UMA TRILOGIA de Cláudio B. Carlos

 

Tela de Anselm Kiefer, 1996

UM HOMEM CHAMADO HOMEM

Era uma vez um homem chamado homem e uma mulher chamada mulher. Todos os dias, o homem chamado homem quebrava pe­dras, desde as primeiras horas da manhã até as primeiras da noite. O quebrar pedras era chamado trabalho. Todas as noites, com exceção de cinco por mês, a mulher chama­da mulher, deitada em um catre tosco chamado cama, se oferecia ao homem chamado homem. O homem chamado homem a acei­tava naquilo que chamavam amor. O homem chamado homem e a mulher chamada mu­lher roçavam um no outro os corpos rudes… O que comiam na tábua chamada mesa cha­mavam nada. O que se seguia no amontoa­do de horas, que chamavam dia, chamavam vida… Em frente ao rancho que chamavam lar, tinha, na terra seca que chamavam res­tinga, uma única planta a cada dia mais mur­cha… Como era mesmo o nome da planta?

O INCRÍVEL ENGOLIDOR DE SAPOS
(um homem chamado cidadão)

Respeitável público! Gran Circo Terra Brasi­lis orgulhosamente apresenta: O INCRÍVEL ENGOLIDOR DE SAPOS! Para o aplauso dos senhores: CI-DA-DÃO!

CIDADÃO
(um homem chamado cisco)

Era uma vez um homem chamado Cidadão. De sobrenome Comum. Que acordava às quatro da manhã, de segunda a sábado. Era uma vez um homem chamado Cidadão, que pegava o ônibus lotado, de segunda a sábado, às cinco da manhã. Era uma vez um homem chamado Cidadão, que começava a trabalhar às sete da manhã. Trabalhava de segunda a sábado, pendurado em andaimes, carregando tijolo, fazendo massa. Era uma vez um homem chamado Cidadão, que franzino e mal fornido, carregava até três vezes o seu próprio peso. Que cansado e sujo, de segunda a sábado, ao meio-dia, comia a fria comida, na marmita, que quase nunca via o quase-luxo chamado carne. Era uma vez um homem chamado Cidadão, que todo início de mês recebia o salário, que mínimo nunca dava para o mínimo que os homens chamados Governantes chamavam básico. O homem chamado Cidadão era um tipo comum, igual a tantos outros homens também franzinos e mal fornidos, que também se chamavam Cidadão, também de sobrenome Comum, que também acordavam cedo, que também pegavam ônibus lotados, que também trabalhavam de segunda a sábado, que também recebiam em troca do trabalho pesado, o mínimo, de nome salário. Para distinguir um Cidadão Comum de outro comum Cidadão existiam os apelidos: Zé (que já era apelido do apelido José), João, Antônio, Raimundo (que também podia ser Mundico, Mundão, Mundinho) e Francisco, que pra bom entendedor podia ser só um risco, ou um cisco… Opa, cadê o Chico? Alguém varreu. Foi aquele que tudo pode, e a quem chamam deus.

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Cláudio B. Carlos – poeta e contista. Nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS. Tem diversos livros publicados. Coordena o Grupo de Escritores O Bodoque. Atua no mercado literário como editor, preparador e revisor de textos. Vive em Cachoeira do Sul, RS – é editor da Editora Coralina (www.editoracoralina.com.br) e da Saraquá Edições.

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