AGORA, MORTA É INÊS – por Danyel Guerra

© Luís Guerra e Paz
      “Toldam-se os ares,/Murcham-se as flores;/
  Morrei, Amores,/Que Inês morreu”

 Manuel Maria du Bocage

Na plataforma rochosa de uma praia, algures no Universo, um fotógrafo clicka  closes da agreste,  severa paisagem. De súbito, a objetiva da câmera se vê velada por uma mão lutuosa, sinistra, nem tanto por ser a esquerda. Atrevida e inoportuna, a ponto de malograr o clichê. O visado não demora um átimo a adivinhar quem ousou a desfaçatez. Um ser fantasmático, fumos soturnos na expressão facial, se configura à sua frente. Continuar a ler “AGORA, MORTA É INÊS – por Danyel Guerra”

O VESTIDO DA MARILYN E OUTROS POEMAS – de Amélia Azevedo

O Vestido da Marilyn.

Quero um vestido como o da Marilyn.
Quero um vestido de roda para rodopiar e mostrar as minhas pernas.

Quero rodar à volta de mim e cair nos braços da leveza…
Amparada no espírito demente, que só quer a minha insanidade.
Invisível a todos com o meu vestido de roda, eu rodo e rodopio e ninguém vê as minhas pernas. Continuar a ler “O VESTIDO DA MARILYN E OUTROS POEMAS – de Amélia Azevedo”

TRIPÚDIO – por Luís Costa

Die Geburt des Dichters

Nunca pensei, sonhei ou desejei ser poeta
durante toda a minha juventude em vez dos livros ou da poesia
sempre preferi brincar aos índios e cowboys
ou assaltar ao meio da noite os laranjais
e os galinheiros dos vizinhos, ou ainda espreitar a vizinha,
quando esta se despia para fazer amor
e masturbar-me, masturbar-me (sim, sempre houve em mim
um gosto nato pela transgressão)

pergunto: poderá a fome de poesia ser explicada
cientificamente, será talvez uma herança genética?

que eu saiba entre os meus antepassados
nunca houve poetas, nem artistas, nem sequer homens cultos
houve, isso sim: assassinos, carrascos, esfoladores,
prostitutas, concubinas, mulheres obscuras e violentas
videntes, hipnotizadores de serpentes
também padres, mártires, santos e, sobretudo…
ah! sobretudo: loucos!

sim, entre os meus antepassados constam-se vários loucos
e confesso que também eu, por vezes, enlouqueço.

já passei alguns anos numa psiquiatria
porém todos os meus psiquiatras (foram muitos.
alguns deles suicidaram-se. outros enlouqueceram.)
dizem que a minha loucura é uma lúcida loucura.

vá lá saber-se o que é uma lúcida loucura,
mas talvez tenham razão, talvez a poesia seja um caso
de lúcida loucura.

English Garden

Aquele cadáver que plantaste o ano passado
no teu jardim já começou a despontar?
dará flor este ano?

                                                      T.S. Eliot

Foto de Paulo Burnay

Morreu no outono, um outono translúcido
como o da poesia de Trakl.

conforme o seu último desejo foi enterrado ao
canto mais belo
– onde crescem a rosas de Shakespeare –
do seu tão amado jardim,
o English Garden
onde costumava ler e escrever,
ler e escrever
até que os olhos lhe doessem de alegria.

enterraram-no com uma mão de fora
para que quando chegasse a primavera desse flor
e as andorinhas lhe cagassem em cima.

Realeza

Foto de Paulo Burnay

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
e chama-me teu filho
  Fernando Pessoa

O corpo (um odre de carne malcheiroso)
Mas ainda bem modelado

A ferida costurada
Os genitais encolhidos
O incenso subindo dos turíbulos
Aos brados

Assim lhe despiram a realeza
Assim regressou à noite antiga e calma.

La beauté

Je suis belle, ô mortels ! comme un rêve de pierre
Charles Baudelaire

Há uma tremenda beleza naquelas mãos grandes e peludas:
porquanto manejam habilmente os bisturis
que são astros cintilantes na podridão das vísceras.

Foto de Paulo Burnay

Elogio da loucura

Ao meu tio José (1940 – 1999)

O meu tio José, o louco. vejo-o
deambulando pelas ruas ao deus dará
sem outro destino que não seja deambular.

um Kentucky ao canto dos lábios.
o chapéu amarrotado…

o tio José, alto e elegante
como muitos dos homens da beira alta.
os olhos tão azuis… tão azuis…
quase germânicos.
lá dentro, o céu. não o céu de deus,
pois um louco não precisa de céu,
nem de deus, pois um louco não precisa
redimir os seus pecados.

mora na noite da luz. isento.
como as aves.

 Ressurreição

Luís Guerra e Paz

Depois do dilúvio
por entre as barcas e as casas submersas
onde agora o hálito de Deus mora
com a perna amputada às costas
regressou da morte

pois dizem que Deus não gostou do seu cheiro.

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Luís Costa escreve poesia e mais algumas coisas. Nasceu na sexta-feira santa de 1964. Tem alguns dos seus trabalhos publicados em revistas digitais como a Triplov e a Zunái, tendo também colaborado no primeiro número da revista internacional de surrealismo Debout Sur L’oeuf. Para além disso, pouco há a dizer. Ah, diz que a biografia do poeta é a sua poesia, pois, a seu ver, fora do poema o poeta não existe. Escrever poesia é para ele uma questão de ira e amor: uma violência amorosa. E também o contínuo suicídio do eu para que a obra se faça.

ODE FASHION – por Paulo Soares

Há novos desvarios no desalinhado armário da alma do poeta! Na peregrinação inócua de um centro comercial impróprio para consumo, calçou nos pés da mente um par de botas. Sapatos de essência negra, que em passos largos o levarão em sonhos aos caminhos da velhice. Sim, em sonhos e apenas neles! Na realidade, os bolsos que enfiou nas últimas calças, adquiridas na feira da balbúrdia, continuam sem fundos…

Nesse sonho agitado arranca da cama o espírito sisudo e agarra com força uma janela. Pelo vidro escancarado avista os jardins da noite e ouve. Escuta no breu os muitos meninos que ali brincam e espreitam. No queixume breve contam mimos ao escriba/sussurram-lhe ao ouvido beijos quentes trocados na copa das árvores, essas sequóias impenetráveis que já ali não estão, que alguém arrancou num ápice…

Em histeria pela ausência dessas sombras que lhe mentiam e o amedrontavam o poeta canta, salta e gesticula em gritos lancinantes e irreflectidos. Há sem dúvida novíssimos desvarios nesse singular Armário Fashion! Ode inesquecível a um roupeiro ultramoderno no qual se desarrumam em desordem camisas brancas de bolinhas pretas, camisas pretas de bolinhas brancas, casacos de fazenda azulada e cinza, camisolas grossas de uma gola alta impenetrável e muitos pares de botas. Sapatos negros e caros, de um plástico refinado que o fazem sentir mais jovem e cada vez mais belo, afastando-o irreversivelmente dos olhares rugosos e implacáveis da velhice…

Foto de Luís Guerra e Paz

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Paulo Soares nasceu em 1970, em Moçambique, na antiga Lourenço Marques, atual Maputo. “Escriba” desde que se conhece, é formado em jornalismo pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Exerceu funções como jornalista durante dez anos, no Jornal “O Primeiro de Janeiro”, colaborando em suplementos como “Artes e Letras”, publicação dedicada à cultura.

Participou com alguns textos poéticos nas páginas da Revista “Palavra em Mutação”. Escreve textos em prosa poética, não esquecendo o universo da literatura infantil. Tem alguns textos dedicados aos mais pequenos, realizando também workshops de jornalismo pensados para esta faixa etária.

A LUZ EM NÓS – por Rita Vargas

Foto de Luís Guerra e Paz

O relacionamento interpessoal é, talvez, das coisas mais importantes que temos de desenvolver ao longo de toda uma vida. O que muitas vezes não nos apercebemos é que, quando interagimos com alguém, temos uma escolha a fazer: afectar positivamente ou infectar negativamente o seu estado emocional.

Na maioria das pessoas, há uma intenção consciente de motivar, apoiar, entusiasmar, acarinhar, influenciar (…) positivamente cada uma das pessoas com quem se cruzam no caminho. Mas algures nessa jornada essa intenção perde-se.

Nas situações de stress e de conflito, nos cafés, no trânsito, na fila do supermercado, nos telejornais, nos programas de “mal dizer”, e mesmo no seio da família e no círculo mais próximo de amigos, assistimos a verdadeiros campeonatos de desencorajamento, de pessimismo e descrença.

São verdadeiras disputas, onde sistematicamente nos comparamos a outros e onde imperam a crítica, o ataque e a acusação constantes. E neste apontar de dedo, esquecemos muitas vezes de focar, não no problema, mas nas soluções e na disponibilização de recursos para aceder à realidade alternativa que gostaríamos de ver acontecer.

As pessoas queixam-se com frequência. Por tudo. Por nada. E ouvimos a todo o momento “é complicado” e “é melhor não arriscar”. E com isto, deixamo-nos infectar. A vontade mirra e a nossa luz interior vai-se apagando aos poucos.

Afastamo-nos mais e mais do nosso propósito, das coisas que nos dão prazer, do que mais tem significado para nós, dos nossos talentos pessoais e inatos mas, sobretudo, afastamo-nos da nossa essência. E quanto mais afastados da nossa verdadeira essência, maior é a nossa necessidade de aprovação pelo outro e maior é a nossa sensibilidade à crítica.

Aquilo em que nos focamos é, de facto, o que determina a nossa realidade. E, lentamente, fomo-nos focando no outro em vez de em nós, nos erros e nas falhas em vez de nas conquistas, nas áreas de melhoria em vez de nos êxitos e talentos. Passámos a infectar.

Jardel era um excelente goleador. A sua área de melhoria seria a defesa. Mas, por muito que treinasse, Jardel jamais seria tão bom defesa. E neste focar na sua área de melhoria, desperdiçamos todo um talento. Talento esse que, em conjunto com um excelente defesa, daria com certeza a melhor das equipas.

Fazemos isto nas empresas. Fazemos isto também com os que nos são mais próximos. Desaprendemos a procurar o melhor no outro e a impulsionar essa luz que brilha em cada um de nós. E de pirilampos, passamos a noite sem lua.

Mas porque a luz não é só das ruas de Lisboa, nem do sol, nem só das velas ou das frinchas das janelas, convido-o a deixar-se afectar. Deixe-se afectar pelo sorriso, pela boa disposição. Deixe-se afectar por lugares de magia, por filmes emocionantes e músicas cheias de energia. Deixe-se afectar pelo melhor dos outros e por pessoas inspiradoras que acreditam em si quando você duvida.

Somos todos valiosos e únicos. Só temos de redescobrir essa luz que brilha em nós e reaprender a expressá-la. Mostre os seus talentos, exprima os seus desejos, afirme-se como é e sinta-se orgulhoso dos seus erros. Espalhe a melhor versão de si mesmo e afecte.

Afecte todos os contextos onde opera e todas as pessoas com quem interage. Contamine. Faça magia. E de noite sem lua, volte a ser pirilampo, em noite outrora escura.

Rita Vargas é Karateca desde os 4 anos, licenciada em Ciências da Comunicação e especializada em Direito da Comunicação. Profissionalmente, percorreu os caminhos da Indústria Farmacêutica nas vendas e no Marketing.

Certificada internacionalmente como Master Practitioner em Programação Neurolinguística e como Coach International da ICC. Formada em áreas tão diversas como o Reiki, a Cristaloterapia e a Quiromancia. Sob o lema “Coaching The Heart ®”, tornou-se orientadora de desenvolvimento pessoal, especializando-se no “Coaching de Afectos Ò” e nos Relacionamentos.

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