JUNG E OS SERTÕES – I PARTE – por Marilene Caon

Chapada Diamantina – BA  – Fotografia de André Dib

ESTUDO INTERPRETATIVO DE “OS SERTÓES” DE EUCLIDES DA CUNHA SEGUNDO O REFERENCIAL TEÓRICO DO PSICANALISTA CARL GUSTAV JUNG

1ª PARTE

Dividido em três partes, a Terra, o Homem e a luta, o livro encerra uma estrutura dialética em que o “martírio secular da Terra” sobre aquele que é “antes de tudo um forte” pode ser lido assim: a Pátria martiriza o povo até o ponto emj que explode a luta.

Essa divisão interna é influência do historiador francês Taine, o qual formulou no seu livro de 1863, “Histoire de La Littérature Anglaise”, a concepção naturalista da história, teoria na qual são três os fatores determinantes: meio, raça e momento. É também desse mesmo historiador a citação que expõe a ideia de que o “narrador sincero” deveria ser capaz de se sentir como um bárbaro entre os bárbaros, um antigo entre os antigos, para ter tido a capacidade de escrever com tal realismo e emoção. Ou seja, ter tido a capacidade de vivenciar a experiência para poder reter em seu intelecto a forma.

“Reproduzamos, intactas, todas as impressões, verdadeiras ou ilusórias, que tivemos quando, de repente, acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta ao sertão, com aqueles desconhecidos singulares, que ali estão – abandonados – há séculos”.

Euclides colocou em seu ensaio o que lhe pareceu indispensável para a compreensão dos aspectos que narrava. A nada se furtou e nenhuma contribuição pareceu recusar para, então, combinar e dispor cada item a seu bel prazer, mas com eficiência.

A natureza compõe toda a primeira parte do livro “Os Sertões”, subdividido em cinco capítulos, nos quais são descritos a geologia, o relevo, o clima e a vegetação.

Constitui a base de apoio para o autor analisar e compreender a ação do meio na formação das etnias e sua influência na gênese das personagens típicas. Para o leitor seria o “momento” do teórico taine.

A geologia é descrita do geral para o partícula, indo do “planalto central” em direção ao sertão de Canudos.

Em “Como se faz um deserto”, o autor cita o homem assumindo “em todo o decorrer da história, o papel de um fazedor de desertos”, usando o fogo na promoção das coivaras.

Na segunda parte, o homem é o referencial. Entram em cena os jagunços, os sertanejos, o Conselheiro… Vestem-se de couro, protegendo-se dos espinhos da catinga. Talvez na vã tentativa de se resguardarem das agulhadas da vida. A maioria é vaqueiro. Sua cultura respeita antiquíssimas tradições.

O homem é crédulo e supersticioso, deixando-se influenciar por padres, pastores e falsos profetas. Torna-se um retirante, expulso pela seca cíclica, mas retorna sempre ao sertão, como se com ele tivesse uma ligação simbiótica.

Isolado há séculos no sertão, detido culturalmente, formou uma raça forte. O isolamento fortaleceu a espécie, mas foi também o fator determinante da estagnação cultural. Provocou o conservadorismo, a igualdade de pensar, de sentir de agir. O isolamento tornou aquele povo atrasado culturalmente, mas não degenerado.

Ao escrever sobre Canudos, Cunha apresenta as tradições, as danças, os desafios e a religião mestiça do povo do sertão. Descreve a gênese e a formação do brasileiro resultante dos cruzamentos entre o indígena, o negro e o português. Desta mistura resulta um tipo étnico especial e único para o Brasil.

A terceira parte é dedicada à luta. Os sertanejos são encurralados em Canudos, resistindo à superioridade de homens e armamentos, sob os tiros da matadeira (canhão) e a explosão de dinamites. O cerco do povoado completou-se com os jagunços, enfrentando a fome e a sede, debaixo de bombardeios e incêndios, enquanto os soldados matavam rezes e cavalos da região para se alimentarem. Canudos foi rendido em 5 de outubro de 1897.

“ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram, eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais surgiram raivosamente cinco mil soldados. […] No dia 6 acabaram de o destruir, desmanchando lhes as casas, 5.200 cuidadosamente contadas… […] Antes, ao amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antonio Conselheiro […] Desenterraram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa […]! Fotografaram-no depois […] Cortaram-lhe a cabeça… Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio […] Ali estavam […] as linhas essenciais do crime e da loucura […]”.

Em síntese, a razão da subdivisão do livro em três partes é a terra, estudada sob os seus aspectos, desde os científicos até os poéticos. Na terra, a descrição física do homem e seu comportamento. Finalmente, o conflito entre a terra e o homem.

Nos relatos do tipo de vida e dos costumes sertanejos é mostrado como esses homens simples vivem; como se relacionam com os animais e com a natureza local; o que é seu fanatismo religioso, o seu respeito à morte e a sua Psyché.

O conteúdo relatado permite a interpretação simbólica do “ser –tanejo” inserido no “ser-tão”. Por essa ótica, com base na teoria dos símbolos de Jung, é possível interpretar o “ser-tão” único da psique.

(continua)

 

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Marilene Cahon, brasileira, professora, escritora, poetisa, cidadã caxiense, autora dos quinze volumes que deram a Caxias do Sul o título de Capital Brasileira da Cultura em 2008. Membro da Academia Caxiense de Letras a qual presidiu no biênio 2012-2013, ocupando a cadeira de número 15.

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