JOANA MALUCA – por Jonuel Gonçalves

foto de Luís Guerra e Paz

Quando o debate estava nos últimos minutos uma senhora daquela idade sempre comparada às protagonistas do Balzac, embora use roupas street como se fosse saltar muros, pediu a palavra, falou  de voz amedrontada e agradeceu terem lhe deixado entrar no debate mesmo sem ser académica, mas desde que terminou o curso concorreu a diversos empregos e só consegue trabalhos muito abaixo da formação obtida e sente cada vez mais que é por ser negra,  devagar devagar isso oscilou entre pequenos monstros lhe crescendo na cabeça até se juntarem num monstro enorme  e desde o ano passado  começou a ter desmaios foi levada às urgências, a princípio diziam ser do calor depois do cansaço até uma médica passar o diagnóstico de ansiedade perigosa causada por sensação de ameaça constante.

Já passou por algumas curas que nada curaram, pelo contrário saiu de lá ainda pior tanto nas afros quanto nos hospitais cobertos pela segurança social, daí ela descontar-se sempre muito antes de falar porque pode ser a porra da ansiedade a turvar o entendimento e falar desengonçado.

Mas como o anúncio do debate tinha título a letras muito grossas contra as discriminações no mercado de trabalho e enquanto esteve sentada calada lá atrás ouviu algumas histórias parecidas, resolveu contar a dela e nem precisou acabar para deixar bem entendido que a cor dela tem sido usada contra ela, num dos casos com ofensa pois pediu explicações e disseram-lhe para calar aquela boca de Joana Maluca.

No fim de debate como sempre os académicos estavam com pressa de ir embora e sem grande atenção ao que ouviam, uns após outros concluíram não haver dúvida alguma sobre a hipótese de discriminação ser a principal, isso acaba enlouquecendo e saíram satisfeitos com o debate, exceto uma professora que se aproximou dela e convidou-lhe para uma reunião. “Isso é problema político e o meu partido é um partido grande defensor do povo”, disse a professora e ela riu sempre com olhos de “não sei se falei bem”  mas já foi a mais de uma dúzia de reuniões de partidos e nem se tocou no assunto apenas lhe mobilizaram para colar cartazes e estender faixas “quanto mais trabalho deste fizer mais você melhora e se nós ganharmos será recompensada e bem recompensada”.

Colou cartazes e estendeu faixas com palavras de ordem duns contra os outros, ouviu alguns e algumas de quase todos  chamarem-lhe para a cama em seguida à militância da colagem e esticagem e  isso só lhe dava era mais vontade de sumir, até se cansar de partidos como se cansou de curas afro ou ocidentais e nem tentou orientais. Passou a deixar rolar.

Foi o que disse a dois participantes do debate enquanto caminhavam e ter um deles fixado a referência ao nome de Joana Maluca e perguntou se ela sabia quem falou isso. Ela só disse que por enquanto gostava dos dois porque ouviram não disseram quase nada nem fizeram convites e viu, ela disse, ansiedade nos olhos e na respiração de um deles. O outro disse “você tem razão o Calhambeque é muito ansioso, no começo achei que era gente apressada mas depois vi que era gente a quem tinham feito emboscadas na vida e agora fica assim sempre ansiosamente no aguardo de mais outra”.

“O seu nome é Calhambeque mesmo?”

“Não. Não sei se me chamam assim por causa do meu carro velho ou se é porque eu mesmo estou à beira da velhice”

O outro riu e perguntou “à beira da velhice ou dentro dela?”. Ninguém respondeu então acrescentou “gosto de gente otimista a ponto de recusar o tempo” e ninguém achou graça nisso de pisar na idade mais ou menos avançada e o rosto dela passou do amedrontado ao fulminante “pôr alcunhas assim é pra ver se rebaixa o brilho dele porque quem brilha ameaça os da escuridão cavernosa” e o outro lhe olhou sem entender mas ouviram todos quando ela disse “ gente assim só para com umas  navalhadas sem parar no focinho”, então o outro achou melhor ir embora e disse após três passos “essa mulher é bipolar”.

Ela já tinha desligado em relação ao que esse dizia e perguntou qual era o verdadeiro nome do Calhambeque. “Apenas José Falcão”. “Eu sou Julia Ana, pelo som e por ser nome marcado pelo negativo – – Casa da mãe Joana, Joana Maluca, Joanates –  aquele bando racista chamou-me Joana. No entanto não me chateia nada que as amigas me chamem JLa é quase cópia de JLo…não canta mal embora não me agradem as letras” e de novo com rosto meio no susto chamou Apenas José Falcão a passar uns minutos quando tiver tempo naquele canto de escadaria abrigado pela sombra de quatro palmeiras reais onde ela se juntava com as amigas e uns amigos, grupo criado e animado por conversas sobre o dia a dia  difícil de abrir caminho pois no mundo a discriminação é regra geral, depende do lado discriminado onde se está, há lado vantagem e lado “o seu lugar é lá no fundo”. Viver no meio é um bico de obra.

Então dois dias depois todo o grupo viu fotos de grafitagens tiradas pelo Apenas José Falcão, grande grafiteiro e panfleteiro em tempos idos sem internet, parte dos quais sob regime de muitas palavras proibidas tornando obrigatório grafitar e panfletar essas palavras às escondidas. “Eramos quatro, muito depois disso dois mais velhos já morreram e iamos praquilo com pistolas roubadas no bolso, podes crer, decididos a disparar se nos quisessem agarrar” e Carla, leitora de artigos no podcast do grupo, disse que nalguns países há gente empenhada na restauração desses regimes de palavras proibidas e quando viram estava noite naquela escadaria agora batida por uma boa brisa e o grupo passou a contar com um meio de transporte – o calhambeque.

Semanas depois não foi só Apenas José Falcão que recebeu um email da JLa com endereços ocultos mas fez-lhe lembrar novamente Joana Maluca muito conhecida dele desde começo da adolescência pouco antes dele entrar na vida da panfletagem e da grafitagem, então dita pichagem ou pichamento. Email  de erótico a  transitar para pornô com proposta explicita como fazia a  Joana Maluca ao vivo quando estava mais acelerada de motor descontrolado, não lhe chamavam ansiedade, salvo erro era desadaptação ou perda da linha e até lhe deram eletrochoques mas ela conseguiu fugir das três vezes e passou a viver na rua ou em casas onde deixavam ficar no quintal  e cruzaram-se com ela algumas vezes já quando pelas noites iam deixar marcas nas paredes ou em baixo de algumas portas.

Numa dessas vezes a antiga Joana Maluca disse-lhes “meninos sei o que vocês vão fazer e penso que vocês são muito malucos e tomem cuidado, se lhes apanham lhes matam, mas se precisarem esconderijo venham ter comigo conheço um bom”.

Falcão reconheceu o texto do email copiado de um site de contos onde já tinha passado e deixou assim porque não responde a emails daqueles visivelmente com destino coletivo. A Joana dos tempos idos quando fazia propostas iguais levantava a roupa e perguntava “quem começa?”, ninguém começava porque sabiam quando ela chegava a esse gabarito estava com o sofrimento em alta por alguma causa nunca descoberta.

Dia segujnte recebeu telefonema do Nino amizade da escadaria com pedido urgente para avisar o pessoal do debate académico pois muito provavelmente receberam o email com convite a foda cheia de truques porque JLa entrou naquele surto que lhe atingia uma ou duas vezes por ano e solta mensagens de paz religiosa ou erupções de sexo, segundo ela são complementares fazem parte da mesma origem da vida mas muita gente acha isso uma indecência e até pecado.

 “A maior parte dos email vai para brancos ou brancas, a maioria quando souber que ela é preta vai se lambuzar de racismo… eu já lhe disse porrilhões de vezes para selecionar a quem manda qualquer mensagem principalmente se forem esses torpedos ou granadas de sexo… por mim só tenho dois amigos brancos que conheço e confio, no mais evito pra não servir de desculpa quando lhes cai a máscara racista e negam dizendo que até têm um amigo negro… mas ela não quer saber…”

Apenas José Falcão fez duas ligações e viu que nem valia a pena fazer mais.

Primeiro: alguns destinatários e destinatárias acreditaram no conteúdo e marcaram encontro com ela e ela combinou a mesma hora e local para todo o conjunto e não apareceu, quem apareceu ficou lá com cara de vergonha, depois na raiva tiraram onda de muita moral em posts contra ela, a maioria no ódio daquela mulher desconhecida com coragem para escrever coisas que eles e elas pensavam todos os dias. Engano radical pois não era coragem eram gritos de medo quando se perde o leme num temporal de ondas tipo aquela estupidez do monstro Adamastor mas a pessoa vê monstros sim senhor e procura meios de defesa sem achar nada. Á noite ainda é pior é terror de abandono e aí diz-se qualquer merda para ver se sai alguma resposta que afaste o monstro ou então espalha-se merda numa de salpicar como se fossem estilhaços contra o monstro.

Segundo: alguém sem mais nada pra fazer apresentou queixa à polícia alegando proposta indecente e a polícia também com pouco pra fazer além de incomodar o maior número possível de pessoas lhe convocou e depois encaminhou a tribunal sob acusação de conduta indecorosa e perturbação de pessoas do Bem.

Foi chamada uma vez a tribunal mas depois veio a pandemia e está tudo suspenso, tome lá mais ansiedade, o risco é uma grande multa ou se não tiver dinheiro uns dois ou três meses de prisão.

Um ano de pandemia tirou o grupo da escadaria mas aumentou-lhe o alcance através de vídeos e podcasts muito variados e apresentados em 3 ou 4 sotaques a fim de demonstrar muita distância dos guardiões das pronuncias e redizer como uma língua fica linda falada através de acentos entoações e emoções variadas. Entretanto o mundo foi-se temendo cada vez mais a si próprio e um dia sem mais nem pra quê a Carla propôs saírem dos confinamentos para uma praia talvez hoje deserta a uns 70 quilómetros e foram cinco no calhambeque sempre firme mesmo quando tossia ou peidava. O resto do grupo disse “não obrigado” e JLa nem respondeu.

A praia estava deserta mesmo até daria para fazer nú integral mas não com a pandemia não era prudente, assim ficaram sem roupa nenhuma mas com as máscaras. Apenas José Falcão imaginou que a Joana Maluca daqueles tempos sem internet nunca mergulharia de máscara nem sequer esperava chegar à beira da água para libertar a cara. Como vibrava fazer o contrário do normal nos outros, podia até deitar o corpo diretamente na areia pondo a tolha por cima dela, mas no mar com máscara nem pensar.

Nas pandemias o valor de praia deserta é maior que diamantes, mesmo nas epidemias arrasadoras é assim. O contrário daquilo chamado novo normal em qualquer dos casos. A praia era estreita e nesta época do ano quem desmaia rápido é o sol, começou a brisa e voltaram no calhambeque com muito horizonte nos olhos sem precisarem falar. Depois daquelas horas à solta numa situação destas só se pode pensar numa coisa, é como o prisioneiro a quem dão um dia ou dois para ir a casa ou o prisioneiro vigiado a quem mandam limpar os muros do lado de fora da prisão. Às tantas Nino disse “é incrível como o mundo continua parado sem defesa, não conhecem nenhum canto seja onde for pra ficar por lá como estávamos há pouco, nem que seja pra dormir no chão?”

Se alguém sabia não disse. Apenas José Falcão voltou a pensar no chão de terra batida lá longe onde conheceu a Joana Maluca dos tempos idos mas nem lá se pode ir agora, então melhor não pensar. Nisso.

Um mês depois a pandemia chegou mais na casa da JLa, pela segunda vez suspendiam até o teletrabalho, a empresa estava nas ruas da amargura financeira e quando diziam isso era sabido quem caía primeiro, sabido mesmo antes da Calamidade (Calamidade Viral não Calamity Jane) por ela cuja vida balançou sempre entre ser empurrada para cair e os tempos de levantar sozinha. Ligou para várias amizades do canto de escadaria sombreado por quatro palmeiras reais mas nem assim conseguiu travar o surto que nunca lhe batia sem avisar. Ainda foi olhar no you tube um vídeo com conselhos para abater a solidão do confinamento ou  desconfianças de gente com respiração muito perto, por exemplo, em vez de sexo a dois ou em grupo contentar-se com “prazer solitário” e a apresentadora explicava até a melhor posição das mãos para homem e mulher.

Preparou então outra sexigranada, desta vez sem copiar de conto nenhum mas sob influência do vídeo do you tube, por isso as palavras mais usadas evoluíam de masturbação a punheta, siririca e referência ao estado do meio das pernas dela. Mandou e aliviada foi dormir, amanhã logo se vê.

Parece que desta vez os destinatários ficaram divididos entre quem apagou o email “não tenho paciência para esta” e quem encaminhou a outros e outras “olha as merdas que me mandam”.

Apenas José Falcão resolveu propor à JLa usar a energia destes surtos e ler essas sexigranadas nos podcasts regulares. “Proposta Indecente” é nome de filme antigo que envolve dinheiro, esta mulher nunca envolveu isso é só tesão pura para aliviar pressão brutal da qual não se vê o fim, isto é como na guerra prolongada ganha quem derrubar o outro no cansaço total do tempo longo a não ser que apareça arma de superioridade definitiva capaz de exterminar o inimigo ou pelo menos causar-lhe baixas massivas sem piedade.

Quem tem andado no mundo como espalha brasas e assim vai continuar haja o que houver, se leu ou ouviu falar do Wilhelm Reich vê essas mensagens dela na mesma linha e há quase um século ao Reich também chamaram maluco indecente porque meteu a palavra orgasmo logo no título dum livro e acabou preso, acabou mesmo. Acusações destas e ameaças têm muitos séculos de vigência, no mínimo desde obrigarem Galileu a pedir perdão a Deus por ter tido a péssima ideia em pleno século XVI de que a Terra gira em volta do Sol e Deus deve ter ficado perplexo, de certeza não contava com tanta humilhação devido a afirmações básicas. Os espalha brasas já não ficam perplexos com mais nada nem se agarram às decências que dificultaram sempre a respiração, insistem em afirmações básicas e as letras de gente tipo JLa talvez ajudem. Nisso.

♦♦♦

Jonuel  ( de José Manuel ) Gonçalves economista angolano, atualmente no Brasil concluindo pesquisa pós doutoral sobre  ascensão e crise de economias emergentes dos dois lados do Atlântico Sul. Vários livros publicados com edições em Angola, Brasil e Portugal, ficção e não ficção. Em Portugal, não ficção: “Franco Atiradores”, “E se Angola tivesse proclamado a independência em 1959?”; romance: “A Ilha de Martim Vaz.
Trabalha na segunda fase do projeto sobre Economias do Atlântico Sul, com base em três institutos de investigação  de Angola, Brasil e Portugal), o seu livro mais recente: “África no mundo livre das imposturas identitárias” , edição Guerra e Paz, 2020.

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