
BALADA HERÓICA DA LIBERDADE[i]
Por altas horas da noite é suspeito quem não há-de
já dormir… Anda a polícia de ronda pela cidade…
Fogem sombras, correm sombras, umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…
Por altas horas da noite pus-me a pensar: Que sentido
de existência pode haver em se ter ou não nascido?
Que sentido tem o vôo dos homens que à Lua vão,
para quem o vê apenas das grades duma prisão?
Que sentido tem o oiro a arder, ao sol, na seara,
para a noite sem manhã daquele que o semeara?
Ó liberdade do mundo, mas liberdade sem fome!
Ó mundo só inda em alma e por isso inda sem nome!
Por altas horas da noite eu pensei, pensei que um dia
pelo milagre de todos esse mundo se faria…
Nisto ouvi bater à porta, ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrava, e entrou para me dizer
que não pensasse! Este mundo era como Deus o fez…
Desta vez me perdoavam, sem perdoar outra vez.
Corriam, fugiam sombras… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…
Como faz medo pensar, fiz do pensamento um sonho.
Por altas horas da noite então a sonhar me ponho.
Pus-me a sonhar, a sonhar a mesma ideia querida:
tornar o mundo melhor para dar sentido à vida!
Por altas horas da noite ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrou, entrou para me prender.
Eu lhes disse que era um sonho. Olharam-me face a face.
Não sabiam o que fosse; disseram que eu não sonhasse,
porque o mundo tinha, sempre, de ser como Deus o fez…
Mais uma vez perdoaram, sem perdoar outra vez…
Sombras na noite fugiam… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…
Como faz medo sonhar, fiz do sonho uma canção.
Cantei-a numa voz alta, alta de revolução!
Não quero o mundo de Deus que fez o Bem com o Mal!
Que Deus se julgue a si próprio no Julgamento Final!
Eu quero o mundo do homem, mas que o homem, livre, o faça
universal como a luz e aberto como uma taça!
Eu não quero a cruz gamada nem o martelo com fouce:
porque este traz a polícia, e aquela a polícia trouxe.
Nem o martelo com fouce, nem a cruz gamada quero!
Quero o arco da aliança a cobrir o mundo inteiro!
Quero as suas sete cores, como bandeiras ao vento,
do amarelo das searas ao azul do pensamento!
Ó Sonho só inda em alma, e por isso inda sem nome,
de homens cidadãos do mundo, mundo livre mas sem fome!
Vamos dar um nome ao Sonho que na nossa alma vive:
a Liberdade no mundo, mundo sem fome mas livre!…
Por altas horas da noite, assim, assim cantei eu
a canção das sete cores, sete bandeiras no céu!
E a minha canção heróica, lívida, linda, suave,
saíu-me louca da boca e voou como uma ave!
Todos põem-se a cantá-la, aonde quer que ela fôr!
Essa canção do meu Sonho! Sonho do mundo melhor!
Já não há sombras que fogem, não há sombras que se escondem.
Mas homens que dão-se as mãos, corações que se respondem! Continuar a ler ““BAÚ DA POESIA”: DOIS POEMAS – de Amorim de Carvalho”



tifacetado que adquiriu um vasto saber e uma sólida cultura, obtendo o doutoramento em Filosofia na prestigiada Sorbonne com a tese De la connaissance en général à la connaissance esthétique, tendo Étienne Souriau (1892-1979) e Mikel Dufrénne (1910-1995), eminentes e prestigiados estetas que o século XX conheceu, estado no júri que lhe avaliou as provas.
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