“CARTA ABERTA” A UMA DEUSA-RAINHA – por Joaquim Fernandes

Fui Teu pajem, aos 10 anos, ajaezado a rigor na ingénua atmosfera barroca e amorável de uma modesta capela desta “cidade da Virgem”. Lembro a Tua figura em carne viva num cortejo joanino evocativo da coroação, em 1646, como Rainha deste país. Quis o destino (e a madre-superiora da escola) que uma outra Conceição de louras tranças Te revivesse em corpo grácil: só a mais bonita da escola, namorada primeira, haveria de incorporar a mais radiosa divindade do Panteão celeste…

Por tudo isto que nos reza a História, esperar-se-ia de Ti, soberana celeste coroada na terra lusa, que a dor com que nos tens castigado se não fizesse sentir desta forma tão abrupta: onde estavas Tu, quando o teu avatar madeirense, a Senhora do Monte, se aprestava a ser alvo de piedosas homenagens do povo ilhéu? Porque deixaste o carvalho, – onde as Tuas estátuas se abrigaram em ocos refúgios ao longo dos séculos, familiar próxima da azinheira de Fátima, – massacrar os Teus apaniguados, quando a Ti devolviam e sufragavam votos de uma religião popular arcaica? Lembro-Te que, nessa multidão de romeiros, figurava um inocente de 15 meses que ali Te agradecia, ao colo do pai, a benesse de uma sobrevivência recente… “Mas, as crianças, Senhora…?”. E a Tua distração poderia ser mais penosa, se a tábua que tombou do teto da Tua Igreja, no fatídico largo funchalense, houvesse atingido os teus crentes ali antes reunidos em vez do vazio por eles deixado…

Corre pelas bocas do lendário local que pretenderias com estes “avisos” mortais que devolvessem a Tua imagem de volta ao Largo das Babosas e ao Teu primitivo templo, arrasado por um aluvião em 2010. Sabe-se que passaste quase incólume essa afronta dos elementos: mas, o que é um pé partido para a Tua omnipotência?

Sabemos que este Teu desejo de fuga e mudança é reiterado em centenas de lendas marianas que interpretas desde tempos imemoriais: a Tua estátua que deserta repetidamente para o local original do seu achamento, uma, dez vezes, até que os devotos percebam a “mensagem”. Afinal, foram 13 vidas – número mágico a que estás associada – imoladas com que sentido?

Do largo mar para a terra continental deixaste igualmente que, em Lousada, o teu avatar Senhora da Aparecida despenhasse o seu trono de mais de uma tonelada e meia dos ombros dos teus devotos serviçais. Sete feridos. Sete. O que pretenderás significar com este outro número simbólico?

E como não há duas (distrações) sem três, retomo o clamor da boca do teu sacerdote, o bispo D. Anacleto, nas festas da Senhora da Agonia, apelando-Te para que intercedas pelo fim dos incêndios florestais, dessa insanidade vertiginosa das tempestades de fogo que lavram pelo húmus da nossa riqueza coletiva. Se ainda és a Rainha deste rincão eleita por D. João IV porque é, como pediu o Teu prelado vianense, “não dás um murro na mesa e defendes os teus filhos”, súbditos incondicionais? Mas, se não queres ferir a já tão magoada madeira, onde Teu filho sofreu barbáries, e que a ígnea hidra consome em novos “autos de fé” neste Estio do nosso descontentamento, como não usas o teu pé seráfico e esmagas o ignaro pirómano, se não hesitaste em fazê-lo com a sábia serpente? Se o admirável e bíblico Sansão usou a queixada de um asno para liquidar mil filisteus, Tu, senhora de infinitos talentos, terás capacidades extra para extinguir a mão que embala este Inferno.

Não creio que, neste caso, as causas da tua distração, mesmo para uma deusa como Tu, sejam as densas nuvens de fumo negro que obstam a que identifiques, a partir da tua celeste residência, a real dimensão do crime que está em curso neste Teu rincão, desde Ourique ligado ao Céu e que aceitaste proteger. Certo é que nos habituámos a ter em Ti a Proteção Civil para todas as mazelas existenciais, deusa-rainha que sintetizaste o melhor de Cibele, Astarte, Deméter ou Isis, essa plêiade de divindades feminis, estereótipos da Grande-Mãe.

Teu ex-pajem, atento…

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Joaquim Fernandes é doutor em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, co-fundador do CTEC- Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, na Universidade Fernando Pessoa, Porto e co-autor, com Fina d’ Armada, de obras sobre a fenomenologia das “aparições” marianas, como “Fátima nos bastidores do Segredo” (Lisboa, 2002, Âncora Editora).

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