EDITORIAL- por Floriano Martins

Este é o número 6 de Athena e com ele a revista encerra um ano de conquistas em sua agenda editorial, surgida em maio de 2017 com uma edição zero. Desde então trimestralmente vem cumprindo com valioso propósito, de trazer para a mesa virtual de leitura conhecimento e criatividade. Em seu primeiro editorial lemos que Athena quer ser nave, pronta a descobrir textos e autores inéditos, novas reflexões, quer na investigação científica, quer derivados da criação literária. Sua aventura editorial não propriamente se dá em busca de respostas, mas antes na forma de perseguição da dúvida, que conduza a novas questões e faça duvidar das convicções possíveis. Em duas áreas a revista tem avançado, na revelação de autores e na proposição de novas reflexões, em muitos casos reportando ao passado como leito frondoso da existência humana.

Em face disto preparei para a presente edição um dossiê que destaca a presença do Surrealismo em nossa contemporaneidade. Tenho defendido que o centenário do Surrealismo está determinado não pela publicação do primeiro manifesto, em 1924, mas sim por um duplo registro: a edição da revista Littérature (Aragon, Breton, Soupault) e a realização dos primeiros exercícios de escritura automática na criação a quatro mãos de Les champs magnétiques (Breton, Soupault). Outros aspectos igualmente validam essa defesa, tais como a publicação, na referida revista Littérature dos poemas de Lautréamont e as primeiras colagens de Max Ernst. Em face disto, venho preparando uma imensa agenda de publicações, em formatos livro e revista, virtuais e impressos, como parte das comemorações do centenário.

Coube a Athena o palco inaugural desse projeto, na forma de um dossiê onde o recorte retrata alguns daqueles surrealistas que foram, ao mesmo tempo, poetas e artistas plásticos. Temos aqui uma seleção na qual se incluem obras de 20 surrealistas, selecionados em 14 países. Portugal contribui com tríplice presença: Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles e Nicolau Saião. Outros países representados são França, Peru, Grécia, Japão, Ucrânia, Bélgica, Chile, Reino Unido, Argentina, República Checa, Cuba, País de Gales e Brasil. Os nomes todos implicarão em felizes descobertas, ora pela obra poética, ora pela obra plástica. O dossiê constitui uma cartografia inestimável ao conhecimento do Surrealismo, não apenas em seus primeiros momentos, porém indicando a vitalidade de sua presença atual.

A pauta de Athena # 6, que inclui breves textos de Claudio B. Carlos e Marcos Fernando Kirst, apresenta ainda um estudo sobre a Divina Comédia, “Dante Alighieri e seu diálogo com o mundo”, de autoria de Marilene Cahon, e um ensaio de Danyel Guerra, “A liberdade e a raiva do Perro Aragonés”, sobre Luis Buñuel. Marilene Cahon põe em destaque o que ela considera os três planos cruciais da obra de Dante, o alegórico, o moral e o psicológico, trazendo à tona os conflitos de Dante em face da criação de sua obra máxima. Danyel Guerra, por sua vez, em reflexão pautada por um bom sentido de humor, destaca traços biográficos do cineasta espanhol Luis Buñuel e sua conturbada relação com o surrealismo, em especial no que respeita aos dois curtas realizados em parceria com Salvador Dali. Completa a edição a imagem de capa, “The Sun Sets Sail”, de Rob Gonsalves (Canadá, 1959-2017), cuja obra se encontra ligada ao fantástico.

Mapeamos assim a viagem por essa Athena # 6, na expectativa de contar com a renovada leitura de todos, naturalmente acrescida de novos leitores e ansiosos por comentários e colaborações, o que nos enriquece de modo vibrante.

Floriano Martins

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