AS “APARIÇÕES” DE FÁTIMA, 1917 – por Joaquim Fernandes

ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

Breve esquisso histórico das “mariofanias” 

 

A “Senhora vestida de branco” tem uma milenar cronologia e, antes de Fátima e de 1917, estão registados alguns milhares de alegadas “aparições” marianas. A tradição ocidental reivindica uma primeira manifestação da Virgem Maria de Nazaré, ainda em vida desta, no dia 12 de Outubro do ano 40 da era cristã, em Saragoça, norte de Espanha, ao apóstolo Tiago, irmão de João Evangelista. Neste caso tratar-se-ia de um fenómeno de bilocação (estar em dois lugares em simultâneo), em que “a Virgem aparece acompanhada de anjos, sentada num trono de luz, circundada por nuvens diáfanas no momento em que Tiago orava”.

Daqui nasceria o culto a Nossa Senhora do Pilar, na sequência do habitual pedido de edificação de um templo com aquela inovação.

A crença nas “mariofanias” (aparições de Maria), como sustenta a historiadora francesa Sylvie Barnay remontaria ao ano 380 da era cristã e proviria sobretudo do Oriente grego. Com fundamentos ponderosos: é que, na paisagem cultural da Ásia Menor, perdurava de há muito a tradição das deusas-mães, ecos dos cultos da fertilidade e que serviu de fermento à potencial piedade mariana, segundo o teólogo Hans Kung.

O “pai da igreja” Gregório de Nissa (m. 397) é tido como o fundador da crença, introduzindo no ocaso da Antiguidade um modelo de narrativa que se iria desmultiplicar nas torrenciais hagiografias e vidas santificadas, nos séculos vindouros quando contaminou toda a Idade Média europeia ocidental. Os “visionário” eleitos são-no de todo o jaez: homens e mulheres de “santidade e virtude” na reclusão conventual, mas também poderosos arrogantes, mendigos e doentes, pecadores sem perdão. A todos, a imagem da Virgem Maria surge como intermediária, espelho do próprio Deus, em cada interlocutor-vidente medievo, dos seus sonhos e desesperos.

Das geografias orientais, entretanto tomadas pela cristandade imperial ortodoxa, a crença mariana emerge mais tarde no Ocidente, já no século IX, atingindo um primeiro fulgor no século XII, com o decisivo contributo do monge cisterciense Bernardo de Claraval. A partir daí irrompem, como lembra Jean Delumeau, controversas teológicas marcadas pelo dogma da Imaculada Conceição cujo lugar na hierarquia celestial do edifício cristão havia sido irreversivelmente marcado pelas decisões do Concílio de Éfeso, no ano 431: Maria, a que concebeu Deus (theotokos) superando “a que concebera Cristo” (christotokos) gerou um enunciado cristológico prenhe de consequências que perduram até hoje. Uma definição que serviu os interesses de um homem – Cirilo de Alexandria, o grande vencedor do conclave contra os representantes de Antioquia. As raízes longevas de uma hiperdulia (hiperveneração de Maria) estavam fundadas para sempre.

Fig. 1 – A figura de Maria de Nazaré foi catapultada pelo Concílio de Éfeso, em 431 d.C. para um patamar de excelência – a Theotokos (mãe de Deus) – abrindo assim uma via para uma hiperdulia (veneração e honra exacerbada pelos crentes) que as outras igrejas cristãs não aceitam.

As chamadas ” aparições marianas”, como revelações e cultos privados, não fazem parte de nenhum dogma da Igreja Católica. A fé católica romana assenta no dogma da Revelação cristã inscrita nos Evangelhos, como relembrou o cardeal Josef Ratzinger, papa emérito Bento XVI. Face à Palavra, objeto de fé divina, as chamadas “aparições” relevam somente da fé humana e são meras manifestações discutíveis no quadro dogmático reclamado pelos textos canónicos. Foi com Bento XIV e o Concílio de Latrão V (1515) que se estabeleceram normas racionais de análise de julgamento destes fenómenos ambíguos e Pio X (1907) consagrou-lhe uma atenta normativa que conferia a possibilidade de uma “aparição” ser proposta ao julgamento dos crentes sem que tal lhes fosse imposto.

Assim, a Igreja Católica não cauciona “videntes”, mas crentes; reconhece os lugares de peregrinação, mas muito raramente se manifesta sobre a autenticidade das chamadas “aparições”. Donde, nenhum católico é obrigado a aceitar o fenómeno aparicional mariano como certidão irrefutável de uma presença física ou outra da Virgem Maria, que morreu há 2 mil anos. Essa reserva justifica que um dos mais considerados especialistas desta matéria, o teólogo francês René Laurentin, use de aspas para grafar o seu monumental “Dicionário das “Aparições” da Virgem Maria”. Nele se descrevem cerca de 2500 episódios historicamente registados, sendo que Fátima se situa é a oitava numa lista de 14 episódios validados pelo crivo exegético católico. As restantes têm um julgamento ostensivamente negativo: non constat supernaturalitas (o sobrenatural não está provado).

Vale a autoridade para, de igual modo, considerarmos as prudentes aspas na exposição que se segue.

Da “mulherzinha bonita” à Nossa Senhora de Fátima

1- Génese e matriz de um “mito em progresso”

António da Silva (irmão da mãe de Jacinta) – “Se os cachopos viram uma mulher vestida de branco quem poderia ser se não Nossa Senhora?!”

No dia 13 de Maio de 1917, num local ermo do Portugal profundo chamado Cova da Iria, na província da Estremadura, três crianças – Lúcia dos Santos, e os irmãos Francisco Marto e Jacinta Marto, de 9 e 7 anos, primos da primeira – depois da missa de domingo levaram o seu rebanho de ovelhas para um terreno a 2 quilómetros de casa dos pais de Lúcia, então com 10 anos.

Comeram a merenda e rezaram o terço antes das suas brincadeiras infantis. De súbito, uma explosão de luz inundou a paisagem árida. Lúcia temeu que fosse sinal de trovoada e preparou-se para voltar a casa. Mas, um novo relâmpago fê-los reparar numa “mulherzinha muito bonita” sobre uma pequena azinheira rodeada de um intenso resplendor.

Durante os próximos seis meses os assustados pastorinhos foram convocados pela ofuscante entidade a comparecer naquele mesmo local. Ao cabo desse período a misteriosa visitante diria quem era e o que pretendia…

Nos dias imediatos, Lúcia, seria confrontada pela mãe, Maria Rosa:

– Ó Lúcia, ouvi dizer que tinhas visto Nossa Senhora na Cova da Iria?

– Lúcia – Quem foi que lho disse?

– Maria Rosa – Foi a mãe da Jacinta, a quem a filha contara. É verdade?

– Lúcia – Eu nunca disse que era Nossa Senhora, mas uma mulherzinha bonita. E até pedi à Jacinta e ao Francisco que nada dissessem. Não tiveram mão na língua!…

– Maria Rosa – Uma mulherzinha?

– Lúcia – Sim, mãe.

– Maria Rosa – Então diz lá o que foi que te disse essa mulherzinha…

– Lúcia – Disse-me que queria que nós fôssemos seis meses a fio, nos dias 13 chegados, e no fim diria quem era e o que queria de nós”.

Aquela “espécie de boneca muito bonita”, como também a descreveu Lúcia, não se identificara, mas a pequena Jacinta antecipara tratar-se de Maria da Nazaré, mãe de Jesus Cristo. Talvez por influência do tio para quem a alegada “Senhora” só poderia ser a Nossa Senhora que ascendera aos céus há quase 2 mil anos…

E a voz do povo, seguiu-a e propagou o rumor. Após a aparição de 13 de Julho a imprensa da região identificava pela primeira vez a “mulher de branco” como Nossa Senhora fazendo alastrar a sugestão de um “milagre de Fátima”. No dia 27 de Setembro de 1917 entrava em cena o cónego Manuel Formigão, o primeiro cronista de Fátima. O sacerdote, que viria a assinar as suas obras literárias com o pseudónimo de “Visconde de Montelo”, quis saber de Lúcia se esta tinha questionado a luminosa visitante sobre a sua identidade. Lúcia respondeu-lhe: “Perguntei, mas declarou que só o diria a 13 de Outubro”.

No entanto, entre a multidão de crentes reunidos em 13 de Outubro, vendedores ambulantes apregoavam já prospetos com uma imagem da Virgem Maria como sendo a figura da visão e ilustrações com os retratos dos 3 pastorinhos e de Nossa Senhora. Um imparável rumor ultrapassava já toda a prudência e dispensava os inquéritos por parte dos responsáveis clericais. A força da religiosidade popular, de um povo angustiado pela guerra e ávido de sobrenatural tornara-se um indomável terramoto. Nesse mesmo dia estavam inevitavelmente lançados os alicerces do que viria a ser um dos maiores santuários marianos do planeta.

Afinal, quem poderia ser a “mulherzinha bonita vestida de branco”? Maria de Nazaré, ela própria, em corpo físico, tal como há 2000 anos? Uma “visão interior” da Virgem Maria, como sugere o Papa emérito Bento XVI Josef Ratzinger? Uma manifestação sofisticada de uma inteligência ou realidade desconhecida? Ou apenas uma recorrente fantasia infantil?

A certeza assumida pelos crentes quanto à identificação da “mulherzinha de branco”, como uma manifestação viva de Maria de Nazaré, manteve-se indiscutível, e praticamente impossível de discutir até 1978, quando uma historiadora laica portuguesa – Fina d’Armada – conseguiu aceder aos arquivos do santuário de Fátima. No total, sete grupos de documentos foram então reexaminados, pela primeira vez, por outros olhos que não os dos religiosos e dos teólogos católicos.

Esta investigação foi vertida, em 1982, no livro “Intervenção extraterrestre em Fátima” que enunciava dados inéditos ou omitidos, hipóteses e leituras inéditas e “chocantes”, com base na reanálise dos inquéritos originais de 1917 e de 1923, amparada na leitura exaustiva e comparada da bibliografia da época, mormente fontes primárias com cerca de uma centena de testemunhos primários e pessoais. Ainda hoje, o conceito de “extraterrestre” – invocado para os fenómenos de Fátima num amplíssimo espetro de sinónimos e possibilidades de natureza física e astrofísica – teima em ser tendenciosamente traduzido, de forma caricatural, pelo estereótipo do “marciano” e do disco voador do imaginário espacial da década de 1950! Arcaísmos insidiosos que intentam a ridicularização da hipótese proposta.

Fig. 2 – A historiadora Fina d’Armada, em Fátima, 1978, entrevistando João Marto, amigo de infância de Lúcia.

A verdade é que, apenas em 1992, com a supervisão da Universidade Católica, os responsáveis do Santuário de Fátima iriam disponibilizar ao público o primeiro volume do acervo documental das “aparições”. Surgiu aos olhos do público o primeiro volume da chamada Documentação Crítica de Fátima – bem mais integral do que ”crítica” – mas, ainda assim, uma primeira base de heurística histórica disponível para a investigação laica, multidisciplinar.

Hoje, é fácil a qualquer publicista dissecar e confrontar os diversos relatos dos três pequenos protagonistas de Fátima, ou antes da Cova da Iria, deduzindo legíveis e óbvias contradições e omissões no percurso de todo o processo de reconstrução doutrinal em torno das “aparições”, que as “Memórias” tardias da Irmã Lúcia coram de forma notória. Difícil mesmo era em 1978 romper as barreiras de um catolicismo atávico, guardião cioso da protagonista maior dos fenómenos de 1917, reclusa nas sombras monacais, impedida então de ser entrevistada pelos investigadores quando o autor destas linhas e a saudosa colega Fina d’Armada decidiram investir num tema que se projetava no universo do sagrado feminino e com dimensões simbólicas – e não só – da mulher na História portuguesa.

Foi com base nessas entrevistas originais, potencialmente preservadas da natural contaminação clerical dos inquiridores da época, que lográmos reconstruir o “retrato” – sempre subjetivo, assinale-se – dessa “Senhora muito bonita de um branco que dava luz”. A partir das descrições iniciais de Lúcia e dos seus primos e que constam do primeiro interrogatório feito pelo pároco de Fátima, a 29 de Maio de 1917, esboçámos o seguinte retrato-robô:

Uma figura feminina, muito bela, de olhos negros, envolvida por uma luz que cegava. Tinha cerca de 1 metro e 10 de altura e aparentava uma idade entre os 12 e os 15 anos. Vestia uma saia travada, branca e dourada, aos cordõezinhos de cima a baixo e atravessados. Um manto tipo capa que descia até à orla do vestido que não ultrapassava os joelhos. Trazia algo na cabeça que lhe cobria as orelhas e os cabelos. Pendia-lhe do pescoço um cordão com uma bola luminosa à altura da cintura. Não tinha movimentos faciais nem mexia os lábios quando “falava” nem os membros inferiores quando se afastava de costas voltadas em direção ao alto…

Por certo, uma Virgem de Nazaré pouco ou nada reconhecível por esta descrição-tipo que no decurso dos anos seguintes não deixou de preocupar os diretores clericais mais próximos da vidente: a ortodoxia dos adereços e do vestuário canónico obrigaria às inevitáveis correções: sobretudo, o comprimento do vestido foi sendo gradualmente censurado e retificado pelos diversos inspiradores clericais da ortodoxia das “aparições” de 1917.

Fig. 3Manuscrito de Lúcia, de 1922, onde descreve a presença de uma “bola”pendente de um cordão ao pescoço da “Senhora”.

De assinalar que a “bola”, curiosamente assinalada por Lúcia num questionário dos anos de 1950 do escultor Guilherme Thedim, havia sido transformada pela primeira vez nas suas Memórias de 1941, num “coração” e algumas dezenas de páginas adiante num piedoso “Coração Imaculado de Maria”. Por força da idade e da enculturação e doutrinação a que vai sendo sujeita a narrativa imagética de Lúcia vai-se alterando entre aditamentos e omissões.

Esta descrição, reiterada por Lúcia ao longo dos seis interrogatórios paroquiais de 1917, levanta sérias dúvidas quanto à identificação desta “senhora” com o estereótipo da Virgem Maria de Nazaré. Reconhece-se que o padre Manuel Marques, o pároco de Fátima, tentou ser rigoroso no seu relatório original. Mas não resistiu a avocar o termo “Nossa Senhora” na introdução da entrevista aos pastorinhos, em Agosto de 1917, abrindo caminho à identificação da entidade. Valha a verdade, o referido sacerdote manteve-se sempre alheio ao processo e só no último dia, 13 de Outubro, compareceu no local das “aparições” depois de muita insistência. Por outro lado, as entrevistas do padre José Ferreira de Lacerda, em 19 de Outubro de 1917 e publicadas no jornal O Mensageiro, no mês seguinte, acabariam por induzir a vidente com perguntas sugestivas, como: “o que fazias tu quando viste Nossa Senhora pela primeira vez?”… Por certo que o sacerdote não era psicólogo e daí desconhecer as regras básicas de uma entrevista que pretende denunciar em detalhe a personalidade do sujeito…

Ou seja, ao longo dos seis episódios “visionários” de 1917 não houve uma autoidentificação explícita, inequívoca, da “mulherzinha” que surgia no topo da azinheira. Dos interrogatórios paroquiais conduzidos pelo padre Manuel Marques constam tão só pedidos da anónima entidade para que se fizesse no local um templo dedicado a Nossa Senhora do Rosário e que a esta se dirigissem orações pelo fim da guerra.

Em síntese, esboçando a genealogia e as etapas marcantes dos fenómenos da Cova da Iria, temos que:

Em datas, não determinadas, de 1915 e 1916, Lúcia afirma ter tido visões de um “anjo”, figura a que chamou “estátua de neve” transparente ou ainda uma “pessoa embrulhada num lençol”;

Em 13 de maio – os três pastorinhos assumem-se intermediários de uma “senhora vestida de branco”, que desce sobre uma pequena azinheira. Questionam-na sobre alguns doentes e o destino dos soldados portugueses enviados para as trincheiras de França.

Em 13 de Julho – ocorre a transmissão de um “segredo” pela mesma entidade aos pequenos videntes e promessa de um milagre para Outubro seguinte, com pedidos de orações, penitência e conversões. O tema da Grande Guerra sobressai nas mensagens alegadamente recebidas por Lúcia.

Em 13 de Outubro – A visitante sugere a edificação de um templo dedicado a Nossa Senhora do Rosário, ou identificando-se como tal (dúvidas de Lúcia) – garantindo que a Grande Guerra acabaria naquele mesmo dia. O que não sucedeu. O sangrento conflito só terminaria em Novembro de 1918, com cerca de 10 mil mortos portugueses.

Com os conhecimentos de hoje seríamos tentados a aplicar, por mais avisado em termos do rigor e neutralidade da investigação, uma das prioridades da cultura comunicacional: conhecer o mensageiro para melhor decifrar a mensagem. Talvez indagar o peso das leituras que Lúcia, em particular, ouvia de sua mãe: trechos das vidas de santos, e mais importante, passagens de um livro “Missão Abreviada”, do padre Manuel Couto, então muito em voga, e onde se falava do Inferno em termos medievais, com descrições de suplícios e horrores infligidos às almas pecadoras. Precauções prévias naturalmente fora do alcance das metodologias do conhecimento corrente de 1917.

2 – A conjuntura política e religiosa, da I República ao Estado Novo

É pacífico aceitar que a fulgurante adoção e interpretação dos fenómenos de Fátima pela religiosidade popular, pelos crentes que ali acorriam em número crescente, se conjugava com o ambiente político e ideológico da época.

Vivia-se um período conturbado de intolerância religiosa marcado pelo exacerbado anticlericalismo jacobino dos mentores da I República, instaurada em 5 de Outubro de 1910, expresso no desterro de bispos católicos. Às primeiras notícias dos eventos da Cova da Iria, os líderes republicanos reagiram desde logo, Parlamento e nos jornais, denunciando o que consideravam ser “atos de exploração da crendice popular pelas forças antirrepublicanas e monárquicas revanchistas”. Num país em que 75 por cento da população era analfabeta e vulnerável a rumores e superstições…

Portugal vivia uma conjuntura de angústia e medo, de incerteza pela sorte de milhares de jovens soldados portugueses enviados para a guerra das trincheiras, em França. A série de “aparições” ocorreu durante a parte final do período jacobino da I República, antecedendo o golpe militar de Dezembro de 1917 que determinou a chegada de Sidónio Pais ao Poder, etapa que marcaria uma nova etapa, mais cordata, das relações entre o Estado português e a Igreja de Roma. Estava dado o sinal para a hierarquia católica reintegrar Fátima na ancestral tradição mariana, ancorado no imaginário mítico português que, a partir do santuário de Vila Viçosa, ao tempo do Condestável Nuno Álvares Pereira, irmanara a Coroa portuguesa e a Igreja Católica. Uma espécie de “união mística” reiterada mais tarde por D. João IV ao requer o patrocínio da Virgem Maria como Padroeira de Portugal, em 25 de Março de 1646. A partir de então jamais os monarcas portugueses da dinastia de Bragança voltaram a colocar a coroa real nas suas cabeças.

Fig. – O repertório do enciclopédico “Santuário Mariano” (1716), de Frei Agostinho de Santa Maria é um dos alfobres essenciais da tradição lendária das “aparições marianas” e das invocações da Virgem Maria em Portugal.

Não se pode provar que o fenómeno das “aparições” de 1917 haja sido fruto de uma deliberada conspiração, gizada a nível local, para criar um culto similar ao de Lourdes. O certo é que, gradualmente, a hierarquia católica foi cedendo no seu envolvimento que levaria ao sonho antigo de uma “Lourdes portuguesa”, já esboçada, desde 1863, com a edificação do santuário do Sameiro, ainda que, neste caso, esvaziado de uma história de “aparições”.

Por outro lado, importa lembrar que 3 dias antes, a 10 de Maio, uma “senhora vestida de branco” e cuja voz era “um misto de rir e de cantar”, surgira em dois dias seguidos aos olhos de um pastor de 10 anos, de nome Severino Alves, nos montes do concelho da Ponte da Barca. A Senhora do Barral, como ficou conhecida ficou associada a uma oração antiga cantada na freguesia, a “Estrela do Céu”, entretanto esquecida nas práticas piedosas do Alto Minho. Chegou mesmo a ser nomeada pelo arcebispo de Braga uma comissão para estudar o fenómeno. Mas, sem uma imagem que exigisse a respetiva capela a adesão dos peregrinos esmoreceu paulatinamente a partir de meados da década de 1920.

De volta à Cova da Iria, o processo canónico de inquérito às “aparições” teve início em 1922, por iniciativa do bispo de Leiria, José Correia da Silva. Todavia, a multidão de crentes, que continuara a afluir ao local, antecipara já a futura aprovação do culto em 1930. Sinal das leituras político-ideológicas é o facto de responsáveis políticos da ditadura militar terem visitado Fátima em 1928 e 1929. Neste último ano, o papa Pio XI iria benzer uma estátua da Virgem de Fátima enviada para Roma. Consumada estava a validação do culto em torno das aparições e a sua identificação com a Virgem Maria de Nazaré.

A vidente Lúcia que iria sobreviver aos dois primos, falecidos em 1919 e 1920, fora internada aos 14 anos num asilo infantil das Irmãs Doroteias, no Porto. Depois, em 1925 é reenviada para a Galiza, onde em conventos de Tuy e Pontevedra passa os anos da Guerra Civil espanhola e a segunda Guerra Mundial. Nesta clausura em terra galegas a vidente alega novas visões e colóquios quer com a Virgem Maria quer com Jesus Cristo, entre outras entidades celestes. Difunde a devoção dos 5 primeiros sábados em 1925 e, em Maio de 1930, recebe novas instruções: com a aprovação pelo papa dessa mesma devoção Deus prometia terminar a perseguição religiosa na Rússia através da consagração deste país comunista aos corações de Jesus e de Maria.

De facto, o ambiente para os católicos na Rússia soviética agravara-se e, em Fevereiro de 1930, o impasse nas negociações secretas entre o Vaticano e os comunistas levaria o papa Pio XI a apelar a uma mobilização internacional, uma cruzada de oração pela Rússia. A ideia de conversão da Rússia transitara já do pontificado de Pio X, após a revolução de 1905. A revolução bolchevique de 1917 levaria o papa Bento XV a retomar a cruzada. Durante séculos a Igreja ortodoxa russa era vista como o maior obstáculo ao avanço do catolicismo romano naquele imenso país.

Na vigência do Estado Novo, o regime ditatorial que sucedeu à revolução de 28 de Maio de 1926, as ligações com o complexo mental-institucional de Fátima foram mais de conveniência e menos de convicção profunda. Com António de Oliveira Salazar ao leme do Estado, os anos de 1930 revelaram diversas facetas da cumplicidade entre os mentores do nacionalismo corporativo e anticomunista e o significado que se pretendia ler na alegada “mensagem” deixada pela “senhora” aos pastorinhos.

Os jornais afetos ao regime exaltavam a pretensa associação da ideologia providencialista de Salazar na redenção da pátria portuguesa ao culto da Virgem em Fátima. A própria Lúcia chegaria a assumir que o ditador beirão havia sido uma “dádiva divina” para o país, uma hipérbole laudatória notoriamente incómoda para Catolicismo português. Do lado da parceria eclesial, pontificava o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira que, em 1938, proclamara esse pacto entre o regime terrestre e o império celeste: “Desde que Nossa Senhora de Fátima apareceu no céu de Portugal uma especial bênção de Deus desceu sobre a terra portuguesa”. As consagrações de Portugal ao Sagrado Coração de Jesus, em 1928, e ao Imaculado Coração de Maria, em 1931, refletem bem essa simbiose.

A partir de então, assistiu-se a uma sucessão de atitudes onde a simbiose do Estado com a Igreja se repetiu reiteradamente nas cerimónias de Fátima. Por exemplo, ao nível das Forças Armadas, da Legião e da Mocidade Portuguesas, sistematicamente presentes nas grandes peregrinações de Maio e Outubro.

As instruções “celestes” de Lúcia, de 1930, lograram o acolhimento favorável do bispo de Leiria apenas em 1937, quando o prelado escreveu a Pio XI pedindo-lhe a consagração da Rússia nos moldes do pedido da Senhora em 1917. Em 1938, o novo pedido dos bispos solicitava agora a consagração do mundo inteiro a Nossa Senhora, mas Pio XI não satisfez nenhum dos pedidos.

Lúcia, por influência dos seus confessores, mormente do padre Gonçalves, passaria por ser a pioneira, a fundadora nessa missão, quando apenas seguiu o movimento internacional acionado por Pio XI. O fulcro deste segredo foi incorporado por Lúcia na sua versão de 1941, com foros de originalidade quando apenas se integrou numa cruzada já em andamento liderado pelo Vaticano. As emendas nas datas dos apontamentos do padre Gonçalves confirmam esta manipulação. Nesta versão, as duas primeiras partes do segredo diziam respeito a uma “visão do Inferno” e à mensagem da Virgem relativas à guerra e à consagração da Rússia. Pela primeira vez, a Virgem de Fátima surge associada ao tema da Rússia comunista. Lúcia afirma então que Virgem lhe anunciara em 1917 uma nova guerra que teria início no “reinado de Pio XI”, um erro cronológico que Lúcia manteve na sua “Memória” tardia.

A chamada “visão do Inferno” é descrita por Lúcia, segundo o que teria, visto em 13 de Julho de 1917:

“A Senhora abriu de novo as mãos como nos dois meses passados. O reflexo pareceu penetrar a terra, e vimos como que um mar de fogo: mergulhados nesse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa”.

Como se interpreta esta revelação? Oliveira Faria interpreta esta revelação à luz do livro “Missão Abreviada” que descreve o inferno deste modo:

“É um lugar no centro da Terra; numa caverna profundíssima cheia de escuridão, de tristeza e horror, cheia de labaredas de fogo e de nuvens de espesso fumo; lá estão os pecadores atormentados com os demónios, bramindo e uivando como cães danados. São atormentados por um fogo o mais devorante”. É a descrição imaginária dum inferno de fogo no sentido próprio e material. Como interpretar esta versão do inferno com a versão bíblica do mesmo? O exemplo torna-se verdade exemplificada. O inferno como punição identifica-se com a sua imagem material: a caverna subterrânea com fogo, o inferno identifica-se com a sua imagem”.

Motivo permanente de atenção e das expectativas dos crentes, a terceira parte do chamado “Segredo de Fátima” seria relativa a Portugal, de acordo com a tese do padre José Geraldes Freire, docente da Universidade de Coimbra e denodado investigador da problemática de Fátima. Essa pretensa profecia seria alvo de uma curiosa interpretação deste primeiro responsável pela publicação da Documentação Crítica de Fátima, elaborada com base num estranho sinal observado no céu na noite de 21 de Janeiro de 1976, maioritariamente em território português, mas também espanhol, e que causou comoção e perplexidade nas populações crentes e descrentes.

 

Fig. 4 – O desenho da “Foice” na estratosfera, na noite de 21 de Janeiro de 1976, por foguetes experimentais lançados a partir de Espanha foi interpretado por um dos mais assumidos teóricos de Fátima, o padre José Geraldes Freire, como fazendo parte do “Terceiro Segredo de Fátima”. Um caso típico de dissonância cognitiva ou a distância que vai do pensamento mágico-religioso às respostas hodiernas da ciência… (Fonte Jornal de Notícias, 23/1/76).

No jornal Mensagem de Fátima, de Março-Abril de 1976, o padre José Geraldes Freire questionava “se esta parte da mensagem de Fátima não for atendida a única alternativa é o império dos erros geradores de guerras e perseguições”. Pretendia assim o diligente investigador católico que, este sinal representado sobre o céu de Portugal, poderia ser uma advertência críptica de que “o perigo do domínio comunista em Portugal ainda não havia passado”.

Curiosamente no sul alentejano, a leitura deste “prodígio celeste” traduziu-se por manifestações de alegria com que o povo de Monte do Trigo, concelho de Portel, leu o referido fenómeno: a de que o comunismo iria vencer em Portugal! É que o bizarro “sinal” foi-se formatando até sugerir um aparente S ou um 5, mas também evocativo de uma foice, de tonalidade avermelhada! A frase retirada do texto da segunda parte do temido segredo falava de uma “noite alumiada por uma luz desconhecida e que constituiria O GRANDE SINAL para a punição de Deus”. Afinal, para os crentes, todos os fenómenos, naturais ou desconhecidos, podem ser usados por Deus para assinalar os seus esconsos desígnios…

Só que o fenómeno da “foice” havia sido também observado sobre Espanha. E, em breve, teríamos a resposta científica, certificada, para a natureza e origem de tão temida e profetizada “foice”: tão só o singular efeito do lançamento de quatro foguetes Petrel, de rastreio de nuvens de vapor de lítio, nesse mesmo dia 21 de Janeiro de 1976, a cargo da agência espacial e aeronáutica do país vizinho (INTA), a partir da base de El Arenosillo, em Huelva. Quis o “pintor do acaso” que as correntes atmosféricas propiciassem um incrível desenho de uma aparente “foice” no imenso quadro do céu noturno; afinal e apenas um mero capricho da dispersão de um gás bem natural – o lítio…

Também assim a temida profecia do padre José Geraldes Freire dispersava-se, igualmente reduzida a uma piedosa especulação. O maravilhoso transcendente do céu que nos castiga acabou assim por diluir-se na frieza tecnológica do céu que experimentamos.

3 – Os fenómenos físicos e psicológicos das “aparições”

Independentemente das interpretações que projetemos acerca da natureza última das chamadas aparições marianas, o facto é que encontramos nessas situações extraordinárias, do maravilhoso cristão, todos os sintomas psicofisiológicos correlativos aos chamados estados modificados de consciência de outras experiências laicas.

Nos videntes em Fátima, sobretudo em Lúcia, tal não foi exceção e deles temos ampla notícia. Em Lúcia dos Santos concentram-se todos os efeitos secundários típicos da chamada “síndrome do contactado”.

Por isso, torna-se pertinente o estudo comparado destas experiências de teor religioso e para-religioso com experiências análogas dos “contactados” profanos contemporâneos e igualmente dos “místicos” clássicos do cristianismo de outros credos.

Como se sabe, Lúcia reclamou ter recebido durante os seus encontros com a Senhora de branco uma sequência de mensagens que ela entendia em português. Que processo de comunicação poderia ter ocorrido nesse diálogo entre duas realidades distintas? Haverá algum modo de confirmar essa comunicação em Fátima? Testemunhas presentes nos vários dias 13 da série de aparições deram conta de sensações auditivas muito específicas e que podem hoje ser interpretadas em termos teóricos. Mais do que isso replicadas em laboratório. Veja-se: Sempre e apenas quando Lúcia dizia que a Senhora lhe falava, sem mexer os lábios – sublinhe-se -, os devotos presentes em redor da azinheira registavam a sensação auditiva externa de um ruído tipo zumbido de abelha, ou de um moscardo dentro de um cântaro. Esse fenómeno, objetivo, foi reafirmado por diferentes testemunhas oculares presentes em redor da pequena azinheira onde a Senhora seria avistada.

Manuel Pedro Marto, pai de Jacinta e Francisco, em julho de 1917, no local das aparições afirmou:

– “Então comecei a ouvir um rumor, uma zoada, assim a modos como um moscardo dentro de um cântaro vazio. Isto é longe ou é aqui perto? – perguntei-me. Era como o que se ouve junto de uma colmeia, mais harmonioso, embora não se percebessem palavras”.

Maria Carreira, amiga de Lúcia, natural da região e que acompanhou as aparições descreveu:

– “Seguíramos as crianças e ajoelháramos no meio do mato. A Lúcia levantou as mãos e disse: Vossemecê mandou-me aqui vir. O que me quer?

E então começou a ouvir-se assim um zunido que parecia uma abelha. Cuido que era a Senhora a falar. Pois se ouvia muito bem!”

Entrevistada por Fina d’Armada, em 1978, Maria dos Anjos, irmã de Lúcia, referiu-se igualmente ao estranho ruído que se manifestava durante as “conversas” de Lúcia com a Senhora:

Fina – Há pessoas que dizem ter ouvido como um zumbido de abelha quando Nossa Senhora falava…

Maria dos Anjos – Eu também ouvi esse zumbidozinho. Também o ouvi, mas não sei o que era…

Fina – Era como se fosse um enxame?

Maria dos Anjos – Não. Só uma!

Fina – Lembra-se em que mês foi isso?

Maria dos Anjos –Já não sei… Eu não fui lá todos os meses. Mas parecia uma abelhinha que andava por ali assim quando a Lúcia escutava a Senhora.

Mas eu sei lá o que era!”

Zumbidos de abelha? Sons de moscardo? Apenas vocabulário pitoresco do folclore local? Analogia fortuita? Ou algo mais? Que dizem os dados científicos disponíveis? Desde há muito que entomologistas norte-americanos e europeus estudam os vários tipos de abelhas melíferas e identificaram uma gama de frequências sonoras, produzidas por aqueles insetos- entre os 200 e os 300 Hz., grosso modo. Uma intrigante “coincidência”, já que se trata de uma frequência muito próxima das registadas em testes de laboratório nos quais os indivíduos, sujeitos a uma emissão modulada de micro-ondas ouviram no interior da cabeça ruídos do tipo “zumbido”.

Ou seja, os testemunhos de Fátima e os registos científicos em laboratório coincidem e não poderiam ser inventados. Atente-se que este zumbido de abelhas se produzia sempre e apenas quando a Senhora parecia “falar” a Lúcia, mas sem que movesse os lábios, como sublinha a vidente. De qualquer modo, o efeito tipo zumbido abrangia uma área externamente audível pelos presentes numa pequena área em redor da azinheira.

A Senhora não falava nem hebreu nem português. Fazia-se entender através de um meio que desconhecemos e que produzia um zumbido audível do exterior, pelos assistentes mais próximos dos pequenos videntes. Este tipo de comunicação da “Senhora luminosa” para Lúcia afigura-se coerente com a hipótese de receção de sinais e de informação diretamente no cérebro humano.

Uma outra das surpresas da investigação nos arquivos originais de Fátima foi a descoberta de uma ignorada “quarta vidente”, de nome Carolina Carreira. Foi num documento dos Interrogatórios Oficiais de 1923, e da pena do Visconde de Montelo, pseudónimo do Cónego Formigão, que viemos a saber que Carolina Carreira, então com 12 anos, na companhia de uma conterrânea de nome Conceição, de 7 anos, havia visto cerca na manhã de 28 de Julho de 1917, junto à azinheira, um anjo de pequena estatura, de vestido branco, muito bonito e de cabelo dourado pelo pescoço. Esse anjo andava normalmente de um lado para o outro em redor da azinheira e assemelhava-se a uma criança entre 7 e 10 anos. Entrevistada em 1978 por Fina d’Armada Carolina Carreira relembrou toda a sua experiência. De súbito, começou a sentir uma espécie de apelo ou ordem, repetidamente, no interior da sua cabeça: “Vai lá e reza três Avé-Marias; “Vai lá e reza três Avé-Marias. Intrigada perguntou à sua companheira se ouvia o mesmo, mas Conceição dizia nada ouvir. Foi o que mais intrigou Carolina a insistente ordem, ou essa voz que a ela lhe parecia soar no seu interior.

Esta sugestão mental induzida no “interior da cabeça” não é original de Fátima. Repete-se no catálogo de contactos com entidades de origem desconhecida mesmo no foro profano. Do mesmo modo, entre a oração e a visão em si parece surgir alguma complementaridade e interdependência. O mundo imaginal – um terceiro “território” entre dois mundos – parece emergir aqui como uma ponte entre a realidade normal, do mundo visível, e uma outra dimensão inacessível aos sentidos comuns.

Uma pergunta se impõe: seria Lúcia uma criança com capacidades sensitivas, mediúnicas? A opinião espírita diz que sim. O que sucedeu em Fátima foi uma manifestação crística e não uma presença da Virgem de Nazaré. Os pequenos videntes seriam executores de uma mensagem profética relativa à época, com destaque para a grande guerra.

Fig. – O ambiente dramático da conjuntura da Grande Guerra, propiciou sucessivas manifestações de vidência e profetismo que foram na esteira de Fátima. Entre 1914 e 1918, a imprensa portuguesa foi pródiga em revelações de sonâmbulas e místicas e… da publicidade: esta aproveitou a onda “antecipando”, em 1916, a sentença que Lúcia teria ouvido da ”Senhora”… em Outubro de 1917: “A guerra termina hoje (ou seja), este ano”! (Fonte: A Capital, 1914-1918)

De surpresa em surpresa chegamos a 7 de Fevereiro de 1917. Nesse dia, um grupo espírita de Lisboa, liderado pelo médium Carlos Calderon, anunciava ter recebido uma mensagem sob a forma de escrita automática (escrita invertida, da direita para esquerda) onde se lia: “A data de 13 de Maio será de grande alegria para os bons espiritas de todo o mundo”. Assinava Stella Matutina. Este intrigante pré-anúncio acabaria por ser publicado no dia 10 de Março de 1917 na página de anúncios do Diário de Notícias, com o significativo título “135917”…

Surpresa também é lermos nos diários Jornal de Notícias e Primeiro de Janeiro, desse mesmo 13 de Maio de 1917, um anúncio intitulado “A guerra e o espiritismo”, com data de 11 desse mês, anunciando que “há-de dar-se um facto, a respeito da guerra, que impressionará fortemente toda a gente”. No Diário de Notícias, o título é mesmo “135917”. Os jornais impressos não podem manipulados. Que outro “facto importante, historicamente digno de registo, ocorreu nesse dia? Nada em especial, nem mesmo no conta-corrente dramático da guerra. Assim, seja o que for e o que signifique só resta anotar a premonição como um facto iniludível, um documento de que ainda hoje se desconhece o autor.

Ainda que rejeitada pelos cânones católicos, que a liga às práticas do espiritismo, a chamada “escrita automática” tem o seu melhor exemplo em São João, quando desterrado na ilha de Patmos escreve o Apocalipse: “Neste desterro como em lugar próprio de profecia lhe alumiou o Espírito Santo o entendimento e lhe moveu a pena para que escrevesse” – lembra o padre António Vieira.

A assinatura Stella Matutina propõe todo um sentido misterioso que corresponde em simultâneo ao planeta Vénus, enquanto estrela da manhã e à Virgem Maria em si mesmo. Curiosamente, a antifonia antiga de Nossa Senhora do Barral designava-se de Estrela do Céu…

 

Fig. – Seja qual for o valor e a natureza das “precognições” dos grupos espíritas de Lisboa e do Porto, que exaltaram a particular importância do dia 13 de Maio de 1917, o facto é que jornais como o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias inseriram essas antecipações, respetivamente em 10 de Maro e 13 de Maio de 1917. Como tal, constituem factos documentados, à parte a sua hermenêutica.

Ou seja, a Igreja Católica teria beneficiado de uma aparição mariana mas rejeita o pré-anúncio dos espíritas. Os espíritas têm acesso ao pré-anúncio mas rejeitam a versão mariana.

Face a todo este conjunto de dados perturbadores e invulgares, uma pergunta se impõe: Como definir a jovem Lúcia face aos efeitos psicofísicos registados ao longo da sua experiência? Mediúnica? Mística? Neurótica? Imaginativa? Mitómana? Que o futuro se pronuncie.

Por fim, no que toca aos aspetos físicos dos fenómenos de Fátima devemos assinalar a queda de filamentos tipo “fibralvina” (“cabelos de anjo” – designação piedosa-popular) em diferentes ocasiões no espaço do santuário de Fátima. Esta substância, observada, por diversas vezes, durante e depois da fase das aparições, foi fotografada em Outubro de 1957 e objeto de uma análise química sumária. É recorrente em fenómenos laicos contemporâneos de fenómenos aéreos não identificados, como o caso de Évora, 1959. Algumas – escassas embora – análises laboratoriais em Itália e USA, parecem refutar uma exclusiva e integral origem aracnídea do referido material. A fibralvina em Fátima permanece, ainda assim, como uma constante observável na fenomenologia inexplicável dos nossos dias.

4 – O sinal prometido: o “milagre do Sol”

Um “sinal” para que todos acreditassem havia sido prometido a Lúcia pela Senhora, em Agosto. Não se lhe conhecia a natureza nem a forma, mas acabou por concretizar-se em 13 de Outubro, cerca do meio-dia. Foram muitas e diversas as descrições impressivas das testemunhas de entre os cerca de 50 mil presentes que afirmaram ter observado insólitos movimentos da nossa estrela sobre a Cova da Iria.

Os relatos da época são normalmente comparados com fenómenos óticos atmosféricos produzidos pelo Sol sob determinadas condições: os chamados halos solares ou de paraélio. Um fenómeno que resulta da presença de pequenos cristais de gelo suspensos na atmosfera e que refletem a luz do Sol. Nestes casos, os cristais estão em nuvens altas que se deslocavam diante do astro-rei dariam a ilusão de que seria o Sol a mover-se e não o invés. Outra interpretação dos movimentos do alegado Sol, complexa do ponto de vista neurológico, aponta para eventuais efeitos da retina resultante da exposição mais demorada dos olhos à luz solar.

Trata-se de hipóteses plausíveis no estado atual dos conhecimentos científicos. Para lá do contágio percetivo que se exerce na psicologia das multidões e da hipótese alucinatória, resiste a questão da previsão antecipada do chamado “milagre”, anunciado em Julho de 1917, que levanta problemas, nem sempre de fácil solução, a não ser com a ajuda do acaso e da coincidência. É possível uma explicação racional que dispense o “milagre do Sol” para os efeitos registados pela multidão?

Fig. – Zona demarcada dos efeitos físicos registados por 28 testemunhos, em primeira mão, do chamado “milagre do Sol”, em 13 de Outubro de 1917. O triplo efeito comporta Sensações de súbito calor, secagem imediata das roupas e curas instantâneas quando da descida do “objeto solar” sobre a multidão.

De facto, o comportamento da multidão diante do fenómeno solar de 13 de Outubro produziu atitudes díspares de emoção e de histeria. O que se desconhece, o que se ignora será sempre fonte de espanto e que nos remete para reações primárias de sobrevivência. Estamos em pleno domínio do sagrado, do mistério mais profundo que subjuga a débil condição humana. Veja-se este conjunto de reações selecionadas dos depoimentos de testemunhas em primeira mão recolhidos à época:

Ana Maria da Câmara: Vejo um disco muito claro, azul- -prateado, sem raios, que, logo retomando a cor natural, começa rodando vertiginosamente.

Angélica Pitta de Morais: Imediatamente se torna como se fosse um disco de prata fosca… gira sobre si mesmo…

Luís de Andrade e Silva: O globo do Sol, semelhante a um disco de prata fosca, girava em volta dum eixo imaginário.

José Maria Almeida Garrett, advogado: Esse disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.

Mário Godinho, engenheiro – Era um disco majestoso, magnético, que nos atraía e revoluteava no céu imenso.

Correspondente do jornal Raio de Luz – De repente, um disco luminoso do tamanho de uma hóstia como que se destacou do Sol, ou antes, se lhe antepôs, baixando visivelmente.

As atitudes mais comuns entre a multidão são como seria natural o pânico, o medo que se estampa nos olhos de muita gente, crente que a nossas estrela se iria precipitar sobre os desprotegidos seres humanos ali reunidos. Gritos de fim do mundo e de apelo à misericórdia divina ecoaram pela vasta charneca da Cova da Iria…

No caso de Fátima, nem sequer é inédita a reivindicação de estranhas movimentações atmosféricas, incluindo a presença de pequenos objetos luminosos, de forma oval, que foram assinalados, com algum detalhe, nos dias da aparição em Agosto, Setembro e Outubro. Dispensamo-nos de sugerir e discutir a origem dessas formas voadoras, à luz de conceitos sustentados pelo imaginário extraterrestre, formatado pela cultura popular de Hollywood. Seria demasiado simplista identificar nestes objetos simples naves espaciais de metal e parafusos.

Outros conceitos bem mais complexos aguardam por mais informação. Mas testemunhos como o que se segue não podem deixar de suscitar perplexidades.

Monsenhor João Quaresma, vigário-geral da diocese de Leiria, num relato endereçado às autoridades eclesiásticas nomeadas pelo bispo para fazer parte da Comissão do Inquérito Canónico, considerou natural e admissível que a Virgem utilizasse um meio de transporte (!), como qualquer mortal

O citado sacerdote descreve o seguinte:

Em 13 de Setembro, ao meio-dia solar, fez-se completo silêncio. Ouvia-se o ciciar das preces. Subitamente soam gritos de júbilo… Ouvem-se vozes a louvar a Virgem. Braços erguem-se a apontar para qualquer coisa no alto. “Olhem, não veem?..” — “Sim, já vejo!…” A satisfação brilha nos olhos dos que veem. No céu azul não havia uma nuvem. Também eu levanto os olhos e ponho-me a perscrutar a amplidão do céu, para ver o que os outros olhos mais felizes, primeiro do que eu, contemplaram. “Lá está você também a olhar!…”

Com grande admiração minha, vejo clara e distintamente um globo luminoso que se movia do nascente para o poente, deslizando lento e majestoso através do espaço. Tinha forma oval, com o lado maior voltado para baixo. A meu lado, um sacerdote amigo olhou também e teve a felicidade de gozar da mesma inesperada e encantadora aparição… quando, de repente, o globo, com a sua luz extraordinária, se sumiu aos nossos olhos.

Perto de nós estava uma pequenita vestida como a Lúcia e pouco mais ou menos da mesma idade. Cheia de alegria, continuava a gritar “Ainda a vejo… ainda a vejo… agora desce para baixo!”

Passados minutos, exatamente o tempo que costumavam durar as aparições, começou a criança de novo a exclamar apontando para o céu: “Lá sobe ela outra vez!”, e continuou seguindo o globo com os olhos, até que desapareceu na direção do Sol.

— Que pensas daquele globo? — perguntei ao meu amigo, que se mostrava entusiasmado por quanto tínhamos visto.

— Que era Nossa Senhora — respondeu sem hesitar.

Era também a minha convicção. Os pastorinhos contemplaram a própria Mãe de Deus. A nós fora-nos concedida a graça de ver o carro que a tinha transportado do céu à charneca inóspita da serra de Aire”.

EPÍLOGO

Uma das recomendações mais interessantes que a “Senhora vestida branco” deixou aos três pequenos videntes da serra de Aire foi a de que aprendêssemos a ler. Ou seja, apelou à educação e ao conhecimento. Para vencer a indiferença, a “mulherzinha” resplandecente confiou um segredo aos videntes para que nunca esmorecesse o interesse, por esse local, no decurso dos anos.

A Igreja Católica acabou por se apropriar dos fenómenos de Fátima, talvez a única instituição no tempo capaz de o fazer, dado o desinteresse e incapacidade da ciência da época. Lúcia, qual donzela sacrificada a deuses ancestrais, foi encerrada e silenciada para que outra Fátima surgisse, mais lógica, mais integrada nos cânones católicos. Lúcia e os primos foram eles e também as suas circunstâncias, os seus limites e possibilidades, como lembra o cardeal Josef Ratzinger, o Papa emérito Bento XVI.

Prisioneiros do nosso espaço-tempo e da nossa cultura ponderamos aqui hipóteses interpretativas que não se coadunam com as necessidades dos crentes que repelem o uso da razão em matérias de fé. Mas, por força das nossas limitações humanas, cada um é livre de acreditar naquilo em que quer acreditar.

Tentamos superar o clássico e ineficaz maniqueísmo, da luz e das trevas, escapar à tentação cómoda do preto e do branco, da verdade e da mentira, que tem prevalecido nesta matéria, com prejuízos para o seu aprofundamento epistemológico.

Somos tentados a ver na história de Fátima, na versão popular católica e do maravilhoso cristão, uma réplica das narrativas do “país das maravilhas”, o “mundo de Oz”, – ou mesmo o mundo das fadas e das mouras encantadas tão presentes nos nossos arquétipos míticos – onde irrompem as mais fecundas imagéticas do onírico universal, e onde Lúcia dos Santos faz de Dorothy Gale ou de Alice. O complexo estruturante de Fátima traduz um ponto de chegada, um ponto Ómega onde se fundem longínquas correntes culturais, cujos afluentes participaram da construção do nosso inconsciente coletivo e que definiram a sensibilidade feminina da religião popular portuguesa. Portugal foi sempre um país desde a nascença ligado a mitos estruturais. Um país alimentado por prodígios, profecias e espantos. Mas, como lembra Fernando Pessoa, “o mito é o nada que é tudo”…

Talvez que ainda não tenhamos aprendido a ler o suficiente todas as dimensões da realidade, como recomendou a “Senhora vestida de branco” em Fátima. O futuro se encarregará porventura de decifrar o que está para lá desta janela, deste espelho de Alice que é Fátima. Talvez, como intui magistralmente o poeta da Mensagem, talvez Fátima seja “um rasgão no espaço que dê para outro lado”…

Terminamos pelo início, de volta a 1917, quando uma amiga de Lúcia, Joaquina Vieira, perguntou à vidente:

Joaquina- Ó Lúcia, o que é que tu viste?

Lúcia – Vi uma Senhora.

Joaquina – O que é que tu lhe perguntaste?

Lúcia – Perguntei quem era vossemecê.

Joaquina – E o que é que ela te respondeu?

Lúcia – Ela esticou um dedo para cima.

Resta por descobrir o que fica na direção do “dedo esticado” da Senhora sob o céu de Fátima/Cova da Iria. Como avisa Confúcio, não detenhamos o nosso olhar no dedo…

♣♣♣

Joaquim Fernandes é doutor em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, co-fundador do CTEC- Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, na Universidade Fernando Pessoa, Porto e co-autor, com Fina d’Armada, de obras sobre a fenomenologia das “aparições” marianas, como “Fátima nos bastidores do Segredo” (Lisboa, 2002, Âncora Editora).

2 comentários em “AS “APARIÇÕES” DE FÁTIMA, 1917 – por Joaquim Fernandes”

  1. Não esperei que a abordagem escolhida pelo autor nos trouxesse algo de novo, de essencialNa verdade ela apresenta e segue uma narrativa engagé (científica?), nesse sentito pré-conceituosa (será possível o não-preconceito?), radicada no pré-conceito do não crente ou do que se recusa liminarmente a acreditar na mera possibilidade de a dita Senhora (segundo a tradição popular, mãe de Jesus) (existir?) aparecer. TUDO ENTÃO SÓ PODERIA RESULTAR DE UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL E, A PARTIR DE CERTO MOMENTO, PROVAVELMENTE MAQUIAVÉLICA, PARA QUE A IGREJA CATÓLICA CAPITALIZASSE COM O OCORRIDO E A CRENDICE (IGNORÂNCIA?) POPULAR (AI O VIL METAL…). E MAIS RECENTEMENTE OS COMERCIANTES! As estatísticas no entanto não parecem estar muito do lado desta tese desconstruidora…Os Portugueses conitnuam a dizer, cerca de 90% deles, que são crentes. O resto da narrativa é por demais conhecido, para valer a pena considerar aqui.
    Meu caro Joaquim, não é a Física Quântica que diz, deixa-me recordar-te, que a energia, mesmo a mais involuntária e inconsciente, do investigador altera (inevitavelmente) de algum modo, o objecto a ser ou sendo investigado. Para já não falar de quando o investigador opta ab initio por uma abordagem “interessada”: provar que não houve nada do que muita gente mal informada pensa, apenas um conjunto de circunstâncias históricas e sociais favoráveis à eclosão de um “distractor man made para as massas miseráveis e ignaras de então…” ganharem algum alento e as autoridades algum compasso de espera para continuarem com as manobras conspiratórias, a parzo estadonovistas… Para além do trabalho muito meritório de identificação e de sistematização das fontes (cuja valia e plausibilidade desconheço…), escreveste um Epílogo, que li como (mais) uma interpretação para o acontecido, real ou imaginário, em que abres à possibilidade de a Senhora, agora Alice, rasgar os céus e nos levar pela mão a ver o outro lado… o que me agradaria muito! Aí está uma saída bastante airosa e promissora. Só te peço que, se isso vier a acontecer, se houver oportunidade, não te esqueças de mim. Até por que teria seguramente a ocaisão de afiançar a quem do outro lado estivesse, que és muito bom homem, mesmo segundo os cânones pósmodernos, se é que os entendo bem. E um bom amigo, também! Abraço.

    1. Devido a problemas técnicos com o site, transcrevemos em baixo a resposta ao seu comentário, a pedido de Joaquim Fernandes:

      —-
      “Caro Agostinho, o meu “pré-conceito” ao analisar Fátima e os seus eventos foi o olhar do historiador (contaminado pelo discurso do seu tempo, claro !) e que tentou valorizar TODOS os documentos e as suas informações que a Igreja Católica ignorou e desprezou ao longo de um século! Porque não precisava deles para a construção da sua “narrativa” e da coerência da mesma. Na abdicação da Ciência da época esteve o seu triunfo… até agora. Portugal, como país paroquial, propende bem mais às suas emoções e sentimentos do que à razão, Fernando Pessoa dixit… Mas nada impede que os saberes atuais logrem propor novas hipóteses para o que quer que haja ocorrido em 1917, aproximando os dados e as impressões testemunhais, algumas bem notórias. A aproximação aos novos dispositivos científicos é fatal, como o foi com Galileu e o heliocentrismo e a reversão do geocentrismo e tutti quanti na torrencial marcha do Conhecimento global, do cosmos e do ser humano. Por isso mesmo propus um terceiro território – que se identifica com o “Imaginal” de Henry Corbin e de outros “atletas” do binómio ciência-consciência em que Fátima-estrutura irrompe como um belo exemplar “in vivo” aos olhares outros que pretendem ir mais além do dualismo infértil que (ainda) impera nas leituras dos (des)crentes. Lúcia/Alice – as duas faces de Janus entre dois mundos- conduzem-nos a novos limiares que, porventura séculos mais adiante, nos ajudarão a revelar o “numenous”, o kantiano agente manifestado a 3 singelas crianças rurais. Nesta minha “exploração documentada” – de fontes asseguradas, genuínas – afigura-se -me que os factos. por vezes, podem ser bem mais fantásticos do que a fantasia. Mas, quem sou eu que, ascendendo ao topo da montanha dos saberes, vejo afinal que o horizonte do Desconhecido à minha frente é muito mais vasto que o reconhecido na ascensão? Verdade? Ilusão? Cada um segure-se à sua opção como náufrago à sua tábua. Sei (?) apenas que “podemos estar longe da verdade, mas os seus inimigos morrem mais cedo”. Um abraço de (eterno) retorno”.

      Joaquim Fernandes, Ph.D.
      CTEC – Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência
      Universidade Fernando Pessoa

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