UM CONTO de Federico Rivero Scarani

LA VERDADERA HISTORIA DE JAMES COOK Y DEL POLEN DE VENUS, por George Vancouver (1757-1798, compañero de Cook)

I

   Contaré una historia que no está registrada en la Enciclopedia Británica: hacia finales del siglo XVIII de Nuestro Señor Jesucristo, Australia había sido visitada por los ingleses; el continente inspiró a Swift para sus viajes de Gulliver donde Liliput aparece como una landa diminuta después del naufragio. Gracias a la cartografía realizada por el navegante portugués Vasco Da Gama, los británicos pudieron adentrarse en los remotos mares aun desconocidos. Continuar a ler “UM CONTO de Federico Rivero Scarani”

RENDIMENTO BÁSICO INCONDICIONAL (RBI) – por Fernando Martinho Guimarães

Óleo sobre Tela. “Mendigos junto ao mar” de Pablo Picasso, 1903.

Apesar dos muitos problemas e falhanços sociais, políticos e económicos que vemos por este mundo fora, é inegável o progresso nas condições de acesso a uma vida melhor de muitos dos nossos semelhantes.

Estes avanços são particularmente visíveis nos domínios da saúde, da educação, na melhoria dos rendimentos e, por via disso, nos ganhos ao nível da igualdade de oportunidades e da capacidade de escolha, da liberdade.

Contudo, esta evidência não nos autoriza a acomodarmo-nos num optimismo ideológico que, por definição, esconde que muitos desses problemas sociais e económicos persistem e, em muitos aspectos, tendem a agravar-se.

Desde logo, a natureza do trabalho que o futuro promete. A inteligência artificial e a robotização trarão, trazem já, mudanças profundas no acesso ao trabalho e, com isso, ao rendimento disponível.

A exclusão social e a pobreza, realidades de hoje e ameaças quase certas de amanhã, obrigam-nos a reflectir sobre instrumentos possíveis para as minimizar ou, desejavelmente, as anular.

Ora, um dos instrumentos que tem vindo a ser cada vez mais debatido é a ideia de um rendimento básico universal e incondicionado.

A ideia é simples: a sociedade, o Estado, transfere directamente para cada indivíduo uma determinada quantia em dinheiro e esta transferência é universal e incondicionada. Empregado ou desempregado, rico ou pobre, todos receberiam mensalmente e sem condições esse rendimento básico.

É preciso dizer que esta ideia tem sido já experimentada em programas-piloto com sucesso desigual.

A Finlândia fez a experiência, só para desempregados, tendo abandonado o programa. A Escócia pondera levar à prática a ideia e a Suíça chegou mesmo a referendar o projecto do RBI que foi rejeitado por não estar especificado de onde vinha o dinheiro e qual o valor a ser distribuído.

Como em quase tudo que tem a ver com as questões sociais e políticas, encontramos argumentos a favor e argumentos contra.

Todos conhecemos a sentença segundo a qual não se deve dar peixe a quem dele precisa, mas sim ensinar a pescar. O que a sentença não diz é que para pescar é preciso cana, fio, anzol e isco. E muitos de nós não temos nada disso!

O rendimento mínimo garantido ou rendimento de inserção social deveriam ser a cana, o fio, o anzol e o isco, mas não são. Os sucessivos e intermináveis programas de combate à pobreza e exclusão social também não parece que o sejam.

A transferência directa e incondicionada dum rendimento mensal permitiria eliminar muitas das entidades intermediárias que levam as prestações sociais às pessoas. Para além de eficaz, afastaria o estigma social que está sempre associado a um sistema providencialista e mesmo assistencialista.

É que a pobreza custa muito dinheiro, nos custos da saúde, no insucesso escolar, nas taxas de criminalidade. O RBI, dizem os seus defensores, permitiria, se não eliminar, pelo menos reduzir drasticamente as consequências negativas associadas à pobreza.

Por outro lado, os críticos apontam objecções de natureza ética e política.

O RBI é imoral porque promove modos de vida baseados no ócio e na preguiça e, ainda, porque não incentiva à procura de trabalho. É possível que assim seja, mas não é certo que seja assim!

A objecção de natureza política é mais forte: se não é obrigatório trabalhar, então isso é injusto, uma vez que para que uns possam viver na ociosidade, outros têm de trabalhar.

Talvez haja aqui alguma injustiça, mas um sistema justo é aquele que maximiza a igualdade de oportunidades e a liberdade. E a sociedade que temos hoje é, indiscutivelmente, profundamente injusta!

Ponta Delgada, Fernando Martinho Guimarães

♦♦♦

Fernando Martinho Guimarães (1960) Nascido transmontano (Alijó, Vila Real), foi na cidade do Porto que viveu até aos princípios dos anos 80. De formação filosófi­ca e literária, a sua produção ensaística e poética reflecte essa duplicidade. Com colaboração dispersa, no Letras & Letras (Porto), revista Vértice e Parnasur (Revista literária galaico-portuguesa), no Suplemento Açoriano de Cultura do Correio dos Açores, passando pelo jornal Horizonte (Cidade da Praia, Cabo Verde), tem dedicado a sua actividade ensaística à poesia portuguesa e galega. De entre os portugue­ses é de destacar a poesia de António Ramos Rosa que foi tema da tese de Mestrado em Literatura e Cultura Portuguesa Contemporânea. Da poesia galega, a sua ensaística tem incidi­do sobre a poesia de Luisa Villalta (I Jornadas de Letras Gale­gas de Lisboa, 1998) e a de Manuel António (Colóquio Escritas do Rio Atlântico, Funchal, 2001).

Publicou em 1996 A Invenção da Morte (ensaio), em 2000 56 Poemas, em 2003 Ilhas Suspensas (edição bilingue, cas­telhano/português), em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e em 2008 Crónicas.

O TERRAPLANISTA – por Francisco Fuchs

Até aquele dia, Emanuel jamais questionara o que seu professor lhe ensinava. Ao contrário de alguns de seus colegas, que com o passar dos anos aprenderam a temperar as lições recebidas em sala de aula com um grão de sal, ele sempre se deu por satisfeito com todas as explicações. Emanuel era inteligente o bastante para saber que sua inteligência não era privilegiada e, por isso mesmo, esforçava-se o quanto podia para assimilar o conteúdo das aulas. Ele não enxergava a si mesmo, no entanto, como um conformista; apenas não via razão para questionar verdades há muito estabelecidas. Se o verdadeiro não se torna falso, nem o falso se torna verdadeiro, por que perder tempo com vãs especulações? Assim, se era por aderir à verdade que o chamavam, por vezes, de conformista, e se a zombaria de que era alvo soava aos seus ouvidos como um elogio ao invés de uma ofensa, o que mais poderia fazer senão conformar-se? Continuar a ler “O TERRAPLANISTA – por Francisco Fuchs”

BESTIÁRIO DA SOMBRA E OUTROS POEMAS de Jaime Vaz Brasil

Bestiário da Sombra

A morte é um lobo à espreita:
imóvel, mudo e pulsante.
(No olho, o gelo põe cores
de quem domina, distante.)

A morte é serpente rasa
e nos vive – de pequenos –
destilando em nossas veias
o seu mais lento veneno.

A morte é um urso hibernante
que dorme, imóvel e quieto.
(Mas quando acorda, nos chama
para o seu sono secreto.)

A morte é um tigre faminto
na farta mesa das horas:
num salto breve, a surpresa
que nos alcança e abraça.

A morte é um rato inquieto
em seus caminhos esquivos.
(Finge que foge assustado,
mas rói o porão dos vivos.)

A morte é águia à espreita
em seu voo mais rasante.
(Com suas as garras, nos prende
e nos some, num instante.)
Ou morte é pássaro leve
ave branca, de outra escola
que nos flutua em silêncio
enquanto abre a gaiola…

♣♣♣

O Adeus

O adeus nasce do instante
entre a palavra e o passo.
(Mas cresce vazio de colo:
estreito, e com todo espaço.)

E nos ensaia seus gestos
seus rituais, suas danças.
É tão esquivo de corpo
que mão nenhuma o alcança.

O adeus nos alimenta
entre a memória e o fato.
(Mas come além do que é boca:
é a fome longe do prato.)

E vive assim, desde cedo
na pele de toda gente.
Chega descalço ou de gala,
e nos faz ave ou semente.

O adeus planta uma sombra
no que seria ou que foi.
(Por que o olho da saudade
só abre um tempo depois.)

Ele é como se, na escada,
a perna fosse o tropeço.
Por isso, prende e liberta
e é sempre fim e começo.

♣♣♣

Coração de Milonga

Enquanto o tempo desenhava
teu rosto dentro do meu corpo,
saudade em dó menor cantei mil vezes.

Falei de nós, um tanto triste
e um bandoneón chorou comigo:
amor, quando é amor, não morre nunca.
(E pra fugir de cada sombra
da solidão, que erguia os olhos,
me disfarçei na dor de um sustenido).

Amor, quem sabe um dia desses
no espelho da milonga eu veja
teu beijo renascido num segundo.

Por ti, amor, cantei o mundo
em noites longas que aprendia
a amar em sol maior
e tempestades…

Amar nas ruas, bares, campos
amar em solos de guitarra.
Amar com toda voz
e em silêncio.

Amar como só poderia
meu coração de milonga.

Quem sabe ler paixões humanas
na vida, sempre tão estranha,
se o amor as vezes fecha toda casa?
Andei por mares, vales, luas
andei em pedras, muros, portos,
amor, varei coxilhas do avesso.
(E andei no rastro do teu nome
no meu cavalo de brinquedo
colhendo a flor azul que me pedias).

Amor, quem sabe um dia desses
na alma da milonga eu veja
a face calma e breve das respostas…

Por ti amor cantei o mundo
em longas noites que aprendia
a amar em sol maior
e tempestades…

Amar nas ruas bares campos
amar em solos de guitarra.
Amar com toda a voz
e em silêncio.

Amar como só poderia
meu coração de milonga.

♦♦♦

Jaime Vaz Brasil  Poeta gaúcho, com 7 livros públicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

 

O NARRADOR NUM DOURADO DOMINGO DE OUTONO – por Luis Bento

A vida transformara-se numa obsessão entre paixões e dor a correr no sangue, rio de cicatrizes com a felicidade a desvanecer-se de noite, no lento ronronar do frigorífico estafado pelos vinte anos de uso permanente, a lâmpada interior a tremelicar por mau contacto, a que era preciso dar umas cacetadas, com bolor entranhado nos cantos e meia cebola cortada, colocada no compartimento dos ovos para absorver os maus odores. Tirava uma ou duas fatias de presunto da embalagem de plástico e comia como um bruto, um metro e oitenta de vontade, um monólito que gostaria de criar um narrador para a sua vida. Sempre achara piada aos narradores que sabiam tudo o que ia dentro da cabeça das personagens desamparadas numa espécie de redenção, das alegrias à infelicidade com hipocrisia e compaixão à mistura, alguém que falasse por si, desenvolvesse os episódios e as cenas e lhe desse alguma unidade interna. Continuar a ler “O NARRADOR NUM DOURADO DOMINGO DE OUTONO – por Luis Bento”

LA POESIA EN EL CANTAR DE LOS CANTARES – por Moisés Cárdenas

La poesía es arte milenario, misterio, espíritu sensible, llamarada inmortal. La poesía está en el universo. En los planetas alrededor del sol, en los millares de estrellas, en los símbolos escritos en las cuevas, en los jeroglíficos de las pirámides, en los antiguos pergaminos, en los rollos del Mar Muerto, en la puesta del sol, en un eclipse lunar, en el beso de la amada. Continuar a ler “LA POESIA EN EL CANTAR DE LOS CANTARES – por Moisés Cárdenas”

“ANUNCIAÇÃO CAVALCANTI”, DE DONATELLO – por Rosa Sampaio Torres

Introdução

Recentemente tive oportunidade de ultimar artigo referente às capelas da antiga família Cavalcanti em Florença.

Nesta ocasião inventariei  importantes peças artísticas encomendadas por esta importante familia florentina. Entre essas peças de arte sobressaíram na ocasião três delas, magníficas – obras que considero historicamente significativas, merecedoras de trabalho detalhado para um publico ampliado – até mesmo visitação especial quando em viagem à Florença. Nesse presente artigo apresento uma delas. Continuar a ler ““ANUNCIAÇÃO CAVALCANTI”, DE DONATELLO – por Rosa Sampaio Torres”

CRISES EXISTENCIAIS – por Teresa Escoval

Quem é que nunca deu por si a pensar no porquê da sua existência?

As crises existenciais verificam-se em todas as etapas da nossa vida (infância, adolescência, maturidade e velhice).

Estas crises surgem pelas mais variadas razões: sexualidade, insucesso escolar, problemas familiares, conflitos com o grupo de pares, com o(a) parceiro(a), dificuldade na tomada de decisões importantes, qualquer doença, algum acidente, entre outros.

Na verdade, qualquer tipo de problema considerado grave, pode conduzir a uma depressão ou a uma crise existencial. A pessoa que a vive, sente-se confusa, perdida no meio de tantos problemas.

Gera-se assim um conflito interior em que a pessoa se sente incapaz de ultrapassar essa barreira. A sua vida perde a cor e a pessoa perde o interesse por tudo, inclusive pelos seus hobbies preferidos, amigos actuais, família, trabalho e começa a preferir ficar isolada. Assim, esta sua perda de discernimento e desmotivação, interfere na vida da pessoa, podendo mudar até a maneira como pensa e age.

O pensamento começa a estar confuso, pois os sentimentos estão exacerbados. Mas, acredito que a pessoa tem consciência do seu sofrimento e do sofrimento que causa aos que estão próximos dele. Porém, não consegue reagir a essa tendência interior, pois só encontra culpados para justificar a “tempestade emocional” que se apossou dela.

Fica no drama da escolha e encara a sua vida com grande desespero! Considera-se uma vítima das circunstâncias, e isto, traz-lhe um profundo vazio, que não pode ser preenchido por qualquer coisa, a não ser, pela decisão de se auto-reformular, de fazer de si um projecto da sua própria determinação.

Na verdade, qualquer ser humano, tem de aprender a retirar satisfação de todos os momentos presentes da sua vida. Pois no seu dia-a-dia, terá decididamente prazeres e alegrias que deve agradecer por viver.

Também importa saber que a vida é feita de ciclos e que cada um nos dá aprendizagens diferentes. Tal como na natureza há ciclos (o ciclo da água, do oxigénio, do carbono, do nitrogénio etc), na psicologia também.

Temos várias fases na vida que, na verdade, são ciclos em si. Têm começo, meio e fim, precisam ser abertos pelos motivos certos e fechados quando se esgotam verdadeiramente. Caso contrário, deixam marcas psicológicas que teimam em continuar a doer.

Os ciclos psicossociais são abertos pela idade (infância, adolescência, maturidade e velhice), pelas relações (namoros, casamento, família, amigos) e pelas actividades (escola, universidade, empregos). E nunca passamos de um desses ciclos para o seguinte impunemente, cada vez é uma “crise”.

Entretanto, se por um lado não temos como fugir dessas “crises”, por outro, aprendemos com elas, amadurecemos e evoluímos. Uma crise é um momento ou fase difícil em que factos, ideias, status ou situações são questionados e levados a mudar. Crise significa ruptura, perda de equilíbrio.

Mas, as crises podem passar de momentos perigosos e decisivos, para oportunidades de crescimento, de transformação para melhor. Só que, para isso, é necessário um certo grau de amadurecimento, que nem todo o ser humano é capaz de alcançar.

Voltando a falar dos ciclos, temos que lembrar que, por definição, eles se completam em si mesmos. Um ciclo só se resolve quando se fecha. Quando isso não acontece, levamos resquícios mal resolvidos para o novo ciclo que já está a abrir-se e que acaba sendo prejudicado pela não-resolução do ciclo anterior.

Actualmente há psicólogos que defendem que entre a adolescência e a maturidade existe a sub-fase dos “Anos de Odisséia”. É justamente nesta idade que o jovem enfrenta a sua primeira crise existencial diante do imenso conjunto de oportunidades que estão à disposição de sua vida.

E entre a maturidade e a velhice foi colocada mais uma sub-fase, chamada de envelhescência. É a adolescência do adulto, que não quer ficar velho. Teima em querer ser mais produtivo do que alguma vez foi, ter uma saúde “de ferro”, ou então controlá-la e continuar a fazer planos e mais planos irreverentes. Só que, assim como o adolescente, ele tem dúvidas, muitas dúvidas sobre o futuro.

O adolescente não é mais uma criança, mas ainda não é um adulto, apesar de achar que já é. O envelhescente ainda não é um velho, mas também já não é simplesmente um adolescente, apesar de achar que ainda é. Crises!

Mas, o que importa perceber na crise é o encontro das soluções. Só assim sairá compensado da mesma e fazer a escolha certa

A vida acontece sempre no presente. O passado deve servir de aprendizagem: olhar onde errou, mudar a partir daí. Não se pode voltar no tempo e fazer um novo começo, mas pode-se recomeçar e fazer um novo fim.”

Julgo que para aprender a ser feliz apenas tem de aprender a aperfeiçoar-se a si próprio. Utilizando as sábias palavras de Wayne Dyer “Você não é um ser humano que está a passar por uma crise existencial/espiritual. Você é um ser espiritual que está a viver uma experiência humana. Logo, lembre-se que o minuto anterior já não é real e o que chega daqui a pouco ainda não existe. Se existe algo de valor incomparável é o tempo presente.”.

Por último, e porque acredito ser de extrema importância sentirmo-nos completos, veio-me à lembrança o poema de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a Lua toda
Brilha, porque alta vive.

♦♦♦

Teresa Escoval é Pós-Graduada em Gestão de Recursos Humanos, Licenciada em Sociologia, Bacharel em Gestão de Empresas. Desempenhou vários lugares de chefia na área Financeira e Gestão de Recursos Humanos. Desde 1994 que gere e desenvolve um negócio próprio na área do emprego, diagnóstico/desenvolvimento organizacional e formação. Mantém colaboração regular, desde 2007, com várias revistas, onde são publicados artigos sobre diversas temáticas, que é autora.

JUNG E OS SERTÕES – I PARTE – por Marilene Caon

Chapada Diamantina – BA  – Fotografia de André Dib

ESTUDO INTERPRETATIVO DE “OS SERTÓES” DE EUCLIDES DA CUNHA SEGUNDO O REFERENCIAL TEÓRICO DO PSICANALISTA CARL GUSTAV JUNG

1ª PARTE

Dividido em três partes, a Terra, o Homem e a luta, o livro encerra uma estrutura dialética em que o “martírio secular da Terra” sobre aquele que é “antes de tudo um forte” pode ser lido assim: a Pátria martiriza o povo até o ponto emj que explode a luta.

Essa divisão interna é influência do historiador francês Taine, o qual formulou no seu livro de 1863, “Histoire de La Littérature Anglaise”, a concepção naturalista da história, teoria na qual são três os fatores determinantes: meio, raça e momento. É também desse mesmo historiador a citação que expõe a ideia de que o “narrador sincero” deveria ser capaz de se sentir como um bárbaro entre os bárbaros, um antigo entre os antigos, para ter tido a capacidade de escrever com tal realismo e emoção. Ou seja, ter tido a capacidade de vivenciar a experiência para poder reter em seu intelecto a forma. Continuar a ler “JUNG E OS SERTÕES – I PARTE – por Marilene Caon”

HONRA E RECONHECIMENTO – Teresa Escoval

Foto de Beatriz Leite/beatriz.hmleite@gmail.com

Hoje escrevo para Mim e para Todas as Mulheres E Homens deste Mundo. Para que as mulheres reconheçam o masculino que têm em si e os homens reconheçam o feminino em si.

A todos que hoje me lêem, deixo aqui algumas perguntas que devemos fazer a nós mesmos, necessárias aos que já estejam dispostos a crescer, amadurecer e desenvolverem-se: Continuar a ler “HONRA E RECONHECIMENTO – Teresa Escoval”

TRÊS POEMAS DE Nuno Higino

UMA MANEIRA DE DIZER O QUE NÃO SE ENTENDE

Precisava duma casa onde coubesse a minha vida toda, soalheira,
abrigada da invernia, distante dos lugares familiares, onde coubesses tu,
uma árvore ao pé, móvel e literária, imprecisa como uma lâmpada
de névoa, e ser ela o jardim todo e o jardineiro. Já vou suportando atrasos,
partidas adiadas, quem não parte também regressa, regressaremos todos,
um dia dentro duma carruagem a chiar numa estação desconhecida,
a desembaciar o vidro com a mão, porque havemos de chegar sempre a algum lugar? Continuar a ler “TRÊS POEMAS DE Nuno Higino”

CONTOS MÍSTICOS de Moisés Cárdenas

 EN ALGÚN PERGAMINO

Siempre sentí curiosidad por Las Santas Escrituras y de saber sobre las profecías, los cumplimientos históricos, el conocer sobre la vida de los profetas,  aprender la etimología de las palabras, sus significados ocultos, los números y las señales. Desde niño, mis padres me leían pasajes de La Biblia y me mostraban el vasto universo en noches brillantes de estrellas.

Cierto día, asistí a un encuentro  bíblico que se celebraba en un amplio salón de una casa antigua. En el centro colgaba una lámpara grande con bellos cristales y faroles de diversos contornos, que encendida, emitía mágicas luces de colores. Continuar a ler “CONTOS MÍSTICOS de Moisés Cárdenas”

das presilhas do coração – por Maria Toscano

1.

 os homens atam as presilhas do coração
ao cós da promessa de maternidade eterna.

acreditam, os homens, ser sua grandeza
permanecerem sempre filhos apaparicados e

dispensados de ser autónomos e maduros.

nem a todos toca a fábula diabólica.
homens serenos plenos e acertados com lágrima e riso
de ombros e afectos largos/ de peito e siso
continuados inteiros na posição de caminhar Continuar a ler “das presilhas do coração – por Maria Toscano”

“Flânerie”, a exposição de Leonel Cunha

“Flânerie” foi o mote que Leonel Cunha deu para este amostra da sua obra,  que teve início no dia 13 de Julho e em cuja inauguração Athena esteve presente.

A exposição continuará em exibição  até ao dia 13 de Setembro, no Espaço Atmosfera M, Porto,  até 13 de Setembro. A entrada é gratuita.

Continuar a ler ““Flânerie”, a exposição de Leonel Cunha”

CRUZEIRO SEIXAS E ANGOLA – Jonuel Gonçalves

A primeira grande exposição de desenhos do conhecido artista português Cruzeiro Seixas ocorreu em 1953 em Luanda, cidade onde viveu 14 anos. Foram 48 desenhos. Quatro anos depois fez outra, sempre na capital angolana e, um desses desenhos foi-me por ele oferecido em 1959 ou 60, transformando-se em símbolo do apoio que deu ao nosso grupo estudantil clandestino.  Continuar a ler “CRUZEIRO SEIXAS E ANGOLA – Jonuel Gonçalves”

MARIA SALVADORA – Joaquim Maria Botelho

Desceu do Thalys, o trem de alta velocidade, na estação de Amsterdam. Pensava ainda no letreiro eletrônico que indicava 399 quilômetros por hora, um assombro para quem nunca havia ultrapassado 120. Saiu para a rua e deu de cara com um imenso estacionamento de bicicletas, ao lado da ferrovia. Milhares, estacionadas numa confusão de rodas e guidões, uma aparente visão do caos urbano amontoado. Tentou imaginar a lógica dos ciclistas na identificação da própria bicicleta, na hora de voltar para casa. Ao lado, o braço de mar sobre o qual se estendia a pequena ponte que conduzia ao centro da cidade, com suas flores, canais e complacências. Continuar a ler “MARIA SALVADORA – Joaquim Maria Botelho”

O QUE SIGNIFICA (MAL) LER E ESCREVER? – por Francisco Fuchs

A ambigüidade no título deste pequeno artigo é deliberada. Sua construção confunde, ou melhor, complica três possibilidades: ele pode referir-se a gente que lê e escreve mal; a gente que mal lê e escreve; e, por omissão do parêntese, aos atos de ler e escrever em geral. Também há nele uma pontinha de provocação: afinal, é bastante provável que, nos dias de hoje, semelhante título saiba ao leitor não apenas ambíguo, mas francamente antipático. Sim, há gente que pouco se interessa pela leitura e pela escrita, e gente que, embora pratique rotineiramente as duas atividades, interpreta mal o que lê e não consegue dar ao seu pensamento uma forma, senão elegante, ao menos fluente e precisa; mas apontar a essas pessoas um dedo acusador não resultaria numa espécie de elitismo excludente que nenhum bem pode fazer a elas e à sociedade? Continuar a ler “O QUE SIGNIFICA (MAL) LER E ESCREVER? – por Francisco Fuchs”

UM ELOGIO DA VIAGEM – por Fernando Martinho Guimarães

Todos nós conhecemos a história. Abel e Caim são irmãos, e Deus dedica-lhes uma afeição merecida. Abel é pastor, Caim, agricultor. Este fixa-se na terra e, com o seu trabalho, tira dela o que de melhor ela pode dar. Aquele, Abel, o pastor, percorre os campos, não tem lugar fixo e vai para onde o rebanho o leva. Ambos honram Deus com as suas oferendas. Mas Deus demora mais o seu olhar sobre Abel, o pastor. Continuar a ler “UM ELOGIO DA VIAGEM – por Fernando Martinho Guimarães”

“OSCURIDAD Y LÍRICA EN LOS POEMAS SUICIDAS DE JULIO INVERSO” por Federico Rivero Scarani

«Se llega a un momento en que la luz del rostro basta para

todas las tinieblas», (Julio Inverso, Diario de un agonizante,

(Poema XI, “Diario de un agonizante”, 1995).

Ha pasado más de una década y media de su desaparición física y aun no existe una «matriz» de lectura crítica que aborde los libros editados. La poética de Inverso se puede encontrar en Cielo Genital (2000), sin embargo dicho libro que salió a luz después de la muerte del poeta está incompleto, no importa detallar aquí cuáles fueron los motivos para recortarlo. Si bien Cielo Genital se constituye como la poética, elaborar esa matriz crítica debería partir de una lectura horizontal de los libros precedentes, buscando y hallando los temas y tópicos manejados. Continuar a ler ““OSCURIDAD Y LÍRICA EN LOS POEMAS SUICIDAS DE JULIO INVERSO” por Federico Rivero Scarani”

El ALARIDO ESPECULAR DE LOS FRAGMENTOS – Enrique Santiago

 

Tifón despedaza a traición a Osiris y dispersa sus miembros aquí y allá,

pero la ínclita Isis los ha reunido.

Atalanta Fugiens

La vida –intensa y consecuente– de Alfonso Peña, se ve reflejada en su obra plástico-poética, donde se aprecia una mirada profunda de la realidad que se ve confrontada reiteradamente con una propuesta o contrapunto, que se sostiene en el discurso surrealista, el que se manifiesta con la suma de diversos elementos visuales, que van desde el recorte azaroso –reconocido como collage– ensamblaje, hasta la intervención pictórica que se soporta en gran parte en la mancha que surge desde el automatismo psíquico.  Alfonso Peña es un recolector asiduo de impresiones, su ojo deambula por la trama vital en busca de aquellos “objetos encontrados” que el azar dispone en su camino para ser capturados, digeridos y usados para componer su trabajo bidimensional, el cual, requiere en gran porcentaje de una propuesta que reúna variados elementos que en su sumatoria sean capaces de totalizar e integrar de forma lo más completa posible su rica mirada interior, generando de esta manera, dos universos que se manifiestan en el soporte, una realidad exterior dura y cruda  que se conjuga con otra interior que desea transformar lo conocido y que al yuxtaponerse inquietan y hacen reflexionar al espectador, ya que se observa la ferocidad de la realidad impuesta por años de abuso social, su mediocre banalidad, y su racional y violenta sinrazón, la cual es abrazada, intervenida o acosada por la manifestación amorosa del yo interno, donde este último propone una mirada distinta, una alternativa a la condición actual del ser humano, que nos violenta y reprime- desplegando de forma transversal –y centrífuga según la nominación que le dieron al libro que crearon en conjunto con Amirah Gazel– toda suerte de imágenes, manchas y escrituras en pos de expresar un mensaje poético-visual que aúlle desde el ser interior abriéndose paso por un paisaje que le es hostil y ajeno, porque cada obra elaborada se constituye en una denuncia de aquella realidad que nos molesta, pero que también es un despliegue de consideraciones de lo “maravilloso”, el cual está circunscrito fuera de nuestros márgenes conocidos, y que vale la pena tener en cuenta como alternativa para ensanchar la realidad, abriendo así la frontera que mantiene oculta a la otredad, para ser incluida como parte nuestras vidas. Continuar a ler “El ALARIDO ESPECULAR DE LOS FRAGMENTOS – Enrique Santiago”

PHELPS – por Duarte Klut

Ultimamente, Phelps andava muito taciturno. Estranhos pensamentos perturbavam-no.

Nos dias cinzentos, a sua depressão acentuava-se. Estava sempre intratável. Tudo o irritava. Esquecia-se de tudo e, com frequência, perdia a noção do tempo real. Falava sobre coisas do passado como se estivessem a acontecer no momento. Fisicamente aparentava estar bem. Não tinha a mínima consciência do seu declínio mental.

O homem que fora — culto, sabedor, activo, “bon-vivant” e óptimo companheiro, às vezes folgazão —, era agora um espectro de si próprio. Já não sorria, nem ria. O seu olhar, ora  mortiço, estava sempre alheio a tudo. Fechava-se, cada vez mais, em si próprio… Não lhe interessavam as viagens, as leituras, a música, o teatro e demais manifestações culturais e artísticas, ou seja, tudo o que sempre apreciara. Também  não ia aos repastos com os amigos.

Presentemente, era como um vestido de “toilette” que se transformou em farrapos. Sim, Phelps era um farrapo. Todos os que o conheciam e com ele conviveram sentiam um mal-estar com a sua presença. Era um desconhecido! Passava grande parte do dia sentado, olhando sem ver, cogitando e construindo, mentalmente, impossíveis. O seu ponto de partida eram as recordações da infância e adolescência. Lembrava-se do Principezinho, com a sua rosa e, se porventura, colhesse uma, imaginava-se a voar pelo espaço e a observar a Terra lá do alto; nessas ocasiões, esboçava um sorriso… Quem o visse diria: ali está um homem feliz.

Mas se à memória vinham os heróis de Dickens, depressa caía no habitual mutismo. Outras vezes inseria-se no mundo de Sherlock Holmes e a sua expressão ganhava um tónus de seriedade e concentração. Raramente, escutava Beethoven, Mozart, Liszt, Bach, Tchaikovsky, Verdi ou Chopin, nos poucos momentos em que estava menos desassossegado. Adorava Paganini. O som do violino era para ele tonificante: sempre fora o instrumento que teria desejado saber tocar. Muitas vezes relia alguns clássicos nacionais e estrangeiros. Os romances americanos e sul-americanos eram os  seus preferidos. Mas a poesia  tinha um particular destaque e, sempre que lia um poema, lia-o em voz alta. Porém, estes breves momentos de relaxe davam lugar à abstração da realidade. Enclausurava-se no seu mundo peculiar ou, antes, apartava-se do real, do presente. Então ficava apenas sentado, hirto, olhando o vácuo, onde nada é visível. Nestas ocasiões transformava-se no espectro que era. Phelps vivia uma vida diferente, tão diferente que ninguém, nem ele, entendia, ou percebia.

O declínio mental iniciara-se há quinze anos. Doenças, faltas de dinheiro, perda de qualidade de vida, de entes queridos, desgostos e a descrença, cada vez maior, num futuro sempre adiado, contribuíram para o turbilhão de pensamentos que o assolava.

A sociedade actual, decadente de valores e apologista dos bens materiais, desgostava-o e causava-lhe grande sofrimento, de tal modo que, descrente de tudo, se tornou no farrapo que  agora era. Este processo ao longo dos quinze anos, teve como resultado um estado de catatonia. Já não filosofava. Não lhe interessavam as questões metafísicas. Já não sabia pensar, nem interrogar e discutir problemas que  moviam as suas capacidades de análise e de síntese. Empregando uma linguagem de computador: deletara-se.

Dormia pouco; quase não comia. O seu lema era recordar, recordar, para fugir ao presente e não abordar o futuro.

Imaginava-se encarcerado num cubo. Esse cubo era transparente. Phelps via tudo, mas não era visto. O seu mundo fechado era muito  próprio. Único.

Porém…

Num certo dia cálido de Verão, a luz solar encadeou-o e, segundo ele, teve uma visão que mudou radicalmente o seu comportamento e forma de estar.

Já não tinha corpo e flutuava no imenso espaço estratosférico. Percepcionou o Universo e  observou todos os planetas como infinitésimos pontos. Só o brilho das estrelas cortava a escuridão que o rodeava. Em silêncio absoluto, as suas percepções permitiram-lhe apreender que a única  verdade real estava no  seu pensamento. Pouco importava se aquilo que  via existia, ou não. Mas se  ele via , então o seu mundo era real! E assim prosseguiu os seus dias, olhando para o infinito, sem falar, sem comer. Existia. Era um zombie pensante.

Numa manhã chuvosa, viu seca a rosa do Principezinho. Sorriu, acenou para o vazio e… feneceu!

Encontram-no passados dois meses. Seus ossos adivinhavam-se debaixo da pele ressequida e roxa mas, no rosto, notava-se o sorriso. Afinal Phelps partira feliz. Alcançara o seu Nirvana, via pensamento, que o alimentou nos seus  longos anos de Peregrinação.

Alcançou a felicidade pela via da abstracção/observação de uma realidade para além do Real!

♦♦♦

Duarte Manuel da Silva Passos Klut (Duarte Klut), nasceu em Lisboa a 20 de Abril de 1942.
Professor. Licenciado em História, possui os graus de Mestre pela FLUP e de Doutorado pela U. Gama Filho, Rio de Janeiro. Aposentado desde 2004.
Tem publicadas as seguintes obras:
Um quase Diário de um quase Nómada (2005)
Versos…Perverso (2008)
Lucubrações — estados de Alma (2011)
Esmerilhando… Mundividências (2013)
Aporias (2014) e
O Inquieto e as utopias possíveis ( 2016)

AZIMUTES – por Diniz Cortes

Foto de Diniz Cortes

Rolam velas de lume no limbo do mar….
Entrego-me ao sol , despido e sonolento na manhã já alta…
Despejo com avidez o cinzeiro da noite anterior e revejo-me na busca do azul…
Empalideço ao notar que as nuvens são reais como eu….
Desenho na areia o meu nome talvez em busca de mim…
Alinho-me a Oeste , procurando a luz que já empalidece…
Afundo-me no sonho desperto de ser como sou…
Dobro o jornal e desejo-me dentro de mim…
Adormeço acreditando que as nuvens se despedem…ao longe…

♦♦♦

Manuel Diniz Gaspar Cardoso Cortes. Médico – Chefe de Serviço de Medicina Geral e Familiar e Terapeuta Familiar pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar.
Fotógrafo de Natureza e Vida Selvagem desde 1980. Prémio Carreira do FAPAS e C. M. Castelo de Vide em 2016 pelo trabalho desenvolvido nesta área.
Aluno de Mestrado em “Arqueologia pré-Histórica e Arte Rupestre” UTAD – 2016/2018
Autor dos livros ”Momentos ao Natural” (2007) e “Viagem” (2015)

MARÍLIA SEM DIRCEU, MARÍLIA COM DIRCEU** – por Danyel Guerra

 

A juventude é uma doença

que se cura com o tempo”   

George Bernard Shaw

Ao descerrar as cortinas da janela, devassando o olhar para o belo horizonte, Maria Doroteia dissipa num ápice a boa disposição com que saltara da cama. Imaginava que a luz de um sol radiante seria portadora de bons auspícios. A visão de uma manhã brumosa, nebulosa, umedecida por gotículas de orvalho, precipita-lhe súbita ansiedade. O outono impõe sua lei. E uma espessa lubrina* já atapeta, em tons cinzentos, o caminho do agreste inverno.

Como os caRiocas, esta mineira também não gosta de dias nublados. Mas quem gosta?! Além do mais, o nevoeiro tem o impertinente condão de avivar em sua lembrança a imagem, ainda nítida, de um esperado Desejado.

A escassos metros, envolto no drapejado de lençóis e cobertas do leito, repousa um livro, páginas abertas numa das estâncias do canto “mais doce, alegre e deleitoso” da epopeia. As artimanhas do aleatório não poderiam insinuar aconchego mais propício.

Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava! (1)

Não, hoje não vou visitar titia. O clima não está nada convidativo. Fico por aqui, lendo, fazendo umas arrumações nas velharias, decide, apertando o cinto do penhoar* azul violetado, enquanto se aproxima de um escrínio de porcelana, que costuma usar como pesa-papéis. Antes de levantar a tampa, pega numa folha e escreve uma solitária frase.

Ao encarregar Chiquinho da entrega da mensagem, lembra ao moleque que deve ser veloz como Mercúrio. Isto, apesar do escravo não trazer calçadas sandálias aladas, nem coisa que se pareça. Lacônico, o recado tem como destinatário o tenente-coronel dos auxiliares Manuel Teixeira de Queiroga, um buliçoso homem de negócios que mora mesmo em frente da casa da tia Ana Cláudia, à Ladeira da Praça, no centro de Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto.

Na sede da Capitania das Minas Geraes não é só de manhã que uma névoa, tingida de chumbo, inibe a aparição da luminosidade solar. Nas minas, veios, córregos, riachos e ribeirões, haurido o ouro, a autenticidade cede o passo à contrafação. Do mesmo modo, nas relações humanas, quando a falsidade suplanta a verdade, a hipocrisia e a intriga emudecem a franqueza e a lealdade, a insídia tende a impor sua supremacia.

Espalhados pelos corifeus da maledicência, os boatos escalam as precipitadas ladeiras do Pilar de Ouro Preto. Subindo ágeis as calçadas e descendo sem freio morros e outeiros, boatos ciciam que, há mais de um ano, Maria Doroteia apostara suas fichinhas amorosas num idílio secreto com um reinol*.

Reinol que, sublinhe-se, o ex-noivo de Doroteia, o juiz Tomás “Dirceu” Gonzaga, apelidou de “Roquério” e destratou, com irrisória verve, n’ As Cartas Chilenas. Quando escreveu tão jocosos versos, o lírico vate, tornado cronista satírico, parecia estar adivinhando a proeza que o arguto contratador congeminava, armado dos trejeitos de um D. Juan provinciano.

Se certezas intuísse, o poeta não hesitaria certamente em soltar a furiosa Megera no caminho do mal-ajambrado* rival. Na realidade, enquanto o bardo Dirceu padecia, como um Prometeu, as agruras do cárcere, o lisboeta, encostado ao parapeito da janela de seu sobrado*, vestia a casaca do galante. E insistia, persistia em cortejar a ex-nubente, sempre que a formosa subia ou descia as escadas da casa da tia.

Mas que ninguém o acuse de ser um fauno depravado. Nos seus viçosos vinte e poucos anos, a moça já não se encontra em estado de graça. Afinal, Dorô está na idade em que na mulher, o fulgor da juventude começa a se volatizar, como depurada fragrância exposta ao flagelo da ventania.

Ela tem que aproveitar o dia, a tarde, a noite e a madrugada, enfim, gozar o carpe diem aprendido nos carmes* que o pastor Dirceu lhe dedicara. Todavia, tal como de Nefertiti, dela arriscaria dizer que o mito a dotara de todas as virtudes. Mesmo a de se ter resguardado dos ímpetos da lascívia, se tornando uma casta, fiel até à morte, em tributo e respeito ao primeiro amor. É dessas amenidades que se geram, nutrem, crescem e se agigantam as legendas, em especial as românticas.

Em plantão permanente, as línguas da fofoca não se cansam de cochichar que a senhorita soubera da publicação de Marília de Dirceu ao relançar o olhar para um livrinho, abandonado ao acaso, em cima do criado-mudo* da cama de Queiroga. Ao abri-lo, leu embevecida uma das liras que Tomás António lhe dedicara, em carta prenhe de emocionada afeição, nos tempos desditosos da prisão, onde continuou a tecer, com fios de seda, sua (Doro)teia de sedução…

Mal durmo, Marília, sonho
Que fero leão medonho
Te devora nos meus braços (…) (2)

Pelo visto, o reinol Queiroga não é somente o proprietário dos melhores cavalos da vila. Aparenta também cultivar estimáveis hábitos de leitura, isto se não passar de um mero acumulador de livros, para emoldurar estantes e impressionar as visitas num alarde de postiça erudição.

Nos poemas do desafeto, o sôfrego Roquério talvez procure aprimorar os requintes da conquista. Ancioso por arrebatar, de vez e para sempre, o coração da donzela, o “fero leão medonho” afina sua voz para melhor cantar a formosura de Marília, perscrutar seus “olhos belos”, beijar a “testa formosa”, afagar os “negros cabelos.”

Não foi, de certeza, por esquecimento que o pedante rendeiro ocultou a Doroteia a aquisição de um exemplar do livro. Piorando o quadro, foi devido a uma distração sua que a desejada soube do regresso a Vila Rica das arcádicas e pré-românticas liras. O deslize por pouco não comprometeu seus planos. A moça ficou mais que despeitada. Quase revoltada, não apreciou nada ser  (des)tratada como uma menina suscetível, afeita a crises de volubilidade juvenil.

O que em definitivo a desiludiu foram os receios e a insegurança de Queiroga, como se a visão das pastorais de Dirceu, em letra de impressão, nela reavivasse as recordações do malogrado romance com o desgraçado ouvidor.

De súbito, uma forte pancada de vento sacode as janelas do quarto, arrancando Doroteia destes intrigantes pensamentos, trazendo-a de novo à soturna realidade. Abre por fim a boceta e depara com o anel de ouro e diamante, presente do agora degredado na longínqua Moçambique. Sua atenção se dirige, porém, para uma folha de papel, dobrada em quatro, onde Tomás escrevera um soneto dedicado a ”ilustríssima Condessa de Cavaleiros, D. Maria José de Essa e Bourbon.”(3)

A excelentíssima senhora era a venerada esposa de D. Rodrigo José de Menezes, governador e capitão-general das Minas Geraes, filho do famígero Marquês de Marialva. Encharcado de reverente louvação, o poema celebra a memória da mítica Inês de Castro, a cuja linhagem a condessa se ufanava de pertencer. O soneto(4) terá sido declamado num dos saraus que D. Rodrigo, inchado de prosápia, promovia no palácio. Foi a primeira vez que a então mocinha ouviu comentar os talentos poéticos do garboso ministro, vizinho do lado da tia Ana Cláudia, na Casa do Ouvidor.

Maria Doroteia julga convencer-se de que simplesmente obedecera a um impulso, quando resolveu vasculhar nas obscuras galerias do túnel do tempo, lembranças tão antigas de Dirceu. Não por acaso, durante a noite, ao se recolher, ela buscara encontrar o son(h)o, folheando Os Lusíadas. Ao passar pelo Canto III, sentiu-se de modo inelutável, atraída para a leitura do episódio de Dona Inês de Castro.

É no afã dessas rememorações, que um esbaforido Chiquinho a põe em desassossego, clamando que traz recado urgente do Sinhô Queiroga. Basta a Doroteia se inundar da clarividência de uma Sibila para se tornar sabedora do que Manuel lhe quer revelar com tanta presteza. Um saber em indiferença tornado. Lacrado, o sobrescrito lacrado continuará. Doroteia cerra, ríspida, as cortinas, inundando o quarto de uma recatante penumbra. Embora contrariada, se angustia ao escutar sua intuição garantir que tinha sido formal e oficialmente destronada no coração do trovador. Não tanto por outra mulher mas, o que é bem mais incômodo, por outra musa, virgem e intocada como se fosse uma sacerdotisa de Vesta.

Determinada, recusa cair no precipício de uma depressão sentimental. Afrouxa o cinto do penhoar, afasta, resoluta, as cortinas, abre a janela para confirmar se a névoa se tinha dissipado. O Pico do Itacolomi, imponente e soberano em dias de sol luminoso, envolve-se ainda num manto de nuvens grávidas de chuvisco. Apesar do cenário adequado, o Desejado não voltará nesse dia. Nunca mais voltará.

Lá fora, o ecoar rumorejante das águas de um riacho é abafado pela alegria da algazarra de uma turma de meninas. Sem se importarem com a cor da pele, a loura Anselma, a morena Joaquina, a mestiça Benedita e a negra Rosário pulam empolgadas numa maré* jogada em frente do Chafariz de Marília, à Ponte dos Suspiros.

Bom dia, D. Maria Doroteia! Como vai?, saúda Joaquina, voz maviosa de patativa, “as tranças pretas pousadas sobre os ombros infantis”. E Dorô corresponde com o claro enigma de um vibrante e sonoro alerta. Bom dia, Marília…. Não se esqueça querida, você tem encontro marcado com Dirceu!

(**Marília é o criptônimo arcádico de Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, noiva e musa de Tomás António Gonzaga, o poeta Dirceu, nascido em Miragaia, Porto (Portugal), a 11 de agosto de 1744.)

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Notas
1 - Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IX, estância 83
2- Tomás Gonzaga, Marília de Dirceu, 1ª parte, lira XXI
3 - Tomás Gonzaga, Marília de Dirceu, 3ª parte, soneto VI
4 - Atualmente, é convicção adquiria que o soneto foi escrito a duas mãos, com o camarada árcade  Cláudio Manuel da Costa, que não seria também nada “coxo”, no que tange à prática da poesia do encômio.

*Glossário

lubrina – neblina
penhoar – robe
reinol – habitante do Brasil colonial, nascido no reino de Portugal
mal-ajambrado – vestido sem elegância
sobrado – moradia de dois ou mais andares, típica do Brasil colonial
carmes-poemas
maré – jogo da macaca, amarelinha

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Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Tem uma licenciatura em História Universal da Infâmia pela FLUP. É jornalista nas horas (mal) pagas e autor literário nas horas com vagas.

Publicou os livros ‘Tomás Gonzaga-Em Busca da Musa Clio´’, ‘ Amor, Città Aperta’, ‘O Céu sobre Berlin’, ‘Excitações Klimtorianas’, ‘O Apojo das Ninfas’, ‘Oito e demy’, ‘Fernando de Barros-O Português do Cinemoda’ e ‘Os Homens da Minha Vida’.

MULHERES NAS RUAS DO PORTO IX- por César Santos Silva

Beata D. Mafalda (Rua da)

 

Início – Senhora de Campanhã (Rua da)
Fim – Buçaco (Rua do)
Designação desde – 1965
Freguesia de: Campanhã

A Beata D. Mafalda nasceu em 1200, era filha de D.. Sancho e de D. Dulce de Aragão, o seu nome é uma homenagem à sua avó, D. Mafalda de Sabóia, filha de Amadeu III e mulher de D. Afonso Henriques.
A sua vida estava talhada, como muitas da sua condição, para ser moeda de troca das políticas régias.
O casamento das mulheres da corte ( filhas dos reis em exercício ), como parte da rede de intrincadas alianças políticas, mas sem elas terem voz activa na escolha do seu destino.
Fruto desta lógica, e tendo como pano de fundo a necessidade de ganhar apoios em Castela contra os Árabes, D.Mafalda é induzida a casar com Henrique I de Castela, que à época tinha onze anos. Continuar a ler “MULHERES NAS RUAS DO PORTO IX- por César Santos Silva”