A CASA AMORIM DE CARVALHO. No 50.° ano da morte do poeta e do filόsofo I – por Júlio Amorim de Carvalho

[NOTA: publicado pela primeira vez na revista Nova Águia (n.° 37, 1.° semestre de 2026), este estudo é aqui apresentado com alterações no título, no texto e no aspecto gráfico]

Desviando-me dos habituais assuntos a que me tenho dedicado [i], abordarei aqui o caso duma entidade que, pelas prόprias características da sua fundação, do seu funcionamento e da sua organização interna, se apresenta como facto muito original, único, nesta faixa litorânia de Entre-Minho-e-Guadiana e suas adjacências: refiro-me à CASA AMORIM DE CARVALHO, sediada na cidade do Porto. O objectivo da presente exposição é o de levar melhor e mais vasta informação, a seu respeito, a uma elite, aos espíritos cultos e inteligentes, aos que se sentem naturalmente interessados pela temática que nestas linhas será desenvolvidamente tratada.

 

I. Enquanto imόvel, a casa provém de família originalmente estranha à de Amorim de Carvalho; fôra adquirida em 1920 pelo então ainda alferes Antόnio Rodrigues casado com Ilda dos Santos Dias, pais de Ester Rodrigues, única sobrevivente e herdeira na imediata descendência do casal Rodrigues-Dias. Órfã de pai desde 1938, residindo com a mãe na casa por ele comprada, a Ester conheceria Amorim de Carvalho em finais de 1940 e casar-se-ia com ele em dezembro de 1943. Foi durante esses três anos de namoro que Amorim veio a conhecer a residência da noiva que seria, quatro décadas mais tarde, a Casa que receberia o nome do intelectual. Mas, morrendo Amorim de Carvalho em abril de 1976, sobrevivendo-lhe a sogra e a esposa, pode-se considerar que ele nunca foi proprietário natural da referida casa [ii].

O prédio comporta três níveis: um subsolo sobre-elevado com largas janelas que dão, por um lado, para a rua e, pelo lado oposto, para o pátio; uma escada interior dá acesso ao rés-do-chão que se prolonga, para as traseiras, num alpendre envidraçado permitindo a passagem ao pátio que logo chama a atenção pelo antigo tanque de pedra inteira e pelo canteiro aproximadamente semi-circular plantado de belas essências florais, algumas exόticas; dado o alto pé direito do térreo, ascende-se por íngreme escada à galeria central do andar superior que comunica com outros compartimentos, com especial relevo para o oratόrio e o salão. O interior do imόvel apresenta-se-nos judiciosa e agradàvelmente mobilado, assim facilitando o bom ordenamento na exposição do seu recheio além de facultar espaços de habitação com suas comodidades. Construída em pedra, oferecendo-nos fachada em grande parte revestida dos simples azulejos geométricos a duas cores muito em voga no bairro portuense em que fôra edificada nos finais do século XIX, a casa dá para uma curta artéria da freguesia do Bonfim. A porta de entrada em madeira maciça trabalhada é sobrepujada por larga bandeira de artístico gradeamento em ferro; as janelas e as portadas interiores são daquele mesmo madeiramento, de excelente qualidade.

Posicionada na parte central dum estreito espaço rectangular delimitado pelas ruas originalmente denominadas da Firmeza, de São Jerόnimo (que sobe até ao Largo da Pόvoa e à igreja da antiquíssima confraria de São Crispim e São Crispiniano), do Monte Tadeu e da Companhia das Águas [iii], ‒ a casa situa-se muito prόximo da cidade baixa oitocentista.

O espaço urbano delimitado pelas citadas ruas era povoado, ainda nos meados do século XX, por uma burguesia média que residia em moradias de aspecto frequentemente comparável à que tenho vindo a descrever. Entre elas haviam-se fixado algumas pequenas lojas de comércio local e modestas oficinas artesanais. É, pois, lamentável que ao bárbaro processo de descaracterização toponímica, se  venha desde há pouco impondo outro mais agressivo, resultado da cumplicidade das últimas massificadas administrações municipais com os desalmados novos proprietários imobiliários, ‒ desse entendimento resultando a destruição acelerada das tradicionais moradias que vão sendo substituídas por prédios elevados, incaracterísticos, do pior gosto arquitectόnico e urbanístico, promovendo-se paralelamente a alteração social e étnica da população, nesta partícula do velho burgo nortenho, que ainda há poucos anos abrigava uma classe social com hábitos e tonalidades expressionais tão caracteristicamente portuenses. A pressão destruidora dos antigos prédios, toma actualmente tal intensidade que, a perdurar esse ritmo, a Casa Amorim de Carvalho será em breve o único vestígio do recente simpático passado desta zona citadina. Continuar a ler “A CASA AMORIM DE CARVALHO. No 50.° ano da morte do poeta e do filόsofo I – por Júlio Amorim de Carvalho”