A ESTÉTICA DO CANIVETE SUÍÇO por Ana Almeida Santos

Não me julgues por este coração sedimentado

Nem pelo silêncio que me assiste

(não é por falta de palavras que

se possam entender com as tuas)

 

Nego-me é a perder vocábulos pelo caminho

A semear afectos ao acaso num mal menor

Quando em sossego tudo me parece mais leve

Mais viável mais transparente

 

Gostaria que tudo o que vem contrariado

Não me fosse pertença

Nem fragilidade

(difícil é pedir perdão a quem condeno

e pulsar no pecado maior de ser mortal)

 

Ceifo um tempo que só a mim pertence

Permite-me então que a minha madrugada comece

Onde acaba a tua noite

(o culminar de todos os rumores)

 

Se essa hora for a pedra primordial

No engaste deste amor

Debrucemo-nos então

Erigindo outro som maior

Que suceda como alvorada

Pelos meus lábios junto aos teus

Foto de Ana Almeida Santos

Há livros que nos devoram. Gostaria muito de ter um livro na mesa-de-cabeceira, no entanto, os ritmos não permitem e o livro passeia-se debaixo do braço, na carteira, na pasta, onde aprouver. Lê-se como se pode. À espera do autocarro, no autocarro, à hora do almoço…hoje, de tão distraída, passei a paragem que me deixa defronte ao trabalho. Nem a voz metálica que soa normalmente mal e incomodativa me alertou. Estava absorta, a ler Afonso Cruz, falava das árvores. Das quão perigosas as pessoas tornaram as árvores. Sim. Trocaram as alegrias por alergias e construíram muros em redor das árvores, das quais admiro desde os vestidos da estação aos ramos que dançam ao vento e neles meus eternos baloiços.

“Acabem com a natureza que isto é que nos faz mal ” (diz Afonso)

acordo… se um fiscal me apanhasse fora de zona 180 euros sair-me-iam do bolso porque viajava no livro. Abra-me a porta por favor. Saio a correr. E lá vou eu a subir a avenida que recordo cheia de árvores ao longo do que um dia foram trilhos de eléctrico. Vejo uma avenida despida, sem estação, com prédios plantados no lugar onde deveriam cantar pássaros e existir sombras que rasgassem o chão. Lembro-me da Beatriz e do plátano de Losa. A maioria das pessoas não gosta de choupos. Este ano a estação ainda não permitiu o manto de algodão… não me preocupa mais dos que os corantes, o fumo dos automóveis, os EEs e similares. Preocupa-me sim, que esta forma de imortalidade deixe de existir, como se deixaram de árvores esta avenida despida. Moro perto do Palácio. Cinco árvores centenárias foram cortadas no passeio que o ladeia. Entristeço-me ao ver que centenas de paralelos foram plantados no seu lugar. É isto que me faz sentir mais pobre… Hoje, os passarinhos banham-se nas pequenas poças de água. Sobre eles pende o reflexo dos galhos contorcidos do seu altar. Eis que entendo a fragilidade e transparência do papel vegetal que tudo isto é. E lá estão elas, as árvores, de pé. Gostaria muito que pudessem levantar a casca como um saiote, se desenraizassem e corressem, com seus braços imensos abertos e seus mantos esvoaçantes e incontidos.

Foto de Ana Almeida Santos

Não. Os sapatos não dormem juntos debaixo da cama, nem o xaile da severa dá sinal de uma janela escondida. Olha, não vês um céu acima disto tudo? Traz um tapete de folhas para dormir e os melhores sapatos para descalçar (só será castelo porque aqui entramos). E depois da dança e do rodopio o que restará serão abraços nos braços (e nuvem, porque aqui flutuamos). Aconchega-te, antes que o sonho em abóbora se transforme…

Foto de Ana Almeida Santos

Tom….quando era grande, eu e a minha irmã tivemos um pato cada uma. Uma vez, o gato Ringo, que era um gato preto com predilecção por deitar abaixo a árvore de natal, atacou o meu patinho, que ficou com o pescoço rasgado e torcido.

O meu pai coseu-o. A sério. E ficou igual ao outro. Bem, não era bem igual. O outro era pata. Face ao meu berreiro, fez o que parecia impossível… (ainda o estou a ver a coser o meu patinho amarelo, com linha preta). O pato ficou como novo. Viveu ainda uns 5 anos. O curioso, é que nunca guardei rancor ao Ringo. Entendi-o porque sabia que os gatos gostavam de passarinhos e o meu pato era uma espécie de passarinho e eu é que deveria ter ficado a tomar conta dos patinhos enquanto se banhavam numa pequena bacia verde…

Teria uns 7 anitos -:) berrei, claro. Não sei se por raiva se por sentimento de culpa. E o que fazia uma miúda da minha idade? Ia ao pai para consertar o animal.

Depois tornamo-nos pequeninos e emburrecemos… como seria de esperar -:)

Tom, ainda nos patos… na primária, uma rapariga pôs fora meio pão com marmelada. Repreendi-a. Disse que não se devia por comida fora. Peguei no pão, meti-o na minha latinha de cromos e disse que o levava para dar aos patos. Ela e a amiga disseram que era mentira, que eu ia levar o pão para comer. Não respondi nada, ignorei-as. Acho que foi o primeiro contacto com uma realidade que a vida me trouxe mais vezes – o que os outros pensam de nós, é problema deles. Em miúda, era do piorio. Salvava-me o ser boa aluna…não obstante dizerem que era pior que todos os meus irmãos juntos. Acho que exageravam. Um deles quis cortar a pilinha ao outro porque mijava na cama 😀 ora aí está algo que nunca fiz); e esse mesmo, que tinha a mania da poda, quando era catraio e o sentavam no pote, limpava o rabo aos dedos e depois passava-o nas paredes (ora aí está algo que nunca fiz). Eu só era pior porque subia à ameixoeira, como eles. Subia às caleiras, como eles. Tapava tudo com faltas, como eles. Roubava tabaco ao meu pai, como eles, e pior, fumava como eles. Passava-os numa coisa sim… conseguia calcular a velocidade com que tinha de largar a caleira e segurar as saias para que não me vissem a cor das cuecas aquando do impacto no chão. Pumba. Aí sim. Era pior por ser melhor que eles.
Ó Tom… há coisas na vida que nos transcendem. É certo que não borrei as paredes com os dedos, nem rasguei o pescoço ao pato. Mas às vezes, apetece-me levar meia dúzia de coisas, aquelas, para o meu pai consertar…

Foto de Ana Almeida Santos

Veste roupagens ao capricho da inspiração, cabide real do imaginário

– não importa o que veste nem como o despe. Resgatada ao manneken, não muito longe do articulador que lhe agarra o dorso, temperada mão, vira, sobe, desce num frémito desengonçado. Também ela o observa pelos olhos embutidos no polímero sintético da sua existência! Discreta, numa janela indiscreta, ciente do quanto está longe do coração o plano do mestre que lhe procura o caimento. o seu futuro não existe – palavra escorrida nas pedras do jardim de betão onde as bonecas se plantam.  e nenhum poema lhe amortece a queda nesta estranha simbiose. Nada sabe do beijo, do sono ou da nova colecção de tapetes de folhas do próximo outono/inverno – já a sua consciência plástica em pouco difere da nossa plástica consciência. Questiona-se sobre as pessoas e cala a certeza dos demais…somos uns nos outros!

Ana Almeida Santos

Ana Almeida Santos, natural do Porto, apaixonada por fotografia e pelas palavras

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