Nos últimos dias de Novembro de 2018, o mundo recebeu uma notícia que não estava preparado para ouvir. Um cientista chinês anunciou o nascimento de duas irmãs gémeas editadas geneticamente. Através da manipulação genética teria desactivado um gene e assim tornar as crianças imunes à infecção pelo vírus da Sida. Os embriões eram saudáveis, diga-se desde já, o que faz com que a intervenção não seja terapêutica, isto é, para curar uma doença hereditária, mas sim uma tentativa de melhoria genética da espécie humana. Passaríamos a ter, pela primeira vez na história, dois tipos de pessoas, as naturais e as editadas, as melhoradas geneticamente.
As reacções, sociais e na comunidade científica, não se fizeram esperar – tinha-se passado uma linha vermelha e a caixa de Pandora abrira-se para a eugenia, isto é, para os bem-nascidos, com todas as vantagens que a edição genética pode fornecer e os outros, a esmagadora maioria dos outros, os naturais, os que não teriam acesso a essa melhoria que a bio-tecnologia promete dar. O governo chinês reagiu imediatamente e mandou suspender todas as investigações. O cientista, como parece já habitual em algumas sociedades, desapareceu.
Os problemas que este caso levanta são essencialmente de natureza ética. Por um lado, os embriões eram saudáveis, sem doenças conhecidas. Se era para prevenir o Sida existem métodos eficazes que não implicam a edição genética – o sexo protegido é um deles e, para além disso, existem, hoje, tratamentos eficazes. As meninas nascidas seriam assim cobaias genéticas, cobaias humanas. Por outro lado, este caso suscita mais uma vez a reflexão sobre os limites da acção da engenharia médica, da bio-engenharia. É que nem tudo o que é possível fazer é desejável ou aceitável. Nem todos os desejos são legítimos.
A questão da definição dos limites, dos interditos é, em grande medida, o que define a comunidade humana e sobre isso temos bons exemplos a seguir – a clonagem reprodutiva é um limite antropológico universal e sobre isso há consenso que não tem sido quebrado.
Para terminar, deixem-me contar uma pequena história. Boris Vian foi um dos maiores escritores do século passado. Entre a sua obra contam-se alguns policiais escritos sob o pseudónimo de Vernon Sullivan. Num dos policiais, Morte aos Feios, publicado em 1948, aparece em cena um cientista que rapta as pessoas mais belas do planeta, coloca-as numa ilha e produz clones de modo a que toda a Terra seja habitada por seres lindos. O cientista quer erradicar os feios do mundo e os seres que produz não têm defeitos de fabrico. Um certo dia chega um barco à ilha e os marinheiros são marinheiros como devem ser – feios, barrigudos e com todos os defeitos que podemos imaginar.
O resultado adivinha-se. Elas, as mulheres produzidas geneticamente, belas e perfeitas, abandonam os belos e perfeitos companheiros e escolhem os marinheiros.
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Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófica e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.
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