O PERISCÓPIO – por Marília Miranda Lopes

Quem tem olhos para ver pode convencer-se de que nenhum mortal consegue guardar um segredo.

Sigmund Freud

Quando a memória o obrigava, debruçava-se no próprio colo, entre os mistérios estomacais. Punha-se a cismar, na postura de ampulheta imóvel. Por dentro, bulia, como areia a cair por estreito trajecto. Talvez sentisse uma ligeira febre, um aquecimento de motor. O organismo tinha de funcionar. A maravilhosa máquina não iria decepcioná-lo, sabia-o: conhecia as manobras interiores, o mínimo alerta ácido, as sedes, as fomes, as indisposições, os enjoos, os vómitos, as temperaturas, as fricções.  Acaso seria possível voltar ao vaso inteiro de si mesmo, no âmago de uma contrariedade apertada?

Felizmente havia uma sinalética, a começar nos óculos escuros.

Na orla da barra, também o mar se revolvia, em denso bulício interior, embora aparentasse, naquele momento, à superfície, uma quietude mansa, toda de um azul espumante. Eu viajava abstractamente com o olhar, ao longo desse manto sonoro e vivo, cujo som se prolongava na longitude, no marejar, nessas audições ancestrais determinadas à imortalidade. Também o odor a maresia constituía nota fresca, naquela pauta harmónica que se espalhava no ar, desobstruindo vias, como respiração antepassada que subitamente atravessasse as criaturas e fosse apenas desimpedimento de sopro, numa exuberância de aromas que induzia as gaivotas a expandirem os seus membros, em bailados e outras proezas na atmosfera. O azul celeste – uma dádiva praticamente divina, à qual nenhuma palavra podia igualar-se. O silêncio – franco, diante da grandeza fotogénica, como se alguém ali assistisse a bom cinema.

– Que belo dia! – observou o passageiro que se sentara ao meu lado.

– Sim, é verdade – respondi, retribuindo a simpatia.

– Um paraíso – disse o homem entusiasticamente, como se uma luz intensa o tivesse atravessado, distinguindo-o da gente macambúzia que seguia no veículo onde cursávamos. Em seguida, informou-me do nome que tinha, concluindo a frase com o habitual “muito prazer”. Durante o trajeto, não tornei a observar-lhe outro movimento na boca que não fosse o do espanto, particularidade curiosa, saliente no conjunto de traços faciais que teria ao dispor, manobráveis com os seus vinte e dois pares de músculos.

A cidade passava em balanços, pelas janelas do lado esquerdo da carruagem.

Íamos ouvindo – sempre que o veículo se detinha nas estações -, os ruídos da circulação – descidas e subidas para as plataformas -, as vozes das pessoas fugazes nos passeios, numa orquestração de passos, esses ecos difusos de não lugares. Em simultâneo com este conjunto sonoro, parecia escutar-se outro som, muito parecido com aquele que é detectado no espaço cósmico, e que se revelava subtilmente, vindo da vertigem dos edifícios, da inclinação dos semáforos sobre as vias, e doutras dinâmicas fosforescentes que troavam o frenesi vital. As construções apoderavam-se dos lugares, espaços de vivências e insolvências, e sobrepunham-se, não raras vezes, às pessoas que comumente já nada imaginavam: ao invés, pregavam, nas paredes das suas vidas, adiamentos de sonhos, recusas de utopias que, no fundo, ameaçavam a ordem funcionalíssima que as tinha posicionado algures, no carreiro concreto do quotidiano.

Imaginaria ele, alguma dessas pessoas, algum rosto?

– Um rosto – disse inspiradamente, levantando as sobrancelhas, dispostas na testa como patas de centopeia – é um traçado singular, um conjunto de sinais, o indício da transformação, a máscara transitória.

Compreendi que os seus dedos interpretavam sinuosos trilhos, os momentos de ansiedade ou de plenitude na bagagem emocional dos outros, o cansaço excessivo ou a raríssima calma das pessoas circundantes. Poderia um olhar perder a sua essência mais profunda, sob influência da exaustão? – indaguei, enquanto os meus olhos desaguavam, liquidamente abstratos, em pontos cadentes que, na sua minúscula existência, quase desapercebida a olho nu, rodopiavam suspensos, sob a luz que revelava um mundo ínfimo.

Ao observar o cego, apercebi-me de que ele também me examinava curiosamente, de um modo estranho e evasivo. Às vezes, a exaustão parece uma febre sem temperatura que danifica globos oculares e demais apetrechos, tão úteis à sobrevivência. Vulnerabilidade – foi este bicho que senti, algures aninhado no armazém da minha caixa torácica.

– As pessoas parecem exaustas, não acha? – perguntei-lhe, como se quisesse falar-lhe de mim, através de uma ideia geral.

– Não duvide: elas estão extenuadas, sem saberem como abrandar o ritmo alucinante que este sistema lhes injectou. Também sinto esse peso – disse, de rosto baixo, de onde uma veia saliente na testa lhe emprestava uma expressão tensa.

– Se elas pudessem voar, tudo teria de ser pensado de outra forma, e elas jamais seriam assim, como hoje as vemos – aclarou, levantando a face e recostando-se no banco.

 – Pois…. Mas não seriam anjos de todo, Gabriel – disse eu, e observei: – Gabriel é um nome bonito, um nome de anjo! Que sabemos nós sobre os anjos?

– Se for à Darknet – disse com um tom irónico e mafioso – ou à Web normal, a informação sobeja, mas falta-nos o que procuramos com um clique: a percepção.

            – Haverá forma de remediar essa falha em nós?

Respondeu-me que sim, mas que iria demorar o seu tempo, claro. Em relação à sua experiência, disse que muitas vezes se encontrava solitário, entrosado na sua experiência sensorial, que deambulava absorto pelas ruas, que o fazia para construir em si mesmo um paredão para de se defender, tanto do mundo virtual, como do real, tal como o porco – espinho, esse bicho que aprecia a distância do mundo envolvente e que, ao mesmo tempo, é capaz de procriar. De imediato me veio à memória o ouriço cacheiro que um dia aparecera no jardim de minha casa, numa época em que me debruçava sobre o anarquismo e sobre as reflexões de Proudhon. O Prudinho, em honra, pois, do filósofo parisiense, estivera entre nós cerca de um mês e depois disso desaparecera, como se fora um pardal anónimo.

O mar em Espinho é um prodígio, à vista armada. À vista desarmada, sê-lo-á, também, nessa dimensão de realidade que nos escapa. Gosto de lá estar com a Ana, uma amiga que conhece o meu olhar quando nele se prolonga. Ele espera, ondulando, que eu o cumprimente, normalmente com uma imersão até à cintura, e depois deixa-me estar à vontade, como bom anfitrião, bem acomodada na sala de visitas, à espera de um brinde inesperado. Neste caso, como me salpicou a ponta dos pés e depois as pernas, e como se fazia sentir tão glacial, fugi para sítio mais elevado. Solares são os sonhos sob o despojamento do céu, onde as ondas sonoras se transformam em murmúrios doces. Emergindo no colo de um sonho claro, a praia estendeu-se na longitude do meu desejo: deixar-me levar pela corrente de um apelo marítimo, onde a realidade, suspensa e exacta noutro plano, se comportava agora como adverso capricho.

– Saio aqui. E a menina? – anunciou Gabriel.

 – Eu também tenho de sair nesta paragem – esclareci.

Ao contrário do que seria de esperar, Gabriel prescindiu de qualquer ajuda, durante a saída do veículo. Reparei na ligeireza com que tinha descido as escadas da carruagem. Pensei: «que desenvoltura espantosa». Quando se despediu de mim, deu início a uma marcha regular com a sua bengala – que mais parecia uma vareta de um mago -, e depois esfumou-se no percurso, como se desse seguimento numérico à sua versão exata neste universo. Nenhum percalço aconteceu, depois. No chão firme, a viagem tem outro andamento, outro ritmo. Tirei da carteira um bloco de notas e desenhei um porco-espinho. Curiosamente era muito parecido com o homem de meia idade que se sentara, entretanto, no lugar de Gabriel.  Não sei como fora possível desenhar um focinho tão parecido com a cara patusca daquele indivíduo, afogado na imensa quantidade de roupa que trazia vestida. À superfície, quase a medo, umas mãozinhas pequenas e peludas saíam da toca das mangas, um dedinho e outro dobravam um papelinho em bocadinhos mais pequenos, até desaparecerem de vista; com a boquinha fina e pequena, o homem – ouriço mastigava algo imperceptível: talvez uma chiclete, talvez um besouro, talvez um rebuçado, talvez uma lesma.

Ana vinha já ao meu encontro, como tínhamos combinado. Mostrava-me um sorriso franco, como sempre, num rosto claro, onde despontavam sardas juvenis e tremeluziam uns olhos de uma ternura desmedida. No momento em que a minha amiga vinha na minha direcção, para me dar um abraço, já Gabriel tinha desaparecido, como se tivesse evaporado na atmosfera húmida, todo ele moléculas de oxigénio e de luz. Se eu tentasse descrevê-lo com precisão, não conseguiria: acontecem irradiações impossíveis de contar; o mistério dos seres reside nas suas inquietudes, que se revelam através de mensagens subliminares que deixam transparecer.

Ana ouvia agora as minhas novidades singelas, enquanto apanhávamos conchas e búzios junto às rochas. Estes não eram, senão, mais grãos de areia na multiplicidade de tantos mistérios – visíveis e invisíveis. Quando o Sol declinou no horizonte, eu e a Ana arrumámos as toalhas e zarpámos por entre as dunas, rumo a casa.

            – Tens de vir cá mais vezes – disse, adivinhando-me a necessidade de maresia.

            – Tomara eu poder estar sempre aqui, tu sabes.

  – Vem quando quiseres – disse.

– Não é bem assim. O que tenho observado é que            ninguém tem completo e livre arbítrio – respondi.

Com estranheza, Ana quis saber porque é que eu pensava daquele modo. Expliquei-lhe que tinha alguma tristeza nesse domínio, porque não me parecia que pudéssemos alterar os acontecimentos, no seguimento das observações científicas de alguns físicos do nosso tempo. Espantava-me como eles se aproximavam de uma teoria enigmática – com a qual tinha imediatamente simpatizado -, que tentava explicar a vibração dos nossos átomos em dimensões distintas, em simultâneo: o Multiverso.  Acaso, em outros universos do cosmos, coexistem outras versões de nós, com distintos percursos? E em relação à realidade, será possível que a mesma se modifique atomicamente, como plasticina, quando pensamos nela?

Talvez o acto de observar nos encaminhe para um possível equívoco, na sua complexidade de múltiplos grãos: na poeira levantada dentro do comboio, nas gotículas de água que pairam na orla marítima, no ponto de luz para onde olhamos, a contrariar as inúmeras solicitações de atenção que se aglomeram à nossa volta. Ao longe, no meio das ondas, um periscópio – sem memória biológica -, alcança-nos em segundo plano, à medida que os raios luminosos atingem o primeiro espelho.

Na calmaria do fim de tarde, quando me despedi da minha amiga, e já no interior da carruagem número três, julguei ter visto novamente Gabriel. Ele estava à procura do lugar que o bilhete marcava. Tratava-se, pois, de uma figura que muito se lhe assemelhava, mas, como estava de costas, não podia assegurar-me de que era realmente o meu recente amigo. Dirigi-me ao seu encontro e, mal lhe pude vislumbrar o rosto, bradei:

            – Gabriel!

            – Gabriel?! – indignou-se o homem.

– Então já não me conhece? – quis saber, incrédula no que ali se passava. – Sou aquela rapariga que conheceu hoje no comboio. Não se lembra de mim?

– Está enganada, menina – avisou-me com a tranquilidade de um monge.

– Porquê? – indaguei, à medida que prestava atenção a todos os pormenores da figura, para ver se correspondia àquela que gravara visualmente na memória.

E nesse instante, fugazmente capturado pelo espaço cósmico, aquele que eu julgava ter conhecido num dia de Verão e de, à partida, ter merecido a minha cordial amizade, transformara-se, à velocidade de três segundos, em alguém que, ao tirar os óculos de sol, me atirara, certeiro, com súbita displicência irónica – e concomitantemente enigmática -, a seguinte bala:

– Eu não sou cego.

Em seguida, acordei com uma picada de um ouriço do mar, naquela praia de Espinho, onde, afinal, acabara por adormecer. Na realidade, os responsáveis pela ocorrência tinham sido aqueles pés ambulacrários tubulares que agora tinha sobre o ventre. Procurei os olhos do bicho, mas não os havia. No entanto, todo ele comunicava, através de células sensíveis à luz, células que talvez me considerassem alimento. A percepção do mundo encontra nos seres variadíssimas formas de se conjugar. Visível ou invisível, a realidade condiciona qualquer instrumento óptico. O ouriço, sem que eu soubesse, tinha alumiado os meus sonhos, com o seu grande aparelho bucal de cinco dentes, em placas dispostas em forma de uma lanterna: a lanterna de Aristóteles.

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Marília Miranda Lopes é uma escritora e cantautora portuguesa. Até ao momento publicou as seguintes obras: Poesis em Oásis (Poesia, ed. de autor, 1994); Framboesas (Teatro para a infância, ed. de autor,1996), Geometria (Poesia, Ed. Autor, 1998); Templo (Poesia, Colecção Tellus, nº10, 2003); Duendouro – Era uma vez um rio… (Teatro – Edições Afrontamento – livro incluído no P.N.L., com ilustrações de Manuela bacelar, 2007); Castas (Poesia, Ed. Cadernos Q de Vien de A Porta Verde do Sétimo Andar, Galiza, 2012); Victorianas (Poesia, Editora Labirinto de Letras, 2015), Castas – 2ª edição (Poesia, Ianua Editora, Madrid, 2019); Procura a Ática (Poesia, Ed. Labirinto, 2020); e Os electrões também devem ter alma (Poesia, Ed. Exclamação, 2021, com ilustrações do arquitecto Álvaro Siza Vieira). Encontra-se representada em algumas antologias, tais como Pequeno Cancioneiro de Natal (Portugal), Histórias tiradas da Gaveta (Portugal), Arqueologia da Palavra (Moçambique), Recordando a Trina – antologia hispano-marroquina (África), Antologia de Ouro (Brasil), Clepsydra (Portugal), Pegadas Luso-galaicas (Espanha), Cintilações da Sombra III (Portugal), Por Longos Dias, Longos Anos, Fui Silêncio (Portugal), Poetas da Porta Verde (Galiza), Finisterras (Espanha), Sorrisos de Pedra (Continente e Ilhas), Antropotecas (Espanha), Os Dias da Peste (Portugal), 110 anos, 110 poetas, Antologia comemorativa dos cento e dez anos da Universidade do Porto, entre outras. Colaborou com textos seus em algumas revistas literárias portuguesas e estrangeiras, entre as quais Palavra Comum, Letras & Letras, Caliban, Mallarmargens, Triplov, Cronópios, Diversos Afins, Athena, Elipse, Gueto, Caliban, Correio do Porto, Bula e Capitolina. MML é sócia da Sociedade Portuguesa de Autores e do P.E.N Clube Português. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses) pela F.L.U.P. É professora de Língua Portuguesa do 3º Ciclo, do Ensino Secundário e autora de canções para a infância, levadas à cena pela Filandorra-Teatro do Nordeste. É também autora de canções e vocalista na banda Destinatus Obdura.

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