EDITORIAL – EM LOUVOR DO EFÉMERO – por Rodrigo Costa

Em Louvor do Efémero

… Continua a ter-se por sabor a injusto o fim das coisas e dos seres a que nos apegamos. E, tratando-se de coisas e seres que amemos, o desaparecimento provoca, para além do desconforto, a reformulação no modo como passamos a olhar tudo o que nos rodeia, sendo a consciência abalada pelo reconhecimento de que a nossa evolução depende da importância que atribuirmos ao efémero e, consequentemente, ao desprendimento como defesa que ameniza os ímpetos do Instinto de Posse —instala-se a certeza de ser ilusão sentirmo-nos mais do que usufrutuários.

Como se sabe, nada é eterno. Desde o Princípio. No entanto, movidos pela discordância do inconformismo, há humanos que mantêm a procura da imortalidade —investindo o que têm, o que não têm e o que não lhes pertence; hipotecando lições do passado e oportunidades com que o presente nos anima, estimulando a resistência, perante a irresistibilidade da atracção pelo que projectamos e acreditamos estar guardado nas gavetas do amanhã que, ansiosamente, perseguimos, sem nunca tirarmos os olhos do dia seguinte.

Ambições, guerras, ódios, e amores, é claro!, tudo reciclado e repetido, como Quem baralha, parte e dá… sem experimentar outras cartas —a Humanidade é a mesma; formada por tudo o que, desde o início, a caracteriza e se sobrepõe a conhecimento e experiência adquiridos e negligenciados, como se tudo o que pensamos e fazemos seja o excesso que os cálculos da Vida previram; mas, mantendo inalterados os Seus planos, sendo a Razão mera tolerância do Instinto.

Daí, o caminho andado ter o aspecto de nunca ter sido percorrido; com as pedras, em que tropeçamos, preservando os esgares de ironia e de indiferença com que atapetaram e sabotaram a passagem e o destino das tantas gerações que acreditaram ser possível iludir a realidade, bastando, para tanto, mudar de roupa.

Confundindo conhecimento e inteligência —supondo serem, um e outra, a mesma coisa—, a Ciência é apresentada, tratada e imposta como a única religião capaz de suster os prejuízos e as tragédias a que a dureza da Vida não nos poupa. Mesinhas científicas tomam o lugar dos dentes de alho e do sinal da cruz, assim que pressentida a proximidade de Satanãs, que, sem piedade, e de sorriso nem sequer esquivo, mostra quanto é prolífico o seu imaginário —de cada vez que os deuses terrenos dão fogo à forja e ar ao fole, o Diabo pousa as bolas-de-sabão, e sopra, por exemplo, qualquer inocente pandemia, contra a qual, no intervalo de duas meias-solas postas em sapatos que nunca tiveram grandes dias, são concebidas e implementas medidas absurdas …

Os deuses falham e, dizendo-se e desdizendo-se, mergulham em dúvidas, inassumidas, sobre si mesmos. A religião sofre, as orações são mal ouvidas e mal compreendidas. Estabelecido ou por estabelecer, o conhecimento sucumbe ao medo; o Sol deixa de ser o elixir da Vida; fonte, agora, das sombras de que toda a gente desconfia. Sofre-se e morre-se de tudo e de nada; soa a intranquilidade e a finados. A salvação fica, cada vez mais, longe; a Ciência vê cavada mais funda a sepultura em que lhe apodrece a imagem, tomada por curiosos sem percepção nem jeito, aos quais, toldados pela preocupação de negócio, escapa a compreensão do básico.

Nada faz tão mal à Humanidade como a ignorância desesperada por dinheiro!…

Ao ser confiada a marcha da Espécie a estas dúzias de iluminados que, às escuras, lhe desenham os passos, o risco de se assitir ao colapso é sério. De tal ordem, que o affair Rússia-Ucrânia, ou vice-versa, é, no meio disto tudo, pouco representatativo, apesar do temor, infundado, de que a guerra alastrasse…

Não! Não haverá dia D, de decisivo. O D é outro; tem o significado do desespero, tantas as guerras e as réplicas intermináveis a que é dada cobertura, porque a paz e a normalidade não dão proventos. A aposta é no desassossego, com a demência colectiva dando corda aos brinquedos.

Havendo a hipótese de pôr ordem no caos, e evitar a insolvência, a esperança reside na acção individual como forma de ser encontrado um novo colectivo, formado por gente que, pensando pela sua própria cabeça, se eduque e se prepare para detectar falácias, valorizando o sugerido pela coerência, porque, afinal, a Vida é escaparate de informação disponível e não só ao alcance dos visionários altruístas que a Democracia tem vindo a desmascarar, confirmando não haver regime político que salve da derrocada qualquer sociedade constituída por pessoas que mais não querem do que entretenimento e salvaguardar a conveniência.

A decrepitude é perceptível. O desleixo vigora. A letargia é generalizada, e, por entre o amontoado de escombros —tantas as pessoas em ruínas—, espreguiça-se a aurora anunciando o milagre 5G, não havendo problemas humanos que a tecnologia não solucione.

— Então, por quê, no estádio em que se encontra a Revolução Tecnológica, tudo se apresenta tão problemático???!!!…

— A perfeição também tem hiatos… E é própria a demora na adequação da génese da mente à génese das máquinas… Sejamos optimistas…

Rodrigo Costa
ARTISTA PLÁSTICO

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“Excerto de Sinais do Oriente”, de Rodrigo Costa, que também é a de Capa desta Edição.

POR QUÊ, A REALIDADE NÃO SE CANSA?… – por Rodrigo Costa

“Luz e Coerência” by Rodrigo Costa

… Numa das minhas voltas pela actualidade, fiquei a par do que, em resumo, é o livro, de memórias, de Francisco Pinto Balsemão… De algumas memórias, porque, de acordo com o próprio, nem todas convém serem lembradas. De relevante, no alinhamento, a confirmação, colateral, de que o País tem estado sob a tutela de jovens companheiros da vida airada; gente que nasceu e cresceu em clima de inocentes aventuras —razão porque, no topo da pirâmide, haja o que houver, não há culpados. E não há, por ser incoerente culpar quem, medrando em parcerias de irresponsabilidade, tem tido permissão para ser governo. Continuar a ler “POR QUÊ, A REALIDADE NÃO SE CANSA?… – por Rodrigo Costa”

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