CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso

Em frente a Jesus crucificado
nu, só e abandonado
de rosto triste e semblante plasmado
abandono o rancor, sinto-me confortado
olho-o no rosto e seu olhar curvado
afaga-me a tormenta
ampara-me o pecado.
Com outros prometo
em remorso disfarçado
aliviar-lhe o desgosto
da carne rasgada
que embebe as suas chagas.
Volvida a meditação
com a consciência aliviada
pelo perdão que não mereço
dos pecados sucessivos
dou-vos graças e outra vez peço
que me aceiteis como vosso amigo.

♣♣♣

Talvez fosse maio
e junho já estivesse a espreitar.
A chuva não caía
e o vento não queria incomodar.
As jovens moças
passeavam para que as admirassem.
Os sentidos de uns e de outros
cruzavam-se e encantavam-se
demorando-se aqui e ali.
A curiosidade das crianças,
o vigor da juventude
e a astúcia dos mais velhos
iam-se diluindo
nos instantes passados
que o tempo arrebatava. Continuar a ler “CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso”

ANARCISTA – por Francisco Fuchs

Sou um Rei sem reino, disse-me o velho
sem afastar o frio olhar do espelho:
achava-se um diamante bruto,
ainda que deveras fosse um puto.

Havia que tornar-se marionete
para melhor servir ao baronete
sempre a explorar qualquer fantoche
capaz de suportar o seu deboche.

Ao flagrar o malévolo narciso
senti-me incapaz de conter o riso:
escarneci, e sei que errei;

melhor será abandonar de vez
essa tão grandiosa pequenez
e continuar a ser um reino sem rei.

♦♦♦

Francisco Traverso Fuchs gosta de olhar para fora e adora olhar para dentro, mas evita perder tempo com espelhos. Fundou o anarcismo, doutrina que ensina a permanecer tão longe quanto possível das superfícies espelhadas e de seus adoradores.

POEMAS DE JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO

 

BOLINHOS FEITOS DE ONTEM E FEIJÃO

Miné na cozinha
faz bolinhos de feijão
enquanto minha mãe
conversa ao telefone
sobre a última moda do verão
A manhã vai passando
pelo céu das nuvens paradas
fatiada em diminutos segundos
pela fina lâmina dos ponteiros do relógio
feito a navalha gasta
no barbear matinal do meu pai

Lá fora a vida me espreita
no aguardo das perdas que um dia virão
e eu continuo absorto e distraído
assistindo o desenho animado
que está passando na televisão

Ainda não conheço a língua das ruas
o entrelaçar ardiloso das Moiras
o cheiro dos cravos e dos crisântemos
nem os caminhos que me levarão
para fora desta bolha azul de sabão

O princípio de mim vai se construindo
por debaixo da ingenuidade da carne
no pântano caudaloso da memória
e quando lá me olhar para trás
vou me ver sentado
assistindo desenho animado na televisão
quando Miné está na cozinha
fazendo saudosos bolinhos de feijão
e minha mãe conversando ao telefone
sobre a última moda daquele remoto esquecido verão Continuar a ler “POEMAS DE JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO”

PALAVRAS AZUIS ACORDAM A MADRUGADA** – por Ponti Pontedura

1

Escreve tuas palavras de horror.
Mas não grites.

Não levantes a voz acima do poema.
Escreve em caligrafia fria teu pavor pálido.

Para onde vamos quando enlaçamos as mãos?
Sentei-me ao pé da árvore e me colei ao solo.
A gravidade me consola e lança a maçã no meu colo.
Gravitando em torno da palavra, o poema nos acolhe
em sua órbita mordaz. Continuar a ler “PALAVRAS AZUIS ACORDAM A MADRUGADA** – por Ponti Pontedura”

MOVIMENTOS DE AMOR E AMADO (TRÊS POEMAS) – por Alberto Andrade

MOVIMENTOS DE AMOR E AMADO

I

Se este raio de enxofre nos deixar,
Restara-nos ainda, Joaninha,
Ouvir no orvalho as ondas deste altar.

Se estrelas, pólen, vacas e até a minha
Voz, espreitarem o ermo deste espelho,
O susto nos será. E então, asinha,

O Sol inundará de antigo anseio
O pulso escrupuloso que nos rege
E petrifica. Então, como coelhos

Bêbados, beijaremos novas vestes. Continuar a ler “MOVIMENTOS DE AMOR E AMADO (TRÊS POEMAS) – por Alberto Andrade”

POEMAS DE ATÁVICA – por Claudia Vila Molina

 Suburbios
Guardan sus baúles
porque la luz los enciende a medianoche
y no es necesario sonreír con esa negrura
más una sombra desconectará los lamentos
y sus ecos volverán a posarse
sobre techos de casas en fermentación
los sueños se grabarán para siempre en párpados
almas viejas serán reanudadas en viejos continentes
y un olor marino continuará rondando sobre las ciudades. Continuar a ler “POEMAS DE ATÁVICA – por Claudia Vila Molina”

POESIA DE DINIZ GONÇALVES JUNIOR

 

 

 

 

 

un vestido y un amor

de calcinha e camisa do river
você se insinua ouvindo fito paez

atrapalho-me ao desligar a tv cor-de-laranja:
monges lutando com bambus,
facas ginsu, nevasca no hotel overlook

um pôster de felicity jones, o tapete persa
do seu triângulo sem bermudas, miados
da gata vira-lata, musgo na banheira rosa,
um anúncio do conhaque fernet:
e a madrugada é um olho de vidro coberto
pelo vapor dos bueiros
Continuar a ler “POESIA DE DINIZ GONÇALVES JUNIOR”

CARTOGRAFÍA DE CAGIANO (bilingue) por José Pérez

CARTOGRAFÍA DE CAGIANO

José Pérez / Venezuela

Ronaldo
hoy amaneciste niño
quemando la lluvia

Mirando el río prestado
a tus lágrimas

Tu piel semeja un reptil
de verde y espuma
tendida el alma sobre las rojas hojas
de Cataguases

Las gotas de aguas se han vuelto cenizas
las rocas dormidas estrellan tu nombre
jugando al rebelde por la muerte de otros ríos
por el llanto de otros hombres
calcinados al fuego

Desobediente
cuchillo en mano
rebanas las tardes sin adornos

Donde cortaron tu ombligo
lloran tijeras de seda
hay espadas de rosas y musgo
y pasan otros poetas con sus abismos al hombro

De equipaje llevas colmillos
de cocodrilos hambrientos
para fundar otras patrias
con Anderson Braga y Adelia Prado
nuevas sílabas ventiscas y truenos
cantos y malabares de enormes estatuas

Los pájaros que te amaron no paran de volar
te escriben y traducen tus ojos como cometas
hablan de tu inocencia Continuar a ler “CARTOGRAFÍA DE CAGIANO (bilingue) por José Pérez”

O AMOR É E SEMPRE SERÁ SEM DÓ – por Maria Toscano

© Laura Makabrescu

O Amor é e sempre será sem dó

dedicam-nos uma música da moda
nos sítios de ‘influencers’ deste ‘now’
nós somos velhas almas de antanho
atravessámos todas as dunas e areias
sobrevivemos a todos os oásis falsos
para habitarmos, hoje, no sonho e na palavra
que o Amor é e será sempre. sem dó. Continuar a ler “O AMOR É E SEMPRE SERÁ SEM DÓ – por Maria Toscano”

TRÊS POEMAS DE Moisés Cárdenas

No sé si sea el loco que vive

desnudo con su mundo interno por las calles
No sé si sea el infame que se ríe
de sus picardías viajeras
No sé si sea el poeta desahuciado
volando con incienso
No sé si sea el enamorado dibujando
corazones en servilletas
No sé si sea el manifestante gritando
¡No a la guerra, viva el amor!
No sé si sea el principito en su asteroide
No sé si sea el recién graduado buscando poder
comprar acuarelas y vestir blancas mariposas
No sé si sea el hijo del sol entre límites y territorios conocidos
No sé si sea el militante convenciéndote
de que te unas al partido.
Lo que sí puedo decir es que soy el personaje
que te escribe diez de cada palabra absurda
Irrealizable
Ideas
Irresponsables
poemas

 En un éxtasis

escribo estos versos
para declararme lunático
por tus ojos de luna en menguante;
por tus ojos exóticos como la hermosa Pekín;
por tus manos de lirios sonámbulos.
Me declaro subversivo
por dejar el único atentado terrorista
en el costado de tus gemidos.
Me declaro mendigo
porque cada vez que te miro
extiendo mis manos para pedirte un beso.
Me declaro antiimperialista
porque busco la forma de derrumbar
el imperio que nos separa.
Construyendo el amor sin capitalismo,
sólo con teorías amatorias.
En la fragancia
de tu cintura,
de tu perfume,
de tu belleza,
de tus sinfonías.
Ni Marx
ni Lenin
escribieron en el manifiesto.
Me declaro poeta
porque el poeta penetra en los tuétanos,
en las quimeras de los astros
con estúpidas melancolías,
estúpidas utopías.
Yo otro más
te escribo estúpidas palabras de amor.
Querida mujer.
Querida hada.
Por último,
mi declaración es esta:
ya no te quiero,
no te asombres en las tinieblas,
es cierto, no te quiero.
Mi declaración es esta:
te amo.

Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE Moisés Cárdenas”

POEMAS DO LIVRO “O ENIGMA DAS ONDAS” de Rodrigo Garcia Lopes

© José Boldt

Janelas para o mundo
 
                                                             The word is a window onto reality.                                                                                                                                                                   Zbigniew Herbert

O mundo passa
pela janela da palavra
para tocar a realidade

mas a realidade
de repente se fecha
na imagem de uma concha:

uma concha
é um mundo onde
coube uma palavra.

Isto nos basta:
fechamos as palavras das janelas
e abrimos as janelas das palavras. Continuar a ler “POEMAS DO LIVRO “O ENIGMA DAS ONDAS” de Rodrigo Garcia Lopes”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS IV – por Lúcio Valium

Fotografia: © Carlos Silva,

BECOS

Parece que só ouço ecos e vozes imberbes. No grande átrio os serventes espalham neurose. É preciso nervos de aço. Uns tiros para o ar seriam ouro. Dói-me o corpo. Sinto frio e arrepios. O peito rasga-se quando vem tosse. Arrasto-me junto às paredes intoxicado em fármacos. Gemem articulações e narinas. Parece que fui espancado. Era bom ouvir a chuva contigo. E oferecer-te flores, delírios, prosas e gerúndios.

A diretora já teve outras vidas, penso. Continua a aceitar o meu jogo. Deixa-me dormir nos intervalos e pegar em livros sem avisar. Acomoda as minhas falhas. Emociona-se com as minhas fugas. Permite que me abram compartimentos pouco usados. Aí saboreio linhas de tempo, uma fuga sonora. Lavo a gordura do interior craniano. Limpo cicatrizes e invento monólogos implacáveis contra este real podre. Mantenho-me à margem das imposturas diárias. Sou um ser inviável, dirão alguns com a sua pragmática. Ou intratável, considerarão outros. Em sua intocável gravidade, não verão melhorias, digo eu. Estou vivo e já não tenho muitos anos para enlouquecer. É um pensamento que me preocupa. Estaria interessado em abordar o assunto. Saibam senhores que caminho cada dia para ser mais livre e encontrar companheiros da mesma laia. Dos que não fazem vénia às montras, onde tirania e santidade  são vendidos como salvação. Negócios de carne humana e sangue da terra. Como diria o do 24 uma história de terror fino corre nas veias grossas do poder. A eternidade é um programa de injetar cegueira nos humanos. Vou a outro lado. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS IV – por Lúcio Valium”

VIÚVA NEGRA – Jaime Vaz Brasil

 

Uma noite, a solidão chegou contando
que saudade era banal como tristeza
e que a mesa do silêncio estava posta,
e que tudo era não mais que onde e quando.

Foi sentando, e eu fazendo que não via.
Ela, frase que emendava em outra, quase
desenhou na minha pele o seu retrato
que assinei, mesmo dizendo: eu não devia…

Na estante do meu tempo, vi as teias
que ela fez – bem devagar – sem que eu notasse
quase aranha imóvel quieta, na espera,
e eu um livro sem achar quem abra e leia.

Devagar ela vestiu um verso triste
e dançando em minha cama tão vazia
fez que vida, coisa boa e tão alheia,
se agrandasse e viesse a mim, com dedo em riste.

E me vendo assim, menor, ela certeira
me avisou com um sorriso: – Eu já sou tua.
Se pôs nua e voejante pelo quarto
e nós dois fomos um só a noite inteira.

Desejei que ela se fosse, e bem distante
De manhã, no corredor, deixou as malas.
Na partida me encarou tão docemente:
– Voltarei à noite, amor. Talvez bem antes…

♦♦♦

Jaime Vaz Brasil – Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

POEMAS DEL LIBRO EN EL ESTUDIO – por MANUEL PARRA AGUILAR

Sur un ciel sombre se détachait un cône noir à dentelures. Nous tournions Morea pour découvrir Tahiti.

Paul Gauguin

 I

¿Qué decir de la víspera del color,
esa duda,
forma casi,
(ya en silencio su trascendencia),
línea que no termina por empezar?
¿Qué decir de la sensación de extravío,
la que da la mano a la otra línea en el color,
la que es idea solo,
la que es pensamiento solo? Continuar a ler “POEMAS DEL LIBRO EN EL ESTUDIO – por MANUEL PARRA AGUILAR”

POEMAS DE OLINDA GIL

 Catarina Eufémia

Eufémia.
Fala bem. Diz demais. Às vezes não se pode falar.
Eufémia, reza, preza, por um melhor dia.
Oração é uma palavra, há deuses que não ouvem.
Não há palavras mansas, eufemismos, que nos salvem.
Reza em silêncio, Eufémia. Por um dia melhor.
Não digas muito, não vale a pena.
Deus se ouvir nem precisa que fales.
Mas Deus ensurdeceu.
Eu, fêmea. Sabes quem és. Sabes o que queres.
És mulher.
Mulher é criadora.
És cuidadora, és carregadora das dores, todas as dores.
Ninguém sabe quem és.
Tornaste-te apenas nas tuas palavras.
Depois destas foi só o teu olhar,
a ver o gesto que te matou.
Foste traída pelo teu próprio nome.
Depois vieram os eufemismos:
digam o que disserem, o que quiserem.
Endeusem-te, iconizem-te, coloquem-te em t-shirts,
bonés, camisolas.
Em livros e poemas.
Em todos os sítios que quiserem.
Estás morta, não sabes.
Deixaste de ser dona, até da tua própria morte.
O mundo vê a tua face.
Mas tu não viste os teus filhos crescerem. Continuar a ler “POEMAS DE OLINDA GIL”

POEMAS EXTRAÍDOS DO LIVRO “AMOR E OUTROS DESENCONTROS”- por Olívia Clara Pena

AMIGOS

há amigos que são barco que são asa e viagem
há amigos que são néctar seiva bruta acetinada
há amigos que são casa que são colo e mansidão
há amigos que são brisa são calor de vento leste esvoaçam-nos a alma
aquecem-nos as entranhas
há amigos que são semente trazida de oriente
sêmola rija perfume
vertigem de especiaria amor
doçura e pão
há amigos que são pétalas de chuva labirintos de ternura
florescem-nos viçosos em cada redondo poro
e há aqueles que são cura
de dias de desventura
e aqueles que são trilhos vibrantes desconhecidos
e há aqueles que são trova que são bailado e são canção
e há os amigos que ficam
que resistem e persistem
que nos arejam por dentro como se fossem feitos apenas de ar puro.

In “Amor e outros desencontros” Continuar a ler “POEMAS EXTRAÍDOS DO LIVRO “AMOR E OUTROS DESENCONTROS”- por Olívia Clara Pena”