vieira, Cesariny, Mário Fonseca, Eugénio Tavares, Artaud e António Maria Lisboa, Baudelaire e Corsino Fortes, René Char e João Vário.

Oficiante da “véspera das coisas”, lê-se no fragmento 66 , um in memoriam a Mário Fonseca em que, na doce soleira do acontecer, se adivinha a inquietação do mundo: “Por isso que o balbucio dos versos de amanhã traça o instante do voo do pássaro que ainda adormece.”

A dar cumprimento ao que, no dizer de Adonis, surge como epígrafe, “A escrita, […], ensina apenas que a pátria não é um lugar, que não se situa em parte nenhuma. Ensina que é, ela própria, a pátria. Ensinou-me como poderia dizer: o meu corpo é o meu país”. A poesia e a prosa das páginas de A Grua e a Musa de Mãos Dadas são a celebração de uma pátria ‘livre das rugas do silêncio’:

“Não há cor, imaginária que seja, que não se exiba nos olhos e no sorriso do meu país.

Não há dor, viandeira que seja, que não atravesse os caminhos sinuosos da pátria que se nos ofereceu, andarilha e vária. Livre das rugas do silêncio.

O país, de tão livre que, na sua elegante e serena caminhada, amiúde não reconhece a própria voz.”

José Luís Hoppfer Almada, em ensaio dedicado à aclaração dos caminhos da poesia e da ficção caboverdianas, «Que caminhos para a poesia caboverdiana? Antigos e recentes debates e controvérsias sobre a identidade literária caboverdiana», publicado em 2011 na revista Navegações, de Porto Alegre, sinaliza as linhas de força das correntes estético-literárias contemporâneas. A existência de um sistema literário caboverdiano, diz o poeta e ensaista que cultiva a deflagração em muitas vozes, tem servido “de esteio aos novos poetas e ficcionistas para trilharem caminhos diferenciados”. Para além das estratificações, sempre redutoras, dos posicionamentos face à tradição e aos que dela são inquestionavelmente devedores, a cultura e a literatura caboverdiana soube, a partir dos anos 80 do século passado, reinventar-se, assumindo, em toda as sua claridosa plenitude, a modernidade nas suas múltiplas formas. Adentro da produção literária pós-colonial, Jorge Carlos Fonseca é referido como o «poeta da reinvenção caboverdiana da subversão surrealista».

Com efeito, a escrita de Jorge Carlos Fonseca assume abertamente o projecto surrealista de, na violência exercida sobre a linguagem, no desenraizamento das palavras enclausuradas no seu uso doméstico e domesticado, na delirante associação de temas e referências literárias, dar a ver o sonho que, na citação de António Maria Lisboa que abre a segunda parte de Porcos em delírio, se proclama : «Politicamente, a metaciência só será possível quando todos os homens forem poetas». Certo da concordância de George Orwell com este desígnio, Jorge Carlos Fonseca advoga a poesia para a vanguarda deste propósito, como se pode ler no poema nele inserto, «Poesia em festa»:

“Assediada pelos órgãos de informação/respondeu categórica a Poesia:/“Não faltarei ao Congresso./Levarei comigo, no entanto, uma lua pentagonal e /uma orquestra surda de anões desfigurados.”

É caso para dizer que, da discussão sobre o melhor título a dar a este livro que, numa casa da Achada de Santo António da Cidade da Praia, tiveram o autor e René Char, tanto acerto tem Porcos em Delírio como o de ‘Porcos em Liberdade’.

Manuel Sérgio assinala, em artigo publicado no jornal A Bola (25/7/2017), a propósito d’O Albergue Espanhol, mas que, sem prejuízo algum, se pode aplicar ao livro que agora nos ocupa, que a escrita de Jorge Carlos Fonseca é surpreendente, pois não se deixa fixar num género específico e, se a prosa poética e a poesia ela-mesma prevalecem, no folhear das páginas deparamo-nos com um apontamento de quase reportagem jornalística,  um ensaio ou um romance mesmo. Em qualquer caso, todos estes registos são sempre atravessados pela pulsão poética em que o trabalho sobre a linguagem é, a um tempo, a sua marca e o seu destino. São as propriedades comutativas e associativas das palavras a grua que permite (Não digo ‘alavancar’, porque a leitura de um fragmento do livro que tenho em mão me avisa do desapreço que o autor tem pela palavra) que, na oficina lúdica da imaginação poética, os acontecimentos do mundo a que chamamos reais se transfigurem numa surrealidade que sempre desconcertam o leitor.

As representações que fazemos do mundo – do que mais próximo de nós está e do que para nós é distância sem fim –, fazem-se por meio de muitos factores, umas vezes na concordância entre eles, outras na contradição que, conscientemente ou não, as constituem. E a literatura é um dos factores que melhor contribuem para a formação dessas representações. Ao convidar-nos à suspensão da incredulidade, pela criação de mundos possíveis, ficcionais, o artista, o poeta, convida-nos para a tarefa, violenta às vezes, de confrontarmos o que sobre nós, os outros e o chão em que vivemos, acreditamos saber como realidade ela-mesma. Neste exercício de descoberta e clarificação, “encontrar o norte” é apenas uma força de expressão porque, no caso que agora é o nosso, o olhar e a atenção dirigem-se para sul.

Urbano Bettencourt, num ensaio intitulado «Claridade, claridosidade – a irradiação açoriana», assinala alguns dos momentos decisivos em que dos Açores se olhou para Cabo Verde e, como nesse olhar, aprendeu a ver o que de melhor se podia fazer. É a descoberta da Claridade, revista e movimento literário e cultural que, a partir da segunda metade dos anos trinta do século passado, trouxe uma nova atitude perante a realidade caboverdiana, a social, política, cultural e literária. Eduíno de Jesus, um dos mais destacados elementos do Círculo Literário Antero de Quental, criado em 1946 por um conjunto de jovens estudantes do Liceu (houvesse na altura o TikToK e a história seria outra…), refere que o propósito do grupo era trazer a modernidade literário-cultural para os Açores e concorrer para a fundação, na teoria e na prática, de uma literatura propriamente açoriana, seguindo o exemplo de Cabo Verde. Por seu lado, Pedro da Silveira afirma a verdadeira epifania que foi a leitura do livro de poemas Ambiente, de Jorge Barbosa, publicado em 1941. As identidades, culturais, sociais e políticas fazem-se pelo diálogo com os outros e, mau grado certas tendências e pulsões que nos nossos dias preenchem os espaços político-mediáticos, nunca contra os outros. Pedro da Silveira foi/ é exemplo dessa atitude de curiosa atenção ao que, noutros ambientes-geográfico-culturais, se vai fazendo. E, para o poeta que cultivava o diálogo com as ilhas todas do mundo, foi o encontro com a poesia da Claridade que lhe suscitou a urgência da vinculação dos escritores ao seu tempo e espaço e, com isso, iniciar a descida  do mundo das nuvens à terra das ilhas.

Sim, o mar separa, mas também é travessia e, para usar uma expressão que, por ser dos brasileiros também é nossa, é liberdade de ir e vir. Afinal, o mundo é um imenso arquipélago e a literatura, a poesia, é a grua e a musa em que melhor se pode navegar, ao longo e ao largo de África, ao longo e ao largo do mundo.

Ponta Delgada, Dezembro de 2021

* Texto de apresentação do livro no Centro Cultural Natália Correia, Ponta Delgada, no dia 5/12/2021

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Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófi¬ca e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.

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