POEMAS de Caroline Schmidt

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agora que são 5 e meia da manhã
ouvi o bem-te-vi ou seja lá que pássaro cantar
vi o Sol surgir puxado num nó pela Lua
os mendigos pararam de brigar e gritar
suas narrativas fantasmas de não-vida
agora que vejo os faróis dos carros
que carregam seja lá o que no porta-malas
e a bomba matinal recheada de letrinhas e violência
atirada na porta de casa chegou
deixando mais feridos que o número de moradores
posso dormir sabendo que o mundo continua a mesma merda
inércia
e que qualquer hábito por mais
estúpido ou louvável que eu cometi ontem
ou nos últimos anos
não mudou nada

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quando digo que o quê sinto por ti é amor
limito a palavra e te comparo ao outro que passou
ou então ao amor que sinto pela minha mãe
a palavra limita o sentir
e se torna rainha sobre ele
podendo mover-se livre pelo tabuleiro
onde o principal é defender o rei
o sentir
por isso não quero dizer que te amo
porque é mentira, porque não te amo
como amei os outros
não te amo como amo esfregar meus pés
um no outro e no colchão
antes de dormir
te amo como a escrita não alcança
te amo como a etimologia não dá conta
mas já que preciso traduzir o insubstancial
para o insubstancial letrado
te digo que te sinto
e te sinto cada dia mais

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Consigo ouvir os gritos aqui de cima
debaixo da minha cama
portas batendo, vozes vacilantes…choro
boto minhas duas mãozinhas nos meus ouvidos
mas ainda consigo escutar portas batendo, vozes vacilantes…choro
começo a cantarolar para mim mesma, aqui embaixo da cama nada pode me alcançar
mas as portas batendo, as vozes vacilantes…o choro, parecem não querer ir embora
escuto passos, eles estão vindo. Eles estão chegando.
Fecho meus olhos e pressiono as mãos mais forte nos ouvidos
AQUI EMBAIXO DA CAMA NADA PODE ME ALCANÇAR
eles estão vindo, eu posso ouvir, cada vez mais perto
AQUI EMBAIXO DA CAMA NADA PODE ME ALCANÇAR
a porta se abre, consigo ver 4 pernas
AQUI EMBAIXO DA CAMA NADA PODE ME ALCANÇAR
alguém puxa o coberto lentamente…uma mão tateia o chão
AQUI EMBAIXO DA CAMA NADA PODE ME ALCANÇAR
encontraram-me; agora vão me chamar para brincar de casinha, como se nada tivesse acontecido.

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Caroline Schmidt: alguma coisa entre história da arte, tradução, cuidar dos gatos e limpar a casa. Porto Alegre, 1997.

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