
Há Em Mim Essa Asa
Não são penas, não é metal.
É memória de vento, é sopro de quem não desiste.
É o que se ergue quando o chão racha, quando a noite engole os passos, quando o mundo sussurra “desiste” e o coração responde: ainda não.
Há em mim essa asa —
não para fugir, mas para voar sobre o que dói.
Para carregar o peso dos dias como se fossem nuvens — pesadas, sim, mas que se dissolvem ao toque da luz.
Para olhar de cima o caos e, ainda assim, encontrar o mapa das estrelas dentro do medo.
Ela nasceu nos silêncios entre um grito e outro.
Nos instantes em que o corpo tremia, mas a alma teimava em não dobrar.
Nas madrugadas em que a dor era mais forte que o sono, e eu, mesmo assim, me levantei — porque amar é também resistir.
Porque amar é aprender a voar mesmo com asas molhadas de lágrimas.
Esta asa não foi dada. Foi forjada.
Em quedas que ensinaram o ar.
Em quedas que ensinaram o voo.
Em quedas que ensinaram que o céu não é destino — é escolha.
E cada batida, cada esforço, cada arranhão no vento, é um verso escrito com o sangue da tenacidade.
Ela sabe o peso do amor — não o amor fácil, de flores e abraços, mas o amor que se curva, que se rasga, que se recompõe.
O amor que segura a mão na tempestade, que acende o fogo no inverno, que diz “vamos” mesmo quando o caminho desaparece.
Há em mim essa asa —
ela não me leva apenas aos céus.
Leva-me ao centro de mim mesmo.
À verdade crua, à beleza ferida, ao conhecimento que nasce da dor e se transforma em luz.
Leva-me a entender que elevar-se não é escapar da terra, mas honrar sua gravidade — e ainda assim, dançar com o vento.
Então, quando o horizonte se fechar,
quando as nuvens se tornarem muros,
eu estenderei esta asa —
não por orgulho, mas por promessa.
Porque há em mim esta asa…
e ela é o meu sim.
O meu sempre.
O meu amor que não morre — que voa.
E o avião descola.
Mas eu já voava sem asa. Continuar a ler “BREVÍSSIMA ANTOLOGIA POÉTICA DA CARTOGRAFIA DA PRESENÇA – por José Paulo Santos”


O seu pequeno livro Sociedade do Cansaço — que recomendo com urgência a quem sente o peso invisível do “ter de ser sempre mais” — é um diagnóstico cirúrgico da nossa exaustão psíquica: vivemos não sob o jugo do outro, mas sob a tirania de nós mesmos. Ao fechar o livro e ao terminar o vídeo, olhei à volta: nas ruas, nas filas do supermercado, nas videochamadas, nos próprios olhos dos que amo — vejo rostos esvaziados. Não tristes, nem sequer deprimidos, mas cansados: apáticos, crispados, nervosos, por vezes furiosos, como se a raiva fosse o último sopro antes do colapso. É nesse cenário de fadiga existencial que a sabedoria antiga — tão contracorrente como necessária — nos chama de volta a dois estados aparentemente passivos, mas profundamente revolucionários: a lassidão e a mansuetude.

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