ESCRITOS DE LUZ E DE SOMBRA – por Cassiano Russo

by Ondosan Sinaa

O Espírito do Niilismo

Eu sigo o caminho das nuvens escuras. Sou como o Sócrates de Aristófanes. Sim, sou um sofista. Minha função é levar a dúvida aonde houver fé. Mas não se enganem, meus senhores, não sou um pregador, sou apenas alguém que duvida. Só isso. Nas horas de folga, duvido de mim mesmo, pois carrego o espírito da dúvida, que dissemino por todo o globo. E vocês, com suas certezas, precisam entender que fabulações de mau gosto não são melhores do que a estória de chapeuzinho vermelho. Eu não sou o lobo mau que devora a avozinha.

Sei que vocês me temem e que clamam por Deus. Porém aqui estou eu, com toda a minha clareza, a iluminar as almas questionadoras. Geralmente o resultado disso é a libertação das convicções. Assim, frequento também os bêbados e esquecidos, porque minha presença é sombra dos homens.

Os que creem, por mais que temam minha presença, não sabem que estou ao seu lado, que eu sou a destruição. Sim, meu trabalho consiste em destruir e disseminar o caos.

Sou eu quem alimenta a raça humana em seu apetite pela verdade a todo custo. Sou um anarquista das trevas, eu sei. No entanto, o que seria de vocês sem mim? Fantoches da eternidade prometida no tédio sem fim do paraíso? É preciso levar tempestade para o homem. Sua espécie necessita de mim. E vocês sabem muito bem do que são capazes graças a mim, meus senhores!

Não há escapatória para a sua espécie, senão a vida apocalíptica que negam e sentem quando, ao anoitecer, deitam suas cabecinhas em seus travesseiros e rezam.

E quando vocês estão sozinhos – e sentem alguma coisa – seja no quarto durante a madrugada, ou em seus momentos de solidão, lá estou eu, a sentir o medo das crenças que os senhores têm.

Meu nome?

Pouco importa!

Pois nada sou, senão uma busca.

FIAT LUX

Hoje o dia foi interessante. Finalmente encontrei um eletricista que resolvesse o problema da falta de luz em meu quarto que já se arrastava há um mês. Agora não preciso mais ler naquela minha sala calorenta, com dois cachorros toda hora correndo e me cheirando e arrancando os livros de mim. Retomei minhas leituras em meu quarto, o que me parece muito mais adequado em se tratando da necessidade de recolhimento para pratica da leitura. Somente eu e um grande escritor, em constante conversa que eu nunca quero terminar, pois sei que escritores nunca terminam uma conversa, e eu desejo muito bater papo com eles. Talvez essa condição se traduza pelo espírito de emulação de um escrevinhador diante de grandes vultos da literatura. E ela tem sido o meu remédio contra a banalidade desses dias tão frios – no espírito, não na meteorologia. Por mais pesado que seja um determinado autor, consigo atingir uma leveza de espírito em diálogo com sua obra, pois o peso da existência se transfigura no peso de um romance ou conto, e assim minha presença no mundo torna-se menos solitária por eu saber que não sou o único a ter de existir, porque outros que escrevem de verdade já traduziram essa angústia em sua obra. E assim observo a lição da escrita e leitura de cada dia. Obviamente que fico mais quieto do que falo, porque não tenho muito a dizer. Como aprendiz, compenetro-me nas entrelinhas do registro da vida, buscando uma inefabilidade para mim e para o que leio. E a leitura dos clássicos constitui grande aprendizado. Sei agora que não estou no escuro da existência, pois tenho luz em meu quarto. E este cronista que emula seus mestres quer apenas luz, nada mais.

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Cassiano Russo (Cassiano Clemente Russo do Amaral) é graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista – Unesp – câmpus de Marília, Estado de São Paulo, Brasil. Inspirado por Dostoiévski, Kafka, Beckett, Camus e Cioran, as suas crónicas constam no jornal local da sua cidade e escreve também para a várias revistas digitais

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