PODEM ADIAR O FIM DO MUNDO? – por Luiz Henrique Santana

Eu conto: os estudos literários podem adiar o fim do mundo?

A curiosidade inquieta, incomoda e, por conta disso, nos motiva na construção do conhecimento, seja ele formal ou informal. Dito isso, não faz muito tempo, uma questão foi levantada após a apresentação de alguns trabalhos de literatura. Essa questão tem me inquietado bastante. Há cerca de um ano faço parte de um grupo de pesquisa que busca, dentre os vários movimentos da literatura, como: escolas literárias e as fases da teoria literária, entender a essência constituinte da arte literária, isto é, a metaliteratura. A pluralidade de pensamentos, a inquietude e os questionamentos são as molas propulsoras do grupo.

 Imbuídos pelo nosso orientador a “dar as caras” em um evento local da faculdade, eu e alguns estudantes escrevemos, organizamos, estruturamos e recebemos orientações do professor à frente do grupo. Após alguns ajustes, chegou o dia da apresentação. Somos um total de 7 pessoas numa mesa-redonda para apresentar os trabalhos e responder possíveis questionamentos após a rodada de exposições. Todos apresentaram. Alguns dos livros abordados deixo aqui caso surja o desejo de ler. As mil e uma noites, (escrito por uma legião de autores anônimos); A história sem Fim, do escritor Michael Ende; A hora da estrela, da escritora Clarice Lispector e A jornada do herói, do antropólogo Joseph Campbell.

O falar e o ser ouvido preenche este momento. Palmas findam as apresentações de maneira simbólica. Somos um, enquanto grupo. Nosso orientador incita as perguntas, porém nenhuma é feita. São realizados alguns apontamentos nos moldes de observações, mas ainda não chega a ser um questionamento, muito menos uma indagação. Entretanto, após a leitura de uma música da cantora Sofia Freire por título de “Matrioska”e o apontamento feito ao grupo sobre uma das novas catalogações, surge um questionamento advindo de um antigo componente do grupo de estudos.  O letrólogo disse: li um livro esses dias que leva o título de “Ideias para adiar o fim do mundo”, de um índio filósofo, Ailton Krenak. Ele, dentre muitas coisas, fala da dicotomia entre o homem e a natureza, ressaltando que “o ser humano não enxerga que o rio poluído, por sua espécie, é seu avô”(KRENAK, A. p.40. 2019.). Finalmente o rapaz perguntou: depois de tudo o que foi apresentado e estudado, qual a relevância ou em quê contribuem os estudos metaliterários e literários no adiamento do fim do mundo?

Fico inquieto por ser essa, a terceira vez que ouço falar desse livro. A primeira foi em um evento do curso de Letras, promovido por um grupo do Programa de Educação Tutorial (PET) na Universidade Federal (UF) da capital do meu estado, a segunda vez foi no primeiro dia desse evento, na palestra de abertura e a terceira vez foi nessa pergunta do letrólogo egresso. Tomo a consciência que eu preciso ler essa obra, pois, há uma necessidade em buscar entender a mãe natureza e a humanidade. Meu professor espera, aguarda alguém se propor a responder, mas ninguém o faz. Exceto um membro atual do grupo que veio assistir às apresentações e respondeu: “acaba, mas não acaba.” Quem perguntou, diz não entender. Meu professor explica que essa questão não se responde tão brevemente, mas há os graus da corrupção do silêncio (BARTHES, R. [1977] 1980) e expõe a metaliteratura como o terceiro grau de corrupção do silêncio, e que na tentativa de explicar, vamos corrompendo mais e mais o vazio.

Eu preciso responder essa questão, não por uma questão de orgulho, mas porque ela é uma pergunta que mobiliza observações importantes na área na qual atuo. Como assim? Essa questão dialoga com as seguintes indagações: por qual motivo faço o que faço? O que eu faço ajuda o meio social e de que forma? Qual o meu papel como pesquisador? Procuro incessantemente o livro para entender como se contextualiza o questionamento, e me deparo com um escrito do autor indígena citado pelo letrólogo, que proseia sobre a “Natureza e o sagrado — a dimensão espiritual da consciência ecológica”, texto esse, escrito em conjunto com Frei Leonardo Boff, um nome relevante no campo  dos estudos ecológicos.

Ao ler o trecho escrito pelo Ailton Krenak, percebo que a resposta habita no âmbito da memória. Pois, ao tocar no assunto da desarmonia existente entre a ideia da humanidade e a concepção de natureza implantada pela dominação colonialista e segregacionária, o ativista reverbera sobre a história do seu povo brotar “de dentro da natureza para fora”. Assim, é possível notar que a tradição do autor preza pela memória, enquanto lembrança do mundo. E, pela não subordinação a essa superestrutura que condiciona de modo dominante tudo e todos, sem respeitar quaisquer subjetividades, visando igualar a raça humana e homogeneizá-la.

Após a leitura, entendo que o texto não se afasta da literatura, isto é, ele se vale de exemplos condizentes aos povos originários, para ressaltar a importância da contação de histórias entre eles. Além disso, a memória, um elemento relevante na cultura deles, é um artifício recorrente nos estudos literários. Ela, a memória, propõe uma tradição e autentifica um passado, a reminiscência está arraigada na literatura, por manifestar inquietações, preocupações e anseios. A anamnese de um povo e de um tempo se perpetua em cada obra literária, retratando cenários vividos, instantes pensados, momentos cruciais de uma população de maneira articulada.

Porém, na obra “Ideias para adiar o fim do mundo”, usada como suporte para o questionamento consoante à relevância social dos estudos metaliterários o foco do ativista muda, embora conjecture os pensamentos a respeito da dominação encabeçada pela opressão colonialista e os resultados dessa opressão. Ailton Krenak dá ênfase à questão da ancestralidade memorial, como reguladora da sanidade nesses tempos de loucura e delírio político-social-mental-estrutural. Ao abordar essa temática, ele diz o seguinte:

Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos. (KRENAK, A. p.14 – 15. 2019)

Algumas palavras chamam atenção no discurso do ativista indígena, tais como: vínculo, memória ancestral, referência e identidade. A arte literária concede justamente essa condição de associar alianças densas e complexas à lembrança da ancestralidade do povo e sua identidade cultural, sejam esses povos: indígenas, incas, maias e afins.  A literatura é mais um veículo artístico que preserva uma determinada cultura. A arte literária imortaliza um povo, um tempo. Ela captura a essência humana: o pensamento. Nesse viés, Ailton Krenak retrata o seguinte:

Assim como aquela senhora hopi que conversava com a pedra, sua irmã, tem um monte de gente que fala com montanhas. No Equador, na Colômbia, em algumas dessas regiões dos Andes, você encontra lugares onde as montanhas formam casais. Tem mãe, pai, filho, tem uma família de montanhas que troca afeto, faz trocas. E as pessoas que vivem nesses vales fazem festas para essas montanhas, dão comida, dão presentes, ganham presentes das montanhas. Por que essas narrativas não nos entusiasmam? Por que elas vão sendo esquecidas e apagadas em favor de uma narrativa globalizante, superficial, que quer contar a mesma história para a gente? (KRENAK, A. p.18-19. 2019)

Objetivando o questionamento das estruturas e superestruturas, o ativista propõe o seguinte pensamento: qual a razão do nivelamento e da unicidade das narrativas? Existe um perigo nesse processo das narrativas únicas. A história da natureza como um eu, no âmago do ser humano, reside na experiência segregadora que há no capitalismo vil. É uma premissa simples! Como eu não compreendo a natureza como meu semelhante, eu a rotulo de recursos naturais exploro, desmato, com o intuito de manter o conceito de civilização atual? É nesse ponto onde mora o sentido e motor dos estudos literários na afronta contra a proporção utilitária que o capitalismo exige de tudo. Tudo tem que ser utilitário. A arte literária orbita nessa dimensão da fruição, que deturpa e vai além de um meio que preza por aquilo que se é prático.

A disseminação do texto literário, através dos estudos e das apresentações em eventos e das intervenções em escolas e nas comunidades, auxiliam a expansão das subjetividades, pois, esse é o meio pelo qual o indivíduo entende-se como parte de um todo, compartilhando o espaço e a mesma mãe, chamada Terra. Dessa forma, é possível apontar que a arte da palavra possui um papel vital na construção e propagação das poéticas que compreende o campo das existencialidades e das subjetividades.

Portanto, os estudos metaliterários circulam nessa ótica de dizer o mundo. E a relevância que eles concedem à sociedade é o questionamento e a reflexão sobre si a partir do texto. Ainda nesse ponto, é possível apontar para a reflexão que o Ailton Krenak instaura em seu texto:  “E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim”, (KRENAK, A. p.27. 2019). A metaliteratura possibilita a contação de todas as histórias, até as histórias não contadas.Ela é umas das ideias para adiar o fim do mundo.

Referências Bibliográficas:

BOFF, L. Natureza e sagrado: a dimensão espiritual da consciência ecológica. In: UNGER, N. M. (Org.). Fundamentos filosóficos do pensamento ecológico. São Paulo: Loyola, 1992b. p. 75-80.
KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2019
BARTHES. R. Aula. 1º Ed. São Paulo: Editora Cultrix. 1980

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Luiz Henrique Costa de Santana Graduando da Universidade Federal Rural de Pernambuco – Unidade Acadêmica de Garanhuns (UFRPE/UAG), do 3º período do curso de Letras – Português-Inglês. Membro (estudante) do grupo de estudos em “Metaliteratura: teorias e obras”. Tem interesse em Literatura, Literatura e memória, Metaliteratura, Estudos literários e em estudos culturais. PETiano (bolsista) do Programa de Educação Tutorial (PET) – Conexões: Arte, Cultura e Educação em Comunidades populares e quilombolas na UFRPE/UAG.

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