O HOMEM QUE DORMIU DEMAIS – por José D’Assunção Barros

Só fui acordar vinte anos depois! O despertador tinha me traído. Preparado para berrar às oito horas da manhã, como EM todos os dias, daquela vez o relógio resolveu ficar em silêncio durante um quinto de século. Agora, eu estava ali, duas décadas perdidas depois, olhando para aquela folhinha espetada na parede, já virado até mesmo o século. Vocês se lembram daquela história em que o personagem dormira durante vinte anos ininterruptos, para acordar em um mundo no qual a grama do seu jardim vinha lhe bater nos joelhos? Tem muita dessemelhança com a minha! Para começar, a grama do meu jardim estava cuidadosamente bem aparada. Como se alguém tivesse tido a preocupação de mantê-la, enquanto o dono dormia, em plena conformidade com a linha de austeridade exigida às vegetações urbanas e rasteiras. Dentro de casa o interruptor ainda controlava a luminosidade da sala, sinal de que a luz não havia sido cortada por falta de pagamento. No mais, estava tudo perfeito. A poeira varrida. O pó de café cheirando a ontem… como se, em nenhum instante, a rotina tivesse sido quebrada.

Ainda sonolento, entrei no banheiro — intencionando fazer a barba. Foi quando percebi que havia no barbeador alguns pelos recentes. Tinha sido usado na manhã anterior. E por mim! Será que eu era sonâmbulo e não sabia? Provavelmente eu mesmo teria pago a conta da luz, aparado a grama. Virado a folhinha. Tudo dormindo!

Ao sair do banheiro, tive que interromper minhas especulações. Motivo: havia um corpo na minha cama! Esfreguei os olhos, buscando me assegurar de que não era uma ilusão matutina. Não! Era mesmo um corpo na minha cama, bem coberto pelos lençóis. Naquele instante um calafrio atravessou minha espinha. Por Xangô! Será que eu morrera e não sabia? Será que eu me tornara uma alma-penada, naquele instante olhando seu antigo corpo? Será que eu me transformara em um fantasma, preso aos velhos hábitos? Meus temores só se desfizeram quando percebi que o corpo na minha cama era um corpo de mulher. E, além disso, estava vivo — o que me impediu de aventar a hipótese de que eu tivesse me tornado um assassino inconsciente, enquanto dormia. Não! Aquela moça não era uma vítima — era uma esposa

Maria Quitéria levantou-se, foi preparar o café. Era uma boa mulher. Retive-me, por algum tempo, na observação dos seus movimentos. Graciosos movimentos! Tinha escolhido bem a mulher: Bonita, bem distribuída – parecia inteligente, amável… A descoberta de que eu era casado serviu para me elucidar muitos pontos. Pois é claro – então, estava explicado! Fora a minha esposa que havia cuidado da grama, pagara a luz, varrera a poeira – enquanto eu dormia. Uma mulher exemplar! Tinha zelado pelo meu sono, todo esse tempo.

Maria Quitéria colocou duas xícaras na mesa. Sentei-me em uma das duas cadeiras que havia junto ao móvel, precisamente naquela que mais parecia atrair minha “força de hábito”. Ia começar a saborear o café da manhã, quando tive a impressão de que algo me incomodava. Esforcei-me para descobrir o que era. Foi aí que eu me lembrei, horrorizado, de alguma coisa. O barbeador! O maldito aparelho de barbear! Se eu estivera realmente dormindo durante todo aquele tempo, então de quem eram aqueles restos de barba que eu encontrara na lâmina? Meus chifres cresceram. A resposta era: outro homem! Um sangue phácido me subiu à cabeça. Não satisfeita em me trair, minha esposa ainda deixara o amante usar meu aparelho de barbear! Comecei a corar pelos cantos do rosto. Sabe-se lá que libertinagens os dois teriam feito durante a minha ausência, isto é, durante o meu sono.

Quis saber quem era o canalha!

— Quitéria! Vamos pôr as cartas na mesa… Com quem você me traiu?

Quitéria olhou espantada:

— Como!?? — Chega de fingimento, mulher! Eu já sei de tudo! Não pense que só porque estive dormindo você vai me passar para trás!

Maria Quitéria riu, imaginando que eu não falava sério.

— Querido, o que é isso? Alguma brincadeira? Ou você ainda está sonhando?

As duas últimas palavras de Quitéria me paralisaram! Funcionaram como uma ducha fria de água! Em questão de segundos compreendi o ridículo das minhas suspeitas! Que tolo! Lembrei-me que Maria Quitéria sequer se espantara ao me ver repentinamente desperto, naquela manhã depois de tantos anos. Comportava-se com uma tal simplicidade, que nada demais parecia ter acontecido. Nem mencionara meu sono de vinte anos. Mas é claro! Eu era mesmo uma espécie de sonâmbulo! Eu mesmo fizera a barba todos os dias. Minha mulher, portanto, não me traíra com ninguém — a não ser, talvez, comigo mesmo.

Eu tinha continuado a minha vida “normal”, mecanicamente, durante todo aquele tempo! Sequer os vizinhos puderam notar qualquer diferença, já que eu os cumprimentara todos, a cada manhã, com aquele mesmo gesto automático de sempre. Como vai, Seu Nicolau? Dona Quirmina, pode me emprestar uma xícara de açúcar? Minha mulher vai bem, obrigado! Sim, dormi muito bem… e a senhora? Eu apanhara todos os dias o mesmo trem repleto de gente, para ir do subúrbio ao centro, e ninguém nunca poderia imaginar que eu não estava — em absoluto — acordado. Meu salário também fora recebido, cada mês do ano. Eu só não estava rico agora porque o custo de vida não fazia nenhuma discriminação entre sonâmbulos e despertos – abocanhava todas as pessoas, físicas e jurídicas. Em nenhum instante a rotina tinha sido quebrada! Conservava-se intacta.

Abracei minha mulher. Beijei-a. Como eu pudera pensar uma coisa daquelas? Maria Quitéria, minha mulher — minha companheira no sono e na vigília! — nunca seria capaz de me trair. Pedi que me perdoasse, fora tudo uma brincadeira tola. Decidi que não iria lhe falar nada sobre o estado sonambúlico, do qual somente naquela manhã eu tinha emergido. Se ela não percebera nada, melhor assim. De uma maneira ou de outra, ela dificilmente iria acreditar que havia dividido a cama com um sonâmbulo, durante meus anos de sono “desperto”.

De minha parte, eu estava maravilhado com aquela descoberta. Agora, vinte anos depois, eu estava finalmente acordado. Não me lembrava, no todo ou na parte, de nada do que acontecera durante o tempo em que dormia. Sabia apenas que tinha vivido uma vida de aparência normal. Neste ínterim, até me casara — não devia fazer mais do que cinco anos (portanto, em pleno sono). Continuara trabalhando e tudo o mais que se faz em uma vida aparentemente normal. Precisamente porque não me lembrava de nada, estava ansioso para saber o que o mundo tinha feito nos últimos anos! Teria mudado um pouco? Quanto será que a humanidade tinha evoluído, naquele intervalo de tempo?

Coloquei o terno de sempre, que não havia deixado de ir ao tintureiro um ano que fosse. E a gravata ainda me enforcava! Fiquei imaginando se mais alguém naquele trem, em que eu viajara todos os dias, também não estaria dormindo? Ou só eu? — o escolhido de Hipnos e Morfeu? Abri a porta e saí para o mundo, desta vez acordado, para cumprir uma rotina.

No meio do ato foi que eu mudei de ideia. Não ia cumprir rotina coisa nenhuma! A rotina, eu a tinha cumprido durante todos aqueles anos em que dormia. Agora estava acordado. Atirei fora o terno e caminhei com a camisa aberta, como se estivesse livre!

*

Primeiro fui ao jornaleiro, bisbilhotar os acontecimentos mais recentes. Fui preparado para tudo. Muita coisa poderia ter mudado naquele “piscar de olhos” do tempo — o qual para mim representava uma defasagem de muitos anos. Fui construindo minhas ficções. Imaginava que os edifícios deveriam estar bem maiores; talvez a poluição fosse tanta que as pessoas fossem obrigadas a andar com umas máscaras estranhas, capazes de filtrar o ar e tornar todos os homens iguais perante seus narizes metálicos e suas narinas forradas a filtro!

O ar, entrementes, não estava tão ruim. No meio do caminho cumprimentei um vizinho antigo, que ainda era o mesmo. Apenas um pouco mais envelhecido. Mas ainda tinha o mesmo emprego, o mesmo sorriso fingido, e a grama do seu jardim ainda era verde. Seu Damaceno, e a família? O velho senhor não notou em mim nenhuma mudança…

Na banca de jornal as revistas semanais me contaram, nas suas letras miúdas, que o mundo não tinha mudado nada. O povo continuava se espremendo nas ruas, como animais de rebanho, ou talvez como uma grande congregação de formigas. Nenhum sinal dos autômatos previstos nos manuais de ficção científica. Mas, afinal de contas, não se passara tanto tempo assim.

Sentei-me num banco de praça, abandonado no meio da América. Nenhuma mudança! Que coisa! Árabes e judeus ainda se digladiavam no Oriente Médio. A saúde pública desandava como sempre, embora houvesse agora uma nova doença de nome complicado e vítimas humanas. Lá na esquina, imutável, bebia-se pinga. No morro, longe, passava-se fome. E diante do morro estendia-se o mesmo tapete de ruas esburacadas, sem solução nenhuma. Tudo se fora adiando e o tempo permanecia inalterado, embora outro.

Foi ali, naquele banco de praça, entroncamento entre dois infinitos — num dos quais eu dormia — que eu tive a primeira revelação. Quisera não a tivesse tido! Quisera pudesse ter permanecido no sono, estado que isenta o homem de toda a responsabilidade! A realidade, paradoxalmente, tem o poder de enlouquecer as mentes desavisadas!…

Explico-lhes. Do outro lado da rua havia uma “tabacaria”, espremida entre duas grandes lojas de eletrodomésticos. Meros — meros e significativos — detalhes. Pude ver um homem, de fisionomia comum, entrar na lojinha e pedir um cigarro de determinada marca. O comerciante trouxe nos dedos o maço. O outro pagou, não sem antes reclamar do preço. Despediu-se. Saiu da loja, enquanto o dono da venda arquivava o dinheiro na gaveta da registradora. Do lado de fora, sobre a calçada, o homem reteve-se alguns instantes, a olhar o trânsito e o povo que se espremia na rua. Puxou do bolso o maço de cigarros que acabara de comprar. Pediu fogo a um transeunte. Acendeu o câncer. Fumou-o. E aí, nesse ponto, deu-se tudo.

Pude perceber com muita clareza, como se por um instante meus olhos tivessem sido consideravelmente ampliados em sua capacidade de percepção, que o sujeito fizera tudo isso dormindo. Sim, dormindo! Entrara na loja, comprara o cigarro, mais todo o resto… Tudo dormindo! Não apenas isso. Também o comerciante que lhe vendera o cigarro, o transeunte que lhe emprestara o fogo, os motoristas dos veículos que cortavam a cena… estavam todos dormindo! Agiam como se estivessem despertos, tinham os olhos abertos, iludiam-se de que estavam em plena consciência de todos os seus atos… mas dormiam! Todos os seus movimentos, nos menores e mais insignificantes detalhes, eram mecânicos — inconscientes! Compravam, vendiam, pediam fogo — mas não eram mais do que uma estranha espécie de sonâmbulos, fantoches nas mãos invisíveis de um magnífico automatismo que os cercava, os envolvia, determinava-lhes cada átomo de comportamento;

Voltei minha atenção para a loja ao lado. Havia algumas pessoas paradas em frente a uma vitrine, a observar algum programa em uma TV ali exposta. Santos sombreiros! Também dormiam! Conversavam, desentendiam-se, movimentavam-se – em pleno sono! O programa ao qual estavam assistindo era um noticiário, que naquele instante exibia cenas de alguma guerra que havia estourado no outro lado do planeta. Fixei minha atenção sobre o vídeo… Estava tudo muito claro! Uma multidão de sonâmbulos esforçava-se por exterminar uma outra multidão de sonâmbulos! E os homens que decidiam – os que tinham decretado a guerra, e que seriam os mesmos que decretariam a paz – também dormiam! E, além daquilo havia outros homens, escrevendo livros, erguendo edifícios, roubando, fazendo caridade… também mergulhados no mais profundo sono. Não havia o menor indício de lucidez – de consciência – nem nas grandes nem nas pequenas obras, embora seus autores pensassem o contrário!

Sentou-se ao meu lado um mendigo. Ia se recostar para dormir – um sono dentro de um sono! Sacudi seus ombros, quase lhe rasguei a camisa, tomado pela emoção produzida pela terrível descoberta que fizera:

— Não percebe? Estão todos dormindo!

O mendigo arregalou os olhos. Pareceu despertar por um breve segundo. Tive esperança de que… mas não! Logo em seguida o mendigo caiu de novo no sono espiritual. E encostou-se para dormir um sono físico.

Doutores. A contemplação daquela realidade insuspeita, aquela lucidez — seriam talvez capazes de conduzir qualquer um aos limiares da loucura. Não somente eu tinha dormido durante vinte anos, como a princípio pensara, mas o resto da humanidade também — e, pior, ainda permaneciam desacordados.

Levantei-me. Talvez fosse melhor enlouquecer de pé… Resolvi caminhar um pouco. Tinha esperança de que aquela impressão terrível, que me transtornava os sentidos, se desfizesse. Desci por uma ruazinha pequena, até chegar a uma avenida movimentada. Ali, o espetáculo era ainda mais constrangedor: uma multidão de adormecidos – uns de pé, outros dirigindo veículos – executava, sem a menor consciência, as mais diversas atividades. Iludiam-se de que eram seres inteligentes, racionais. Se eu fosse lhes dizer que dormiam, por certo ririam na minha cara.

Fui até a estação de metrô. Comprei bilhete, entrei num vagão. Dentro, as pessoas conversavam animadamente, mas continuavam adormecidas. Foi aí que veio a mim uma nova impressão, espécie de quarta revelação. Tinha encostado a cabeça, depois de me acomodar em um banco vazio, buscando relaxar o corpo. Fechei os olhos. Estava a ponto de dormir – no sentido bom da palavra – quando ouvi uma voz:

— Obyvatel! Ales irish têmnis?

Abri os olhos, em busca da origem das estranhas palavras. Era um homem de cabelos grisalhos, que se sentara ao meu lado. Tinha nas mãos um cigarro por acender, de onde deduzi que estava me pedindo fogo. Fiz com que ele entendesse que eu não fumava, e que, portanto, […] mas, espere! Meus dedos deslizaram por um dos meus bolsos e, sim! Lá estava ele, o isqueiro! Era uma verdadeira relíquia encontrada ao acaso: objeto que vinha de outra época, e que eu esquecera ali. Lembrei-me, de fato, que nos meus tempos de adormecido eu tinha sido um bom fumante. Mas desde aquela manhã tal prática ficara tão distante, que eu já nem me lembrava que, na minha triste e nula vida anterior, costumava engolir nuvens de fumaça e rios de nicotina a cada semana entrante. Olhei para o pequeno isqueiro como um arqueólogo que se põe a examinar fósseis que acabaram de ser encontrados pela sua equipe. Despedi-me do pequeno vestígio da minha pré-história. Acendi o câncer do homem, e o presenteei com aquele objeto que, agora grego, já não tinha para mim qualquer serventia ou valor. Ele agradeceu, não sem antes aspirar a primeira golfada e tragar e estragar a fumaça com toda a força dos seus pulmões:

— Tryatsj dunky!

Era só o que o coitado queria: uma tragada. As regras dos transportes coletivos não permitiam mais. Havia avisos por toda a parte, e um deles proibia o fumo. Por isso, o velho senhor comprimiu a ponta do cigarro contra a lateral do banco, até que se extinguisse a chama. Por ora, bastaria. Recolheu-se à leitura enfiada de um jornal, depois de resmungar:

— Smárzias gunther!

De minha parte, fiquei a perscrutar que idioma seria aquele. Russo? Basco? Esperanto? Então percebi que o jornal que o sujeito lia era brasileiro. Pelos bigodes de Gurdjeff! Será que ele estava a me zoar, conforme se diz na tal gíria adormecida? Seria uma “pegadinha”? Instintivamente, olhei ao redor. Tentei escutar as conversas à minha volta. Uma mulher, no banco da frente, perguntava à outra: Wertz dietz nuc? Não cheguei a escutar a resposta; minha atenção auditiva dirigiu-se para um grito que parecia vir do outro vagão: – Swirth flesh!!! Alguém comentou, ao meu lado: – ertz fewt hurst…

Não conseguia entender, em absoluto, o que aquelas pessoas diziam – e senti que eles mesmos não se compreendiam uns aos outros. Algo dentro de mim ironizou: — Não vê que cada um deles fala uma língua diferente? Olhei com atenção. Era isso! Cada uma falava, de certa maneira, uma língua distinta! Era o mesmo português, o mesmo dialeto brasiliano que herdamos dos descobridores portugueses — mas cada um parecia atribuir às mesmas palavras diferentes significados. Desta maneira, desentendiam-se admiravelmente, ainda que julgassem compreender e serem compreendidos uns pelos outros. Na realidade, cada um estava mergulhado no seu próprio mundo, no seu próprio país – no seu próprio dialeto.

Saltei do trem na estação final da minha perplexidade. Perambulei o resto do dia pelas ruas daquela cidade na qual só parecia haver “estrangeiros adormecidos”. Por fim, a noite caiu; resolvi voltar para casa.

Maria Quitéria me esperava.

— Amor, mas o que foi que aconteceu? Ligaram do seu trabalho perguntando porque você faltou hoje. Fiquei preocupada!

Foi mais uma pequena decepção! Maria Quitéria também dormia! Também falava uma língua estranha, cheia de significados particulares, de entonações impenetráveis – embora não tenha sido difícil entendê-la, em parte.

*

A manhã veio no dia seguinte, como sempre. Abri a janela, para espiar a paisagem. Um amanhecer visto por um “homem desperto” é algo simplesmente magnífico. É coisa que a “humanidade adormecida”, por certo, não conhece. Esta conhece apenas as alvoradas e crepúsculos desenhados pela sua própria imaginação, não os fenômenos objetivos que a realidade oferece. Quando não se dorme, fazemos parte da natureza, da paisagem, não estamos destacados dela. Surgem maravilhas que as nossas imaginações mesquinhas não suspeitavam, tudo se revela sem excesso de luz ou assombro. E pronto! O mundo não está diante de nós, porque agora nós estamos dentro dele. Mas arre! Deixemos disso. Não falemos de tamanduás a formigas…

Eu tinha decidido que iria trabalhar naquela manhã. Não que eu pretendesse retomar a rotina que tinha quando dormia – seria impossível, depois de ter visto o que eu vira. Apenas não sabia bem o que fazer. Achei que o escritório, no qual eu trabalhava há anos, seria pelo menos um bom campo para fazer novas observações. Fui.

O chefete me esperava. Certamente, não iria perder a oportunidade de alimentar sua besta ilusão de superioridade. Deixou que eu sentasse na minha mesa, como se nada tivesse acontecido – como se eu não tivesse faltado no dia anterior sem dar nenhuma satisfação, o que era considerado falta grave segundo os regulamentos da empresa. Eu ia começar a “trabalhar”, quando o chefete chamou alguém:

— Senhor Vaz, quer vir aqui, por favor?

O tal do Vaz nem se mexeu, pois o chefete foi totalmente ignorado. O homem se emplumou, revestindo-se de um misto de arrogância e extrema irritação:

— Por todos os meus botões! O senhor é surdo, seu Vaz??!

Foi ali, naquele instante grotesco, que eu percebi que o tal do Vaz era eu! “Dormira” tanto, que já tinha esquecido o meu próprio nome. E que coisa estranha era um “nome”! Um nome era uma palavra qualquer com que os adormecidos batizavam um outro adormecido. Fulano de Tal, Sicrano das Quantas… Era só incrustar o termo na essência de um homem, e julgavam-no definido. Passava-se, assim, por cima das múltiplas personalidades de cada um! Uma curiosa simplificação, que iludia os homens de serem “unos”. Fui, pensando em todas essas coisas, até a mesa do chefete.

— Tryul njkst! Dtreyu tryung nhdsc!! Yufgd frsac, frest!!

Não me esforcei em traduzir o discurso do homem. Era óbvio que intencionava me esculhambar. De minha parte, eu estava com a atenção voltada para aquela imagem ridícula na minha frente. Era bem menos que um homem! Não passava de um simples amontoado de emoções e impulsos. Pouco mais que uma multidão de átomos, unidos pelo desespero. Um morto. Um simples padrão misturado ao caos – uma “máquina” condicionada a reagir de determinada maneira, diante de certas situações. Um traste, indigno de pena.

— O senhor pode passar na seção de pessoal e acertar as contas. Está despedido!

Caí no riso. O chefete cobriu-se de espanto ao me ver atravessar a sala e sair pela porta, sem dar a mínima bola murcha para a minha “demissão sumária”.

Caminhei um bocado pelas ruas do centro. Agora eu já tinha aprendido a encarar os adormecidos sem o horror do dia anterior. Pelo menos eu estava desperto – por hora, era o que importava.

Durante a caminhada, uma nova descoberta juntou-se às minhas observações. A humanidade não era somente constituída por criaturas desacordadas. Havia pessoas que sequer dormiam — estavam na verdade mortas! Caminhavam, negociavam, fornicavam… mas estavam mortas! Era um estado ainda mais lastimável que o “sono”. Mas… tamanduá e formigas!

Passei em frente a um pequeno comício. Um orador eloquente gritava impropérios políticos para uma pequena multidão entusiasmada. Misturados a toda aquela gente, alguns agitadores ocupavam-se em atiçar as pessoas, gritando palavras de ordem. Eu já tinha outrora, no tempo mesmo em que dormia, observado como as massas são facilmente conduzidas. Basta um orador eficiente, e elas são levadas para onde se quer. Diante daquela cena, contudo, eu percebia algo do qual nunca me dera conta antes: os agitadores, os que julgavam que conduziam as massas, eram na verdade igualmente conduzidos. Dormiam como todos os outros. Eram, da mesma maneira, partes inconscientes daquele processo sonambúlico. Autômatos guiando autômatos! Cegos guiando cegos! Como no famoso quadro do velho Bruegel.

De repente, eu tive um choque. Vi, em meio à multidão, um “homem desperto”! Estava em completo silêncio, entretido na observação pura e simples das coisas. Quando me viu também se sobressaltou, por um instante e ainda que levemente. Depois, pareceu ter reconhecido em mim um semelhante. Dirigiu-me uma espécie de mensagem telepática, ou, então sua capacidade de se comunicar visualmente era tão aperfeiçoada, que facilmente se fez entender, apenas movendo os olhos e usando os traços faciais e leves movimentos do rosto. Pediu que eu olhasse para trás. Um pouco distanciado de nós, eu pude ver mais um homem desperto. Ambos vieram para perto de mim.

— Arrelia!

Disse-me um deles. Eu estava boquiaberto. A descoberta de “homens despertos” causou-me quase tanto impacto quanto a descoberta de uma “humanidade adormecida”. Compreendi que eu não estava sozinho naquele estranho plano de consciência. Havia outros. Talvez fossem poucos, mas havia outros! Curioso… Era muito fácil distinguir um homem desperto de um dorminhoco. O dorminhoco também tinha os olhos abertos, mas algo o diferenciava de um “acordado”. Seu comportamento era muito peculiar: aonde quer que fosse começava a tagarelar, imaginar coisas, tamborilar com os dedos – enfim, tudo menos observar ou viver a realidade à sua volta.

Um acordado, ao contrário, tinha sempre um comportamento mais tranquilo diante de tudo e de cada coisa. Só falava o essencial, ou o que realmente tivesse utilidade para si ou para outros. Era muito difícil imaginar um acordado jogando palavras ao vento. Sobretudo, conservava-se em um peculiar estado de alerta, e aproveitava ao máximo suas reservas de energia. Era praticamente impossível apanhar um homem desperto em uma explosão de cólera, por exemplo. Mas… tamanduás, formigas… Os dois meteram-se multidão adentro, sem dizer mais nada. Naturalmente eu fui atrás. Doutores! Para encurtar a história: entramos por uma dúzia de caminhos, apanhamos um trem, caminhamos muito… e de tardinha chegamos a uma chácara, localizada em um subúrbio de difícil acesso. Na porteira havia uma placa, com uns dizeres que depois me fugiram da memória. Ou que, talvez, eu não queira aqui revelar.

Entramos.

Era um sítio bem grande. Verde, e de muitas outras cores, inclusive algumas que só podiam ser percebidas por aqueles que estivessem despertos. Ao longe, avistavam-se pequenos grupos de pessoas. Era possível ver, mesmo àquela distância, que eram homens e mulheres praticamente despertos – ainda que não totalmente. De todo modo, embora ainda não tivessem atingido o estado de consciência plena, podia-se ver que estavam em posição invejável em comparação aos “pobres-diabos” que dormiam lá fora.  Digo isso, é claro, sem querer ofender os diabos.

Acompanhei os dois serenões, que me levaram cada vez mais para dentro do sítio. Não dissemos palavra durante o percurso, mas senti que era capaz de entendê-las por uma espécie de telepatia ou de compreensão de uma mova linguagem, que se fazia dizer sem a necessidade inevitável e imediata de palavras. Por fim, chegamos a mais um portal. Percebi que era um sítio dentro do sítio. Os homens da “orla da chácara” não o conheciam – ou não se importavam com ele. Adivinhei que aquele segundo portal só podia ser transposto – ou antes, só podia atrair o desejo de ser transposto – por seres humanos que estivessem também despertos, que já tivessem alcançado a consciência plena.

Passamos pela entrada do “sítio interior” e chegamos rapidamente a um grupo reduzido de pessoas. Estavam todos sentados na grama, em torno de uma mulher bem jovem que, não obstante, parecia ser a mais consciente de todos. Aquela visão quase me afastou, por um breve momento, do estado de lucidez. Era, por certo, a mulher mais bela que eu já vira. Poderia descrevê-la evocando imagens poéticas. Não o farei. Essa técnica mais se presta à linguagem dos adormecidos. Doutores, pensem simplesmente na mulher mais linda que puderem imaginar. Mas essa beleza vem de dentro, da lucidez da alma, da consciência plena, da verdadeira inteligência… Pronto. Têm aí um retrato distante daquela mestra, que cativava a atenção de todos.

Voltei à consciência. Por pouco não recaía no sono espiritual. Algo sacudiu os ombros da minha essência. Aquilo parecia até uma prova, uma armadilha sutil. Difícil encarar uma mulher daquelas sem pestanejar. Mas, enfim, eu tinha conseguido vencer mais aquela barreira – dominara os cavalos da minha emoção, impedindo que eles carregassem a carruagem do meu corpo às regiões da demência. A Mestra sorriu:

— Já que temos um novo companheiro, que tal lembrarmos a fábula das formigas?

*

Era uma vez um tamanduá, proprietário de imensos formigueiros, e de numerosos “rebanhos” de formigas. As formigas não concordavam em absoluto com esta triste condição. Sempre que podiam emigravam, refugiavam-se em regiões menos acessíveis, perdiam-se nas pedras – ao fim do que, a maioria morria, ou então, no caso das mais hábeis, tornavam-se formigas selvagens, saúvas alegres e vadias. Acima de tudo, as formigas sempre se evadiam à menor aproximação do Tamanduá, porque sabiam que este pretendia comê-las. E as formigas, obviamente, não gostavam disso.

Um dia, afinal, tomado por uma súbita inspiração, o Tamanduá encontrou a saída. Hipnotizou as formigas, e incrustou no subconsciente delas e sugestão de que eram imortais, e que, portanto, o fato de serem comidas pelo Tamanduá não lhes podia causar nenhum mal. Muito pelo contrário, sermos devoradas nos é até benéfico – passaram a pregar as sacerdotes-formigas. É que o Tamanduá lhes tinha incutido também a estranha ideia de que na barriga dele escondia-se um paraíso – um campo de paz final e de eterna bem-aventurança no qual não havia mais dissabores nem trabalho, mas apenas uma eternidade paradisíaca. Sugeriu-lhes ainda que gostava muito delas, que estava sempre pronto a defendê-las e a fazer qualquer sacrifício pelo bem do formigueiro. Finalmente, para completar o encanto hipnótico, fez com que todas acreditassem que não eram em absoluto formigas, mas na verdade seres infinitamente superiores – criaturas inteligentíssimas. Em seguida introduziu-as em um eterno transe, fazendo-as acreditar que, ao contrário, estavam muito despertas.

Depois disso, as formigas nunca mais lhe causaram aborrecimentos. Estavam sempre prontas a serem devoradas. Não mais fugiam, aguardando sempre, com muita tranquilidade, o instante sublime em que o Tamanduá haveria de chupar cada uma delas para dentro de si, quando então poderiam conhecer o magnífico paraíso de açúcar que havia na sua barriga.

— Como podem ver – continuou a Mestra – as formigas são a “humanidade adormecida”. E o Tamanduá são as forças que necessitam deste sono, para atender a objetivos específicos. Naturalmente, se os seres humanos pudessem se dar conta do horror da sua situação, iriam se desesperar. Começariam no mesmo instante a buscar uma saída, e talvez a encontrassem. Isso seria evoluir. Mas, certamente, o Grande Sono não quer isto. As forças superiores que se alimentam do humano adormecido não poderiam sobreviver sem tal suprimento. Seria o caos. O desmoronamento do “ecossistema”. Assim, pode-se dizer que a evolução é um caminho contrário à Natureza…

Um discípulo mais novo interrompeu:

— Mas que “forças superiores” são estas, interessadas na inconsciência coletiva? Que entidades são estas, a se nutrirem de seres humanos adormecidos?

A Mestra prosseguiu, irradiando beleza, simpatia e inteligência:

— Alguns de vocês já sabem que forças são estas. Outros irão saber um dia. Mas o importante, por hora, é que saibam que essas forças existem.

Eu tinha escutado aquela fábula tomado por um certo incômodo, ou mesmo por uma perturbadora aflição. Imaginei aquele milhão de formiguinhas – digo, pessoas – sendo conduzidas ingenuamente ao matadouro, à barriga de um Tamanduá cínico – digo, sei lá que demônios. Estava confuso. Será que as tais forças eram misteriosos e pequenos grupos que detinham poderes políticos e econômicos sobre a miséria humana, que dispunham das massas como se fossem autômatos, que aplicavam métodos de condicionamento e propaganda para moldar uma humanidade mergulhada na alienação e no sonambulismo, que erigiam religiões para a mentira do paraíso de açúcar? Ou seria algo ainda mais terrível, forças naturais e ocultas, espectros invencíveis pairando sobre o sono do mundo? Ou ambas as coisas? Eu estava mesmo confuso com aquela história de tamanduás e formigas. Venci a timidez inicial e interpelei a Mestra:

— Mas o que estamos esperando? Vamos acordar aqueles pobres-diabos lá fora! Impedir que todos se transformem em alimento para algum organismo sobrenatural!

Alguns riram. Senti que aquela pergunta já tinha sido feita, muitas vezes, antes. A Mestra sorriu. Disse-me, carinhosamente.

— Meu anjo, não percebe? A “evolução” – o despertar – só é realizável para um número muito pequeno de indivíduos. Não é desejável, nem possível, que se estenda a toda humanidade. Ao contrário, há forças naturais que se opõem radicalmente à evolução das grandes massas humanas. Se um número significativo de indivíduos evoluísse  – se muitos seres humanos se tornassem inteligentes demais, isto é, despertassem – nenhum deles iria querer mais servir de alimento às entidades superiores que governam o “sono do mundo”. Isso provocaria uma reação violenta e imediata dessas forças, que não poderiam ficar sem seu alimento básico. Por certo, seríamos todos destruídos, e de imediato substituídos por uma nova humanidade, mais estúpida. Meu amor, é precisamente isto o que torna nossa evolução possível: somos poucos, pequenos demais – não significamos nada na economia geral da Natureza. Um tamanduá sequer pode notar a ausência de algumas dúzias de formigas. Mas tire-lhe um formigueiro!

Eu tremia, dos pés à cabeça. Minha mestra, um anjo de simpatia, uma fonte da luz, estava pouco se incomodando com o resto da humanidade. Nada lhe importava que caminhassem todos docilmente para o matadouro! Doutores, eu estava confuso! Foi aí que surgiu, vindo não sei de onde, um sujeito estranho. Aproximou-se do grupo. Era um homem completamente adormecido, como todos lá fora. Estava tão imerso nos seus sonhos que, se olhássemos fixamente para os seus olhos, seríamos capazes de lê-los! Estranhei de imediato a sua presença ali, onde só havia homens despertos. Soube que era conhecido como “O Tolo do Tarot”.

O coitado fez algumas reverências à Mestra – abaixou-se e beijou-lhe as mãos. A Mestra afagou-lhe a testa, como a uma criança, ou talvez a um cão. Alguém me disse, telepático – ou na linguagem que diz as coisas sem emitir palavras – que aquele era o único dorminhoco que já pisara naquele sítio. Os acordados permitiam que ele andasse por ali, livremente, porque assim podiam estudar ao vivo e ao morto a psicologia dos humanos adormecidos. Era, portanto, uma espécie de cobaia. Os despertos riam pelos cantos, caçoavam do coitado. Doutores, aquilo me revoltou. Foi crescendo em mim um sentimento esquisito… Não é que aqueles iniciados –  portadores do conhecimento pleno e da consciência integral – não somente se desinteressavam pelo restante da humanidade, como ainda por cima caçoavam dela? Faziam perguntas ao “Tolo do Tarot”, deixavam que ele tagarelasse sem parar, brincavam com suas diversas personalidades – caiam na gargalhada quando esse se declarava um “homem desperto”…

Tudo aquilo me confundiu bastante. Olhei para a Mestra, que àquela altura me parecia ainda mais bela. Mas minha confusão interior deixava que entrevisse, por trás daquela beleza, uma espécie de crueldade. Afinal, ela assentia naquele deboche, embora dele não participasse diretamente. Por fim, não aguentei mais. Levantei-me brusco, seguindo meus impulsos interiores. Pulei para perto do “Tolo do Tarot”, que estava em pé. Tentei acordá-lo, sacudindo-lhe os ombros.

— Acorde, amigo!

— Grteda fesrt, ftris! – disse-me o Tolo…

— Idiota! Não vê que dorme? Estão zombando de ti!

O Tolo do Tarot desvencilhou-se das minhas mãos:

— Que estás dizendo, rapaz? Eu sou um “homem desperto”. Aqui, estamos todos despertos!

Os iniciados riram. Doutores, minha confusão chegou ao máximo! A beleza da Mestra, o riso de todos, o sono do Tolo do Tarot… tudo aquilo foi se misturando em minha cabeça, até que a mistura se tornasse insuportável! Eu precisava sair dali, o quanto antes – ou iria explodir! Olhei uma última vez para aquelas pessoas, e corri para fora daquele círculo! Hurs dyrwq hadf. Atravessei o portal interior. Enfiei-me no mato. Tropecei várias vezes. Levantei-me. Vi, ao longe, os grupos semidespertos da orla. Havia algumas crianças. Fiquei imaginando como deveria sofrer o Tolo do Tarot nas mãos delas – crianças despertas e semidespertas. Deviam zombar dia e noite do pobre diabo! Treds ni frsd! Finalmente cheguei ao portal exterior, que dava para a rua – para a humanidade adormecida! Utrega diu dfrteu! Gredst, nghfr…  A imagem da belíssima Mestra, com sua luz – as diversas imagens do Talo do Tarot, na sombra… perseguiam meus pensamentos! Saí! Fui dar em uma rua muito movimentada, onde as pessoas passavam, mergulhadas no seu sono, sem nem suspeitar do destino implacável ao que estavam reservadas! Grtefd, dftreg fdstr. Eu precisava acordar o resto da humanidade. Usaria todos os despertadores necessários! Nenhum tamanduá iria fazer aquela pobre gente de formigas! Trefad ghfr, ghfsjs! Gresfd, fdstre fdgs. Atravessei a rua, tomado pelo desespero. Senti que estava começando a cair no sono. Grefsd, fgdrt! Saí gritando, com toda a força dos meus pulmões! Jurefd ghrdhm mgref! Tentei sacudir as pessoas, que se esquivavam como se eu estivesse louco! Senti que estava rapidamente perdendo a consciência! Grdfse rdtaf juyt! Gtrdfs! Percebi, horrorizado, que iria me transformar de novo em um dorminhoco. Seus filhos da puta, acordem! Papas-de-anjo, chicletes-de-tamanduá! Gredsf hugfied –  fghtasrdf grd frtefa!!! Fredsda rteh, mghrteg! Trefzaska fietsf! — Putz!.

Fui acordar com Maria Quitéria me afagando a cabeça:

— Está tudo bem agora, amor!

— Onde estou?

— Num hospital. Você teve um esgotamento nervoso. Alguns populares trouxeram-no para cá, depois de você ter desmaiado na rua. Disseram que você corria como um louco, gritando coisas estranhas… Mas não pense mais nisso, agora está tudo bem!

— Tive um pesadelo muito esquisito…

Doutores! O resto vocês já sabem, já que foram os responsáveis pela minha recuperação psíquica. Sabem, não sei porque me pediram que eu lhes fizesse este relato sobre os meus pesadelos e alucinações. Bem, vocês devem ter seus motivos. É uma espécie de pesquisa científica, não é? Ah! Resolvi seguir seu conselho, doutor. Vamos nos mudar, eu e minha mulher, para uma tranquila cidade de interior, dessas que ainda não conhecem a confusão da vida moderna. É uma cidadezinha boa, arranjei um emprego por lá. Vou dar aulas em uma pequena escola! Partimos semana que vem. Quitéria gostou muito da ideia… Bem, agora, se vocês me permitem, vou dormir. Estou exausto!

— Claro, Vaz. Digo, Professor Vaz!

Disse, brincando, um dos dois médicos. Entreolharam-se Sorriram. Provavelmente diziam os olhos, um para o outro: “Mais um paciente que conseguimos recuperar…” Maria Quitéria fez questão de acompanhá-los até à porta daquele quartinho de ambulatório. Saíram. Ainda pude escutar a voz amistosa de um dos médicos, antes que a porta se fechasse:

— Durma bem, Professor Vaz…

♦♦♦

José D’Assunção Barros é escritor, músico, historiador e professor universitário na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Na área de Literatura, publicou o livro de contos ‘O Avesso do Pau-de-Arara’, o romance ‘Desacordados’, e uma série de contos e poemas em revistas diversas. No campo ensaístico, publicou 33 livros e cerca de duzentos artigos em revistas diversas, sobre temas relacionados às Ciências Humanas, História, Artes e Literatura.

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