OFTALMOGRAFIA – por Henrique Miguel Carvalho

 

PAISAGEM

eu entre
……………..as árvores
e a sós,
……………..trilho à sombra
……………..buscado

pelo escutar
……………..o clamor
oculto,
……………..o rumor
……………..inaprendível

entre frondes
……………..e ramos,
no contraponto
……………..e fugas
……………..ao vento

e no aroma,
……………..húmido
de aspecto,
……………..que cobre
este lugar
……………..ermo a todas
……………..as coisas

— até que,
……………..ouro e inflamado,
o sol remove
……………..e seca
……………..a paisagem

em clareira
……………..visível
e inoportuna,
……………..rodeando
……………..a cerca

em volta
……………..ao mundo,
para marcar
……………..o lugar
onde a humanidade
……………..estranha
……………..habita

— e serei
……………..eu o atento?
observador
……………..do ofício
……………..de tais espaços

ou serei
……………..mãos e braços,
e pés?
……………..dúcteis,
recusando, de si,
……………..as mesmas
……………..pegadas

quando,
……………..ruídos e artificiais,
fragmentos
……………..de outro
……………..presente
convidam
à vida,
……………..outra distante,
da qual me escuso,
……………..por desejo
e omissão,
quase
……………..fauno
……………..transformado

— quem são
……………..aqueles?
cujas
palavras
……………..já não percebo,
……………..cujos gestos

desencontro,
……………..a espécie
insólita,
……………..que tem
……………..por caminho

a estrada
……………..— de quem?
aquelas mãos
……………..de novelo
……………..e crochet

em explicações
……………..acerca
do caso morto,
……………..nesse êxodo
……………..insensívelinsensível

às formas
……………..da luz,
ou às emoções
……………..nativas
……………..das folhas

— de quem?
……………..as faces
cujos sons
……………..assim
……………..trocados

se confundem
……………..com a espessura
das paredes,
e se extinguem,

postais
……………..de viagem
enegrecidos
de um tempo,
……………..por longínquo,
à mercê
das linhas
……………..particulares
……………..de certa geometria

— e retorno
……………..o olhar, numa dança
de bruços,
de regresso
……………..ao corpo
……………..das sombras

labirinto
……………..inacessível,
perdido
……………..de trilhos
……………..e trajectos

onde fetos
……………..e ervas,
floresta mínima,
crescem,
……………..à guarda
……………..das copas

majestáticas
……………..das alturas,
pelo odor verde
……………..da verdade,
……………..tolhido

na sintonia
……………..estática
dos insectos
……………..e vocais,
……………..as aves delirantes

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MAIS TRÊS TEMPOS POÉTICOS – por Henrique Miguel Carvalho

COMÉDIA

e tudo ser
……………uma piada
 para quê?
…………..se apenas
para provar
…………..a sobranceria
…………..ao mundo

assim
……………ocultando,
mãos
…………..sobre a face,
o quão acima,
…………..quão alto
…………..à visão

da circunferência,
…………..se pensa ser,
e enganando,
…………..fútil
engraçado,
………….o próprio engano
………….enganador

que engana,
…………..num estúpido
movimento
…………..de lábios
…………..curvos para cima

 gáudio
…………..ou sofro,
o choro
…………..é a verdade
………….travessa

ao corpo,
…………..e a lembrança,
na carne,
…………..das águas
…………..da Criação

 mas o riso,
…………..demência
frívola,
…………..é Caos
…………..premeditado

ou a diminuição
…………..ontológica
de tudo,
………….. por ocultação
…………..imparcial

de um medo,
…………..de cuja sorte
só Deus
…………..é o imperturbável
…………..detentor

 candidez
…………..alva,
o choro
não ilude
…………..ou trai apenas
…………..confessa

apenas
…………..diz   eis-te,
sem palavras
…………..que vasculhem
…………..o sentido

quando rir,
…………..prazer banal,
troça
…………..ou faz-pouco,
movendo-se
…………..inveja, irmão
…………..da jovem

crueldade,
…………..como pranto
dito
ao contrário,
…………..por súbita
…………..repressão facial

 pois demora-se
…………..o riso?
na beleza
…………..de uma só face,
…………..ou apenas

a medindo
…………..por ostentação
e vaidade,
…………..para depois
…………..lhe esborratar

a pintura
…………..eis o segredo
de qualquer
palhaço,
…………..e o porquê
…………..da sua máscara

e não
…………..louvar a bravura,
o enfrentar
…………..elegante
do touro,
…………..sem cobrar
…………..bilhetes

à entrada
…………..para assistir
ao espectáculo
…………..final,
despindo
…………..o vulto
…………..à razão

♣♣♣

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POEMAS – de Henrique Miguel Carvalho

 

BIBLIOTECA

demasiadas
                palavras,
um supérfluo
de frases
                empilhadas
                por toda a parte

em colunas
                 de equilíbrio,
atravancando
a casa
                 de mofo
                 e cheiro a papel Continuar a ler “POEMAS – de Henrique Miguel Carvalho”

TRÊS TEMPOS POÉTICOS – por Henrique Miguel Carvalho

by Plato Terentev

CONVIDADO

ao cair
            do astro maior
aguardo,
             felicitações
             remotas

que pelo
            nome
nunca o dizem,
             até que
             — é sempre assim,
um estranho
             de maneiras
             inconcretas Continuar a ler “TRÊS TEMPOS POÉTICOS – por Henrique Miguel Carvalho”

QUATRO ENSAIOS LÍRICOS DE HENRIQUE MIGUEL CARVALHO

Foto de Henrique Miguel Carvalho

NINFA

são lírios
——–os teus braços,
erguendo-se
——–de um
charco fundo,
anelando
——–o beijo do sol
——–e outras carícias de luz Continuar a ler “QUATRO ENSAIOS LÍRICOS DE HENRIQUE MIGUEL CARVALHO”