UM CONTENTAMENTO DESCONTENTE – EDITORIAL por Danyel Guerra

 

Diogo, a criança que calou a arma com a flor. Da autoria do fotógrafo Sérgio Guimarães.

 

UM CONTENTAMENTO DESCONTENTE

“Há uma justa medida em todas as coisas; E existem certos limites” Horácio

 

I– Às 24 horas do próximo dia 24 de abril terminam as celebrações populares e institucionais do cinquentenário do levante cívico-militar que, sem efusão de sangue, vibrou o golpe de misericórdia na ditadura estadonovista de Salazar e Caetano, O vermelho, vibrante, só era visível nos cravos que floriram no cano das  metralhadoras.

Ao longo desses 365 dias de comemorações, nem sequer o mais otimista aos Drs. Pangloss da classe política dominante  se extenuará na entoação de hosanas às virtudes, conquistas e realizações  do regime abrilista,  como se Portugal estivesse vivendo num mundo leibniziano, como se os portugueses  estivessem próximos de atingir o zênite da prosperidade econômica, da justiça social, tributária e eleitoral,  das liberdades individuais, da isonomia e da equidade jurídicas, do bem-estar coletivo a que têm direito enquanto cidadãos de um país democrático, onde o estado de direito se alça como firme e bem fundada trave-mestra.

Julgo que só um paladino inebriado por etílicas bebemorações ousará afirmar que está sendo alcançada a harmonia da desejada triangulação dos três “D” inscritos no programa do Movimento das Forças Armadas (MFA).

II– DDD. D de Descolonizar, D de Desenvolver, D de Democratizar. Esta foi a tríade de objetivos civilizatórios  plasmados pelos capitães insurgentes na sua plataforma política de redenção nacional, de restauração  da legalidade/legitimidade democráticas e de uma equânime estabilidade institucional..

Alguns deles, imbuídos de um lírico idealismo deliraram  o desenho de um triângulo equilátero em que esses três D seriam os vértices. Transcursos precisos 50 anos , sejamos desassombrados,  o triângulo esquissado corre o sério risco de adquirir uma configuração isoscélica, quando não escalena.

III-A Descolonização ficou, para já, pela metade. A relativa às possessões africanas  desenrolou-se com os governos provisórios reféns de um ultimato político e expostos à  intensa pressão nacional e internacional.  O processo  viu-se  concluído em tempo record.  Aos povos colonizados foi negado o lídimo direito de se autodeterminarem livremente. A soberania dos novos estados caiu nas mãos de autoproclamados movimentos de libertação, na sua maioria eivados por ideologias autoritárias e até ditatoriais. E a magnífica pintura está agora exposta em tempo permanente, nos PALOP.  A única exceção tem sido Cabo Verde.

Numa situação muito concreta, a de Timor Leste, o descaso da metrópole ocupante combinado com a sofreguidão fraticida dos movimentos autonomistas redundou numa penosa tragédia humanitária,na qual a Indonésia foi a principal ré. .

IV– ”Navegar  é preciso, viver não é preciso.” Competiu à ágil pena de Plutarco inscrever no pergaminho esta lendária frase de Pompeu Magno. Com essa intimação, o general romano visava motivar seus soldados a ousarem na aventura marítima, mesmo pondo em risco a própria vida. Desde que não fosse a dele…

Os navegantes lusos perfilharam outrossim esse repto nas suas odisseias oceânicas. Hoje, finda a epopeia imperial, navegar não é preciso… a não ser que seja no ciberespaço. Agora, viver é preciso. Melhor dizendo, viver bem é preciso. Em 2025, os portugueses ainda estão longe de usufruirem de um sólido e solidário wellfare state.

Por muito que inúmeros decisores políticos se empenhem na propagação dessa falácia, crescimento não pode ser drapejado como sinônimo de desenvolvimento. Impõe-se como inegável que nas últimas cinco décadas, o PIB cresceu, o rendimento per capita aumentou. Porém, mesmo a mais eloquente das retóricas não terá o condão de tecer e erguer biombos que ocultem esta realidade: enreda-se num labirinto a veleidade de gerar, manter e potenciar o progresso econômico e social quando se arca com pesadas dívidas externa e pública. Dificuldades que se avolumam quando esse país padeceu de três bancarrotas (1977, 1983,2011, que coagiram as governanças a recorrerem ao socorro agiota do FMI.

Apesar desses pesares, chagas sociais ancestrais como o analfabetismo e a mortalidade infantil estão, na prática, extirpadas. Embora nos últimos anos, Portugal prossiga galgando posições no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, a população residente não tem beneficiado, em tempo expedito e de modo eficaz e eficiente, do constitucional direito à saúde, educação, cultura e habitação. O estado providência tende a encolher, as desigualdades agravam-se, agudizadas por sistemáticas políticas de baixos salários. A essa contrariedade soma-se a perpetuação de injustiça tributária, que tende a pauperizar as classes médias, assim ameaçadas pelo estigma da proletarização. Uma evidência gritante dessa tendência desigualitária é a eternização da pobreza estrutural que aflige 20% da população e escolhe como principais vítimas os idosos e as crianças.

Suficiente será uma deambulação noturna pelas artérias centrais de Lisboa e do Porto para avaliar e concluir que estamos ainda muito distantes do usufruto de uma economia solidária. Um país desenvolvido, além da liberdade individual e da igualdade perante a lei deve ter também como paradigma, a fraternidade coletiva. Virtude que convém não confundir, com assistencialismo e caridadezinha.

V– Os militares da sublevação do 28 de Maio apontavam a espada à anarquia partidária dos republicanos como um das causas mais deletérias da decadência da Nação. Quando em 1933, o seráfico Salazar se assenhoreou do poder absolutamente,baniu ad aeternum essas “associações de malfeitores”, em favor e em prol da união nacional.

Ao receberem a notícia alvissareira da primavera abrilista, a velha e a nova aristocracia política entendeam  ter chegado o tempo do revide, vingando-se de décadas de ostracismo, perseguição, exílio e martírio. Uma maneira de compensá-la de tantos padecimentos consistiu em consagrar uma Constituição (a de 1976, não plebiscitada) tecida, cortada e cosida à medida e a preceito dos dignitários políticos. As sete e meia revisões constitucionais não mitigaram a demopartidocracia imperante (nem esse era o escopo), tutelada por um duopólio de partidos. Como o espaço se encurta, indico somente uma das absurdas prerrogativas: apenas as legendas nacionais podem submeter a sufrágio candidaturas a deputado do Parlamento. Tão gravosos quanto os défices orçamentais são os défices democráticos, apanágio das ditamoles

VI– No próximo 25 de Abril, essa aristocracia  comemorará e bebemorará mais um niver da Revolução dos Cravos, coincidente com os 50 anos das primeiras eleições livres e democráticas. Inchados de empáfia, na sua maioria, esses agentes expressarão contentamento pelos feitos da 2ª República, num momento histórico em que o regime se vê trespassado por uma crise de credibilidade politética e por uma paulatina degradação da gravitas das lideranças políticas institucionalizadas. Poucos terão dado ouvidos ao alerta de Horácio contra os excessos e aos seus conselhos à moderação, patentes na epígrafe  deste texto..

VII – A ‘Athena’ secunda e perfilha a sensata “áurea mediania”  do autor de Ars Poetica. Ela se contenta com os feitos dos 50 anos abrilistas. Contudo, fica descontente com os defeitos e desfeitos averbados no decurso desse empolgante e contraditório meio século. A fim de encontrar uma síntese dialeticamente ambivalente, se inspirou num dos oximoros do soneto O Amor é fogo que arde sem se ver, de Camões. É isso aí, “Um Contentamento Descontente”.

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Danyel Guerra (aka Dannj Guerra) nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. Tem uma licenciatura em História pela FLUP. E tem-se dedicado ao estudo da História do Cinema. Após ter lecionado História no Ensino Secundário, transitou para o Jornalismo, trabalhando como repórter e redator efetivo (Carteira Profissional nº 803) nos diários Notícias da Tarde, Jornal de Notícias e Correio da Manhã. É o colaborador mais regular da Revista Athena.

ATHENA REVISITADA- II-

Na Edição O, de Maio de 2017, Paulo Ferreira da Cunha escreveu  ” Athena – Mito & Cultura”.

Revisite-nos aqui:

O Mito é o nada que é tudo

Fernando Pessoa, Mensagem

Athena, por Paulo Ferreira da Cunha

1.Um Projeto Cultural

Não haverá certamente melhor nome para uma revista de cultura que o de Athena. Para mais uma revista eletrónica, em que o pensamento e a arte se associam naturalmente, indissoluvelmente, à ciência e à técnica. Assim como Athena simboliza a aliança perfeita das mãos e do espírito[i]. Continuar a ler “ATHENA REVISITADA- II-“

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM – por Adelina Andrês

MARINHO ou O MENINO QUE CRIA MANDAR NO MUNDO

Foi numa manhã cristalina e fresca de chuva. O vento a assobiar e a fustigar os ramos das árvores e as folhas, e a empurrar as gotas grossas de chuva em todas as direções – um rodopio dançante de água aos bocadinhos, de folhas molhadas e de brilhos muito claros.
Ninguém lá fora naquele pedaço de rua que se via. E, no entanto, uma espera que se adivinhava… Lá vem, lá vem…! É o Marinho, o menino senhor dos sítios de ninguém… Sorridente de vida com um balde de lata redondo enfiado no alto da cabeça, a pega debaixo do nariz… Para andar no meio da chuva abrigado da chuva, pois… Continuar a ler “MUNDOS DAQUI E D´ALÉM – por Adelina Andrês”

CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso

Em frente a Jesus crucificado
nu, só e abandonado
de rosto triste e semblante plasmado
abandono o rancor, sinto-me confortado
olho-o no rosto e seu olhar curvado
afaga-me a tormenta
ampara-me o pecado.
Com outros prometo
em remorso disfarçado
aliviar-lhe o desgosto
da carne rasgada
que embebe as suas chagas.
Volvida a meditação
com a consciência aliviada
pelo perdão que não mereço
dos pecados sucessivos
dou-vos graças e outra vez peço
que me aceiteis como vosso amigo.

♣♣♣

Talvez fosse maio
e junho já estivesse a espreitar.
A chuva não caía
e o vento não queria incomodar.
As jovens moças
passeavam para que as admirassem.
Os sentidos de uns e de outros
cruzavam-se e encantavam-se
demorando-se aqui e ali.
A curiosidade das crianças,
o vigor da juventude
e a astúcia dos mais velhos
iam-se diluindo
nos instantes passados
que o tempo arrebatava. Continuar a ler “CINCO POEMAS INÉDITOS – por A. Sarmento Manso”

RESEÑA AL LIBRO DE GABRIEL PALOMO PONCE – por Claudia Vila Molina

 

Reseña crítica literaria al libro de Gabriel Palomo Ponce
A Destiempo, Reminiscencias e Instantáneas (2022)

 

Caminar solo y sin rumbo por las calles, un día desocupado de noche. Había olvidado lo bien que se sentía

La estructura narrativa de A Destiempo, Reminiscencias e Instantáneas (2022) se compone de diversas narraciones, relativas a todo orden de cosas, por ejemplo: relaciones amorosas, amistades, entre otros. El ordenamiento lógico de cada una de las historias no se avizora bajo un eje predominante, más bien se exponen y se van significando cada una en sí misma y un aspecto interesante es que el lector puede interpretarlas libremente o asociar una con otra, para de este modo trazarse un mapa o esquema mental. Quizá algo parecido a lo sucedido en Rayuela (1963) de Julio Cortázar, obviamente en el itinerario que promueve Palomo. Continuar a ler “RESEÑA AL LIBRO DE GABRIEL PALOMO PONCE – por Claudia Vila Molina”

BIOÉTICA – por Fernando Martinho Guimarães

Nos últimos dias de Novembro de 2018, o mundo recebeu uma notícia que não estava preparado para ouvir. Um cientista chinês anunciou o nascimento de duas irmãs gémeas editadas geneticamente.  Através da manipulação genética teria desactivado um gene e assim tornar as crianças imunes à infecção pelo vírus da Sida. Os embriões eram saudáveis, diga-se desde já, o que faz com que a intervenção não seja terapêutica, isto é, para curar uma doença hereditária, mas sim uma tentativa de melhoria genética da espécie humana. Passaríamos a ter, pela primeira vez na história, dois tipos de pessoas, as naturais e as editadas, as melhoradas geneticamente.

As reacções, sociais e na comunidade científica, não se fizeram esperar – tinha-se passado uma linha vermelha e a caixa de Pandora abrira-se para a eugenia, isto é, para os bem-nascidos, com todas as vantagens que a edição genética pode fornecer e os outros, a esmagadora maioria dos outros, os naturais, os que não teriam acesso a essa melhoria que a bio-tecnologia promete dar. O governo chinês reagiu imediatamente e mandou suspender todas as investigações. O cientista, como parece já habitual em algumas sociedades, desapareceu. Continuar a ler “BIOÉTICA – por Fernando Martinho Guimarães”

MÁRIO SOARES: MILHENTOS DEFEITOS….. E O RESTO – por Francisco Coutinho

Mário Soares e Alvaro Cunhal, num histórico debate (RTP, 1975)

Quando cidadãos ucranianos (concidadãos europeus) começam a ter o território invadido e começam também – por uma questão de sobrevivência – a sair do mesmo, falando-se já em “III Grande Guerra Mundial”, tenho ainda mais presente o ideal e a visão de Mário Soares (como de outros democratas lusos, do seu partido e de outros partidos).

Mário Soares insurgiu-se frontalmente perante a ditadura do Estado Novo – algo que lhe valeu doze detenções -, parando de combater o fascismo somente quando este foi derrubado. Continuar a ler “MÁRIO SOARES: MILHENTOS DEFEITOS….. E O RESTO – por Francisco Coutinho”

ANARCISTA – por Francisco Fuchs

Sou um Rei sem reino, disse-me o velho
sem afastar o frio olhar do espelho:
achava-se um diamante bruto,
ainda que deveras fosse um puto.

Havia que tornar-se marionete
para melhor servir ao baronete
sempre a explorar qualquer fantoche
capaz de suportar o seu deboche.

Ao flagrar o malévolo narciso
senti-me incapaz de conter o riso:
escarneci, e sei que errei;

melhor será abandonar de vez
essa tão grandiosa pequenez
e continuar a ser um reino sem rei.

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Francisco Traverso Fuchs gosta de olhar para fora e adora olhar para dentro, mas evita perder tempo com espelhos. Fundou o anarcismo, doutrina que ensina a permanecer tão longe quanto possível das superfícies espelhadas e de seus adoradores.

POEMAS DE JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO

 

BOLINHOS FEITOS DE ONTEM E FEIJÃO

Miné na cozinha
faz bolinhos de feijão
enquanto minha mãe
conversa ao telefone
sobre a última moda do verão
A manhã vai passando
pelo céu das nuvens paradas
fatiada em diminutos segundos
pela fina lâmina dos ponteiros do relógio
feito a navalha gasta
no barbear matinal do meu pai

Lá fora a vida me espreita
no aguardo das perdas que um dia virão
e eu continuo absorto e distraído
assistindo o desenho animado
que está passando na televisão

Ainda não conheço a língua das ruas
o entrelaçar ardiloso das Moiras
o cheiro dos cravos e dos crisântemos
nem os caminhos que me levarão
para fora desta bolha azul de sabão

O princípio de mim vai se construindo
por debaixo da ingenuidade da carne
no pântano caudaloso da memória
e quando lá me olhar para trás
vou me ver sentado
assistindo desenho animado na televisão
quando Miné está na cozinha
fazendo saudosos bolinhos de feijão
e minha mãe conversando ao telefone
sobre a última moda daquele remoto esquecido verão Continuar a ler “POEMAS DE JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS VI – por Lúcio Valium

 

RELÓGIO

O que marca o tempo? O que decide que é hora? Sendo estas frases interrogações olho para dentro, depois de ser usado pelo mecanismo impiedoso. E acontece ver. Sentir nas vértebras o uivo da resposta. O agora é a medicação. A fórmula falível. Farei do corpo uma mercadoria saqueada. Será roubado dos lugares coercivos e irá visitar imprevistos. Será uma vida enviada para desvendar. Furtando-se aos limites institucionais terá a arma do homem sozinho, um pensamento em movimento. Eu respondo ao que vivi e vou sem rumo sabendo do conforto da hospedaria. Sei quanto te quero, em desvio sempre para ti.

AO LONGE

Deram-me medicação errada. Sem saberem foi melhor assim. Andei semanas à deriva. Desertei da instituição em transe. Não tinha sítio onde ficar para onde fui. Havia montanhas monstruosas, e grandes planícies. Era uma zona fria. Depois indicaram-me um quarto com duas pequenas camas. Um velho sofá e uma cadeira a desfazer-se. Um guarda-fatos torto. A janela não abria. Escadas de pedra levavam-me ao cubículo. Eram dias de estranheza. Eu era uma experiência. Decorria no meu corpo um ritual animalesco e doloroso. Tinha alucinações. Ouvia a tua voz na música ventosa e escorriam em mim as memórias das nossas noites. Via as coisas com os teus olhos e falava com ninguém como se ouvisses. Um voo solitário sem guia ou prescrição. Teria que procurar um terminal. Estava mergulhado numa intensidade de imprevisto a sugar dias narcóticos e agora vi as tuas novas botas em tons de azul.

FERIDAS

Hienas famintas cravam-se nos passos que tento dar. Na instituição anunciam-se testes lógicoencefálicos. Abstrações de horizonte pragmático. Cadáveres teóricos tentam ferir-me as livres associações. Desenho um risco com fracasso assegurado. Os corredores voltam a ser um circuito inflamado. Regressa o outono quente e doentio em sua inusual vestimenta. Os humanos empurram os dias sem interrogações. Mantém-se a ausência. Aquisições orientadas por usurários Implacáveis. Produtos infiltrados nos seres. Aqui os documentos colam-se às têmporas do indivíduo. Grelhas para anular opções. Saio das salas da administração com dias contados. Faço o caminho para a hospedaria para inventar caminhos. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS VI – por Lúcio Valium”

SOBRE A FELICIDADE E O SEU REVERSO – por M. H. Restivo

 

Vários assuntos há que retornam às nossas mentes como coisa não resolvida que precisa de nova ponderação para que os corações se acalmem e a vida siga sendo o que é. Para os mais práticos, será coisa fútil voltar a reflexões que se arrastam há milénios e que, tanta tinta corrida, não reúnem ainda consensos. Mas outros há que, como eu, se põem a fazer contas à vida, querendo saber do lucro e do prejuízo de tamanha labuta. Quem assim procede não poderá deixar de usar a felicidade como parâmetro, pois, no fundo, não é isso que tem mais valor? Alguns acusar-me-ão de ser hedonista, mas defendo-me dizendo que felicidade e prazer não são a mesma coisa, a felicidade é um conceito mais complexo que não exclui a dor dos seus domínios. Já o prazer não contempla a dor, são duas realidades diferentes que, como bem disse Burke, têm a sua própria escala. E, no entanto, sendo difícil definir o que nos faz felizes, já se chegou a uma ideia sobre a felicidade — a medida dos homens para sopesar a vida. Continuar a ler “SOBRE A FELICIDADE E O SEU REVERSO – por M. H. Restivo”

A HORA DOS BILTRES – por Manuel Igreja Cardoso

 

Os biltres andam por aí. Poderosos, impantes, arrogantes, inteligentes, mas, vazios de emoções, como lhes é próprio. Convenceram-se que mandam, e mandam efetivamente, cada vez mais. São ricos, muito ricos e enriquecem mais a cada dia que passa porque influenciam e dominam. Continuar a ler “A HORA DOS BILTRES – por Manuel Igreja Cardoso”

A ÁRVORE QUE EM MIM HABITA – por Maria Toscano

 

a árvore que em mim habita


se dá a ver
aos escutadores de horizontes
uma espécie de oficiantes da seiva
mestres do encantamento do ar
por onde ramos e raízes cintilam
ao ritmo da funda expiração.

a árvore que em mim lateja

se dá em pele
aos caminheiros da floração
uma espécie de relatores das asas
mestres do alinhamento do mar
por onde marés e ondas serpenteiam
ao ritmo da doce expiação.

a árvore que em mim crepita

se dá em tronco
aos abraçadores do cosmos
uma espécie de guardiães da serenidade
mestres do agenciamento do nada
por onde as folhas amarelecem e estalam
ao ritmo da muda de estações.

a árvore que em mim dormita

se dá em fruto
aos lavradores do silêncio
uma espécie de semeadores do frio
mestres do florescimento do vazio
por onde as cascas, aos poucos, se revelam
ao ritmo da pura fecundação.

.

© Maria Toscano.

Figueira da Foz. Nau, Pastelaria – Restaurante. 21 Março 2015.

♦♦♦

Maria (de Fátima C.) Toscano, Doutora em Sociologia. Docente Universitária, Investigadora e Formadora. Coach e Trainer em Programação Neurolinguística.

PALAVRAS AZUIS ACORDAM A MADRUGADA** – por Ponti Pontedura

1

Escreve tuas palavras de horror.
Mas não grites.

Não levantes a voz acima do poema.
Escreve em caligrafia fria teu pavor pálido.

Para onde vamos quando enlaçamos as mãos?
Sentei-me ao pé da árvore e me colei ao solo.
A gravidade me consola e lança a maçã no meu colo.
Gravitando em torno da palavra, o poema nos acolhe
em sua órbita mordaz. Continuar a ler “PALAVRAS AZUIS ACORDAM A MADRUGADA** – por Ponti Pontedura”

DESAFIOS GEOPOLÍTICOS E AMBIENTAIS- por Ricardo Amorim Pereira

Desafios Geopolíticos e Ambientais: o Futuro da União Europeia em um Mundo Fragmentado

Este é o primeiro artigo que tenho o prazer de escrever para esta prestigiada Revista, desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Perante este contexto, optei por adotar um enfoque prospetivo, procurando traçar possíveis cenários para o futuro da União Europeia e do mundo. Não me esquecerei da vertente ambiental.

Em primeiro lugar, como muitos já disseram, a União Europeia (UE) necessita de reconhecer que tem de sair, rapidamente, da alçada da proteção militar dos EUA para passar a assumir a sua própria defesa. Não há mais como evitar.  Com a vontade expressa de Trump de anexar a Gronelândia, vimos nascer perante nós um poder capaz, não só de não estar em sintonia com os interesses da EU como de vir mesmo a tornar-se hostil em relação a esta.

Julgo que os líderes da UE devem preparar-se para todos os cenários, até mesmo os mais gravosos: por exemplo, aqueles que passam por os EUA deixarem de ser uma democracia plena para passarem a tornar-se numa espécie de regime híbrido, como os existentes na Rússia ou na China. Este cenário, por mais impressionante que possa parecer, não deve, de modo algum, ser uma hipótese a afastar. Continuar a ler “DESAFIOS GEOPOLÍTICOS E AMBIENTAIS- por Ricardo Amorim Pereira”

CAPA EDIÇÃO 30 E FICHA TÉCNICA/Dezembro 2024

 

DIRECÇÃO: Júlia Moura Lopes

DIRECTOR ADJUNTO: Artur Manso

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COLABORARAM NA EDIÇÃO Nº 30,  DE DEZEMBRO DE 2024

CAPA  – CEM ANOS DE ATHENA
ARTIGO EM DESTAQUE:  “CEM ANOS DEPOIS DE ATHENA”, por Rui Lopo
COLABORARAM: A. Da Silva O, Ailton Lima, Alberto Andrade, Artur Manso, Athena Revisitada. Claudia Vila Molino, Danyel Guerra, Diniz Gonçalves Junior, Fernando Martinho Guimaraes, Francisco Fuchs, Henrique Duarte  Neto, Idalina Correia Da Silva, José Perez, Júlia Moura Lopes, Lúcio Valium/Paulo Lúcio, Manuel Igreja Cardoso, Maria Toscano, Moises Cardenas, Nicolau Saião, Ricardo Amorim Pereira,Rodrigo Garcia Lopes, Ronaldo Cagiano, Rui Lopo, Virna Teixeira.