ASSIM FALOU O POETA MALDITO – por Ester Fridman

 

Se Nietzsche já é um filósofo controverso, interpretado de forma tão completamente diferente por cada leitor, seu livro Assim Falou Zaratustra é, sem dúvida, o mais controverso de toda a sua obra. Seria um dos motivos de tamanha controvérsia a linguagem tão peculiar e não familiar na qual foi escrito? Uma leitura atenta à obra de Nietzsche como um todo nos revela um autor cujo procedimento de pensamento é diferente do procedimento de pensamento do homem ocidental em geral. Mas, se seu modo de pensar não é ocidental, tampouco o é puramente oriental. O que o diferencia é que ele não está preso às amarras do gregarismo, e nem à metafísica da linguagem. Ele diz que “…entramos em um grosseiro fetichismo, quando trazemos à consciência as pressuposições fundamentais da metafísica da linguagem, ou, dito em alemão, da razão. Esse vê por toda parte agente e ato: esse acredita em vontade como causa em geral; esse acredita no ‘eu’, no eu como ser, no eu como substância, e projeta a crença na substância-eu sobre todas as coisas (…)E nas Índias como na Grécia se fez o igual equívoco: ‘É preciso que já alguma vez tenhamos habitado um mundo superior (…), é preciso que tenhamos sido divinos, pois temos a razão!’(…) A ‘razão’ na linguagem: oh, que velha, enganadora personagem feminina! Temo que não nos desvencilharemos de Deus, porque ainda acreditamos na gramática…”1

De qualquer forma, a meu ver, o procedimento do pensar nietzscheano tende mais para o modo de pensar oriental do que para o ocidental. Para o oriental, por exemplo, nada impede que uma coisa seja e não seja ao mesmo tempo. Para nós, ocidentais, ou uma coisa é, ou não é. Ou algo é verdadeiro, ou é falso. Nosso pensamento não admite que algo seja verdadeiro e falso ao mesmo tempo. O pensamento oriental admite. O pensamento simbólico também admite. Assim, levantei a hipótese de que este filósofo poeta escreveu Assim Falou Zaratustra em linguagem simbólica. Mas, por que Nietzsche faria uso de uma linguagem simbólica, e não da linguagem conceitual, para escrever um livro? Melhor deixar que ele mesmo responda:

Os conceitos filosóficos individuais (…) crescem em relação e em parentesco um com o outro; (…) não deixam de pertencer a um sistema (…) – tudo isto se confirma também pelo fato de os mais diversos filósofos preencherem repetidamente um certo esquema básico de filosofias possíveis. (…) embora se sintam independentes uns dos outros com sua vontade crítica ou sistemática, algo neles os conduz, alguma coisa os impele numa ordem definida, um após o outro – precisamente aquela inata e sistemática afinidade entre os conceitos. (…) O curioso ar de família de todo o filosofar indiano, grego e alemão tem uma explicação simples. Onde há parentesco linguístico é inevitável que, graças à comum filosofia da gramática – quero dizer, graças ao domínio e direção inconsciente das mesmas funções gramaticais -, tudo esteja predisposto para uma evolução e uma sequência similares dos sistemas filosóficos: do mesmo modo que o caminho parece interditado a certas possibilidades outras de interpretação do mundo. (…) O encanto exercido por determinadas funções gramaticais é, em última instância, o encanto de condições raciais e juízos de valor fisiológicos2

Sobre isso, Kossovitch fez o seguinte comentário:

As funções gramaticais definem de uma vez por todas as possibilidades de exercício do pensamento, que não passa de uma combinatória de categorias gramaticais. (…) A linguagem da filosofia está centrada na da comunicação. Como esta, ela está a serviço da conservação. (…) As afinidades que a ligam à linguagem gregária podem ser resumidas na sua utilidade para a espécie. Pensar é, neste plano, produzir esquemas em vista da conservação. É a linguagem que assinala a cumplicidade da filosofia e da conservação. Ela marca os limites dentro dos quais esta pode se exercer, mas, além disso, ela amarra-a às pulsões gregárias. 3

Assim, a linguagem simbólica pode ter sido a forma que Nietzsche encontrou de escapar ao aprisionamento da gramática, de superar a pressão da linguagem, sair do círculo percorrido pelos filósofos e não ficar somente na intelectualidade – não ser apenas mais uma repetição. Zaratustra não quer conservar – ele veio para transformar, para inovar. E se, como diz Kossovitch, “as funções gramaticais definem de uma vez por todas as possibilidades de exercício do pensamento”, Nietzsche, através de Zaratustra, buscaria possibilidades outras de pensamento, que não se deixam definir pelas funções gramaticais. O texto em Zaratustra, sim, se desdobra obedecendo à gramática. Entretanto, a linguagem simbólica aqui, apesar de ser transmitida através de palavras, que por sua vez estão inseridas nas frases, e seguem as regras gramaticais, por não fazer parte do universo conceitual, talvez esteja, de alguma forma, livre das armadilhas da gramática. É uma hipótese. Além disso, tal linguagem poderia ser uma forma de seleção de leitores: um livro para espíritos não-gregários, uma vez que não foi escrito em uma linguagem gregária. Daí o subtítulo: “Um livro para todos e para ninguém”.

Acho provável que Nietzsche, ao estabelecer um contato íntimo com textos antigos, na condição de filólogo, tenha absorvido vestígios desse procedimento de pensar anterior ao procedimento conceitual, anterior ao pensamento racional socrático. O pensamento antigo, mais próximo do pensamento simbólico, pensa o mundo como algo onde tudo está ligado, vê o mundo na sua totalidade. No período em que viveu Sócrates, e naquela região onde viveu, de onde herdamos nossa cultura, houve uma mudança significativa. A visão de totalidade começa a sair do cenário para dar lugar a uma visão de mundo fragmentada. Além disso, o homem começa a se perceber como indivíduo responsável por seus atos. Antes eram os deuses os responsáveis por tudo o que acontecia. Agora, se um homem comete um crime, não é mais a ação de um deus, mas dele como indivíduo. Tudo começa a ser visto não mais junto, mas dividido, separado. É assim que opera a linguagem conceitual. Sujeito e objeto não são um, como era na linguagem simbólica, mas dois. Agora falamos e pensamos o mundo dividido em partes, logo, o mundo é feito de partes; logo, precisamos de especializações.

Depois de tanto tempo vivendo como ângulos, Nietzsche parece querer trazer de volta a vida como “summa summarum4, como totalidade, resgatando assim, de certo modo, e diferencialmente, o estado dionisíaco. Para ele, a maior de todas as crenças possíveis é a crença “de que apenas o que está isolado é censurável, de que tudo se redime e se afirma no todo”. Ele batizou essa crença com o nome de Dionísio.5

Assim, para transmitir uma mensagem redentora do mundo, não fragmentada, para transmitir uma mensagem veraz, que fala diretamente ao coração, como os ditirambos dionisíacos, como Cristo, o grande simbolista – assim o denomina Nietzsche no Anticristo; para transmitir não o que é consciente, pois para Nietzsche o que é consciente é raso, ralo, estúpido, mas sim o que não se tornou consciente, Zaratustra falou simbolicamente, pois os símbolos falam o indizível.

“Prestai atenção, meus irmãos, a todas as horas que vosso espírito quer falar por símbolos: ali está a origem de vossa virtude.”6

A meu ver, o Zaratustra, sendo uma paródia da Bíblia, foi escrito na mesma linguagem que esta, ou seja, simbólica, da mesma forma que muitas escrituras sagradas. Assim, a despeito de vários intérpretes de Nietzsche o considerarem ateu e materialista, eu o considero exatamente o oposto. Não cabe aqui uma exposição das inúmeras concepções de Deus existentes, ou da diferença entre religião e espiritualidade, uma vez que esse texto limita-se ao estudo da linguagem. Por toda a minha vida me fiz a seguinte pergunta: por que não escreveram esses livros sagrados de forma objetiva, com a nossa linguagem? Por que temos que ficar decifrando o que quiseram dizer? Agora eu posso responder. A linguagem que chamei de objetiva, a linguagem conceitual, não fala ao coração, só à razão. De acordo com Nietzsche, foi desenvolvida junto com a consciência, e só remete ao que é raso, ralo, superficial. Tudo o que aprendemos com ela, não incorporamos, porque ela só fala à pequena razão, não à grande razão.7 E quando não incorporamos o que aprendemos, aquilo fica só na superfície. Por outro lado, quando é a linguagem simbólica que nos fala, podemos não ter um entendimento racional, podemos não tirar nenhum saber, mas aquilo que ouvimos entra no coração, é compreendido pela grande razão.

Penso que, ao adotar o estilo simbólico, Nietzsche está criticando a exclusividade da linguagem conceitual na Filosofia, a exclusividade da razão socrática, o Cristianismo, mas, acima de tudo, está acessando aquela parte do pensamento que, de acordo com ele, não se torna consciente. Assim, ele não está trabalhando com o que é da natureza de comunidade e de rebanho, com o que é superficial, signo, vulgarizado, generalizado. E, especificamente no Zaratustra, através de um jogo de oposições, ele traz uma mensagem redentora do mundo e da vida em sua totalidade. A linguagem simbólica revela essa totalidade que Zaratustra quer transmitir. A totalidade não é passível de ser transmitida por palavras, ou seja, por signos de comunicação, porque estes, por sua natureza, lidam com um mundo dividido, fragmentado. Ao adotar o estilo simbólico, Nietzsche resgata o saber instintivo, inconsciente, que foi subjugado por Sócrates e pelo socratismo. Para Nietzsche, a razão é sim, importante, mas não se pode continuar negando a existência e importância também dos instintos, que, aliás, para ele, guiam secretamente o pensamento consciente de um filósofo.

1 F. NIETZSCHE, Crepúsculo dos Ídolos, “A ‘razão’ na filosofia”, § 5, trad. de Rubens R.T.Filho.
 2 Idem, Além do bem e do mal, cap. I, § 20, trad. de Paulo C. de Souza. A expressão aqui traduzida por “condições raciais”, no original está como: “Rasse-Bedingungen”, que pode também ser traduzida por “particularidades raciais”.
 3 Leon KOSSOVITCH, Signos e Poderes em Nietzsche, p.80-82.
 4 F. NIETZSCHE, Ecce Homo, Por que sou tão sábio, § 2.
 5 Idem, Crepúsculo dos Ídolos, “Incursões de um extemporâneo”, § 49, trad. de Paulo César de Souza.
 6 Idem, Así Habló Zaratustra, 1ª parte, “De la virtud que hace regalos”, §1, trad. do espanhol para o português de minha autoria.
 7 Nietzsche chama aquilo que conhecemos por razão de “a pequena razão”, e o corpo de “a grande razão”.

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Ester Fridman (Brasil, 1963)
Filósofa e escritora, pesquisadora da linguagem simbólica, seu tema de mestrado foi A Linguagem Simbólica no Zaratustra de Nietzsche. Estudiosa também das filosofias da Índia, escreveu Kriya-Yoga e a Filosofia dos Kleshas no Yoga Sutra de Patanjali.
Contato: ester8fri@gmail.com

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