UMA NUANCE NAS NÓDOAS X – por Lúcio Valium

X

A caminho da tipografia encontrei o do 24. Levava um pequeno rádio sintonizado numa estação estrangeira. Caminhava demasiado devagar. Ao ver-me disse calmamente a palavra pústula. Já pensou nesta palavra perguntou. Eu sou nestes tempos essa palavra. A minha mente é pura depravação e só me ocorre o choque como forma de comunicação. A violência como ato generoso. Fixando o chão com os olhos como que cuspindo fogo disse: tenho saudades suas. Há muito que não falo verdadeiramente com ninguém. Por onde andou. Estaremos mais vezes juntos a partir de agora disse eu. O meu jantar serão três cenouras cruas. E desandou olhando-me sorridente.

X

Quando em belas artes usavas amarelo na madeira eu estava lá. Olhei-te muitas vezes ao enfrentares o plano ou o abismo. Ouvi de perto palavras entre ti e lapa, aguiar e batarda. Seguia os teus passos e inspirava o fumo que largavas. Li os teus pensamentos. A tua voz acompanhava a minha deambulação. Vi-te escrever e beber. Adivinhei as tuas indecisões e desejos íntimos. Percebi os teus agrados e tédios. Já estava longe e as minhas asas ficaram nos cordões para secar roupa. Havia muito para rasgar na pele terrestre. Um dia tinha sabido sem consulta que estava louco. Talvez um estranho por tão próximo, e Camus pudessem enganar-se nas quantidades ao misturar certas bebidas.

X

Depois de Pepe Carvalho ter ido até à montanha arriscando-se a encontrar quem lhe partisse alguns ossos decidi ir em direção ao centro da cidade. O próximo comboio sai dentro de minutos. Penso encontrar Salinger no café Ceuta. Por vezes pára aí para tomar chá. Nunca o vi falar com ninguém exceto com um tal Pedro Pena. Homem elegante com grossos óculos de massa com sorriso fácil e terno ao contrário do escritor que não ri. Pena dedica-se à pintura de nus femininos. Gosta só de poetas muito idosos. Viaja exclusivamente para norte. Salinger isola-se num jardim com peixes. Logo ao nascer do dia. Conheci os dois quando estive internado na ala de nefrologia. Ambos se encontravam ali em camas demasiado próximas. Eles tinham visto a tua exposição na ordem dos pilotos de submarino.

LASCAS

O processo está na tômbola. Vénias e imposições institucionais. Fomentam-se danças e evidenciam-se garras e veneno tecnológico. Sonantes fórmulas para guiar ratinhos. As bases da estabilidade convivencial. Viperinas eminências exercendo a salivante atividade política. Simulacros e encenações com geometria e retórica. Tudo em contraverso ao que vivemos na hospedaria. Nada como os beijos que me deixas logo pela manhã a uma distância indizível dos nossos corpos banhando-se no azul ao fim da tarde. Agora vou buscar vinho branco e pôr música na cozinha. Blues para começar e abraçar-te.

ÂNGULOS

Os olhos moldam a vestimenta da sala. Cordões de barcos abraçam o leito do declive inclemente. Infernizar o ancestral lodo psíquico com pinceladas dementes é higiene de sabonete herbáceo ventoso. Um sal marítimo na pele dos lábios de fruta. Afinal as roupas dão boas vistas a entes diversos. Químicos semânticos agilizam os encantos neuronais e rodopia a escultura carnal cantante. Tudo em doses de gramagem não quimérica. sem exigências de cavalos indomáveis. Um segredo de mão em volta dos maxilares abre a grande portada dos ventrículos. Soltam-se então as pétalas noturnas.

FRÉMITO

Você é um pouco esdrúxulo diz sentando-se o do 24. E acena ao homem do balcão. Se durmo bem ocupo esta mesa pela manhã e nunca o vi por aqui. Sítio tão recôndito não é para os seus hábitos. Algo mudou. Vejo-o com o olhar de um desterrado. Fala devagar olhando para o outro lado da rua andando sem objetivo. Caminhei uma hora e meia até chegar aqui. Sabia que podia encontrá-lo, respondo. O que anda a ler, pergunta. Um argelino e um catalão. Ficamos em silêncio. Muda o semblante e aconselha   parar com as leituras. A sua voz é mais leve e sorri com vontade. Olha-me aparvalhado. Já tinha dito o mesmo a mim próprio. Esfrega a testa e diz então, ouça-se. Fico a pensar na frase. Levanta-se. Eu permaneço quieto. Decido ouvir-me e dar isso a ver. Foi bom vir aqui penso. Há palavras, chuva, e por vezes as do 24 são uma boa chuvada. Ou trovoada. Regressa com dois vermutes. Tinha-o procurado próximo da instituição, mas não apareceu. Diz enquanto me olha e leva o copo à boca que é mais fácil você encontrar-me. Deixei os territórios familiares. Afastei-me como se já não fosse dali. Fui encontrando sossego em zonas mais despidas. A veia niilista não lhe retira a força no olhar. O desprezo é um aliado e a fúria está nas suas palavras suaves e desvairadas. Acabo a bebida como quem termina um livro.

     X

Ouvia o som das folhas e tinha o cabelo salgado. O banco de madeira dos carris deixava o mar entrar nos meus escritos. Eu tinha decidido voltar a esculpir e trazia-te na cabeça. Depois ao fim da tarde era a tua pele que anunciava os peixes. Uma hora a rebolar em tintas azuis e ficou a nossa lua psíquica coberta de mel. Não se encontrava ali quase ninguém por isso entrámos na carroçaria e fomos para o meio das árvores. Há festa no globo segredavam-me as enzimas. Tinham desenhado mais ou menos uma fronteira. Contudo a água gelada saía do interior fleumático da montanha e quando os gatos ainda faziam contorcionismo via-se o chão por baixo do espelho. As costas aqueciam longe da jangada. De repente eu encharcado atirei-me para cima de ti e o rapaz de boné grande comeu o marisco quase todo. Cervejas e borboletas. Era assim que o tempo era nosso enquanto o comboio zumbia.

CACIFO

Tratar um cachimbo revela tarimba. O vento escancara as linhas de pensamento. Fico ali a limpar o nariz com um anis eletrónico sónico. Também pus fitas de cola nas capas. As copas desenham a janela. O bibliotecário ateu tem veia semiótica. Veremos se os dias não o deprimem. Ao lado das 4 salas de máquinas pode-se regressar à música solitária mas há muitas páginas a decifrar e o receituário invade as neuroses. De todo o modo o frio da noite foi amaciado pela tua pele. Adormecer e acordar contigo um tal ópio visual. As delícias orgânicas.

PEÇAS

Paredes altas azulejos vermelhos sangue. Pantalhas imaginárias vozes noctívagas. Uma seta voa sobre ramos de banalidades. Neste bloco vão desaparecendo os pobres andantes. Sonâmbulos cabides humanos vão a casa dormir. Confuso deixo-me estar. De um lado para outro olho o terreno como um gato. Aqui há investigação silenciosa. Alfaces poéticas na esterqueira pensante. O lixo real entra pelos óculos. Aspiradores inquietos leem radiações podres e irreprimíveis. Esvoaçam partituras antropológicas para entontecer consumidores de ideias filantrópicas. Caminho por aqui e depois sento-me. Por momentos surge um escritor para me visitar. Falamos pouco porque ouço mal. O relógio também é culpado, mas não o acuso. Todos os problemas são meus. Saio para o largo dos abrunheiros e medito sobre as manchas no chão. Quando vivia na infância comia aquela acidez e o risco dos ramos fracos. Os pássaros furavam os frutos que enferrujavam com doçura. Apesar de caminhar devagar no silêncio dos corredores a velocidade das páginas foi demoníaca. Não obstante as divindades de serviço e as majestades que guardam cerimoniosamente os valores isto descamba com uma voracidade histérica e a correria é desenfreada. Por isso me sinto tão otimista. Que se fodam os bordados e os naperons verbais e sentimentais dessa corja merdosa que se pavoneia por cá. Ou será um lapso do universo diria Lucrécia com seu saber. Vou mas é dar-lhe a mão e zarpar até mais norte para vadiar sem vínculo.

SINAPSES  SÓNICAS

A falta de música atordoa-me as membranas. Falo também da que não existe nas palavras destes humanos. Da ausência dela no seu andar e nos seus gestos. Há uma obediente repetição de banalidades seguindo a linha dominante. Praga injetada nos veios ancestrais. O triunfo do simulacro. A cegueira alastra na falência sónica das vidas em série. Rareiam sons únicos e a estranheza do ser inesperado. Não há música nos quartos e nos corpos nos jardins e nos olhares na pele e nos átrios. Escondida no silêncio foi-se embora ou foi esquecida. Pergunto.

(?)

Havia um uivo e a janela abanava. Também se rasgou a cortina enquanto as vassouras dos homens juntavam folhas no dia ensombrado. Era preciso mudar as calças molhadas e voltar a sair para comprar tabaco. É simples a escrita e a música dos encontros. Sons na carne.

ANTIMENTE

Não pensar e não escavar. Desprogramar a mente cortar-lhe os fios. Apagar as marcas os troços viciados e a fórmula obscura.  Escutar o nada passar em frente sem pesar causas e apalpar versões. Andar. Olhar. Não interiorizar. Deixar juízos quietos intocáveis. Desrefletir e saborear a anti análise. Musicar a ausência ostentar o humor na pele e no corpo. Ser gataria sem tempo definido. Perder o fio inverter os ponteiros e trocar o passo. Desrealizar. Ser sem grelha. Fazer lentamente do desejo do dia a forma impensada. Deixar tudo por um tempo inventado e mergulhar nele para vir à superfície das águas a nudez. Leve e muito mais lisa a arte de fazer desreal a impostura repetitiva. Sair com outra mala outros pincéis novos olhos. Rasgar partituras opressivas do salão bafiento. Aninhar ler dispensar sair ir ver as folhas. Luas antes de nascer o sol. Sons ventosos. Chovia e o silêncio entrava nos poros cerebrais. Ancorada num porto sossegado a íntima vida dormia. Logo de manhã irá para os montes falar com o vento e com as vacas.

PRODUÇÕES

Querem apresentar um estudo. Chamam-me ao gabinete. Caminhando cabisbaixo pergunto-me o que terão estudado. Não me desvio de quem passa. Vejo estes seres como quem olha para vidro muito para lá deles. Trespasso-os com indiferença altiva. No átrio uns papalvos gritam. Sigo sem olhar e sento-me junto ao guichê sem dizer palavra. Tiro do bolso do casaco textos de Alba e Forte. Leio saltando folha e linha. Decorrem uns minutos e entrementes um ser de bata clara põe à frente dos meus olhos um envelope. Seguro-o levanto-me e vou para um banco ao fundo do corredor. Abro o estudo e leio.  Suburbano-depressivo ostenta por vezes um silêncio ameaçador. Melancólico-paranóico. Parece arreganhar-se-lhe os dentes quando ouve um sino. Ficam-lhe de pedra os maxilares ao passar na secretaria. Apático-agressivo desafiante-distante anda pelos corredores como se fosse fruidor sónico contorcendo-se lentamente em virtude da guerrilha entre os sons inexistentes que ouve no íntimo e os reais que despreza no edifício.

INDUÇÕES

Revela uma certa daltonia ética. Usa o olhar como ave de rapina exibindo um semblante de compaixão por nada em concreto. Niilista agarrado ao tempo como humidade caminha junto aos beirais e bebe em sítios desaconselháveis. Dificilmente será convidado para o pavilhão superior. Tende a perder capacidades. A sua inadaptação é incurável. Que se fodam diz para o do 24 já na sala de jogo. Os veredictos que penduram no ecrã serão levados pela ventania. Querem decifrar o novelo mas não tocam numa linha. Desconhecem a minha alergia. Seja o que pensa responde o do 24 e dispa a face dos preconceitos que eles lhe querem colar. Ignore os eventos nauseabundos que sabotam a leveza. Flutue nos dias. Use o vocabulário e o olhar como música física. Faça a poesia dos lugares. Invente formas. E saiu…

DECORAÇÕES

A maluqueira generalizada com bombons às cores e pobreza semântica arrepia os ossos de qualquer homem que viveu em quartos alugados. Papagaios aprisionados em grelhas digitais ostentam uma verborreia de caramelo enjoativo. Eu não abro a boca nesta sala caótica. Olho cada um dos figurantes como um fantoche de esparguete. Bebo água e engulo comprimidos para calafetar os ouvidos. Ensaboo o coração antagónico num wc gelado e fujo para o bar. Não há sopa. As prateleiras estão vazias, mas colaram bonecada brilhante nas paredes. As fêmeas andam em patins à espera do cabeleireiro. Não há um olhar humano. Fantasia e papel de embrulho. Mesquinhez avassaladora e vozes de televisão. Vómito e bom comportamento enfileirados. Nem um livro. Nada de música ou auto estilo. Nunca um rasgo singular. Vou à biblioteca ver se encontro o do 24. Não o vejo nos livros ou nos jornais. Dou uma volta pelas estantes de neurociências e entro na pequena sala das enciclopédias. Está sentado ao fundo num pequeno sofá. Dorme com um volume ao lado. O seu ressonar é música insólita nesta manhã demente. Não o acordo. Abro um livro como quem desaparece.

LUVA

Não sei quando ou de onde veio. Apetrecho musical diria o do 24. Trata-se de um aparelho alérgico a certas patologias. Radar que se contorce nos momentos de estupidez desde logo a minha. Então aparece um outro eu. Vinha a conversa a propósito da invasão do espaço do tempo e do corpo nas salas matinais. A falta de bem é uma cegueira asquerosa e os bicos de pés estão encardidos tal a imundice nas ligações integradas. Resquícios atávicos de bons modos e falsidade longe do monólogo desbragado do inadaptado. Aqui só falo para seres em queda.

MENTE SÓNICA

Eu estava ali encostado à janela de sol com os olhos fechados. Enquanto sentia na cara a luz e a quentura pensava no início do mundo. Depois apeteceu-me pensar na demência lúdica da guerra fria. Que se fodam os meus pensamentos. Nem são meus. Estão de passagem. Aqui queriam colar-me ao grupo de homens dos dias repetidos. Destoei e viciei-me em desvios sabendo que nas vias longas há alarmes. Breves sons agudos à passagem de humanos. Um controle em nome da higiene abstrata. Sigo para zona pouco convidativa. Sinto sossego. Nem um som tirando a música dos segundos. A sala está luminosa como um aquário. Lá fora o gelo. Voltaram os derrames nos olhos. Pequenas cortinas rubras. Pode ser alergia ao tecido digital ou lâminas minúsculas nos licores. De qualquer modo vejo. O melhor é falar menos usar tempo e afundar os olhos em linhas. Ouvir íntimos devaneios e mudar algo em cada dia. Não seguir os passos.

LI

Os wc estão gelados como os grandes espaços e as salas. Só o sol, o vinho noturno e o teu corpo me aquecem. Onde andarão as nuvens, interrogo. Já bastava de sol no teto planetário. Entontece os neurónios mais instáveis. Não aguento muito tempo o tratamento dos raios. Nevralgias nas articulações e irritação semântica. Algas e ostras na retina. Depois entro nos desvarios alcoólicos. De resto tudo aqui à volta é papel químico. Mímicas imitantes. A instituição onde agora me alojo é monstruosa. Só posso encontrar o do 24 lá fora. Tenho-o evitado. Não me apetece sair de mim. Preciso de tempo mental para encontrar o que mudar. Tenho que anular a apatia sozinho e subverter as diretrizes do meu esquema físico encefálico. Indo ao fundo invento-me e crio o que adio há demasiado tempo. Escrever na manhã cinzenta liberta as garras. Aqui há poucos lugares com música. Uma sala grande friíssima que será boa nos dias quentes onde ouço música sem música e saboreio o melhor de ti.

♦♦♦

Lúcio Valium – Um ser em desvio, sem lugar! Um homem vivo, em desordem! Um forasteiro que nos caminhos encontrou palavras e perdeu moradas!

UMA NUANCE NAS NÓDOAS IX – por Lúcio Valium

FUMO ABSTRATO

Caminhar ali com aqueles quadros nas paredes. Olhar o que veio das suas mãos, da carne mental vivida, da solidão lida. Imaginá-lo como um compositor e agora nós ali vendo de fora que tempos teria intervalado corrigido negado. Penso o que passou até terminar cada um e interrogo-me. Toda a deambulação perscrutante. Uma inquietude e a conceção lancinante. Uma forma de belo individual. Sabemos dos outros e das visitas mas fez o seu ver e continuámos de sala em sala onde penduraram tempos da sua vida. Cigarros e palavras álcool e questionamento. Quem andaria por ali além de si, pergunto. Deixava ver a peça ensanguentada antes de estar apresentável, volto a perguntar. Não quero respostas nem interferências. Imagino o que poderás sentir ao vê-lo nas fotografias, ao encontrar as imagens do seu mistério. Têm agora no museu o que era dele, os mesmos de sempre apoderando-se das flores inventadas do que não havia na história. Foi preciso vinho à saída, não foi turismo. Elevou o eu invisível que habita zonas de coral e já cá fora encontrámos todas as moedas preciosas. Um tesouro não dinheiro. Botões no chão, é o que valem os momentos como as imagens que vimos sabidas dele. Ainda algumas em fuga como uma que querias beijar com os olhos. Ficou ali tanta bondade. Choravam os olhos e a cabeça estalava já noite dentro. As tuas mãos envolviam a minha cabeça. Tocavam a pele e marcavam os ossos. Dança noturna e as cores dormindo no escuro das paredes. Também num lugar nosso indecifrável.

by Chema Madoz

GATO AVARIADO

Sol escaldante e vinho de merda nunca foi boa combinação. Os ossos vertebrais rangem com demasiadas horas na estrada e o sono deve ser macio como uma lenta nuvem melancólica. Quando assim não acontece há sangue contaminado com escamas de deuses podres. Mas nada tira brilho à doçura de te ter. A vontade da minha pele na tua pele como limos em água fresca dá-me o perfume para flutuar e ver os teus olhos é um remédio musical. Um belo em fragmentos. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS IX – por Lúcio Valium”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS VIII – por Lúcio Valium

 

ESCOVA

Ia em vários anos de ofícios quando resolvi dedicar-me à construção de pequenos barcos. Mas nunca soube navegar. Embora tenha conversado algumas vezes com o diabo ele navegador batido não me transmitiu segredos. Fiquei entregue à minha papelada. Conheci muitos que incorporaram os preceitos negociais. Foram bons clientes de deus. Que hei-de fazer pergunto-me atónito. Talvez seja melhor aprender a fazer remendos. A questão é que eu ainda estava vivo. Mas tinha um certo asco a tarefas enclausuradas. Não quer dizer que fosse muito teimoso. Nunca pedi que me ensinassem piano. Também sei que fui eu quem foi embora. Havia uma certa curiosidade. E pensava no que seria um ser liberto andar à procura de conhecimento. Naquela altura eu já precisava de tempo e uma janela chegava para ouvir a noite.

Andava nestes passos mentais quando esbarro com o do 24 junto à biblioteca. Trazia livros que lhe escorregaram das mãos. Ao apanhá-los tentou esconder os títulos. Mas pude ler um título Rapsódia e Miniaturas. Convidou-me para um galão. Estava frio e era bom uma bebida quente. Fomos ao Café Cavalo Negro. Bebeu devagar e em silêncio. Depois pediu dois brandes. Ler é um ato complexo afirmou em seguida. Pense em tudo que contêm os livros. Se soubermos procurar podemos encontrar coisas preciosas. Mas a vida, a vida é o mais importante. Contudo o cérebro pede-me leitura. É um alimento um remédio. Liga linhas perdidas para fazer o assombro de uma voz. Continuámos a beber noite dento. Quando cheguei dormias com a luz acesa. Sobre a mesa de cabeceira estava o mesmo título que vi nas mãos do gajo do 24. Deitei-me e abracei-te. Ouvia-te dormir. Sentia o calor da tua pele a deliciar-me a noite. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS VIII – por Lúcio Valium”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS VII – por Lúcio Valium

VIDROS

Há vozes. Ao fundo do corredor surgem linhas humanas. E o cambalear é interrompido. Descalço as botas e as meias estão gastas. Onde andaste. Pergunta imaginária. Respondo em silêncio à não-pergunta. Mas ninguém. É tudo cá dentro. Viroses assaltam os armários. Farpas encefálicas aparecem a meio da noite. Tento lavar o terraço mas nascem ervas incógnitas. E os envelopes recebidos exigem lentes felinas. Tudo é decifrado à base do cifrão.

Pobres das palavras que desaparecem diria o do 24. Os pobres não as escondem. Agora há teclados e superfícies deslizantes. Material moderno para infetar as mentes. Há muito que estou ultrapassado apontam os entendidos. Procuro engendrar a auto-exclusão. Portanto brindemos ao simples. Ao que ainda não se deixou esventrar. Honra aos seres que sabem acariciar. Que deixam assim, sem estragar. O mesmo se faça com o que chamam natureza já que os figurantes se acham fora dela. E com este uivo sinto-me tão feliz por sermos dois animais. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS VII – por Lúcio Valium”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS VI – por Lúcio Valium

 

RELÓGIO

O que marca o tempo? O que decide que é hora? Sendo estas frases interrogações olho para dentro, depois de ser usado pelo mecanismo impiedoso. E acontece ver. Sentir nas vértebras o uivo da resposta. O agora é a medicação. A fórmula falível. Farei do corpo uma mercadoria saqueada. Será roubado dos lugares coercivos e irá visitar imprevistos. Será uma vida enviada para desvendar. Furtando-se aos limites institucionais terá a arma do homem sozinho, um pensamento em movimento. Eu respondo ao que vivi e vou sem rumo sabendo do conforto da hospedaria. Sei quanto te quero, em desvio sempre para ti.

AO LONGE

Deram-me medicação errada. Sem saberem foi melhor assim. Andei semanas à deriva. Desertei da instituição em transe. Não tinha sítio onde ficar para onde fui. Havia montanhas monstruosas, e grandes planícies. Era uma zona fria. Depois indicaram-me um quarto com duas pequenas camas. Um velho sofá e uma cadeira a desfazer-se. Um guarda-fatos torto. A janela não abria. Escadas de pedra levavam-me ao cubículo. Eram dias de estranheza. Eu era uma experiência. Decorria no meu corpo um ritual animalesco e doloroso. Tinha alucinações. Ouvia a tua voz na música ventosa e escorriam em mim as memórias das nossas noites. Via as coisas com os teus olhos e falava com ninguém como se ouvisses. Um voo solitário sem guia ou prescrição. Teria que procurar um terminal. Estava mergulhado numa intensidade de imprevisto a sugar dias narcóticos e agora vi as tuas novas botas em tons de azul.

FERIDAS

Hienas famintas cravam-se nos passos que tento dar. Na instituição anunciam-se testes lógicoencefálicos. Abstrações de horizonte pragmático. Cadáveres teóricos tentam ferir-me as livres associações. Desenho um risco com fracasso assegurado. Os corredores voltam a ser um circuito inflamado. Regressa o outono quente e doentio em sua inusual vestimenta. Os humanos empurram os dias sem interrogações. Mantém-se a ausência. Aquisições orientadas por usurários Implacáveis. Produtos infiltrados nos seres. Aqui os documentos colam-se às têmporas do indivíduo. Grelhas para anular opções. Saio das salas da administração com dias contados. Faço o caminho para a hospedaria para inventar caminhos. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS VI – por Lúcio Valium”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS V – por Lúcio Valium

 

NOITE

lua de creme em jangada de cobertor azul

CADEIRA

A instituição está quase deserta. Foram ao passeio anual. Aqui permaneceram poucos. Alguns não integram. Desprezam convenções e enquadramentos. Líderes específicos e ondas bíblicas. O arejado silêncio nos corredores e nas áreas comuns é o melhor dos medicamentos. Está fresco e parece haver uma metafísica sonâmbula invertida. Como se os que ficaram estivessem a voar quietos. Num recolhimento cósmico. Só a palavra indispensável é proferida. Todas as partes do grande edifício assumem outra identidade. Os olhares veem, destacando as linhas dos momentos. Tomo um comprimido para as dores estruturantes. Caminho sem ir a lado nenhum. Posso ler as folhas que vou amontoando nos bolsos do casaco. Tenho outra cadeira para a hospedaria. Foi oferecida. É boa madeira e ajuda as peças vertebrais a ficarem mais ordenadas. Ontem o mar e a luz do fim do sol, davam à tua pele um tom de fogo. E a risca negra sobre as pálpebras fazia o belo com a rebeldia das águas. Há pouco chamaram-me para um compartimento onde estava o do 24. Anda muito devagar. Tinha passado por mim no bar. Parou para me dizer que tem ouvido uns sons na cabeça. Como um rádio sem sintonia. E que também tem sentido um paladar estranho na boca. Será de estar a ler Lautréamont, perguntou-me. Evidentemente, respondi. Mude de leitura, aconselhei. Agradeceu e disse que ia fazê-lo. Mais tarde quando entro no compartimento o do 24 come uma banana e fuma. O delegado espreita pela janela. Depois vira-se e olha-nos. Queria falar-vos do passeio, diz. Recusa da asfixia, responde o do 24 antes da pergunta. E sai. O chão acolhe afável o olhar do delegado. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS V – por Lúcio Valium”

IN MEMORIAM PAULO LÚCIO / LÚCIO VALIUM – por Artur Manso

Paulo Lúcio / Lúcio Valium

A caminho da sexta década da existência temporal, o Paulo Lúcio fechou os olhos, cerrou os ouvidos, os pulmões deixaram de arfar e o coração parou de bater. A experiência chegou ao fim. Não sabemos de onde vimos, nem para onde vamos, mas a tremenda simplicidade do ser humano que se multiplica numa torrente de improbabilidades contínuas em um ambiente tão adverso é, para mim, um indicador que nesta dimensão, apenas passamos uma parte daquilo que realmente somos. Com a morte, ultrapassamos a estranheza deste lugar que nos acolhe sem sabermos porquê nem para quê!

Conheci o Paulo Lúcio há mais de trinta anos quando ambos frequentávamos a Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Começamos a ser amigos nas salas de cinema, e só depois nos cafés. Eu trabalhava e estudava para aumentar a cultura e o saber nas áreas que me cativavam; as humanidades e as artes.

Na altura ainda havia todos os anos uma dezena de produções cinematográficas que valia a pena ver, a que se acrescentavam diversas reposições. Pelos meus afazeres e para não as perder, tinha que aproveitar as matinés. Percorria por isso, a quase totalidade das salas de cinema nas tardes de um qualquer dia de semana e quando estava sentado à espera que as luzes se apagassem e a sessão tivesse início, era frequente entrar, sem qualquer combinação, o Paulo Lúcio.

E do cinema vinham as conversas acerca do que interessava a ambos: poesia, música, literatura, filosofia. Cavaqueira sobre estes assuntos a partir do que os autores faziam. Nunca o habitual diálogo sobre o que este ou aquele, o que neste programa televisivo ou página de crítica se diz e escreve sobre o assunto. Ambos detestávamos a critica e a fraca qualidade que a mesma apresenta, porque sabíamos que uma boa parte dela é retomada, com breves adaptações, das revistas internacionais da especialidade que por cá são pouco conhecidas, como, no caso do cinema, os prestigiados Cahiers du Cinéma.

Era nesse espírito que bebíamos frequentemente uns copos, em grupo mais alargado, aqui e ali, e, num período de tempo, em casa dele que prolongávamos depois da jantarada simpaticamente servidos por ele e a sua companheira da altura, a Céu, a que se juntava a pequena criança de ambos, a Ana. Elas iam dormir que se fazia tarde. Nós continuávamos a noite entre copos, livros e música. A criança que veio depois, a Catarina, só a conheci em mais um acaso, anos mais tarde, num berreiro com a irmã e os pais num dia quente de agosto amenizado pelo estacionamento refrigerado de um centro comercial.

O Paulo Lúcio adorava ler textos à sorte que compunham um lote restrito de preferências, dentre os muitos que se encontravam espalhados pela mesa, e lia bem. Mas também lia aquilo que escrevia, ele e os restantes convivas. Na altura pouco ou quase nada cada um de nós tinha ainda publicado. Eu viria a publicar mais tarde, o Paulo só agora, por insistência minha e cumplicidade da Júlia Moura Lopes, diretora da Athena, que infelizmente não teve oportunidade de o conhecer, mas que admirava a sua escrita e o seu traço. Desse deslumbramento, ainda brinquei com ele e senti a ironia das palavras que ele sabia que eu apreciava. Dizia-me que eu era um bom tipo e tinha sorte em encontrar pessoas solícitas e amáveis como a Júlia. E eu dizia-lhe que tínhamos uns copos, os três, em divida uns aos outros que, agora, jamais serão retribuídos. Ele traçava com as suas palavras um círculo em torno de si mesmo, das suas e nossas circunstâncias. Já pelo fim, confiou-me um volume inacabado dos seus textos, que espero, com a conivência e bondade da Júlia, pulicar na íntegra.

Fomos sempre amigos especiais, como são os outros poucos que ainda me restam. Conhecemo-nos, convivemos durante anos, fomos cúmplices de umas coisas e de outras. Estivemos sem nos ver e comunicar muitos anos. Encontrávamo-nos quase por acaso, intermitentemente, para ultimamente estarmos mais vezes próximos e aproximados.

Neste tempo, já recordávamos muito mas voltávamos ao comentário do que conhecia bem, nomeadamente a Beat Generation do Jack Kerouac, William S. Burroughs, Allen Ginsberg. Há pouco tempo tínhamos tido, quando entre as pandemias jantamos e lhe levei o ensaio que tinha publicado acerca da morte e do morrer, voltado ao tema da estrada fora, agora um pouco fora da estrada, ou daquela pela qual íamos caminhando. E já bem por uma noite dentro, depois de ter estado a conversar com outro amigo, o Zé Vasconcelos, a propósito do filme Contos da loucura normal de Marco Ferreri, mesmo que o assunto que detinha o fio da conversa fosse a atriz que o protagonizava a bela Ornella Muti. Na verdade, não conseguia identificar nem o filme nem a obra em que se baseava. Para satisfazer a minha ignorância, em vez de perguntar ao Google resolvi ligar ao Paulo Lúcio e estivemos várias horas pela noite dentro, a trocar impressões sobre esse e outros filmes que tão bem conhecia e as obras em que se baseavam, no caso em apreço, Histórias de Loucura normal de Charles Bukowski, autor que o tinha influenciado, na escrita e na vida.

Outras vezes ligava-lhe quando passava por qualquer lugar que ambos tínhamos pisado e costumava atender numa serra qualquer onde descansava o corpo e o olhar, ou algures, junto a uma cozinha onde ultimava uns petiscos para a seguir os partilhar tranquilamente com alguém especial.

E era assim entre nós: conversa inútil sobre coisas fúteis. Sempre com a sua ironia provocante para manter o fio do tempo bem esticado entre todos os momentos, os que passaram e os que se desejavam, plasmado no único tempo que interessa, o presente de então.

Agora o Paulo Lúcio passou a habitar outra dimensão. Melhor, pior, igual, assim, assim, só ele saberá. Como refiro e tendo a acreditar porque de facto sou crente, a eternidade pode ter que ver com as coisas terrenas, mas não é espectável que uns e outros se encontrem tal qual se anuncia.

Por cá somos imortais enquanto formos recordados. Em outras dimensões nada sabemos e com certeza não seremos tal qual aquilo que por aqui fomos. Querido amigo, quando te digo até sempre, é mesmo isso, porque a conversa acabou e não voltaremos a habitar os mesmos lugares na companhia um do outro. E suspeito que na eternidade não nos reconheceremos porque por aqui vemos em espelho e na perpetuidade face a face. Mas o que isso realmente significa, por agora, só tu é que sabes!

♦♦♦

Artur Manso, nasceu nos idos de 1964, pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda. Professor universitário que ao longo do tempo se tem dedicado à aprendizagem e ao ensino de pequenas coisas sob o signo da estética e da ética, do lugar que nos cabe no mundo e de como a beleza nos pode tranquilizar.

UMA NUANCE NAS NÓDOAS IV – por Lúcio Valium

Fotografia: © Carlos Silva,

BECOS

Parece que só ouço ecos e vozes imberbes. No grande átrio os serventes espalham neurose. É preciso nervos de aço. Uns tiros para o ar seriam ouro. Dói-me o corpo. Sinto frio e arrepios. O peito rasga-se quando vem tosse. Arrasto-me junto às paredes intoxicado em fármacos. Gemem articulações e narinas. Parece que fui espancado. Era bom ouvir a chuva contigo. E oferecer-te flores, delírios, prosas e gerúndios.

A diretora já teve outras vidas, penso. Continua a aceitar o meu jogo. Deixa-me dormir nos intervalos e pegar em livros sem avisar. Acomoda as minhas falhas. Emociona-se com as minhas fugas. Permite que me abram compartimentos pouco usados. Aí saboreio linhas de tempo, uma fuga sonora. Lavo a gordura do interior craniano. Limpo cicatrizes e invento monólogos implacáveis contra este real podre. Mantenho-me à margem das imposturas diárias. Sou um ser inviável, dirão alguns com a sua pragmática. Ou intratável, considerarão outros. Em sua intocável gravidade, não verão melhorias, digo eu. Estou vivo e já não tenho muitos anos para enlouquecer. É um pensamento que me preocupa. Estaria interessado em abordar o assunto. Saibam senhores que caminho cada dia para ser mais livre e encontrar companheiros da mesma laia. Dos que não fazem vénia às montras, onde tirania e santidade  são vendidos como salvação. Negócios de carne humana e sangue da terra. Como diria o do 24 uma história de terror fino corre nas veias grossas do poder. A eternidade é um programa de injetar cegueira nos humanos. Vou a outro lado. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS IV – por Lúcio Valium”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS (III)- por Lucio Valium

ARMAÇÕES

manhã negrume gruas pinças
bisturis a rasgar o corpo da cidade.
cabos de aço. sufoco de redes neuronais
doenças no desenho de labirintos.
grades nas ruas ao alto para encantar a vida dos lordes
torturas babadas em majestosos gabinetes.
e nós animais visuais
avançando para evitar o cerco.
desprezando os feridos e a máquina
ávida de obediência e de presas.
e nós animais de memória
cansados de olhar fixo na garra mortuária.
alimentamo-nos de pétalas e vinho no fundo do bosque
onde vemos ao longe o fumo da engrenagem.
lemos em nossos cadernos fórmulas tenebrosas
apontamentos para ser simples na terra.
e nós aqui ainda colhendo flores e imaginando frutas
nós em asco odiando engalanados crápulas.
os que rejubilam com projetos de luxo letal
nós em estratégia sem meios. quase desterrados.
somos meigos em nossos esconderijos e endurecemos
vendo o espetáculo infame quase já sem humanos.
as máscaras tão vazias
uma epidemia irreprimível de cenários de lucro.
o esgoto o nojo o vómito
eu não estou deprimido estou vivo.
leio os personagens em seus artifícios
que querem rapidez e limpeza.
são autores que deixam marca
na crosta terrestre onde espalham carne quente.
e nós viventes em invenção
ainda comemos em mesas limpas.
com suas toalhas humanas
e bebemos para acariciar o coração do tempo. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS (III)- por Lucio Valium”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS II – por Lucio Valium

Le temps menaçant by R. Magritte

  BLUES

Blues na cozinha. O som entrava pela garganta das botelhas amontoadas. Depois saí da hospedaria para vadiar. Fiquei algum tempo recostado na avenida central. A sala de visitas dos meninos de botão de punho. Gestores de sítios terrestres. Passei na estação. Havia gajos a tocar. Subi ruas estreitas de tascos e putas batidas. Sem rumo. A mente não escrevia. Indiferente, de olhos no chão, ia por vielas sujas lentamente. Ninguém interrompeu esse corpo invisível. Estava fora do ritmo. Temporal cardíaco. Um dia andou por aí um desterrado que caminhava. De regresso a esta mesa escrevi pequenos textos com palavras de outros. Um gozo o roubo de materiais sem proprietário. Nada de novo. Entretanto o mundo segue infetado de sangue e medicado com espetáculo. Infantil, mercantile, infame. Nas redondezas arrancam-se casas como dentes. Instalam-se implantes do negócio devorador. O confronto contínuo, sanguinário. Parcelas de chão para encher os cofres e despojar humanos. Vejo cada vez menos pessoas. Muitos foram-se embora. Vivemos o jogo da vida. Escolher o lugar onde deitar os ombros é escrever um tempo. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS II – por Lucio Valium”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS – por Lucio Valium

The Door To The Clouds” by Christian Schloe

UMA NUANCE NAS NÓDOAS

PELE

eu procuro a luz senhora.
uma luz de pele nua.
viva.
em abandono.
uma eternidade fêmea
e o suave rosnar das peles.
música arrepiante
engolindo lentamente o abismo.
eu procuro a luz de fogo.
negro como uma ideia livre.
e o licor demencial.
a doçura aterradora dos corpos.
serpenteiam entre si como águas gélidas
nas rochas quentes.
eu procuro a luz senhora.
uma luz de gato. noctívaga.
luz de vinho. sanguínea.
sem rédea.
e solar.
vejo-a por vezes na madeira da mesa
inundada pelo sol gato.
errante. solitário. altivo.
como os que denunciam a morte da vida.
com seus corações felinos.
essa luz foge para a lua
e vem queimar-nos a pele.
deitados na cama no tempo.
beijando línguas
amando a espiral.
assim voamos nas inebriantes
partituras.
não tendo ouro como lei.
a senhora sabe de luz.
a sua pele é o lugar
onde o gato a encontra.

Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS – por Lucio Valium”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (7) – por Lucio Valium

 

RUA

Saí da hospedaria para a cidade. Sufocante e doida na ânsia de tempos dóceis. Mimos e negócios sempre de mãos dadas. Ia com a cabeça a latejar por via de álcoois nocturnos. Deram-me o dia na instituição e não sabiam que ele já era meu. Para não adoecer rasgo as receitas. Encontrei folhas escritas sobre uma certa rixa entre o senhor Pacheco e o senhor Mário. Delicados safados com lábio de ponta e mola. Depois falei com uma menina de olhos pintados a forte traço negro. Aprendiz de joalheira. Fará um dia ornamentos para viperinos figurantes.

O rapaz que me vendeu os cadernos de crítica musical disse que vão fazer uma instalação sonora no Grande Mercado. Sons e sardinhas. Ritmos e malaguetas. Electrónica e azeitonas. Sónicas broas e alfaces psicadélicas.

Andei pelas ruas com desinteresse. Sem linhas prévias. Não tinha onde ir. Não vi nada. Só ir. Por terrenos inabituais.

Mais tarde detive-me olhando grandes telhados de veludo e línguas de deserto ferrugento. Vidros partidos de janelas da história. Arquivos de pó fantasma. Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (7) – por Lucio Valium”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (6) – por Lúcio Valium

MERCADO

Copio para o caderno: petúnia significa “flor vermelha” na língua dos Índios Tupi.

Foi no Grande Mercado das flores e especiarias que disse esta palavra pela primeira vez. Levámos pimenta negra feijão e alhos.

Escrevo ainda: pertencente à família Solanaceae, a mesma de pimentão, tomate e beringela, a petúnia, apesar de ser perene, deve ser replantada a cada Primavera para manter-se sempre florida.

Quando os mercados eram de ferro e ficavam no centro da cidade tu usavas saia como as petúnias e caminhavas como uma flor por entre peixes e frutas.

Petúnia é um som da cor dos teus lábios.

♣♣♣

“May room has two doors” de Kay Sage

Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (6) – por Lúcio Valium”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (5) – por Lúcio Valium

COMPASSOS

Somos os dois irmã. Passos lentos nos dias roubados em terra de além Tejo.

Tapas ao cair do escaldante sol. Nas bandas do azul sorvem nossas narinas ávidas. Há vidas, logo embelezem-se. Os olhos com planícies sem fim. Queijo muito fino. Aterrar lentamente. Uma folha na brisa. Nada de utopias nem psicanálise. Esquecidos exames institucionais e ignoradas recomendações. Só apalpar o instante. Inspirar as manhãs e seguir de mansinho. Sem pressa. Em trilhos vazios. Onde árvores antigas repousam. Foram arrumadas ali pequenas casas. E histórias de dor. Que a pintura oficial vai apagando. Com suas escrituras vampiras. Olhamos e sentimos a vida. O que ali sangrou. Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (5) – por Lúcio Valium”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (4) – por Lúcio Valium –

INVERNIAS

Enquanto corre o teu banho quente
as gaivotas fazem círculos demorados no azul
e ouve-se um saxofone desvairado.
Há pouco falavas da neve e de hospitais
desta luz invernal e de arroz.
Dei-te a manta
e compus as roupas da jangada.
Agora falas do cenário que avistamos da janela.
Um frágil amarelo a escorrer entre a
lã imensa de chumbo fumegante
que se eleva para lá dos telhados
por cima do mar.
Já quase noite
vestes o corpo de calças.
Na cozinha falas de aviões
e polémicas publicitárias.
E da tua cidade nas palavras da pobre jornalista
que serve a encenação enquanto
cortas o alho para a panela.
Depois vens ao corredor escuro
contar uma cena de estrangeiros no restaurante
por causa das línguas e dos lucros.
Os gestos e as atitudes.
E já tens os crepes de legumes prontos.
É hora de sair e dizes
que há pessoas que viajam ao passado
e continuas a falar sozinha na cozinha.
Perguntas se há hora marcada.
Ainda temos de ir comprar um salpicão
e vinho
Mas antes tens que secar o cabelo. Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (4) – por Lúcio Valium –”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (3) – por Lúcio Valium

 

Le Mirroir, by Pablo Picasso 1932

ANTONÍMIAS

Sair da cama após duras batalhas por bocados de sono. Azuis laranja nascem na escuridão enquanto olho o rio. Escrever-te na sala de máquinas de alta temperatura. Afastado de vozes e vacuidades. Reencontrar o doente do 24 e ignorar os figurantes da sala central. Algumas antonímias na jarra do dia.

Bem vistas as coisas uma delícia num rasgo cósmico. Assim me apresento à geometria demente da eternidade. Com o casaco insondável que me deste. E me é querido na sua compostura irreal. Com sublinhados de alfaiataria ébria. Diz-me o do 24 que estou a andar mais lentamente e com cadência melancólica. Coitado dele o mesmo lhe acontece. Mas tem ainda argúcia para detectar traços novos na história repetida dos homens. Saberá ler os olhos. Quem terá sido o que terá lido pergunto-me. Conhece certamente a poesia do não escrito. As palavras que nos olham por dentro. Encontros ao nascer do dia com o inesperado. O belo nas garras de uma fêmea. O único ocupante do quarto 24 é livre em seu pensamento de bebedor solitário.

Na verdade há uma lentidão nos passos. Mas apesar do feroz ataque da insónia a disposição é boa. Ler no espelho a tua escrita foi o melhor dos vinhos. Sempre gostei de palavras em vidro. De sensuais letras vermelhas. E vi o dia nascer na rua. Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (3) – por Lúcio Valium”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (2) – por Lúcio Valium

 

APARELHOS

Comi no meio de um ruído imenso. Tomei dois cafés. Procuro um lugar fora do mecanismo. No futuro será mais difícil de encontrar. Cada vez haverá menos lugares desses. Atravesso as compridas artérias institucionais e fecho-me numa sala para escrever. Não há música mas podem enviar-se escritos. É uma área de organismos tecnológicos. Uma visão da vida controlada nos nossos tempos. Fórmulas dados sintomas diagnósticos perfis são palavras que saltam destes aparelhos. Tudo em gráficos e grelhas. As vidas como gravações para consulta pragmática. Nada que lembre coreografias sexuais desmesuras sem palco ou o espanto de quem se perdeu nas cidades e nas vidas de outros. Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (2) – por Lúcio Valium”

UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (Série I)- por Lúcio Valium

Foto by Paulo Burnay

HORAS

Na instituição as horas são linhas. Férreas convenções temporais. De manhã não segui a norma. Permaneci na hospedaria. Cama jangada dignos trapos quentes. São a vida. A negação doce e animalesca das imposições. Chego tarde com orgulho. Entro na cápsula como um infiltrado e visto a pele de sereno figurante. Um paciente que não é fácil decifrar. Pouco para o exterior. Só as raras sessões de livre palavria medicante me interessam. De resto busco salas vazias. O desprezo pelo real fraudulento. Não respeito a engrenagem e escondo estratégias que a maquinaria não pode controlar. Sei que a directora é um coração bom. Mas não ia gostar se soubesse do afastamento a que voto as actividades gerais. Pouco importa. Gosto de algumas palavras dela. Mas dou-lhes outro uso. Sonho com o tempo que partilhamos na hospedaria. O nosso vinho na lareira é um festim sem necessidade de ornamentos. É a música primordial dos lábios. Fogo vinho nas cores dos olhos. Prazeres que bailam no labirinto dos corpos. Assim vivo o silêncio íntimo nestes pisos ruidosos. Retendo o suor da noite e a sonoridade da tua pele. Continuar a ler “UM ROMANCE NAS NÓDOAS DA MISÉRIA (Série I)- por Lúcio Valium”