PRISIONEIROS DO TEMPO – por Ester Fridman

Vida, Mente, Universo, Consciência, Tempo, Espaço… Alguém sabe o significado dessas palavras? Será que dentro de nossa condição humana é possível saber? Um grande número de pensadores e filósofos através dos tempos vem tentando desnudar os  mistérios da vida e até então ainda não os conhecemos. Talvez seja porque temos usado a ferramenta errada, qual seja – o pensamento. Em especial a civilização greco romana posterior a Sócrates vem atribuindo um valor excessivo à razão, ao intelecto e seu produto, o pensamento lógico analítico. Ninguém criticou mais esse tipo de conduta do que Nietzsche, que costumava dizer que a decadência começou com Sócrates, exatamente por isso. Com séculos e séculos de condicionamento foi ficando cada vez mais difícil pensar por outra via que não a lógica, cujo funcionamento corresponde ao hemisfério esquerdo do cérebro. Mas e o hemisfério direito, da imaginação e do pensamento simbólico, porque não é valorizado e devidamente utilizado, ao menos na mesma proporção de seu vizinho? Jiddu  Krishnamurti, em uma de suas palestras publicadas em livro, diz que “Estamos condicionados a pensar em termos de progresso, de realizações gradativas. As pessoas pensam em desenvolvimento psicológico, mas será que existe algo como psicologicamente ‘eu’, realizando qualquer outra coisa que não seja a projeção de um pensamento?” Ora, é bem possível que tudo o que conhecemos seja mera projeção do pensamento! E um “eu” psicológico pode nem sequer existir! Krishnamurti  sugere que para descobrirmos se existe algo que não seja meramente uma projeção do pensamento, portanto uma ilusão, precisamos investigar se o pensamento pode ser mantido em suspenso, não ao modo de Descartes, mas suprimindo-o para que a mente permaneça imóvel. Acho essa ideia fascinante, através da observação, perceber que mente e pensamento são coisas distintas, em seguida, conseguir suspender todos os pensamentos. Depois ele irá dizer que não é possível parar os pensamentos que, como o tempo, não para, mas ao saber diferenciar a mente do pensamento, deixamos de ser comandados por este, e, dessa forma, temos acesso a uma verdade outra, a uma condição outra, que ele chama de liberdade. Liberdade, segundo ele, seria não estar preso ao pensamento e ao seu jogo de opostos que cria uma série de desejos e aversões. Conhecemos bem essa história, desejamos o que nos parece bom e prazeroso, e temos aversão ao que nos parece mal e nos dá desprazer.

Com relação ao tempo, sabemos que tempo e espaço são condições de nosso aparato cognitivo, não são conceitos que se aplicam fora da realidade que conhecemos através do intelecto e dos sentidos, realidade esta bem limitada. Emanuel Kant descreve de forma brilhante a questão do tempo/espaço em seu livro A Crítica da Razão Pura. Mas ele não entra na questão que Krishnamurti aborda sobre a relação intrínseca do tempo com o pensamento. O pensamento se dá no tempo e depende da memória. Segundo ele, pensamento e tempo são praticamente sinônimos, embora isso possa parecer estranho. A civilização e tudo o que conhecemos – as culturas, religiões, ciências, todas as invenções, tudo foi criado pelo pensamento. Mas será que o pensamento é algo confiável? Para Nietzsche é algo absolutamente nada confiável. Sabemos que o pensamento lógico analítico não consegue abranger a totalidade, ele só consegue abranger algumas partes, uma de cada vez, e o pior, ao compreender cada parte, não consegue associá-la ao todo; diferente do hemisfério direito que compreende a totalidade, embora não saiba dividi-la para nomeá-la. Por isso Nietzsche diz que somos fragmentos – um é uma orelha, outro é um nariz, e assim por diante. Somos fragmentos e vemos tudo fragmentado. Como nosso mundo pode dar certo dessa forma? Nosso intelecto funciona na base dos opostos, divisão,  análise e comparação. Assim, para entendermos o que é uma coisa temos que compará-la com outra. Para que haja entendimento racional pelo pensamento, este separa o pensador do objeto pensado – a famosa divisão de sujeito e objeto. Toda divisão gera conflito. Mesmo nas questões subjetivas, como na Psicologia, por exemplo, ao pensar sobre a psique, esta passa a ser objeto, separado da pessoa que o pensa. Aliás, é mister questionar se o pensamento lógico analítico pode ser utilizado para pensar sobre assuntos da Psicologia, uma vez que esta lida com múltiplos fatores que de lógicos nada tem.  Não da lógica do intelecto. O pensador, ao pensar sobre qualquer coisa, seja sobre o designer de uma cadeira, seja julgando o comportamento de seu amigo, seja criando normas para a sociedade ou pesquisando sobre uma doença, se logo em seguida ao ato de pensar ele não voltar ao estado de integridade, mas permanecer na divisão, ele terá a falsa impressão de que ele é separado de tudo o que não é ele, ou seja, todas as outras coisas e todos os outros seres vivos, inclusive o planeta no qual habita. E pior – ele vê tudo o que acha que não é ele como inimigo, e quer tê-los sob controle. Como praticamente todos os seres humanos fazem isso o tempo todo, temos a ilusão de sermos separados de tudo o que nos rodeia, e a condição de conflito tornou-se a condição “normal”. Casais brigam, pais e filhos brigam, amigos brigam, vizinhos brigam, partidos políticos brigam, religiões brigam, nações brigam. E é nesta condição que nossa civilização e cultura foram criadas. Assim, muito embora algumas pessoas empenham-se arduamente em acabar com a pobreza, com a violência, com a injustiça, com os preconceitos, com as guerras, com as doenças, jamais irão conseguir se continuarem pensando e atuando dentro dos limites da razão e das percepções sensoriais do mundo físico. A violência, a injustiça, os preconceitos, as guerras, as doenças e todo o sofrimento só acabarão quando cada um, individualmente, compreender que tudo isso acontece dentro de si mesmo, de cada um de nós. Se uma pessoa não consegue passar os dias de sua vida com sua mente em silêncio, apenas observando os pensamentos, mas, pelo contrário, fica a mercê de seu eterno jogo de opostos, como ela conseguirá silenciar  a violência, a injustiça, os preconceitos, as guerras e as doenças? Enquanto formos escravos do pensamento, que por definição é dual, estaremos criando oposições. Sim, somos nós que criamos as oposições. Cada grupo que se forma, seja uma religião, um esporte, uma posição política, sempre achará que a sua posição é a correta, e o outro está errado. Haja vista a política moderna e sua luta de poderes nomeando suas posições de esquerda e direita. Nietzsche pontuou toda a problemática da polaridade: todos os opostos são fios da mesma meada, são graus da mesma coisa. Assim, preto e branco são iguais, esquerda e direita são iguais. Quem se diz ateu na verdade não o é, como a própria palavra diz: “a” = prefixo de negação e “teu” vem do grego “theos”, que significa Deus. Assim, ateu é a negação de Deus. Ora, se está negando Deus está admitindo sua existência. As línguas antigas, como bem observou Freud, só tinham uma palavra para designar os opostos, porque os antigos sabiam que estes são a mesma coisa. Não eram como as línguas modernas que tem uma palavra para designar “branco” e outra para “preto”, uma para designar “dentro”, e outra para designar “fora”. A língua alemã ainda guarda muitos resquícios do alemão antigo, e a língua inglesa ainda guarda algumas poucas palavras que contém o seu oposto, como, por exemplo, a palavra “without” – “with” = “com” e “out” = “sem”, que hoje a usamos apenas para significar “sem”. Quem não percebe que os opostos são apenas graduações da mesma coisa, gasta sua energia à toa e não mudará nada, como nada mudou desde a época das cavernas até hoje. As mudanças foram só externas, nos objetos utilitários e na tecnologia, mas a humanidade continua não conhecendo a si mesma, a complexidade de sua psique. Quem leu a obra inteira de Freud sabe que ele fez tentativas para compreender mas não conseguiu sair do aprisionamento do intelecto, e por isso Reich e Jung acabam por dele se afastar e seguir seus próprios caminhos, o primeiro com descobertas incríveis sobre a nossa energia e o segundo mergulhando no inconsciente, cuja lógica é bem diferente da lógica consciente da razão. É provável que a humanidade só mude quando todos perceberem que o jogo de opostos é o verdadeiro problema, e a solução para acabar com todo o sofrimento é libertar-se da escravidão do pensamento, utilizar o pensamento apenas para o que ele serve – resolver questões práticas. O pensamento não vai além disso, não atua na psicologia e em nenhuma questão subjetiva. E todos os problemas que vemos lá fora começam dentro de cada um, são subjetivos. Enquanto cada um continuar atuando dentro dos parâmetros duais e limitantes do pensamento, continuar afirmando: eu gosto disso, eu não gosto daquilo; eu quero isso, eu não quero aquilo; continuará prisioneiro da polaridade, se posicionando de um lado e rejeitando o outro. Estar para além do bem e do mal seria a saída. Nietzsche percebeu isso, tentou ajudar a humanidade com sua obra, não foi compreendido e enlouqueceu. Que possamos, mais de um século após sua morte, compreender suas palavras e colocá-las em prática antes que seja tarde demais.

Ao observar a si mesmo, e também ao mundo, que é a mesma coisa, percebemos que vivemos simultaneamente em muitas dimensões, todas pertencendo a um todo e relacionadas entre si,  – as dimensões física, etérica, emocional, mental inferior, mental superior e a dimensão espiritual, sendo que esta última tem muitos degraus. Claro que esses termos – “dimensões”, “níveis” e degraus” são oriundos do pensamento que tudo divide; quando se tem a percepção do todo não existe divisões e não existe evolução, pois evolução só existe na linha do tempo. A humanidade dos últimos milênios tem tido a percepção apenas das dimensões, digamos assim, inferiores, – física, etérica, emocional e mental inferior. Uma minoria tem a vivência do mental superior e das dimensões espirituais. O grande problema é que as dimensões inferiores estão presas ao tempo.

Desde a antiguidade aos tempos modernos mestres e avatares vem tentando ajudar a humanidade a acordar de seu estado precário de existência, seu estado verdadeiramente doentio, permeado por misérias e mazelas, tentando mostrar que nenhum sofrimento é necessário, que é possível viver uma vida de abundância e plenitude, mas, infelizmente, não conseguimos compreendê-los porque não conseguimos nos libertar da prisão do pensamento. Krishnamurti percorreu o mundo dando palestras sobre a importância de estarmos em silêncio interior enquanto atuamos no mundo, observando os movimentos do pensamento para assim nos darmos conta do caos interior que somos, e ao ter consciência do caos, colocar ordem na casa. Se cada um colocar ordem em sua casa interna, toda a sociedade, que é composta por cada um de nós, viverá em ordem – sem conflito, violência e desamor. Não adianta batermos na mesma tecla dos últimos milênios, buscando soluções aos cada vez mais graves problemas, com as mesmas ferramentas de sempre, que, se nunca funcionaram, por que haveriam de funcionar agora? Mestres de Yoga, assim como Osho, Gurdjieff, Rudolf Steiner, literaturas antigas como os Vedas, a Bíblia, a Cabala, o Alcorão, enfim, toda a tradição antiga da Índia, Suméria, Egito, Japão, China, descobertas arqueológicas sobre as civilizações anteriores à nossa, como Atlântica e Lemúria, toda essa riqueza de conhecimento genuíno, de nada tem nos servido para efetivamente transformar nossa condição e terminar com a miséria humana. As lindas lições de vida de Krishna, Moisés, Buda, Cristo, infelizmente não foram compreendidas e seguidas. Hoje, todos os sinais indicam que estamos no final de uma civilização, já que o final das anteriores se deu no auge da decadência. Como sempre, o final se dá igual ao filme Titanic – o navio afundando enquanto os músicos continuam tocando e as pessoas se comportando como se a catástrofe não tivesse nada a ver com elas. E assim afunda a humanidade.

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Ester Fridman (Brasil, 1963)
Filósofa e escritora, pesquisadora da linguagem simbólica, seu tema de mestrado foi A Linguagem Simbólica no Zaratustra de Nietzsche. Estudiosa também das filosofias da Índia, escreveu Kriya-Yoga e a Filosofia dos Kleshas no Yoga Sutra de Patanjali.
Contato: ester8fri@gmail.com

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