UM GATO É UM GATO É UM GATO – por Fernando Martinho Guimarães

 

by kirsten bühne

Do gato se pode dizer o mesmo que se diz da tradição: já não é o que era. Mas como o gato não faz a mínima ideia do que isso quer dizer, continua sendo o que sempre foi, o único ser que nos olha sempre de cima para baixo. Na impossibilidade de o domesticarmos, tudo indica que o gato tomou, algures no tempo, talvez há nove mil anos, a iniciativa de nos domesticar. A medida mais recente é a invenção da internet e das redes socias, cuja serventia mais prolífica consiste no facto de podermos partilhar pequenos filmes de e com gatos. Neste processo, não é de desprezar o filme Aristogatos que nos faz crer que toda a gente quer ser gato. E, porque esta metamorfose está destinada ao fracasso, ficamo-nos pelo arremedo de ter um gato…em casa. Trata-se, como é fácil de ver, de mais uma estratégia de gato.

Porque, ao longo da história sempre o mantivemos à distância, fora de casa, para caçar rato ou cobra, o gato serve-se das incontáveis habilidades com que a natureza o esmerou, para nos seduzir, ao ponto de lhe abrirmos as portas de casa e de nos permitir conviver com ele. Com isto alcançam o seu objetivo fundamental, que é percorrer trilhos campestres ou urbanos, saltitar entre telhados ou subir às árvores, e isto tudo em imaginação. Deste modo, não gasta energias e pode dedicar-se ao seu passatempo: dormir. Os gatos passam 70% da sua vida a dormir e dedicam uma pequena parte do tempo restante a interagir connosco, com algumas brincadeiras, fazendo olhares de gato e dando-nos a entender que estão vendo coisas interessantes no mundo para lá da janela. Tirando isso, ignoram-nos a maior parte do tempo, e a inquietação que toma conta de nós quando nos surge o pensamento que o fazem de propósito é mais do que justificada. Sim, é de propósito e não querem saber.Por mais que nos custe, têm toda a razão. Desajeitados como somos, tropeçamos neles com uma frequência enervante, mas nunca um gato tropeça na gente. Por isso, o gato tem o dom de desaparecer. Cultivar a indiferença de que dão mostras em abundância, exige que se resguardem nos lugares mais estranhos, dentro de um caixote ou num armário cuja porta ficou entreaberta, numa gaveta ou no alto de um móvel, não há lugar em que um gato não faça a sua casa dentro de casa. Tenho a certeza de que uma das perguntas de gente com gato em casa é: onde está o gato?! O meu, achei-o uma vez metido entre a almofada e a armação do sofá. Fiquei sem saber se o miau que soltou, quando o descobri, foi de satisfação ou de protesto.

Na literatura, é celebrada a sua personalidade simultaneamente ladina e introspetiva. Baudelaire, por exemplo, canta o gato como amigo da volúpia e também da ciência, que adota, ao sonhar, as «nobres atitudes das esfinges deitadas nos confins do mundo, parecendo adormecer no seu sonho sem fim». E, num livro publicado em 2018, Vai Chover Amanhã, Maria de Fátima Borges, de saudosa memória, toma como pretexto as confabulações com o seu gato para, num exercício de maestria literária, alargar ao longe tudo o que, no mais perto de uma casa da Ribeira Grande, cabe na esquiva sabedoria de um gato.

Também na história das religiões o gato é reverenciado como animal estimável.  No islamismo, é conhecida a solícita atenção de Maomé para com o seu gato. Estando este a dormir sob a manga da túnica do Profeta, e tendo Maomé de sair para a oração, achou por bem cortar o tecido da túnica à volta do gato para não o incomodar. No budismo, censura-se ao gato o ter sido o único animal que não se comoveu com a morte do Buda. Por outro lado, e à boa maneira budista, faz-se notar que isso talvez revele uma sabedoria superior. Bem, a serpente também não verteu uma única lágrima, mas acerca disso não se procurou justificação.

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Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.

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