OS RATOS – por Uili Bergammín Oz

Os jogadores de cartas, de Paul Cezanne

– Vou perder. – sussurrei comigo mesmo, enquanto observava dois enormes ratos desfilando sobre o balcão. – Vou perder tudo esta noite.

Seu Genaro tentava enxotar os pestilentos com um pedaço de pano, algo que já fora cobertor há muito tempo. Era em vão. Quando dava por si, lá estavam eles sobre a tábua imunda, repleta de copos e garrafas vazias, como se velassem a batalha que se travava. Sim, uma batalha era aquilo, não um simples carteado. Um combate psicológico e campal. Eram olhares oblíquos, estratégias ousadas, fumaça, a tensão dos generais ao decidirem se atacam o inimigo ou defendem o território conquistado. O silêncio era de estourar os tímpanos. E não só a mesa, mas todo o boteco era o campo de guerra. Uma guerra de nervos. O bairro temia aquele recinto. Todos sabiam da bomba-relógio que lá havia.

Somente uma pessoa parecia tranquila naquela noite: eu. Incrivelmente eu parecia estar em harmonia comigo mesmo. Logo eu, sempre tão aflito. Olhava para o chão esburacado. Olhava as mesas revestidas pela mesma crosta de sempre. As paredes carcomidas pelos cupins. Rostos caricatos, suando frio. O perfume dos hálitos de cachaça. E eu olhava, claro, os dois roedores sobre o balcão, que mais pareciam saídos de um período jurássico.

Em verdade, não sei se o que eu sentia era calma. Pensando bem, creio que estava mais para depressão. Nunca havia visto ratos como aqueles. Talvez fosse dos tragos, talvez o torpor do recinto, mas eles tinham olhos vermelhos. Dentes maiores do que o normal, como lâminas. Pelos eriçados, pontiagudos… como os meus pensamentos.

“Minha esposa está me traindo. Eu sabia. Imagina! Uma mulher como ela, se contentar comigo? Eu previ isso desde o primeiro instante.”

As apostas corriam por aquelas trincheiras. Tião, que fazia dupla comigo, estava nervoso com meu estilo suicida de jogar. As derrotas sucediam-se. Seu Genaro, a esta altura, desistira de enxotar os roedores. Apenas assistia ao massacre. Eles, os ratos, agitavam-se, como se aguardassem, impacientes, nossa derrocada final.

Então percebi algo ainda mais estranho. Em certos momentos, do fundo dos meus devaneios, era como se as bestas me induzissem à próxima jogada. Sim, parece loucura, mas era como se indicassem, através de ganidos e movimentos que só eu entendia, a próxima carta que eu deveria jogar. Tirei do baralho um ás de ouro e lembrei das finanças.

“Sempre soube que não era bom nos negócios. Porque fui teimoso em trabalhar por conta? Algo me dizia que não daria certo. Meu sexto-sentido – se é que homem possui – dizia que eu fracassaria. Afundei. Eu sabia, eu sabia.”

Ao final da noite, madrugada já, eu e meu companheiro estávamos arruinados. Fomos dizimados pelo inimigo, sem dó nem piedade. E as dívidas eram altas. Tanto que para sair do boteco, tive que deixar minhas roupas como pagamento. Fiquei nu, de sunga apenas, em uma noite de agosto em que os termômetros marcavam zero grau.

Humilhado, com o corpo ainda quente pelo álcool, busquei com os olhos os malditos ratos, mas não encontrei. Evaporaram, como a minha dignidade, como tudo o que me pertencia.  Então, uma paz desgraçada pousou sobre minha cabeça, a mesma de quem não tem mais nada a perder. O sarro dos adversários não me incomodava. Nem o gelo da madrugada me fez pedir clemência. Ninguém se apiedou de mim. Ninguém, a não ser Genaro, que após refletir um pouco ofereceu o pano velho para cobrir meu corpo.

– Toma. – disse. – Te enrola pra não pegar uma pneumonia. Amanhã tu me devolve.

No caminho de casa, costurando pelas ruas, ia me perguntando se haveria ainda alguma tolice a cometer, algum bem do qual pudesse me desfazer. Ao dobrar a esquina, a resposta. Adivinhem quem encontro, nas bordas de um bueiro fétido: sim, eles, os dois monstros paleolíticos do bar. Estavam de tocaia, os olhos vermelhos faiscando na noite. Assustei-me, enfureci-me, procurei pau, procurei pedra, nada. Então, num acesso de revolta – ou seria pavor? – desenrolei de meu corpo velho o acabado cobertor e arremessei com ira sobre eles. Errei. Os animais, num giro debochado, aproximaram-se do pano, agarraram-no com suas bocas macabras e partiram, deixando-me nu outra vez.

– Que diabos são vocês e de que inferno saíram? – gritei, começando a enrijecer de frio.

Os ratos estancaram e um deles voltou uns passos:

– Eu sou as cartas do baralho. O meu amigo, ali, é teus pensamentos. Saímos da tua mente e não queríamos te deixar nem mesmo este pano velho.

♦♦♦

Uili Bergammín Oz é escritor, poeta e palestrante gaúcho. Já escreveu mais de 20 obras, entre contos, crônicas, poemas, novelas, adaptações e traduções.  Colaborou para jornais e revistas da Serra Gaúcha, além de ter apresentado programas de TV, sempre falando sobre leitura. Atualmente é apresentador do programa LiteraCura, canal do YouTube que estreou em janeiro de 2018. Seus textos já foram adaptados para o cinema, teatro, música, artes visuais, espetáculos de dança, corais e outros suportes artísticos. 

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