COPA & FLERTE COM O SURREALISMO​​ – por Floriano Martins e Zuca Sardan

© JuliaML

Anos depois de haverem participado da última viagem do Trem Carthago, Olegário Trombeta e Anarquista Raspok se encontraram na Padaria Progresso para uma aguinha Xambuquira, gelo e raspa de tangerina. Ao fundo a TV Pegada Atômica transmite o jogo Brasil x Bélgica:

OLEGÁRIO TROMBETA | Enquanto vemos os jogos da Copa releio a poesia de nosso cubista  tropical Vicente do Rego Monteiro,  tão injustamente esquecido como quase tudo em nosso país…

ANARQUISTA RASPOK | Naqueles tempos, se você saísse de terno sem gravata, ou saísse da igreja no meio do sermão… era linchado. Meu pai ia de terno e gravata para o cinema.  Tarsila se torna assim a miss paraquedista da época.

OLEGÁRIO TROMBETA | Realmente surrealista entre os modernistas, além de Murilo Mendes, é o Raul Bopp. Acho que poderíamos incluir no Surrealismo, ao lado do Jorge de Lima, o Nelson Rodrigues e o … Barão de Itararé.

ANARQUISTA RASPOK | O sonho do Oswald Lelé era ser a encarnação do Bispo Sardinha. O mais perto que chegou foi exatamente a mordida na canela que lhe deu Tarsila. Bopp tem um bom livrinho em que narra o caos fumegante dos bastidores da Antropofagia. Todos comiam as canelas de todos.

OLEGÁRIO TROMBETA | A entrada de Tarsila pela janela deve-se provavelmente à sua fase antropofágica, quando mordeu a perna do Oswald. A questão é saber se… ele gostou.

ANARQUISTA RASPOK | Então agora, da antropofagia, só sobram,  de autênticos, os índios Caetés… Depois do churrasco do Bispo, os Caetés passaram a falar latim. Mas este fato foi oculto pelas autoridades coloniais por ordem expressa do Palácio  das  Necessidades. Foi um golpe cruel  na nossa nascente linguística.

OLEGÁRIO TROMBETA | Ficamos entre o tupi e o latim. Latimos enxotando a latinidade.  Com o tempo o latim virou pó.  Dissemos adiós a nosotros.

ANARQUISTA RASPOK | O Latim é um cachorro teimoso… Não nos deixa assim tão fácil.

OLEGÁRIO TROMBETA | O latim não nos deixa nunca. Nós é que nos abandonamos. Moramos em casas suspensas  sem quintal e não nos reconhecemos nos vizinhos. Nem temos com quem falar.  O tempo foge de nós.

ANARQUISTA RASPOK | Tenho plano maquiavélico… Vou comprar um papagaio, batizá-lo de Plotino… e deixá-lo de estágio num convento jesuíta com  severas instruções de que só falem latim com o plumoso… Depois de dez anos de estágio, eu o trago pro meu gabinete.

OLEGÁRIO TROMBETA | Prof. Plotino Currupaco pode ministrar cursos de latim relâmpago e tendo ele formação jesuística pode reformular a etimologia indígena herdada de nossos ancestrais antes da Grande Gripe que varreu da terra.

ANARQUISTA RASPOK | Após a Grande Gripe, quando a população já estava completamente dizimada, inventaram o Xarope Pylathos contra tosse, gripe e bronquite.

OLEGÁRIO TROMBETA | Então já era tarde e a única invenção que vingou foi a metáfora de circunstâncias que propiciou a irradiação das colônias liliputianas.

ANARQUISTA RASPOK | …e um bom discurso do Rei elogiando  o patriótico sacrifício da população.

OLEGÁRIO TROMBETA | Contudo, a população já se encontrava surda e o Rei, temendo que espiões registrassem as entrelinhas de seu discurso, o fez com a mão cobrindo os lábios.

ANARQUISTA RASPOK | A moda do Rei de tapar a boca pra falar pegou na tevê. Até os jogadores de futebol, durante e até depois do jogo, tapam a boca pra conversar.

OLEGÁRIO TROMBETA | Pura presunção, de ambos, de acharem que suas falas despertem algum interesse. O Rei no gramado sintético e o goleador em sua torre de acrílico, alheio a tudo.

ANARQUISTA RASPOK | O Rei encomendou uma roupa no alfaiate mago pra ficar invisível. Mas só a roupa ficou invisível. E o Rei… ficou nu.

OLEGÁRIO TROMBETA | O jogador encomendou uma torcida para gritar cada vez que ele fizesse gol, mas como o gol não saiu a torcida resolveu gritar mesmo assim…

ANARQUISTA RASPOK | O craque porém pegou o grilo, jogou-o contra a parede e ploffftttttt!!! sentou-lhe o martelo. O Rei, por sua vez real, escolado político, ainda se demora entre variadas soluções.

OLEGÁRIO TROMBETA | Ora, há um momento em que ambos se igualam, quando rei e goleador coçam atrás da orelha e descobrem que ali  mora um grilo surdo e sábio, que em morse bem pausado aos dois transmite o irremediável carteado da solidão.

ANARQUISTA RASPOK | Tamanha distância entre as duas reações propiciou o surgimento de uma geração a mais de grilos sábios que, a cada nascimento, punha na estreita mente do rei e do goleador uma culpa sorrateira por serem tão iguais e ao mesmo tempo tão distantes entre si.

OLEGÁRIO TROMBETA | As respostas se multiplicam sem eliminar as perguntas. Viva a pilha do gato.

ANARQUISTA RASPOK | Pilha dos sete gatos.

OLEGÁRIO TROMBETA | Há uma caixinha especial com metade de meia dúzia, que acompanha um jogo de felpudas almofadas. Uma afoita gatinha ronrona na foto da capa.

ANARQUISTA RASPOK | Petekas saidinhas fazem piruetas enquanto os editores cruzam palavras no tabuleiro da Baiana Leocádia…

OLEGÁRIO TROMBETA | revista Guapo Azteka … não deixa cair a peteka.

ANARQUISTA RASPOK | Os editores em geral não querem correr riscos.

OLEGÁRIO TROMBETA | Editores correm de riscos. E fazem uma risca limitando suas ações… Creio que há uma escola onde aprendem a arte do capitalismo sem risco.

ANARQUISTA RASPOK | certamente num armazém portuga…

OLEGÁRIO TROMBETA | Lá bem no fundo do armazém, por trás de uns caixotes velhos da melhor Cubunquira.

ANARQUISTA RASPOK | Lendo no Jornal dos Sports as mazelas do Vasco.

OLEGÁRIO TROMBETA| GOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

Floriano Martins (Brasil, 1957). Poeta, ensaísta, tradutor e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e a ARC Edições.
Zuca Sardan (Brasil, 1933). Poeta, dramaturgo e desenhista. Grande trapaceiro das galáxias, representa maior do Colégio da Pataphísica no Brasil.

Deixe uma resposta