Luto – por Marilene Cahon

A palavra luto vem do latim “dor, mágoa, lástima”, de luctum, “chorar (pela perda de alguém ou de algo)”. Regra geral, é «sentimento de tristeza profunda por motivo da morte de alguém ou de qualquer outra perda significativa». Pode-se tomar como conceito adequado o de que “o luto é um processo de aperceber-se, de tornar real o fato da perda”. Não obstante, cumpre considerar que o luto “não é um conjunto de sintomas que tem início após uma perda e, depois gradualmente se desvanece. Envolve uma sucessão de quadros clínicos, que se mesclam e se substituem” O luto é “afinal o acontecimento vital mais grave que a maior parte de nós pode experienciar” Sua dor “é tanto parte da vida quanto a alegria de viver; é talvez, o preço que pagamos pelo amor, o preço do compromisso”.

A característica inicial do processo de luto acontece pelas relembranças da perda, aliadas ao sentimento de tristeza e choro. Este é um processo que evolui, onde as relembranças são intercaladas com cenas agradáveis e desagradáveis, sem, necessariamente, serem acompanhadas de tristeza e choro. Além destes sentimentos, é comum o estado de choque, a raiva, a hostilidade, a solidão, a agitação, a ansiedade e a fadiga. Sensações físicas como “vazio no estômago” e “aperto no peito” podem ocorrer. No sobrevivente, o luto por uma perda importante é uma dor lancinante que parece nunca ter fim. E por mais ou menos dois anos perdura sua tragicidade. Chega-se a perguntar para outras pessoas, que já vivenciaram um luto semelhante, quando essa dor abrandará. Perde-se a vontade de se cuidar, abandona-se hábitos de higiene, deseja-se imensamente que tal dor ao menos diminua. Do nada, as lágrimas escorrem intermitentes pelos olhos à simples lembrança da perda. Mesmo no meio de pessoas, a solidão se engrandece insondável.  Não há como medir o sentimento prostrante à simples ideia de “nunca mais”…

A duração do processo de luto é inconstante e seguida de uma notável falta de interesse pelo mundo exterior. Com o passar do tempo, o choro e a tristeza vão diminuindo e é esperado que a pessoa vá se reorganizando, porém isso ocorre a longo prazo e os episódios de recaída são comuns. Caso alguém não consiga lidar de uma forma socialmente adequada com a perda por mais de 6 meses, continue em intenso sofrimento e/ou não consiga se reorganizar, é considerado um luto patológico e é recomendado que se faça psicoterapia.

O luto é a fase da expressão dos sentimentos pela perda, a qual se demonstra por choque, desejo, desorganização e organização; é a fase de aprender que a morte deve ser tornada real, a partir do que se torna possível estabelecer novas concepções sobre o mundo, favorecendo investimentos pessoais.

O período do choque constitui-se de desespero, raiva, irritabilidade, amargura e isolamento. Tais sentimentos podem se manifestar por atitudes emocionais intensas e passam a ser expressos contra todo aquele que venha a compartilhar o luto, como uma manifestação de defesa, pois a aceitação desses sentimentos reafirma a perda.

A fase do desejo é caracterizada por um forte impulso de busca pela figura perdida. Nela ocorre um estado de vigília, de movimentação para os locais onde a pessoa normalmente estaria, e mesmo de chamamento, como formas de descaracterizar a perda, pois se ela é procurada, ela não morreu.

Na fase da busca e do desejo se misturam a desorganização e o desespero, pois esta perda traz consigo outras perdas secundárias, cuja intensidade dependerá das características da personalidade e das experiências prévias do enlutado e do apoio recebido por parte da sociedade e da família.

A fase de reorganização caracteriza-se pela aceitação da perda definitiva e pela consequente constatação de que uma nova vida precisa ser iniciada. No entanto, é possível ocorrer recidiva de episódios de saudade e de tristeza.

O luto, como não é um processo linear, não tem data para terminar, podendo durar meses e anos, ou mesmo nunca acabar, na dependência direta das características individuais da personalidade e ainda do nível e intensidade de relação que se manteve com o falecido.

No luto mal elaborado podem surgir quadros melancólicos: enquanto o luto representa a perda real, a melancolia representa o inconsciente, relacionado ao objeto perdido, quando não se sabe verdadeiramente o que se perdeu.

O processo de luto mostra-se organizado e é conscientemente aceito quando a morte foi tomada como real e o enlutado apresenta disponibilidade para novos investimentos em sua vida, podendo assim manter vivos os sentimentos em relação ao falecido, a que se alia a recuperação da autoestima e da valorização do ego.

Já vivenciei vários lutos. Doídos, doloridos, doidos.

Mas há dois que não consigo definir qual seja o pior: aquele pelo filho que tira a própria vida distante apenas alguns passos de você e o luto por você mesma. Aquela dor massacrante porque você vai partir na viagem do nunca mais e deixará para trás alguém que muito ama e de quem você é o refúgio, o acalanto e a segurança…

Não sei se algum dia conseguirei entender qual o pior.

Fotografia de Paulo Burnay

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Marilene Cahon, brasileira, professora, escritora, poetisa, cidadã caxiense, autora dos quinze volumes que deram a Caxias do Sul o título de Capital Brasileira da Cultura em 2008. Membro da Academia Caxiense de Letras a qual presidiu no biênio 2012-2013, ocupando a cadeira de número 15.

 

 

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