A TOLERÂNCIA – por Manuel Igreja Cardoso

Não vão muito de feição para os campos da tolerância os ventos que sopram na espuma dos dias nesta nossa modernidade. Ao contrário do medo, ela não nasce connosco. Germina, desponta, mas facilmente mirra quando não é cultivada e quando as pragas urdidas pelos temeres a infetam.

A tolerância dá-se com a ânsia quando esta desponta e se desenvolve no fundo dos túneis escuros e labirínticos em que se não vislumbra saída destemida. Vive-se a vida em forma temida. Em sobressaltos e com os ânimos aos saltos.

Diz-nos o saber de experiência feito que para se estar tolerante, tem de se ser inteiro e limpo. Seguro de si e dos outros. Generoso, bondoso, humilde ainda que exigente consigo e com toda a gente. Para se tolerar, impõe que se saiba onde é o centro do mundo, ainda que cada qual possa ter o seu.

Depois, só somos tolerantes se nos sentirmos livres ao ponto de respeitar a liberdades dos outros. Só sendo senhores dos nossos sonhos, poderemos permitir que alguém, os outros de longe ou de perto, possam ser donos dos seus para que por eles possam lutar.

Só sabendo, teremos noção de que gente semelhante a nós em tudo, menos nas possibilidades de obter, procura desesperadamente os caminhos que levam a melhores formas de vida. Somente atentos, saberemos que ninguém escolhe o sítio onde nasceu. Quando muito e nem sempre, escolhe o local em que vive ou viveu.

Desde sempre a tolerância foi arma de arremesso utilizada pelos a quem ela interessa. Sempre foi espada desembainhada por uns poucos que se conhecem e se odeiam, para que outros muitos lutem entre si mesmo que se não conheçam e se não odeiem, pois, inebriados com o cintilar das luzes do ódio tomos somos valentes e intolerantes.

Mostra-nos o que sabemos vindo da fundura dos tempos que tomados pela aflição, todos nos tornamos irracionais e cegos pelo egoísmo. Com os nervos à flor da pele e cavalgando a toda a brida o cavalo negro do medo, num ápice, entre um e outro picar de espora, deixamos de ser bestiais para sermos bestas.

Cidadãos com imagem exemplar, vizinhos, amigos e até familiares, esquecendo-se do ontem, podem abrir no hoje as portas do inferno alheio porque acham assim garantir o seu imediato futuro. Na borrasca dos sentidos, ficam moucos os ouvidos aos lamentos daqueles com quem até ainda há dias se partilhavam os bancos e os anseios nos jardins nas esquinas da vida.

A tolerância só poderá fazer-nos melhores pessoas, quando cada qual ficar ciente de que cada um é diferente mesmo que sejamos todos iguais. A assim não ser, a alma vai-se-nos engelhando e enegrecendo.

Resta-nos viver a flor que é a vida como quem desfolha um mal-me-quer, permitindo que cada última folha seja um bem-me-quer que guardamos naquele sítio que é só nosso.

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Manuel Igreja Cardoso, nasceu em 1960 no concelho de Armamar e reside na cidade do Peso da Régua no Alto Douro Vinhateiro.
Licenciado em História, a par da sua atividade profissional da EDP – Energia de Portugal, desenvolveu nos últimos 25 anos uma profícua atividade na escrita de contos, artigos de opinião e de crónicas que tem vindo a publicar em diversos jornais regionais.
Tem publicado um livro de contos, um com a história da Associação Humanitária dos Bombeiros do Peso da Régua, e outro com história da ACIR – Associação Comercial.
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