CINCO POEMAS – por Leonardo Bachiega

lendo akhmátova
  
deitando os olhos
sobre um lenço querido

a mulher que sozinha
dobrava a umidade do tempo
num amor de aconchegante filho

uma hora a coragem
traz aguaceiros
a este eterno sertão
que não é mais silencioso
como amar em voz baixa

devagar não sei ao certo aonde
a mulher apoiou um lumiar sobre o outro
até restar acidentes sinceros
desde então embarcar à terra
traz um só… inteiro rio

♣♣♣

cidade

o emaranhado
é um frasco
de eterna beleza
enquanto emoldura
adoça

♣♣♣

gracinha

grande enquanto pouco
seu meme demora
como alguma que se abre
porque rindo
me fita

♣♣♣

encostado numa árvore

as vezes o amor reside na memória
o estado do tempo de um retrato
e nem sempre tem um muro para escalar
dormi e acordei como um matemático
contando as formas com que o vento me traz
você em pensamentos
kkk..eu quero o meu o teu o amor dele
no mestrado de um puro ar
num ar com raras frutas

♣♣♣

 

obra de arte

quando eu paro para olhar um quadro uma pintura seja de quem for picasso ingres portinari el greco eu não observo a sua forma real de figura dentro da tela como objetos xerocando circunstâncias ou quiçá a sua geometria a lembrar alicerces e mato seco e árvore eu procuro ver a sua forma desigual de cidade percorrida a uma vida que me prossegue vejo a baba que suja o ponteiro de cada relógio e assim me pergunto  estou eu olhando para que direção eu olho para o ponto onde estarei procurando tudo que perdura a base do éter de todos os séculos tal qual sua obra eu vejo danças tribais para um deus minotauro o som da terra e do vento sob o conforto de uma cabeça degolada às batalhas cruzadas as espirais das gárgulas e estatuas com suas idades porque as catedrais se encontram sempre afiando o tempo o os blusões cor de estanho dos jovens nos espetáculos eu vejo o sertão o deserto o pressentimento do peso dos passos a noite em ossos a sangria outras vidas menino descalço a bola de futebol a semelhança das tapeçarias a rememorar os rostos de cada lugar e a sua tarde a loja de roupas repleta de sílabas precisas a internet o homem na lua o homem em marte o robô o carro voador a fome a desgraça a peste a pandemia a escassez de água os problemas sociais numa sala digamos do tamanho de um bairro de cinco mil lâmpadas eu vejo a caxemira a escorrer pelos lábios as coisas mais importantes as coisas menos importantes insetos a rua o farol como um tabaco aceso agora se eu olhar para o outro lado… o lado em que o corpo se mantém sempre distante o que eu verei será apenas a cor consolando o meu desejo de não querer nada.

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Leonardo Bachiega, artista paulistano. É autor de alguns livros de poesia, dramaturgia, contos, romance. Possui textos publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal. Fernando Pessoa é seu poeta da vida. Instagram: @lbachiega.