ARTE RUPESTRE – EXPRESSÃO DA CELEBRAÇÃO, DO SIMBÓLICO E DO RITUAL – por Diniz Cortes

NUMA CURTA VIAGEM PELA BIO ARQUEOLOGIA HUMANA IBÉRICA E PELOS ABRIGOS PINTADOS DO NEO-CALCOLÍTICO PORTUGUÊS.

  • Arte Rupestre
    Arte Rupestre
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A expressão artística humana na Península Ibérica tem início, fundamentalmente, nos primórdios da colonização pela nossa espécie, o Homo sapiens, embora haja indícios de manifestações artísticas levadas a cabo por outro ramo evolutivo de hominídeos, que, na Europa, foi contemporâneo do nosso, o Homo neanderthalensis. A arte pré-histórica, lógica e conceptualmente de origem e expressão humana, tem uma base comunicacional criativa expressa e/ou simbólica mas, acima de tudo, marca um tempo, um território, um conceito ou um espaço.

São conhecidas, desde há poucos anos, as incisões efectuadas em chão rochoso, formando um reticulado rudimentar, na Gruta de Gorham, em Gibraltar, que foram datadas de há cerca de 40 a 45 mil anos a.C. e revelam desde logo a capacidade de representação do pensamento abstracto por parte dos hominídeos de então. De igual forma uma série de traços efectuados numa pequena placa de rocha de baixa dureza se reporta à mesma época…

Referimo-nos, no caso vertente, ao Homo neanderthalensis, para alguns autores Homo sapiens neanderthalensis, espécie contemporânea no continente europeu, durante alguns milhares de anos, do Homo sapiens (sapiens), da qual ambos evoluíram a partir, tanto quanto se sabe, do Homo erectus e posteriormente do denominado Homo antecessor.

De alguma forma, é como se uma segunda vaga migratória de Homo erectus mais evoluído tecnologicamente e morfologicamente distinto, embora genotipicamente semelhante, tivesse saído de África há cerca de 100 mil anos para povoar o mundo, como espécie dominante, e, desde há cerca de 40 mil anos, viesse igualmente partilhar o espaço europeu com os “irmãos mais velhos” que tinham deixado a casa paterna muito antes deles e que já o habitavam desde há muitas centenas de milhares de anos, quando os seus ancestrais deixaram África, mais precisamente o vale do Rift, na vertente oriental do continente…

Muito recentemente foi descoberto em Portugal, na gruta da Aroeira, pertencente ao complexo cársico da nascente do Almonda, um crânio datado de cerca de 400.000 anos, que remete portanto a presença do género humano em território português para períodos recuados do Paleolítico inferior Ibérico (Homo erectus/Homo antecessor/ Homo heidelberguensis?).

É de igual forma atribuída ao Homo (s.) neanderthalensis o início da ritualização funerária, demonstrando preocupação com o abstracto da morte e com o mistério do regresso do corpo ao “mundo dos inertes” após a perda da “alma” que terá viajado para parte incerta…

O Homo (s.) neanderthalensis conviveu na Europa com o Homo (s.) sapiens, igualmente proveniente de África, como se referiu, e chegado à Península Ibérica por volta do 40º milénio a.C., havendo indícios de hibridação entre ambas.

Vários autores defendem tratar-se apenas de espécies fenotipicamente diferentes mas geneticamente idênticas e com base ancestral comum. Alguns autores consideram ainda a nomenclatura Homo sapiens sapiens e Homo sapiens neanderthalensis, reforçando a ideia de base genética comum divergindo apenas em alguns caracteres fenotípicos adquiridos em função do contexto ambiental em que evoluíram durante muitos milhares de anos. Existem fortes indícios de hibridação entre as duas espécies mas desconhece-se efectivamente qual o resultado genético dessa hibridação, nomeadamente nada se sabe da possibilidade de reprodução com sucesso entre eles mesmos ou entre os seus padrões originais.

Inicia-se com a chegada do H. (s.) sapiens um importante período da pré-história Europeia denominado Paleolítico Superior. São desta época as gravuras que enobrecem o vale do rio Côa e os grandes painéis figurativos das grutas cantábricas, como Altamira com os seus bisontes e cavalos, desenhados com ocres e negros nos painéis mais conspícuos dessas protectoras formações geológicas. Em Portugal, são raras as manifestações pictóricas deste período, podendo referir-se em contexto de Gruta a do Escoural no Alentejo e alguns sítios dispersos como por exemplo a Fraga do Gato na calçada de Alpajares em Mogadouro que por alguns autores, mas com algumas reservas de outros, lhe é atribuída.

Os (s.) “neanderthal” decrescem por “absorção” genética pela recém-chegada espécie (s.) “sapiens” ou por extinção pura e simples, por “inércia” civilizacional face aos novos colonizadores da Europa, por pressão demográfica belicosa por parte destes ou por outros factores causais por volta do 28º milénio antes da nossa era.

Passado um período de alguma indefinição no que á expressão artística rupestre concerne, coincidente com o final do Paleolítico Superior e o início da fase transicional para o Neolítico, com a modificação dos estilos de vida dos grupos humanos, já plena e uniformemente “sapiens sapiens ”, inicia-se uma fase denominada Epipaleolítico, seguida do chamado Mesolítico, sendo estes dois conceitos distinguíveis em função de diversas características, nomeadamente utensilagem e estilos de vida, mas também habitats:

O Epipaleolítico configura um “Life-style” semelhante ao Paleolítico Superior mas enxertado numa mudança climática emergente com alterações dos habitats e das espécies, mantendo actividade exclusiva ou predominantemente caçadora-recolectora encontrando-se representada um pouco por todo o território nacional. No Mesolítico, assiste-se a uma mudança clara na confecção/obtenção de ferramentas e onde passa claramente a predominar a microutensilagem fixando-se as populações em contexto relacionado com os antigos limites superiores dos estuários, linhas costeiras e enseadas, devido possivelmente à densificação do matagal e floresta que se tornaria menos penetrável ou explorável, em termos cinegéticos, mas mantendo largas zonas intertidais, alagadiças e de estepe dunar ou charneca onde poderiam manter actividade cinegética, em paralelo com o marisqueio e a pesca de espécies de água doce e salgada. Os concheiros existentes em zonas costeiras ou perto delas atestam uma permanência temporalizada nesses contextos ambientais. Estes dois momentos da evolução da Humanidade decorrem na Península ibérica e em Portugal entre o 10º e o 7º milénio a.C. aproximadamente.

Tem início um processo rudimentar de aquisição de competências civilizacionais mais estruturadas como o fabrico da cerâmica (esta também uma forma de arte, para lá da sua componente funcional?) ou o advento do polimento de rochas para obter utensílios convive com os artefactos talhados, de sílex ou quartzito, extraídos de núcleos em ambiente de alcantilados costeiros, como os da nossa costa vicentina, ou em formações dunares e em plataformas cascalhentas, terraços e rechãs das zonas intertidais.

As paisagens fluviais terminais, estuarinas e costeiras em geral predominam no Mesolítico como enquadramento dos habitats.

Vivia-se ainda em acampamentos sazonais e iniciava-se o processo de sedentarização que viria a ser consolidado mais tarde pela agricultura e pela pastorícia. Aqui, em Portugal, e como referido, até por volta do 10º milénio a.C., as expressões pictóricas decrescem aparentemente para ressurgirem no Neolítico pleno por volta do 5º/4º milénio antes da nossa era, mantendo-se e evoluindo em quantidade e qualidade expressiva até ao Calcolítico, cerca de 3.000 anos a.C.

O Nordeste Português especialmente a zona da Terra Quente Transmontana apresenta alguns exemplos paradigmáticos de Arte Rupestre Esquemática Ibérica. De igual forma a região de Arronches no Alto Alentejo apresenta abrigos pintados com motivos diferenciados evocativos de momentos ou episódios remetendo neste último caso a expressão artística para o simbólico-vivencial do “artista” que os produziu.

As expressões artísticas individuais do “xamã”, do pastor ou agricultor neolítico teriam seguramente, para lá do significado percepcionado individualmente, uma função identitária, de coesão simbólico-interpretativa e místico-religiosa que em muitos casos nos escapa.

O observador comum e porque não dizê-lo, o próprio arqueólogo pode tentar interpretar à luz da lógica dos nossos dias, o meta significado da figuração rupestre mas o desconhecimento dos factores, materiais ou imateriais, complementares (os cânticos que acompanhavam os rituais, as pinturas faciais e corporais, os adornos perecíveis, como penas ou peles de animais, os gestos, as silhuetas, as narrativas ou os mitos transgeracionais, por exemplo) impede uma interpretação mais aproximada do que na realidade foi vivenciado e experienciado nesses momentos.

Remetendo-nos para a cosmogonia aborígene australiana, muitos milhares de quilómetros distante, temos relatos que nos transportam para um denominado “dreamtime” integrando conceptualmente toda a existência desde o Big-Bang até á reagregação da matéria que ocorrerá num futuro de milhares de milhões de anos, num espaço tão pequeno e tão denso que num perfeito conceito de universo pulsátil postula o terminus do “nosso” Universo na reabsorção de si mesmo por um autofágico buraco negro de onde nem a Luz, essa imensa incógnita, poderia escapar…

De igual forma, na figuração (porque não no grafismo…) presente na arte rupestre portuguesa existe um “não-dito”, uma simbologia e uma meta-comunicação latente que provavelmente nunca decifraremos…uma linguagem cósmica, existencial ou dirigida a algo ou alguém que os seus criadores acreditaram dominarem os elementos, os fenómenos meteorológicos, a natureza, e acima de tudo a essência das suas próprias vidas. Os rituais apresentados, os motivos reticulados, geométricos, as digitações, os círculos e os motivos raiados…toda essa figuração e expressão pictórica se encontra carregada de simbolismo, de valor metafísico, se assim o quisermos interpretar.

A Celebração, o Simbólico e o Ritual encontram-se claramente expressos em alguns painéis da nossa arte rupestre. As Artes e, porque não, o prenúncio das “Letras”, fundem-se nos primórdios conceptuais de si próprias…os primórdios da “literacia” humana. Talvez aqui se encontre a raiz de toda a expressão artística…as tardes de celebração, as frias noites do início do Holocénico … os rituais xamânicos… o resguardo dos abrigos…

Destacaríamos quatro destes abrigos pré-históricos, fazendo ressaltar algumas similitudes na organização e estruturação pictórica e no dimensionamento dos motivos que de interpretados sob a forma de expressão naturalista ou da carga simbólica intrínseca, revelam padrões de confecção e representação de formas identitárias comuns.

A relativa normalização gráfica e expressão artística verificada em alguns painéis tornam implícita uma “cultura” ou um “estilo” artístico prevalente. Como referiu Maria de Jesus Sanches, uma das investigadoras de referência dos contextos, paisagens e lugares pré-históricos transmontanos, ”…a marcação física de lugares através de grafias deve assim ser assumida como uma marca cultural …”

Escolhemos alguns dos motivos presentes na base da falésia do Povoado da Mãe d’Água e no Abrigo Nº 2 do Regato das Bouças, na Serra de passos, em Mirandela, no afloramento de Penas Róias em Mogadouro, no Abrigo da Fraga d’Aia em Paredes da Beira e no Abrigo da Lapa dos Gaivões em Arronches, Portalegre como exemplo de expressão da celebração em contexto festivo, do ritual significativo ou expressão de liderança, ou mesmo da exibição de poder.

Fotos de Diniz Cortes

Abrigo pré-Histórico de Penas Róias – Mogadouro

Pormenor de figuras antropomórficas representadas em acto de movimento (dança?) com toucados rituais. Existe semelhança evidente com a figura em trajes rituais do abrigo 2 do Regato das Bouças.

Lapa dos Gaivões – Esperança – Arronches – Portalegre

Figura antropomórfica segurando “bastão” (de mando?) entronizada e em clara postura de exibição de poder. Sobre ela foi executada uma segunda figura pectiniforme zoomórfica que aparece em vermelho mais carregado.

 

Fraga d’Aia – Paredes da Beira – S. João da Pesqueira – Portugal

Conjunto de figuras antropomórficas aparentemente convergindo no acto de domínio/domesticação (?) de uma figura zoomórfica. A interpretação como se de uma dança se tratasse é igualmente plausível e traduz de igual forma um acto colectivo de celebração ou de outro qualquer significado Duas notas de interesse: Em primeiro lugar a perfeita noção de perspectiva de uma das figuras antropomórficas, em que o membro inferior esquerdo aparece em plano posterior ao do eventual zoomorfo. Em segundo lugar o facto de as figuras mais distantes aparecer com menor dimensão, criando a noção de dimensão, perspectiva e profundidade de campo.

Povoado da Mãe d´ Água – Serra de Passos – Mirandela

Painel da base da escarpa sudeste do povoado, junto a um pequeno abrigo na base da falésia. Trata-se de um painel com figuras antropomórficas de cariz idoliforme (Ornitomorfas?) em provável acto de exibição colectivo. De notar a representação ocular radiada da figura do canto superior esquerdo e as diferenças individualizantes na representação das ” asas” que vão do pectiniforme simples ao duplo e mesmo ao alternado no bordo superior/inferior.

Abrigo nº 2 do Regato das Bouças – Serra de Passos – Mirandela

Figura antropomórfica usando toucado e saiote ritual. A semelhança com os antropomorfos do abrigo de Penas Róias – Mogadouro é evidente.

Abrigo pré-Histórico de Penas Róias – Mogadouro.

Figuras antropomórficas representadas em acto de movimento (dança?) com toucados rituais. O elemento figurativo antropomórfico á esquerda com uma espécie de máscara ritual evoca claramente os actuais “Caretos” Nordestinos…os territórios e as paisagens culturais e algumas práticas sociais são ainda hoje, 5.000 anos volvidos, semelhantes…

 

Caretos de Podence – Macedo de Cavaleiros

As máscaras rituais e iniciáticas estão presentes. Aos caretos (quase) tudo é permitido, mas a sua principal actividade é “chocalhar” as mulheres que encontram no caminho…as práticas pagãs no seu esplendor. A origem da celebração perde-se nos tempos, Correndo “ à desfilada” pelo povoado/aldeia… meio animal meio humano… dá largas á sua liberdade de correr, saltar e “chocalhar”. As tradições de clara origem agro-pastoril universalmente verificadas, ainda hoje nos transportam às épocas remotas do neolítico final e do calcolítico. Os chocalhos, pendentes de largas tiras de couro, quase simulam o saiote ritual da figura do abrigo nº 2 do Regato das Bouças.

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Manuel Diniz Gaspar Cardoso Cortes. Médico – Chefe de Serviço de Medicina Geral e Familiar e Terapeuta Familiar pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar.

Fotógrafo de Natureza e Vida Selvagem desde 1980. Prémio Carreira do FAPAS e C. M. Castelo de Vide em 2016 pelo trabalho desenvolvido nesta área.

Aluno de Mestrado em “Arqueologia pré-Histórica e Arte Rupestre” UTAD – 2016/2018

Autor dos livros ”Momentos ao Natural” (2007) e “Viagem” (2015)

 

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