UM HOMEM SÓ PELE – por Jaime Vaz Brasil

Lonely man under wind blown tree — Image by © Howard J. Winter/Corbis

Não posso pegar vento, por isso quase não saio mais de casa. Até saio, mas é direto para o trabalho. Depois, de volta e depressa.

Quando eu era pequeno, me lembro um pouco disso de não tomar vento. Mas a situação era outra. Quando conheci Alice, conheci a paixão e suas maravilhas. Os abraços de Alice, os beijos de Alice, os braços que eram dois eram quatro eram oito braços, aquele carinho e aquele modo de me levar ao céu que só ela sabia. Assim que juntei uns dinheiros, casamos. E Alice cada vez mais aquilo tudo, os beijos, o modo com que me cavalgava inclinada sobre meu corpo, agarrando com força meus braços, os gritos e gemidos que não imaginei encontrar em mulher esposa. Quando nasceu nosso filho, Alice ficou diferente. O olho dela ficou de mirada única. Mãe zelosa foi estar ali naquele corpo. Achei normal no começo, já tinham me avisado que nos primeiros tempos ia acontecer alguma coisa assim. Minha fêmea sexual foi embora. Aquela era outra Alice, uma outra espécie de fêmea, uma guardiã implacável protegendo a cria. E eu ficando invisível, eu cansando até de reclamar, de pedir. As coisas foram soando tão naturais que não estranhei quando ela disse deita aí e retirou um osso da minha perna. Um só. Tirou a fíbula, mas deixou a tíbia para que eu caminhasse. Para o trabalho, e depois de volta. E que habilidade, as mãos de Alice. Nem cicatriz. Nada. Com o tempo, outro ossinho aqui, uma carne ali. Com os ossos, ela fazia sopa para os dois. E a carne às vezes virava um guisado especial, que ela dava colher por colher para o filhote de olhos grandes e boca insaciável para tudo. Os seios de Alice, os que já foram meus estavam com ele. A boca num deles e a mão demarcando o território do outro. E assim foi que fiquei me sentindo sobrando e esvaziado, como se os meus dentros tivessem sumindo. Pensei em consultar algum médico, fazer uns exames. Fugi do trabalho e fui. Não encontraram veias para coletar o sangue. O moço do raio-x quase ficou louco, as chapas saíam todas pretas. O médico disse que meu problema era psicológico, acho que falou alguma coisa como “terceiro excluído” ou coisa parecida. Pensei em comprar um remédio por conta.

Quando cheguei na farmácia, subi na balança. Nem se mexeu. Pulei em cima. Nada. Comprei Aspirina e voltei pra casa ligeiro, estava na rua há muito tempo. Conheço as regras, não posso me arriscar mais do que isso. E devo me cuidar com o vento, antes que eu voe e desapareça de todo. Então apressei o passo e procurei não pensar em nada, como já me acostumei. E apenas chego, cada vez mais leve, cada vez mais só pele, mais oco. Abro a porta da teia, me acomodo e espero. Um dia os oito braços de Alice vão me alcançar.

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Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros públicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

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