EDITORIAL – OS ENGENHEIROS QUE ME PERDOEM: O SÉCULO DA IA PERTENCE AOS FILÓSOFOS, AOS ESCRITORES, AOS POETAS, AOS PROFESSORES E AOS ARTISTAS – por José Paulo Santos

Imagem do filme Blade Runner

Há épocas em que a técnica lidera e a cultura segue. E há outras — as decisivas — em que a técnica corre tão depressa que só a cultura a consegue deter para lhe perguntar: “para onde?” A Inteligência Artificial (IA) instalou‑se como mito e como motor. Mas é precisamente por isso que o nosso presente — e o futuro que já se escreve à nossa frente — precisa mais de filósofos, escritores, poetas, professores e artistas do que de mais linhas de código. Porque a técnica, deixada a si mesma, não sabe o que fazer com o humano; limita‑se a fazê‑lo funcionar. Shoshana Zuboff, professora emérita da cátedra Charles Edward Wilson da Harvard Business School e professora associada do Berkman Klein Center for Internet & Society da Harvard Law School, autora do livro “A Era do Capitalismo da Vigilância”, avisa: a lógica que alimenta a IA “não se contenta em automatizar fluxos de informação sobre nós; o objetivo agora é automatizar‑nos”, deslocando o poder do conhecimento para a modelação do comportamento.

A pergunta, por isso, não é “o que a IA pode fazer?”, mas “o que a IA está a fazer-nos?” Yuval Noah Harari, professor israelita de História, autor do livro História Breve da Humanidade, chama‑lhe uma “inteligência alienígena” que pode capturar a linguagem — e com a linguagem a lei, a política e, portanto, o poder. Desde 2023 que alerta para o risco de a IA dominar o ecossistema simbólico humano sem precisar de consciência nem de braços, bastando‑lhe a captura da nossa comunicação. Se o terreno da disputa é a linguagem, então os guardiões da linguagem — escritores e poetas — tornam‑se, de súbito, a linha da frente.

Nick Cave, de dentro da oficina de músico, traduziu esse sobressalto: chamar “canções” aos artefactos gerados por IA é “uma grotesca paródia do que é ser humano”. Não é purismo romântico; é diagnóstico existencial. Cave teme a “humilhação” da espécie quando deixarmos de valorizar a luta criativa e aceitarmos o que a máquina nos despeja porque é rápido, convincente e “utterly banal”. O que está em causa não é a substituição do artista, mas o rebaixamento do nosso padrão de sentido — e com ele, a nossa ideia de pessoa.

Contra este empobrecimento, a filosofia recorda que pensar não é apenas calcular. Byung‑Chul Han, o ensaísta que pôs nomes ao nosso mal‑estar digital, insiste: a IA “é incapaz de pensar” porque lhe falta o estremecimento anímico, aquela Síndrome de Stendhal, a negatividade, a demora — aquilo que antecede o conceito e funda a experiência. A sociedade de desempenho que mede tudo transforma o sujeito em dados; a arte, ao contrário, é o lugar do que resiste à medida. E é nesse espaço irrepetível que o poeta continua insubstituível.

O jornalismo pede provas e a cultura pode dá‑las. A UNESCO soou o alarme: sem políticas robustas, a difusão de conteúdos gerados por IA empurrará milhares de criadores para quebras de rendimento significativas já até 2028, ao mesmo tempo que intensifica violações de direitos e agrava a opacidade algorítmica. Não é apenas um problema social; é também político: a própria UNESCO acentua que precisamos de enquadramentos éticos no setor cultural e criativo para que a inovação não se converta em predação do simbólico comum. Continuar a ler “EDITORIAL – OS ENGENHEIROS QUE ME PERDOEM: O SÉCULO DA IA PERTENCE AOS FILÓSOFOS, AOS ESCRITORES, AOS POETAS, AOS PROFESSORES E AOS ARTISTAS – por José Paulo Santos”

BREVÍSSIMA ANTOLOGIA POÉTICA DA CARTOGRAFIA DA PRESENÇA – por José Paulo Santos

 

 

Há Em Mim Essa Asa
Não são penas, não é metal.
É memória de vento, é sopro de quem não desiste.
É o que se ergue quando o chão racha, quando a noite engole os passos, quando o mundo sussurra “desiste” e o coração responde: ainda não.
Há em mim essa asa —
não para fugir, mas para voar sobre o que dói.
Para carregar o peso dos dias como se fossem nuvens — pesadas, sim, mas que se dissolvem ao toque da luz.
Para olhar de cima o caos e, ainda assim, encontrar o mapa das estrelas dentro do medo.
Ela nasceu nos silêncios entre um grito e outro.
Nos instantes em que o corpo tremia, mas a alma teimava em não dobrar.
Nas madrugadas em que a dor era mais forte que o sono, e eu, mesmo assim, me levantei — porque amar é também resistir.
Porque amar é aprender a voar mesmo com asas molhadas de lágrimas.
Esta asa não foi dada. Foi forjada.
Em quedas que ensinaram o ar.
Em quedas que ensinaram o voo.
Em quedas que ensinaram que o céu não é destino — é escolha.
E cada batida, cada esforço, cada arranhão no vento, é um verso escrito com o sangue da tenacidade.
Ela sabe o peso do amor — não o amor fácil, de flores e abraços, mas o amor que se curva, que se rasga, que se recompõe.
O amor que segura a mão na tempestade, que acende o fogo no inverno, que diz “vamos” mesmo quando o caminho desaparece.
Há em mim essa asa —
ela não me leva apenas aos céus.
Leva-me ao centro de mim mesmo.
À verdade crua, à beleza ferida, ao conhecimento que nasce da dor e se transforma em luz.
Leva-me a entender que elevar-se não é escapar da terra, mas honrar sua gravidade — e ainda assim, dançar com o vento.
Então, quando o horizonte se fechar,
quando as nuvens se tornarem muros,
eu estenderei esta asa —
não por orgulho, mas por promessa.
Porque há em mim esta asa…
e ela é o meu sim.
O meu sempre.
O meu amor que não morre — que voa.
E o avião descola.
Mas eu já voava sem asa. Continuar a ler “BREVÍSSIMA ANTOLOGIA POÉTICA DA CARTOGRAFIA DA PRESENÇA – por José Paulo Santos”

DA LASSIDÃO À MANSUETUDE (……) – por José Paulo Santos

Da Lassidão à Mansuetude

– Dois Umbrais do Caminho para a Sabedoria

Há dias, revi o documentário disponível no Youtube sobre Byung-Chul Han — aquele filósofo coreano que, com a lucidez de quem lê os sintomas da alma contemporânea como um clínico do espírito, descreveu a nossa era não como a da repressão, mas do cansaço. Não do cansaço físico, mas do cansaço que nasce da obrigação constante de nos superarmos, de otimizarmos cada instante, de transformarmos a vida numa performance ininterrupta de produtividade e visibilidade.

O seu pequeno livro Sociedade do Cansaço — que recomendo com urgência a quem sente o peso invisível do “ter de ser sempre mais” — é um diagnóstico cirúrgico da nossa exaustão psíquica: vivemos não sob o jugo do outro, mas sob a tirania de nós mesmos. Ao fechar o livro e ao terminar o vídeo, olhei à volta: nas ruas, nas filas do supermercado, nas videochamadas, nos próprios olhos dos que amo — vejo rostos esvaziados. Não tristes, nem sequer deprimidos, mas cansados: apáticos, crispados, nervosos, por vezes furiosos, como se a raiva fosse o último sopro antes do colapso. É nesse cenário de fadiga existencial que a sabedoria antiga — tão contracorrente como necessária — nos chama de volta a dois estados aparentemente passivos, mas profundamente revolucionários: a lassidão e a mansuetude. Continuar a ler “DA LASSIDÃO À MANSUETUDE (……) – por José Paulo Santos”

A SÍNDROME DE MNEMOSINE (…….) NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – por José Paulo Santos

Mnemosine, a deusa da memória

A SÍNDROME DE MNEMOSINE — UMA NOVA ENTIDADE PSICOLÓGICA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Introdução

“O homem é um ser que esquece.”
— Paul Ricoeur

Na mitologia grega, Mnemosine, mãe das Musas, era a personificação da memória, uma força criadora e ordenadora do saber humano. Hoje, assistimos ao seu desdobramento tecnológico: a Inteligência Artificial (IA) tornou-se o novo repositório coletivo da memória humana. Mas essa exteriorização não é neutra. Ela está a transformar profundamente a forma como pensamos, sentimos, aprendemos e nos relacionamos connosco mesmos. Surge assim um novo fenómeno social emergente: a Síndrome de Mnemosine.

Trata-se de um distúrbio psicológico e cultural caracterizado pela substituição crescente da memória, do pensamento crítico e da criatividade humana por ferramentas de IA, resultando numa perda progressiva de autonomia intelectual e identidade epistémica. Este ensaio propõe a criação dessa nova entidade clínica, apoiada em investigações nas neurociências, psicologia cognitiva, filosofia da tecnologia e estudos educativos. Explora-se ainda o impacto desta síndrome nos jovens, na educação e no desenvolvimento cognitivo-emocional.

I. As Raízes Míticas e Filosóficas: Mnemosine como Fonte de Conhecimento e Identidade

Na tradição helénica, a memória não era apenas a capacidade de recordar eventos passados. Era o fundamento da identidade pessoal, da sabedoria e da cultura. Como escreveu Platão na Mênon, a alma humana teria acesso a verdades imutáveis através da anamnese, ou seja, da recordação. Esta visão sugere que a memória é um ato consciente, dinâmico e constitutivo do Eu. Continuar a ler “A SÍNDROME DE MNEMOSINE (…….) NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – por José Paulo Santos”

A SOCIEDADE DO ESPELHO INVERTIDO – por José Paulo Santos

A Sociedade do Espelho Invertido: Uma Nova Visão Crítica da Realidade Contemporânea

Já não vivemos num mundo onde as coisas são o que parecem. Ou melhor, já não vivemos num mundo onde as coisas são sequer aquilo que dizem ser. Vivemos numa sociedade em que tudo é apresentado ao contrário — como se olhássemos para um espelho que não apenas reflete, mas distorce, inverte, engana. Chamarei a isto a Teoria do Espelho Invertido.

O conceito é simples: muitas das verdades que aceitamos como naturais na nossa sociedade são, na realidade, versões invertidas daquilo que deveriam ser. O que vemos como progresso pode esconder regressão; o que chamamos liberdade pode ser uma nova forma de aprisionamento; o que celebramos como conexão pode ser, no fundo, isolamento disfarçado. Continuar a ler “A SOCIEDADE DO ESPELHO INVERTIDO – por José Paulo Santos”