O séc. XVIII é, costuma dizer-se, o século das Luzes, do Iluminismo.
Os seus representantes máximos, Kant, Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, entre outros, têm em comum a afirmação da razão como critério e ideal da universalidade dos princípios que resultariam do seu exercício. Continuar a ler “A DEMOCRATURA – por Fernando Martinho Guimarães”
(A) O Didinium é um protozoário carnívoro. (B) Ele nada em alta velocidade pelo batimento sincronizado de seus cílios e, quando encontra uma presa, libera vários dardos paralisantes a partir de sua tromba e devora a outra célula por fagocitose.
INTRODUÇÃO AO CONCEITO DE CULTURA
Apresentarei aqui os traços mais essenciais do conceito de Cultura que estive amadurecendo ao longo dos últimos 20 anos, porém desta vez sem fazer maiores referências às concepções tradicionais de cultura que são conhecidas de toda gente. O texto também será aligeirado das habituais referências acadêmicas e da análise de uma noção crucial, a noção de problema, à qual dedicarei um ensaio à parte. Por uma questão de clareza, a palavra cultura será grafada com inicial maiúscula sempre que referir-se ao conceito que estou desenvolvendo, o que não significa, obviamente, que eu esteja sugerindo a existência de uma hierarquia entre ele e os demais conceitos de cultura. Continuar a ler “INTRODUÇÃO AO CONCEITO DE CULTURA – por Francisco Fuchs”
Tu piel semeja un reptil
de verde y espuma
tendida el alma sobre las rojas hojas
de Cataguases
Las gotas de aguas se han vuelto cenizas
las rocas dormidas estrellan tu nombre
jugando al rebelde por la muerte de otros ríos
por el llanto de otros hombres
calcinados al fuego
Desobediente
cuchillo en mano
rebanas las tardes sin adornos
Donde cortaron tu ombligo
lloran tijeras de seda
hay espadas de rosas y musgo
y pasan otros poetas con sus abismos al hombro
De equipaje llevas colmillos
de cocodrilos hambrientos
para fundar otras patrias
con Anderson Braga y Adelia Prado
nuevas sílabas ventiscas y truenos
cantos y malabares de enormes estatuas
Eu vim, amor
pra recolher a sombra leve dos teus passos
e com o abraço que guardei e não sabia.
Vim pra dizer que tudo é breve mas demora
bem mais que deve, se a razão despede a hora. Continuar a ler “AMORÁVEL – por Jaime Vaz Brasil”
FALAR SEMPREALTO E CLARO
Entrevista anicolau saião
Por Manuel Beirão, Joaquim Simões e Luís Miguel Barreiros
Perguntas de Manuel Beirão
“Escrita e o seu contrário”, o título do seu livro mais recente. Porquê este título, Nicolau?
NS – Porque, e isto creio que se dá com todos os autores, por cada poema que se faz, que nos chega, há outros que não se fazem, que como disse numa frase feliz Jules Morot, são só pensamento. Que esboçamos ou se iniciam ao correr dos minutos, dos fragmentos de tempo em que nos fixamos, mas que deixamos e, com frequência, nunca mais se encontram. Continuar a ler “FALAR SEMPRE ALTO E CLARO – entrevista a Nicolau Saião”
Entre ficar a olhar para anteontem e fazer uma expedição à Lua há curiosas semelhanças. O facto de me acontecer viver a primeira com a mesma frequência com que desejo a segunda não é mera coincidência. Sempre que revivo mentalmente os lugares por onde passei, tenha sido ontem ou anteontem, sinto-me uma espécie de lunática de trazer por casa. Ver ou rever coisas, lugares, pessoas não é mais do que apontar uma lanterna fosca desde o quarto minguante da Lua.
Só sombra, só floresta densa a irromper pelos muros colossais, pessoas de pedra e animais de vento, noites em fuga pela estrada que se mata pelas matas adentro. Aldeias que ficaram de raízes soltas ou avulsas ou sem raízes a orbitar remotamente sem gravidade nenhuma e a respirar para dentro de si mesmas como quem mergulha na costa do tempo. Carcaças de casas sem gente expedidas anteontem para a lua e, por acidente. O filme negro e a luz um cometa, a história uma dúvida, qualquer presença eternamente distante e a vida inteira pouco mais do uma aldeia vista a montante.
Idalina Correia da Silva e Maria Correiasão a mesma pessoa. Ambas trabalham em estreita colaboração, a primeira escreve, a outra fotografa e desenha. Idalina Correia da Silvaé Mestre em Filosofia pela Universidade do Minho. Sempre que pode ensina Filosofia nas escolas secundárias aqui e ali. Quando não pode, é copywriter publicitária e consultora de comunicação.
A instituição está quase deserta. Foram ao passeio anual. Aqui permaneceram poucos. Alguns não integram. Desprezam convenções e enquadramentos. Líderes específicos e ondas bíblicas. O arejado silêncio nos corredores e nas áreas comuns é o melhor dos medicamentos. Está fresco e parece haver uma metafísica sonâmbula invertida. Como se os que ficaram estivessem a voar quietos. Num recolhimento cósmico. Só a palavra indispensável é proferida. Todas as partes do grande edifício assumem outra identidade. Os olhares veem, destacando as linhas dos momentos. Tomo um comprimido para as dores estruturantes. Caminho sem ir a lado nenhum. Posso ler as folhas que vou amontoando nos bolsos do casaco. Tenho outra cadeira para a hospedaria. Foi oferecida. É boa madeira e ajuda as peças vertebrais a ficarem mais ordenadas. Ontem o mar e a luz do fim do sol, davam à tua pele um tom de fogo. E a risca negra sobre as pálpebras fazia o belo com a rebeldia das águas. Há pouco chamaram-me para um compartimento onde estava o do 24. Anda muito devagar. Tinha passado por mim no bar. Parou para me dizer que tem ouvido uns sons na cabeça. Como um rádio sem sintonia. E que também tem sentido um paladar estranho na boca. Será de estar a ler Lautréamont, perguntou-me. Evidentemente, respondi. Mude de leitura, aconselhei. Agradeceu e disse que ia fazê-lo. Mais tarde quando entro no compartimento o do 24 come uma banana e fuma. O delegado espreita pela janela. Depois vira-se e olha-nos. Queria falar-vos do passeio, diz. Recusa da asfixia, responde o do 24 antes da pergunta. E sai. O chão acolhe afável o olhar do delegado. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS V – por Lúcio Valium”
dedicam-nos uma música da moda
nos sítios de ‘influencers’ deste ‘now’
nós somos velhas almas de antanho
atravessámos todas as dunas e areias
sobrevivemos a todos os oásis falsos
para habitarmos, hoje, no sonho e na palavra
que o Amor é e será sempre. sem dó. Continuar a ler “O AMOR É E SEMPRE SERÁ SEM DÓ – por Maria Toscano”
desnudo con su mundo interno por las calles
No sé si sea el infame que se ríe
de sus picardías viajeras
No sé si sea el poeta desahuciado
volando con incienso
No sé si sea el enamorado dibujando
corazones en servilletas
No sé si sea el manifestante gritando
¡No a la guerra, viva el amor!
No sé si sea el principito en su asteroide
No sé si sea el recién graduado buscando poder
comprar acuarelas y vestir blancas mariposas
No sé si sea el hijo del sol entre límites y territorios conocidos
No sé si sea el militante convenciéndote
de que te unas al partido.
Lo que sí puedo decir es que soy el personaje
que te escribe diez de cada palabra absurda
Irrealizable
Ideas
Irresponsables
poemas
En un éxtasis
escribo estos versos
para declararme lunático
por tus ojos de luna en menguante;
por tus ojos exóticos como la hermosa Pekín;
por tus manos de lirios sonámbulos.
Me declaro subversivo
por dejar el único atentado terrorista
en el costado de tus gemidos.
Me declaro mendigo
porque cada vez que te miro
extiendo mis manos para pedirte un beso.
Me declaro antiimperialista
porque busco la forma de derrumbar
el imperio que nos separa.
Construyendo el amor sin capitalismo,
sólo con teorías amatorias.
En la fragancia
de tu cintura,
de tu perfume,
de tu belleza,
de tus sinfonías.
Ni Marx
ni Lenin
escribieron en el manifiesto.
Me declaro poeta
porque el poeta penetra en los tuétanos,
en las quimeras de los astros
con estúpidas melancolías,
estúpidas utopías.
Yo otro más
te escribo estúpidas palabras de amor.
Querida mujer.
Querida hada.
Por último,
mi declaración es esta:
ya no te quiero,
no te asombres en las tinieblas,
es cierto, no te quiero.
Mi declaración es esta:
te amo.
Barragens e minas de lítio: entre o ambientalismo radical e o desenvolvimento sustentável
Em artigos passados, escritos para esta prestigiada Revista, fiz já a crítica daquilo que me parece ser um ambientalismo radical, muitas vezes colocado ao serviço de agendas que vão para além da salvaguarda ambiental. Continuarei, hoje, nessa senda, fazendo a crítica dos que criticam a construção de barragens e a exploração de minas de lítio.
Uma das bandeiras de um certo ambientalismo prende-se com a crítica à construção de barragens. Empregam argumentos, verdadeiros, de que tais construções alteram a natureza primitiva dos cursos de água, impactando-se assim na fauna, na flora e nos ecossistemas adjacentes. Continuar a ler “BARRAGENS E MINAS DE LÍTIO (—-) – por Ricardo Amorim Pereira”
Não se iluda, caro leitor, não vamos para novos. Qualquer um de nós. Aliás, disse alguém, que se lembrava de dizer certas coisas daquelas que não lembram nem ao diabo, mas que são certas, que começamos a morrer assim que acabadinhos de nascer. Continuar a ler “ENVELHECER – por Manuel Igreja Cardoso”
O pedido para avaliar aquele paciente surgiu na reunião multidisciplinar. A nova psiquiatra da equipe insinuou que eu seria a pessoa ideal para vê-lo, pelo fato de eu ter trabalhado como neurologista no Brasil. Certo é que essas qualificações pregressas nunca me ajudaram muito no quartel do NHS com suas hierarquias. Seria apenas uma mãozinha, digamos, ou um teste para avaliar minha experiência prévia, mas topei. Aquela era minha última semana de aviso prévio na prisão, estranho que meu expertise fosse requisitado justamente às vésperas da minha saída.Continuar a ler “A ROSA TATUADA – por Virna Teixeira”
Artigo Destaque: In Memoriam Paulo Lúcio/Lucio Valium, por Atur Manso
COLABORARAM:
Alda Fontes, Alvaro Acevedo, Artur Manso, Claudia Vila Molina, Danyel Guerra, Dercio Brauna, Fernando Martinho Guimaraes, Francisco Fuchs, Idalina Correia Da Silva, Jaime Vaz Brasil, Jardel Dias Cavalcanti, Lionilda Pereira, Lúcio Valium/Paulo Lúcio, Luiz Renato Oliveira Perico, Manuel Parra Aguiar, Maria Toscano, Olinda Pina Gil, Olívia Clara Pena, Ricardo Pereira, Wendrell Elias Dos Santos Gomes.
A caminho da sexta década da existência temporal, o Paulo Lúcio fechou os olhos, cerrou os ouvidos, os pulmões deixaram de arfar e o coração parou de bater. A experiência chegou ao fim. Não sabemos de onde vimos, nem para onde vamos, mas a tremenda simplicidade do ser humano que se multiplica numa torrente de improbabilidades contínuas em um ambiente tão adverso é, para mim, um indicador que nesta dimensão, apenas passamos uma parte daquilo que realmente somos. Com a morte, ultrapassamos a estranheza deste lugar que nos acolhe sem sabermos porquê nem para quê!
Conheci o Paulo Lúcio há mais de trinta anos quando ambos frequentávamos a Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Começamos a ser amigos nas salas de cinema, e só depois nos cafés. Eu trabalhava e estudava para aumentar a cultura e o saber nas áreas que me cativavam; as humanidades e as artes.
Na altura ainda havia todos os anos uma dezena de produções cinematográficas que valia a pena ver, a que se acrescentavam diversas reposições. Pelos meus afazeres e para não as perder, tinha que aproveitar as matinés. Percorria por isso, a quase totalidade das salas de cinema nas tardes de um qualquer dia de semana e quando estava sentado à espera que as luzes se apagassem e a sessão tivesse início, era frequente entrar, sem qualquer combinação, o Paulo Lúcio.
E do cinema vinham as conversas acerca do que interessava a ambos: poesia, música, literatura, filosofia. Cavaqueira sobre estes assuntos a partir do que os autores faziam. Nunca o habitual diálogo sobre o que este ou aquele, o que neste programa televisivo ou página de crítica se diz e escreve sobre o assunto. Ambos detestávamos a critica e a fraca qualidade que a mesma apresenta, porque sabíamos que uma boa parte dela é retomada, com breves adaptações, das revistas internacionais da especialidade que por cá são pouco conhecidas, como, no caso do cinema, os prestigiados Cahiers du Cinéma.
Era nesse espírito que bebíamos frequentemente uns copos, em grupo mais alargado, aqui e ali, e, num período de tempo, em casa dele que prolongávamos depois da jantarada simpaticamente servidos por ele e a sua companheira da altura, a Céu, a que se juntava a pequena criança de ambos, a Ana. Elas iam dormir que se fazia tarde. Nós continuávamos a noite entre copos, livros e música. A criança que veio depois, a Catarina, só a conheci em mais um acaso, anos mais tarde, num berreiro com a irmã e os pais num dia quente de agosto amenizado pelo estacionamento refrigerado de um centro comercial.
O Paulo Lúcio adorava ler textos à sorte que compunham um lote restrito de preferências, dentre os muitos que se encontravam espalhados pela mesa, e lia bem. Mas também lia aquilo que escrevia, ele e os restantes convivas. Na altura pouco ou quase nada cada um de nós tinha ainda publicado. Eu viria a publicar mais tarde, o Paulo só agora, por insistência minha e cumplicidade da Júlia Moura Lopes, diretora da Athena, que infelizmente não teve oportunidade de o conhecer, mas que admirava a sua escrita e o seu traço. Desse deslumbramento, ainda brinquei com ele e senti a ironia das palavras que ele sabia que eu apreciava. Dizia-me que eu era um bom tipo e tinha sorte em encontrar pessoas solícitas e amáveis como a Júlia. E eu dizia-lhe que tínhamos uns copos, os três, em divida uns aos outros que, agora, jamais serão retribuídos. Ele traçava com as suas palavras um círculo em torno de si mesmo, das suas e nossas circunstâncias. Já pelo fim, confiou-me um volume inacabado dos seus textos, que espero, com a conivência e bondade da Júlia, pulicar na íntegra.
Fomos sempre amigos especiais, como são os outros poucos que ainda me restam. Conhecemo-nos, convivemos durante anos, fomos cúmplices de umas coisas e de outras. Estivemos sem nos ver e comunicar muitos anos. Encontrávamo-nos quase por acaso, intermitentemente, para ultimamente estarmos mais vezes próximos e aproximados.
Neste tempo, já recordávamos muito mas voltávamos ao comentário do que conhecia bem, nomeadamente a Beat Generation do Jack Kerouac, William S. Burroughs, Allen Ginsberg. Há pouco tempo tínhamos tido, quando entre as pandemias jantamos e lhe levei o ensaio que tinha publicado acerca da morte e do morrer, voltado ao tema da estrada fora, agora um pouco fora da estrada, ou daquela pela qual íamos caminhando. E já bem por uma noite dentro, depois de ter estado a conversar com outro amigo, o Zé Vasconcelos, a propósito do filme Contos da loucura normal de Marco Ferreri, mesmo que o assunto que detinha o fio da conversa fosse a atriz que o protagonizava a bela Ornella Muti. Na verdade, não conseguia identificar nem o filme nem a obra em que se baseava. Para satisfazer a minha ignorância, em vez de perguntar ao Google resolvi ligar ao Paulo Lúcio e estivemos várias horas pela noite dentro, a trocar impressões sobre esse e outros filmes que tão bem conhecia e as obras em que se baseavam, no caso em apreço, Histórias de Loucura normal de Charles Bukowski, autor que o tinha influenciado, na escrita e na vida.
Outras vezes ligava-lhe quando passava por qualquer lugar que ambos tínhamos pisado e costumava atender numa serra qualquer onde descansava o corpo e o olhar, ou algures, junto a uma cozinha onde ultimava uns petiscos para a seguir os partilhar tranquilamente com alguém especial.
E era assim entre nós: conversa inútil sobre coisas fúteis. Sempre com a sua ironia provocante para manter o fio do tempo bem esticado entre todos os momentos, os que passaram e os que se desejavam, plasmado no único tempo que interessa, o presente de então.
Agora o Paulo Lúcio passou a habitar outra dimensão. Melhor, pior, igual, assim, assim, só ele saberá. Como refiro e tendo a acreditar porque de facto sou crente, a eternidade pode ter que ver com as coisas terrenas, mas não é espectável que uns e outros se encontrem tal qual se anuncia.
Por cá somos imortais enquanto formos recordados. Em outras dimensões nada sabemos e com certeza não seremos tal qual aquilo que por aqui fomos. Querido amigo, quando te digo até sempre, é mesmo isso, porque a conversa acabou e não voltaremos a habitar os mesmos lugares na companhia um do outro. E suspeito que na eternidade não nos reconheceremos porque por aqui vemos em espelho e na perpetuidade face a face. Mas o que isso realmente significa, por agora, só tu é que sabes!
♦♦♦
Artur Manso, nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.
Parece que só ouço ecos e vozes imberbes. No grande átrio os serventes espalham neurose. É preciso nervos de aço. Uns tiros para o ar seriam ouro. Dói-me o corpo. Sinto frio e arrepios. O peito rasga-se quando vem tosse. Arrasto-me junto às paredes intoxicado em fármacos. Gemem articulações e narinas. Parece que fui espancado. Era bom ouvir a chuva contigo. E oferecer-te flores, delírios, prosas e gerúndios.
A diretora já teve outras vidas, penso. Continua a aceitar o meu jogo. Deixa-me dormir nos intervalos e pegar em livros sem avisar. Acomoda as minhas falhas. Emociona-se com as minhas fugas. Permite que me abram compartimentos pouco usados. Aí saboreio linhas de tempo, uma fuga sonora. Lavo a gordura do interior craniano. Limpo cicatrizes e invento monólogos implacáveis contra este real podre. Mantenho-me à margem das imposturas diárias. Sou um ser inviável, dirão alguns com a sua pragmática. Ou intratável, considerarão outros. Em sua intocável gravidade, não verão melhorias, digo eu. Estou vivo e já não tenho muitos anos para enlouquecer. É um pensamento que me preocupa. Estaria interessado em abordar o assunto. Saibam senhores que caminho cada dia para ser mais livre e encontrar companheiros da mesma laia. Dos que não fazem vénia às montras, onde tirania e santidade são vendidos como salvação. Negócios de carne humana e sangue da terra. Como diria o do 24 uma história de terror fino corre nas veias grossas do poder. A eternidade é um programa de injetar cegueira nos humanos. Vou a outro lado. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS IV – por Lúcio Valium”
El desencanto de un poema que se convirtió en prosa
Por un pasado lleno de sufrimiento,
hoy somos maestros de las emociones,
hábiles para navegar
en las corrientes internas,
evadiendo palabras veladas y susurros constantes
desde libretos que ahora nos guían. Continuar a ler “EL DESENCANTO DE UN POEMA (….) – por Alvaro Acevedo”
Reseña crítica a From The Eclipse y Can Ecover de Mitchell Pluto
El hablante lírico de los libros From the eclipse (2024) y Cadaver Dogs (2024) de Mitchell Pluto se caracteriza por su mirada contemporánea y atragantada, frente a un mundo virtual que sucede alternativamente y en varios puntos a la vez, o sea multifocal. De tal modo, este hablante está inmerso en un medio virtual y asfixiante, caracterizado por la simultaneidad y evanescencia de todos y cada uno de los contenidos multimediales en los que convive.
“Mais amigo é aquele que me critica porque me corrige, do que aquele que me adula para me corromper”
Santo Agostinho
Ao longo da vida, muitas vezes encontramos o que queremos sem procurar. Em regra, essa epifania acontece depois de muito procurarmos sem encontrar. Eu já estava desistindo, quando, por acaso, numa loja do Shopping Cedofeita, avistei o disco pousado na vitrine. Entrei, pedi autorização para apreciá-lo. Solícita, a balconista indagou: quer ouvi-lo? Não, obrigado. E anunciei. Vai virar um disco voador…em direção ao Brasil. É uma encomenda.Continuar a ler “I WILL SURVIVE AO GNR – por Danyel Guerra”
Não fazia a mínima ideia de que existia um dia mundial da internet. É o dia 17 de Maio. Se sabia, esquecera-o completamente. E ainda bem! Há coisas que não precisamos de reter na memória, e nem sequer nos devemos esforçar para isso. Nem para esquecer, nem para lembrar. Continuar a ler “A Web – por Fernando Martinho Guimarães”
Muito se fala (contra e a favor) da chamada “meritocracia”, mas não é incomum que toda uma discussão sobre esse tema tenha início com definições de “mérito” bastante primárias, o que, a meu ver, acaba prejudicando o debate. Se desejamos avaliar a pertinência (ou impertinência) de uma determinada maneira de organizar a sociedade, faz-se necessário, em primeiro lugar, investigar o conceito que está na base dessa discussão. O propósito deste artigo pode muito bem ser descrito como cirúrgico, pois não pretendo, aqui, examinar a noção de “meritocracia” e nem mesmo definir a noção de mérito, mas apenas explicitar um paradoxo que parece ser inerente a essa noção. Continuar a ler “O PARADOXO DO MÉRITO – por Francisco Traverso Fuchs”
A construção e a destruição de muros é um hobby a que os homens se entregam amiúde. Mas eu lembro-me de uma afirmação do Churchill que vou citar de cabeça, “Nunca derrubes um muro sem antes saberes porque foi construído”.Continuar a ler “PHOTOMATON – por Idalina Correia da Silva”
Uma noite, a solidão chegou contando
que saudade era banal como tristeza
e que a mesa do silêncio estava posta,
e que tudo era não mais que onde e quando.
Foi sentando, e eu fazendo que não via.
Ela, frase que emendava em outra, quase
desenhou na minha pele o seu retrato
que assinei, mesmo dizendo: eu não devia…
Na estante do meu tempo, vi as teias
que ela fez – bem devagar – sem que eu notasse
quase aranha imóvel quieta, na espera,
e eu um livro sem achar quem abra e leia.
Devagar ela vestiu um verso triste
e dançando em minha cama tão vazia
fez que vida, coisa boa e tão alheia,
se agrandasse e viesse a mim, com dedo em riste.
E me vendo assim, menor, ela certeira
me avisou com um sorriso: – Eu já sou tua.
Se pôs nua e voejante pelo quarto
e nós dois fomos um só a noite inteira.
Desejei que ela se fosse, e bem distante
De manhã, no corredor, deixou as malas.
Na partida me encarou tão docemente:
– Voltarei à noite, amor. Talvez bem antes…
♦♦♦
Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.
You must be logged in to post a comment.