CAATINGA DREAMS por Floriano Martins

A experiência é meu único dever  
Ingmar Bergman
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A perda de um pouco de memória costuma ser gentil com a alma.
Walter Bishop

2043- O que passar por aqui será escrito. Este é um acordo secreto feito entre muitas vidas, muitas delas jamais compreenderam o motivo. 31 anos se passaram sem a mínima suspeita de que eu devesse retomar essas anotações.

Foto de Paulo Burnay

A primeira máscara não sabia muito bem como pronunciar-se. Algo lhe dizia que evitasse os lugares comuns, porém o dilema radicava propriamente em identificá-los. Helena me havia confessado o contexto de suas dores. O espelho a perseguia com figuras que correspondiam a passagens filtradas de sua própria vida. O espelho a refletia, não há dúvida quanto a isto, porém em momento algum se encontrava diante de sua representação atual.

É como se o espelho filtrasse seu passado, desatando parentescos, analogias, com parte do que vivera, fatias de uma Helena simbólica que era sempre um duplo de si mesma. O espelho não lhe cicatrizava o passado. Devorador ardiloso disposto a passar-se por passivo, o espelho reluzia uma consciência estremecida, descontínua, afetada pelos humores da ansiedade. Quando Helena começou a variar as máscaras de presença ao meu lado, percebi que ela estava desenvolvendo um perigoso atributo em nossos encontros.

— Se um dia o teu corpo disser adeus ao meu ele não saberá para onde ir.

Costumávamos rir com essas frases que surgiam entre nossas carícias. A única mobília de que me recordo agora era um sofá de todo improvável que usávamos como passagem de um mundo a outro. Não havia espelho ou qualquer preocupação com a distância. Fabulamos uma intimidade tão intensa que jamais demos pela ausência do mundo visível. Recordo uma vez, logo ao princípio, em que Helena por duas ou três vezes insistiu em falar comigo ao telefone. Vivia talvez a ilusão de que a voz conduzisse a alguma realidade, a algum argumento de personificação do que escutamos. Eu sentia o mundo desfazer-se dentro de mim a cada insistência dela. Quem eu poderia ser ao telefone?

— Não me importa o que digas. Há momentos em que necessito desvendar o sabor, o cheiro, a temperatura de tua voz. O meu corpo vive agora tão distante de mim e ao mesmo tempo eu o sinto de uma forma que jamais pude imaginar.

— Eu também não sei ao certo o que estamos fazendo. Eu não procuro ter respostas para o desejo.

— Não parece estranho que estejamos a dar corpo ao intangível? O que somos? Quando nos desconectamos, voltamos a ser exatamente o que?

Helena necessitava da prova física de uma manifestação do improvável em sua vida, esquecendo que as demais formas de comunicação à distância entre os seres repetiam, na origem, o mesmo grau momentâneo de rejeição. O orgasmo alcançado no frenesi de um teclado que fixa no desejo a mística de impulsos imediatamente correspondidos não é distinto da masturbação em sua forma clássica. A exploração do sexo à distância sempre rendeu mais argumentos bancários do que morais.

— Amor, onde estás? Eu te espero como uma louca, sem saber o que está se passando comigo. Hoje o pensamento em ti me queimava por dentro e fui ao banheiro no hospital me tocar pensando em nós. Vem me tocar.

Quais as verdadeiras atividades físicas do homem? Em essência, o que somos é reflexo do que desejamos, imaginamos, recordamos. O hábito nunca fez o monge. A ideia do sacrifício físico é uma manipulação da política. A queda bíblica que levamos a vida cavando não tem limites fixos. Se nunca estivemos aqui antes, que sentido faz recorrer a verbos cuja essência indica retorno? E se não há origem, como ao menos imaginar um sucedâneo?

— Amor, onde estás?

Na medida em que a história ia sendo escrita, o cenário se modificava, mesclando o ambiente à sua volta e detalhes visuais que lhe eram completamente desconhecidos. Algumas frases que surgiam não contradiziam o enredo, antes lhe davam um contexto distinto do imaginado e por vezes tão perturbador que temia o que surgia diante de seus olhos, à sua inteira revelia.

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Floriano Martins (Brasil, 1957). Poeta, ensaísta, editor e tradutor. Dirige a Agulha, Revista de Cultura e a ARC Edições, N Brasil.

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